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Facções depreciam imóveis e cobram taxa de empresas, diz ex-Bope na Expert XP 2026

Rodrigo Pimentel afirma que droga virou 15% da receita do tráfico e que crime em combustíveis, bebidas e ouro já rende R$ 146,8 bi por ano, com impacto de 5,9% do PIB

por Daniel Wicker
24/07/2026 às 17h52
em Brasil
Operações Revelam Movimentação De Bilhões Em Combustíveis, Fintechs E Investimentos; Fragmentação Da Fiscalização Facilita Infiltração-Gazeta Mercantil

A expansão do crime organizado deixou de ser apenas um caso de segurança pública e se tornou um fator de precificação de ativos no Brasil. A avaliação foi apresentada pelo ex-capitão do Bope Rodrigo Pimentel nesta sexta-feira, 24 de julho, durante a Expert XP 2026, em São Paulo. Segundo ele, facções como PCC e Comando Vermelho reduziram a participação de maconha e cocaína para cerca de 15% da receita e passaram a explorar monopólios territoriais sobre venda de botijões de gás, internet, transporte alternativo, comércio local e cobrança de taxa de proteção de empresas. O efeito direto, disse, é a depreciação de imóveis em bairros como Jacarepaguá, na zona oeste do Rio, e o afastamento de investimentos industriais e logísticos da região metropolitana.

Segundo a organização da Expert XP, o festival reúne entre 23 e 25 de julho de 2026 no São Paulo Expo o maior encontro de investimentos do país, com trilhas sobre economia, política e risco. A presença de um painel sobre segurança pública como variável econômica marca a entrada do tema no cálculo de investidores.

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Droga vira 15% da receita e facção passa a explorar economia local

De acordo com Rodrigo Pimentel, a lógica econômica das facções mudou na última década. Com o controle territorial, tudo que é vendido e comercializado em áreas dominadas gera receita. O modelo, antes associado às milícias, foi absorvido pelo tráfico.

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil tem hoje pelo menos 53 facções em atuação, com ao menos um grupo em cada estado e no Distrito Federal. O PCC, de origem paulista, está presente no Distrito Federal e em outros 24 estados e reúne cerca de 35 mil integrantes, com atuação internacional e ligações com a máfia italiana. O Comando Vermelho atua em 13 estados além do Distrito Federal. Quatro unidades da federação têm domínio de uma só facção, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Piauí sob PCC e Mato Grosso sob Comando Vermelho.

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O estudo mais recente do Fórum sobre a Amazônia mostra a velocidade da expansão. O número de municípios sob influência de facções na Amazônia Legal saltou de 178 em 2023 para 260 em 2024 e 344 em 2025, alta de 32% em um ano. O Comando Vermelho saiu de 128 cidades em 2023 para 211 em 2024 e 286 em 2025, com domínio hegemônico em 202 municípios e disputa em outros 84.

Jacarepaguá perde valorização enquanto Comando Vermelho avança na zona oeste

O exemplo usado por Pimentel para ilustrar o impacto imobiliário foi Jacarepaguá. Segundo ele, o imóvel na região está hoje mais barato do que anos atrás, não por excesso de oferta, mas porque o Comando Vermelho tomou bairros do entorno e provocou depreciação.

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Conforme estudo publicado na revista científica Scielo sobre o cerco pelo terror em territórios em disputa na zona oeste do Rio, a região vive desde o final de 2022 um intenso conflito por controle entre Comando Vermelho e grupos de milícia. A favela do Bateau Mouche, em Praça Seca, e a vizinha Chacrinha, historicamente sob domínio de milicianos, passaram a ser alvo de invasões. O Mapa Histórico dos Grupos Armados da Universidade Federal Fluminense aponta que 50% dos territórios dominados por grupos armados no Rio estão com milícias, com concentração de quase 95% na zona oeste no triênio 2019-2021.

Segundo o estudo da Scielo, a zona oeste reúne as áreas de planejamento 4 e 5 da prefeitura, com mais de 70% do território da cidade e 2,9 milhões de habitantes pelo Censo de 2022. A generalização da cobrança de taxas por segurança, internet e TV a cabo clandestina, iniciada nos anos 2000, deu lugar a um modelo em que facções e milicianos fazem operações consorciadas, um controla o varejo de drogas e o outro explora serviços.

O reflexo no mercado é direto. De acordo com análises do setor imobiliário, bairros como Recreio e Jacarepaguá concentraram mais de 60% dos lançamentos habitacionais do Rio em 2012, com 3.254 unidades em Jacarepaguá. Com a violência, parte da demanda migrou para áreas com percepção de maior segurança ou com infraestrutura de transporte, como Barra da Tijuca, enquanto incorporadoras passaram a incluir cerca elétrica, guarita blindada, câmeras e botão de pânico como padrão de vendas.

Crime em produtos lícitos já movimenta R$ 146,8 bilhões, aponta Fórum

A mudança de portfólio das facções aparece em números. Segundo o estudo Follow the Products, lançado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em 10 de fevereiro de 2025, o crime organizado fatura ao menos R$ 146,8 bilhões por ano apenas em mercados de produtos lícitos como combustíveis e lubrificantes, bebidas, ouro e tabaco. O valor equivale a três vezes e meia o orçamento anual do Ministério da Educação e representa 42,1% de um total de R$ 348,1 bilhões estimados pelo Fórum quando se incluem celulares e golpes virtuais, que lideram com R$ 186,1 bilhões, e tráfico de cocaína, com R$ 15,2 bilhões.

De acordo com o Fórum, esses produtos já representam 14,7% do conjunto dos mercados analisados. A infiltração ocorre por sonegação fiscal, corrupção e lavagem de dinheiro, com brechas regulatórias. O caso do Sistema de Controle de Produção de Bebidas, o Sicobe, é citado como exemplo. Quando ativo, aumentou a arrecadação em até 40% no primeiro ano. Sua desativação em 2016 gerou apagão de dados e ampliou vulnerabilidade, agravada pelo revogaço da Receita Federal de 14 de fevereiro de 2025 que eliminou mais de 200 normas sobre bebidas.

Custo total da violência chega a 5,9% do PIB e empresas gastam R$ 171 bi em proteção

O impacto vai além do faturamento das facções. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o Brasil registrou 46.409 homicídios em 2022, taxa de 21,7 por 100 mil habitantes, mas o Atlas da Violência 2024 estima 52.391 homicídios considerando 51.726 homicídios ocultos entre 2012 e 2022 classificados como mortes violentas por causa indeterminada. Entre 2019 e 2022 foram 24.102 homicídios ocultos. Em 2024, o país registrou 42.590 homicídios oficiais, menor da série histórica iniciada em 2014, com 20,1 por 100 mil, mas com alerta de subnotificação crescente.

De acordo com o Ipea, o custo de bem-estar da violência letal equivale a 78% do PIB em estoque, ou parcela anual de 2,3% do PIB, com viés de até um quarto se heterogeneidades regionais, educacionais e de gênero não forem consideradas. Outro estudo do Ipea calcula que a guerra às drogas gera custo de bem-estar de R$ 50 bilhões por ano, com perda de 1,148 milhão de anos de vida potenciais no país.

Conforme estimativas do Banco Interamericano de Desenvolvimento e do Atlas da Violência citadas em análise jurídica, o impacto econômico do crime oscila entre 1,8% e 4,2% do PIB só para o setor privado, considerando seguros e segurança privada, além da redução da População Economicamente Ativa por homicídios de jovens.

Segundo o Fórum Brasileiro, o setor privado gasta cerca de R$ 171 bilhões ao ano, 1,7% do PIB, em segurança privada e seguros, com 4.800 empresas e 485 mil vigilantes. O custo total da violência, incluindo setor público, privado e perdas de capital humano, chega a 5,9% do PIB, cerca de R$ 595 bilhões em valores recentes.

Empresas pagam taxa para operar na região metropolitana do Rio

Durante o painel na Expert XP, Pimentel afirmou que é impossível estabelecer uma planta industrial na região metropolitana do Rio sem pagar propina a uma facção. Segundo ele, hotéis, distribuidoras e centros logísticos também convivem com extorsão. Ele citou como exemplo provedores de internet no Ceará que sofreram ataques de grupos criminosos.

A prática cria um custo invisível que afeta preço final, logística e inflação. Segundo o ex-capitão, o crime organizado controla desde roubo de cargas até a distribuição de gás e internet, com domínio de rotas e de pontos de venda. A fragmentação da resposta estatal, com segurança pública, fiscalização tributária e inteligência financeira operando isoladamente, amplia a margem de atuação.

Fórum defende rastrear produtos em vez de só seguir o dinheiro

O estudo do Fórum Brasileiro propõe complementar a estratégia tradicional Follow the Money, baseada no Conselho de Controle de Atividades Financeiras, criado pela Lei 9.613 de 1998 e aprimorado pela Lei 12.683 de 2012, com a metodologia Follow the Products, voltada ao rastreamento de bens de alto valor.

De acordo com o Fórum, a Lei 12.850 de 2013, de organizações criminosas, trouxe instrumentos para investigação e persecução penal, mas a governança integrada ainda falha. A recomendação é criar troca permanente de informações entre Receita Federal, Polícia Federal, polícias estaduais, Guardas Municipais, Polícia Rodoviária Federal, Coaf, agências reguladoras e sistema de justiça, cruzando dados de rastreamento de produtos com informações fiscais e padrões de circulação ilícita.

A Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro é apontada como espaço para integrar informações sobre produção e comercialização de bens estratégicos sem necessidade de reforma legal, apenas com aprimoramento de governança.

Estratégia federal de lavagem de dinheiro é insuficiente sem retomada de território

Na avaliação de Pimentel na Expert XP, medidas voltadas ao combate à lavagem de dinheiro são importantes, mas insuficientes se não houver retomada das áreas controladas pelas facções. Segundo ele, o dinheiro surge no território e, enquanto organizações criminosas mantiverem controle econômico sobre comunidades, os impactos continuarão afetando investimentos, atividade empresarial e desenvolvimento.

A posição diverge em parte do foco recente do governo federal em descapitalização financeira. Para o ex-Bope, sem recuperação territorial, a asfixia financeira apenas desloca o capital para outras cadeias lícitas. O debate inclui proposta em discussão no Congresso para classificar facções como organizações terroristas, com efeitos sobre legislação penal e sobre cooperação internacional.

O próximo desdobramento previsto é a divulgação da quinta edição do estudo Cartografias da Violência na Amazônia pelo Fórum Brasileiro em novembro de 2026 e a atualização do Atlas da Violência pelo Ipea e Fórum com dados de 2025. A Expert XP 2026, que ocorre de 23 a 25 de julho, deve incluir novos painéis sobre risco Brasil e custo do crime para decisões de alocação de capital.

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