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Exportações de carne bovina batem recorde e somam US$ 9,85 bilhões no semestre

Brasil embarcou 1,705 milhão de toneladas entre janeiro e junho, com avanço de 15,5% em volume; China respondeu por quase metade das vendas externas do setor

por Daniel Wicker
07/07/2026 às 21h50
em Agronegócio
Exportações De Carne Bovina Batem Recorde E Somam Us$ 9,85 Bilhões No Semestre - Gazeta Mercantil

As exportações brasileiras de carne bovina alcançaram US$ 9,85 bilhões no primeiro semestre de 2026, o maior valor já registrado pelo setor para o período. Entre janeiro e junho, o país embarcou 1,705 milhão de toneladas, volume 15,5% superior ao apurado nos seis primeiros meses de 2025.

O resultado confirma a força da proteína bovina brasileira no comércio internacional, mas também expõe a concentração das vendas em poucos mercados. A China continuou como principal destino, com 794,7 mil toneladas compradas no semestre e US$ 4,87 bilhões em receita.

Leia também: Protecionismo amplia pressão sobre Brasil e eleva papel da diplomacia do agro

Os dados são da Secretaria de Comércio Exterior, vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, compilados pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes.

O desempenho financeiro cresceu em ritmo mais forte que o volume. Enquanto as toneladas exportadas avançaram 15,5%, a receita subiu 36,2% frente ao primeiro semestre de 2025, quando as vendas externas haviam somado US$ 7,24 bilhões.

Essa diferença mostra que o setor foi beneficiado não apenas pelo aumento dos embarques, mas também pela valorização do preço médio da carne brasileira no mercado internacional.

Carne bovina brasileira em números

Exportações no semestre: 1,705 milhão de toneladas
Crescimento em volume: 15,5%
Receita no semestre: US$ 9,85 bilhões
Crescimento em receita: 36,2%
Exportações em junho: 317,3 mil toneladas
Receita em junho: US$ 1,975 bilhão
Principal destino: China
Participação da China no volume: 46,6%
Produto dominante: carne bovina in natura

Receita cresce acima do volume exportado

A diferença entre crescimento físico e crescimento financeiro é o ponto mais relevante dos números do semestre.

O Brasil exportou 229 mil toneladas a mais de carne bovina em relação ao mesmo período do ano passado. Ao mesmo tempo, a receita aumentou em US$ 2,61 bilhões.

Na prática, o país vendeu mais e vendeu melhor. O avanço dos preços internacionais elevou o faturamento dos frigoríficos e reforçou a importância da carne bovina na pauta de exportações do agronegócio.

O movimento favorece empresas com presença relevante no mercado externo, como JBS (JBSS3), MBRF (MBRF3) e Minerva (BEEF3), ainda que o impacto financeiro dependa de câmbio, custos, margens, hedge e composição geográfica das vendas de cada companhia.

O setor também se beneficiou da capacidade brasileira de manter escala, regularidade de embarques e habilitação sanitária para diversos mercados.

China concentra quase metade das compras

A China comprou 794,7 mil toneladas de carne bovina brasileira no primeiro semestre, alta de 24% em relação ao mesmo período de 2025.

Em receita, as vendas para o mercado chinês somaram US$ 4,87 bilhões, avanço de 49,4% na comparação anual.

Com esses números, o país asiático respondeu por 46,6% do volume exportado pelo Brasil no semestre. A participação reforça a dependência estrutural da cadeia bovina brasileira em relação à demanda chinesa.

A concentração tem efeito positivo quando o mercado chinês compra em ritmo forte, como ocorreu no primeiro semestre. Mas também aumenta a exposição do setor a mudanças tarifárias, sanitárias e regulatórias definidas por Pequim.

Esse será um dos principais pontos de atenção no segundo semestre.

Cota chinesa pode mudar o ritmo dos embarques

O bom desempenho do primeiro semestre não elimina riscos para a segunda metade do ano.

A China passou a aplicar em 2026 um sistema de cotas para importações de carne bovina. No caso brasileiro, a cota anual foi definida em aproximadamente 1,106 milhão de toneladas. Volumes acima desse limite podem ficar sujeitos a tarifa adicional.

Como os embarques para a China avançaram rapidamente no início do ano, o setor passou a trabalhar com a possibilidade de desaceleração das vendas ao mercado chinês nos meses seguintes.

Esse cenário tende a obrigar frigoríficos brasileiros a buscar maior diversificação de destinos. A estratégia passa por ampliar presença em mercados como México, Rússia, Indonésia, Filipinas, Oriente Médio e países da América Latina.

A dificuldade é que nenhum desses destinos, isoladamente, tem escala próxima à chinesa. Por isso, mesmo com diversificação, a China continuará sendo decisiva para o resultado anual do setor.

Estados Unidos seguem como segundo maior destino

Os Estados Unidos foram o segundo principal comprador de carne bovina brasileira no primeiro semestre.

O país importou 205 mil toneladas, alta de 13% em volume. A receita somou US$ 1,35 bilhão, avanço de 29,8%.

O mercado norte-americano tem importância estratégica porque combina escala, preços mais elevados e demanda por diferentes cortes e categorias de produto.

Mesmo em um ambiente de maior atenção comercial entre Brasil e Estados Unidos, os embarques de carne bovina mantiveram desempenho robusto no acumulado do semestre.

A continuidade desse ritmo dependerá das condições de acesso ao mercado, da competitividade da carne brasileira e do comportamento dos preços domésticos norte-americanos.

União Europeia compra menos em volume, mas paga mais

A União Europeia importou 51,2 mil toneladas de carne bovina brasileira no primeiro semestre, movimentando US$ 452,3 milhões.

O bloco ficou entre os principais mercados em valor, embora represente participação menor em volume quando comparado a China e Estados Unidos.

A diferença reflete o perfil do mercado europeu, que tende a comprar cortes de maior valor agregado e possui exigências sanitárias, ambientais e de rastreabilidade mais rigorosas.

O setor acompanha com atenção novas regras europeias relacionadas ao uso de antimicrobianos em produtos de origem animal. A partir de setembro, a certificação sanitária para exportações destinadas ao bloco deverá observar requisitos adicionais.

Para frigoríficos brasileiros, a União Europeia continua relevante menos pela escala e mais pelo preço médio e pela sinalização reputacional. Permanecer habilitado no mercado europeu ajuda a reforçar padrões de controle exigidos também por outros compradores.

Chile e Rússia ganham espaço

Além dos grandes compradores, mercados médios ampliaram a participação nas exportações brasileiras.

O Chile importou 70,7 mil toneladas no semestre, com receita de US$ 420,2 milhões. O crescimento foi de 20% em volume e 33,2% em valor.

A Rússia comprou 62,2 mil toneladas, gerando US$ 284,1 milhões em receita. O avanço foi mais forte: 53,8% em volume e 58,9% em valor.

Esses resultados são relevantes porque ajudam a reduzir, ainda que parcialmente, a dependência de China e Estados Unidos.

A Rússia voltou a ganhar importância como destino para a carne brasileira em um momento de rearranjo do comércio global de alimentos. Já o Chile segue como comprador consistente na América do Sul, com demanda regular e proximidade logística.

Junho teve maior receita mensal da série

O mês de junho consolidou o melhor resultado mensal da série histórica das exportações brasileiras de carne bovina.

Foram embarcadas 317,3 mil toneladas, alta de 16,6% sobre junho de 2025. A receita chegou a US$ 1,975 bilhão, avanço de 38,1%.

O resultado mensal confirmou que o ritmo forte do semestre não foi concentrado apenas no início do ano. Ao contrário, junho terminou com volume e faturamento elevados, mesmo em um ambiente já marcado por incertezas comerciais.

A China continuou na liderança no mês, com 161,9 mil toneladas e US$ 1,08 bilhão em compras. O volume cresceu 19%, enquanto a receita avançou 39,5%.

Os Estados Unidos ficaram em segundo lugar em receita, com US$ 192,9 milhões, apesar da queda de 8,3% no volume embarcado. O dado indica melhora expressiva do preço médio.

Carne in natura domina a pauta

A carne bovina in natura continuou concentrando a maior parte das exportações.

Em junho, o produto respondeu por 279,7 mil toneladas, equivalentes a 88,1% do volume total embarcado. Em receita, foram US$ 1,83 bilhão, ou 92,6% do faturamento mensal.

O predomínio da carne in natura mostra que o Brasil ainda exporta majoritariamente proteína em forma menos industrializada, embora com grande escala e competitividade.

As carnes industrializadas somaram 8,5 mil toneladas e US$ 74 milhões em junho. Os miúdos responderam por 20,1 mil toneladas e US$ 46,3 milhões.

Também houve embarques de gorduras, tripas e carnes salgadas, mas com participação menor no total.

A composição da pauta indica espaço para crescimento de produtos de maior valor agregado, especialmente em mercados que aceitam cortes premium, processados e linhas com certificações específicas.

México e Indonésia reforçam diversificação

Entre os mercados que ganharam destaque em junho, o México teve uma das maiores expansões.

Os embarques para o país somaram 11,8 mil toneladas, alta de 153,9% em relação ao mesmo mês do ano anterior. A receita foi de US$ 74 milhões, crescimento de 136,6%.

A Indonésia importou 10,6 mil toneladas e ficou entre os dez principais destinos do mês.

Hong Kong, Arábia Saudita, União Europeia, Rússia e Filipinas também apareceram entre os compradores relevantes.

A diversificação não elimina a centralidade da China, mas reduz a vulnerabilidade do setor a choques específicos em um único mercado. Para 2026, essa estratégia será especialmente importante por causa da cota chinesa e das novas exigências europeias.

Exportação recorde fortalece frigoríficos, mas riscos aumentam

O primeiro semestre foi positivo para a cadeia exportadora de carne bovina, mas o segundo semestre tende a ser mais seletivo.

A receita recorde melhora o ambiente para frigoríficos com forte presença internacional. Empresas como JBS, MBRF e Minerva podem se beneficiar de preços externos elevados, demanda firme e câmbio ainda favorável às exportações.

Ao mesmo tempo, a margem das companhias dependerá do custo do boi gordo, da disponibilidade de animais, da evolução do câmbio e da capacidade de redirecionar volumes caso o mercado chinês perca ritmo.

O setor também precisa lidar com exigências crescentes de rastreabilidade, controles sanitários e comprovação ambiental.

Esses fatores tornam o desempenho das exportações menos dependente apenas da demanda e mais ligado à capacidade de cumprir requisitos técnicos em diferentes mercados.

Segundo semestre dependerá de novos destinos

A principal dúvida para o restante de 2026 é se o Brasil conseguirá manter o ritmo recorde com menor dependência da China.

A resposta dependerá da velocidade de abertura e expansão de mercados alternativos. México, Rússia, Indonésia, Filipinas e países do Oriente Médio aparecem como destinos estratégicos, mas ainda não substituem a escala chinesa.

O setor também acompanhará as condições comerciais com Estados Unidos e União Europeia, dois mercados importantes para receita e diversificação.

Se os preços internacionais continuarem elevados, a receita pode permanecer forte mesmo com eventual desaceleração do volume. Caso os embarques percam ritmo e os preços recuem, a comparação com o primeiro semestre se tornará mais difícil.

O recorde de janeiro a junho confirma a competitividade da carne bovina brasileira. Mas a sustentação do resultado anual dependerá menos de um único comprador e mais da capacidade de espalhar vendas por uma base maior de mercados.

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