O Brasil ficou na terceira posição entre as nações que mais reduziram gastos com combustíveis fósseis graças à expansão das energias renováveis, conforme levantamento divulgado nesta quinta-feira, 2 de julho de 2026, pela Agência Internacional de Energia Renovável (Irena). O país economizou US$ 32 bilhões no ano passado, ficando atrás apenas da China e dos Estados Unidos, em um cenário em que fontes limpas se mostram não apenas mais competitivas, mas também estratégicas para a segurança energética.
No âmbito global, a adoção de renováveis evitou desembolsos de US$ 480 bilhões com petróleo, gás natural e carvão em 2025. A China respondeu por cerca de 47% desse valor, com
economia de US$ 177 bilhões, seguida pelos Estados Unidos, com US$ 35 bilhões. Na sequência, aparecem Índia e Alemanha, com US$ 18 bilhões cada, e o Japão, com US$ 15 bilhões.
Além do alívio nas contas públicas e empresariais, o uso dessas fontes evitou a emissão de 8,4 bilhões de toneladas de dióxido de carbono (CO₂), reforçando o papel da transição energética tanto no campo econômico quanto ambiental.
Renováveis como amortecedor contra instabilidade geopolítica
Segundo o relatório de custos da Irena, as energias solar e eólica já não são apenas opções mais baratas — funcionam também como um “amortecedor geopolítico”, capaz de proteger economias contra oscilações bruscas no
mercado de combustíveis. A agência estima que mais de 90% da capacidade renovável de grande porte adicionada em 2025 teve custo inferior ao da alternativa fóssil mais econômica disponível.
Para o diretor-geral da Irena, Francesco La Camera, o cenário atual confirma que a queda nos custos de instalação e operação dessas fontes gera um dividendo econômico concreto.
“Para os países que ainda dependem fortemente de combustíveis fósseis, cada megawatt adicional de energia renovável fortalece a proteção econômica contra a volatilidade dos preços, protegendo consumidores,
empresas e finanças públicas de custos mais altos”, afirmou.
A crise energética provocada por conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio nos últimos anos, segundo ele, reforçou o argumento de que investir em capacidade renovável é uma decisão estratégica para ampliar a resiliência e a competitividade a longo prazo.
O efeito é observado também em economias importadoras. Na Ásia, Indonésia, Tailândia e Filipinas substituíram em 2025 o equivalente a US$ 5,7 bilhões em compras de carvão e gás, graças ao avanço de fontes limpas.
Vantagem de custo se amplia em comparação com fósseis
Os dados de custo de geração confirmam a tendência de queda estrutural das renováveis. Em 2025, a energia solar fotovoltaica manteve o valor médio de US$ 44 por megawatt-hora (MWh), mesmo patamar de 2024. Já a eólica em terra firme recuou 4%, para US$ 33/MWh, enquanto a eólica offshore caiu 3%, para US$ 78/MWh.
A China segue como referência mundial de baixo custo: a eólica onshore chegou a US$ 27/MWh e a offshore a US$ 49/MWh, valores muito inferiores aos praticados em mercados como o norte-americano, onde a eólica offshore alcançou US$ 141/MWh.
No Brasil, o custo médio da geração solar ficou em US$ 37/MWh, próximo aos índices da Índia, de US$ 35/MWh. Esses valores contrastam com os custos de novas usinas movidas a gás natural, que subiram expressivamente em países europeus e no Japão, chegando a cerca de US$ 100/MWh em regiões com preços mais elevados do insumo.
A Irena alerta que a incerteza geopolítica, especialmente no Oriente Médio, deve manter os preços do gás sob pressão ao longo de 2026, mantendo a vantagem competitiva das fontes renováveis.
Perspectiva de investimentos e desafios para o Brasil
Embora os resultados econômicos já sejam visíveis, a agência ressalta que o ritmo de expansão ainda precisa ser acelerado para cumprir metas de neutralidade de emissões até 2050. No caso brasileiro, estima-se que sejam necessários cerca de US$ 1,3 trilhão em investimentos em energias limpas ao longo das próximas décadas para alcançar esse objetivo.
O Plano Decenal de Expansão de Energia 2035, publicado recentemente pelo Ministério de Minas e Energia, prevê aportes da ordem de R$ 3,5 trilhões no setor elétrico. A capacidade instalada deve passar de 255 GW para cerca de 367 GW, com destaque para o crescimento da geração eólica, solar e da geração distribuída.
Um ponto de atenção apontado pela Irena é a desaceleração nos investimentos na fabricação de equipamentos para energias limpas. O volume aplicado no setor caiu de um pico de US$ 70 bilhões no último trimestre de 2023 para US$ 35 bilhões no final de 2025. Com a reorganização da cadeia produtiva, especialmente na China, e alterações em regras comerciais internacionais, há risco de alta moderada nos custos de instalação a partir deste ano, embora a tendência de queda deva ser mantida até 2035, em ritmo mais lento.
Transição exige segurança regulatória e planejamento
Além dos aportes financeiros, a consolidação da transição energética no Brasil depende também de previsibilidade jurídica e regulatória. Esse é um dos pontos centrais
apontados por especialistas para iniciativas como o leilão de sistemas de armazenamento de energia, previsto para dezembro de 2026.
Em evento recente, a advogada Fernanda de Paula destacou que a falta de clareza nas regras pode repetir dificuldades observadas em programas anteriores, como o de contratação de termoelétricas.
Outro desafio é a gestão da intermitência das fontes renováveis, que dependem de condições climáticas. O Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) já alertou que, em cenários de baixa hidrologia ou menor geração solar e eólica, será necessário acionar termelétricas complementares, além de otimizar o uso de reservatórios, como o da Usina de Itaipu e das hidrelétricas do Rio São Francisco.
Matriz renovável reduz exposição a choques externos
A posição de
destaque do Brasil no ranking de economia de custos reforça a vantagem estratégica de sua matriz energética, historicamente mais limpa que a média mundial. A ampliação contínua de fontes como a eólica, a solar e a biomassa reduz a dependência de importações de combustíveis fósseis e torna o país menos vulnerável a variações bruscas de preços no mercado internacional.
Em um contexto em que conflitos e tensões comerciais seguem influenciando os valores de petróleo e gás, a estruturação de uma matriz diversificada e renovável representa um fator de estabilidade não só para o setor elétrico, mas também para a inflação e para a competitividade da indústria nacional.
O resultado apresentado pela Irena mostra que, além de benefícios ambientais, a transição energética já entrega retornos econômicos concretos — e que, para manter essa trajetória, o principal desafio passa a ser garantir o ritmo de investimentos e a clareza de regras para os próximos anos.