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Flávio falou com Vorcaro no dia de remessa de US$ 1,67 milhão; PF aponta Eduardo nos EUA

Ligação ocorreu em 16 de setembro de 2025, mesma data da última remessa identificada ao Havengate; aportes conhecidos somaram cerca de US$ 12,3 milhões.

por Carlos Menezes
11/09/2026 às 16h26
em Política
Flávio Falou Com Vorcaro No Dia De Remessa De Us$ 1,67 Milhão; Pf Aponta Eduardo Nos Eua - Gazeta Mercantil - Política

O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) conversou por telefone com Daniel Vorcaro em 16 de setembro de 2025, no mesmo dia em que a empresa Entre Investimentos e Participações realizou uma transferência de US$ 1.666.666,67 para o Havengate Development Fund, fundo sediado nos Estados Unidos utilizado na estrutura financeira do filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A coincidência entre a ligação e a remessa aparece expressamente em documentos da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República que tiveram o sigilo levantado nesta sexta-feira, 11 de setembro.

A transferência de setembro foi a última identificada no relatório de inteligência financeira citado pelos investigadores e elevou de aproximadamente US$ 10,6 milhões para US$ 12,3 milhões o total conhecido de recursos enviados ao fundo americano. O valor precisa ser distinguido do montante global previsto para o projeto: documentos encontrados no celular de Vorcaro indicavam um financiamento de até US$ 24 milhões, equivalente a cerca de R$ 134 milhões na cotação considerada à época das tratativas.

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A ligação, por si só, não prova que Flávio tenha determinado a transferência nem que o conteúdo da conversa tenha sido sobre a remessa. A própria documentação divulgada apresenta o episódio como uma coincidência temporal que, somada às cobranças anteriores do senador por parcelas atrasadas e às reuniões envolvendo o projeto, levou os investigadores a aprofundar a análise da relação entre Flávio, Vorcaro e os demais participantes da estrutura de financiamento.

Outro elemento que ganhou relevância com a abertura dos documentos envolve Eduardo Bolsonaro. Segundo a Polícia Federal, mensagens atribuídas ao ex-deputado indicam que ele orientou interlocutores sobre a forma de administrar recursos nos Estados Unidos e colocou pessoas ligadas à estrutura do Havengate à disposição para operacionalizar a movimentação financeira. Eduardo nega ter recebido dinheiro do projeto ou utilizado os valores para despesas pessoais.

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Ligação ocorreu um dia depois de pedido de encontro

A sequência reconstruída pela investigação começa antes da transferência de 16 de setembro.

Em 8 de setembro de 2025, Flávio Bolsonaro enviou a Vorcaro uma mensagem de áudio cobrando parcelas que estavam atrasadas. O senador disse estar constrangido por precisar insistir no pagamento e demonstrou preocupação com compromissos assumidos pela produção com atores e profissionais envolvidos no longa.

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Uma semana depois, em 15 de setembro, o empresário Thiago Miranda comunicou a Vorcaro que Flávio pretendia encontrá-lo pessoalmente para mostrar o material que estava sendo gravado. A sugestão era realizar uma reunião na residência do banqueiro.

No dia seguinte, 16 de setembro, os registros mostram uma ligação entre Flávio e Vorcaro. Foi nessa mesma data que ocorreu a remessa de US$ 1.666.666,67 da Entre Investimentos para o Havengate Development Fund identificada pelo Coaf.

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O parecer encaminhado pela Procuradoria-Geral da República a André Mendonça chamou atenção especificamente para essa simultaneidade.

A cronologia não termina nesse pagamento. Em setembro e outubro, Flávio e intermediários continuaram mantendo contatos relacionados à necessidade de recursos para o filme. Em 22 de outubro, por exemplo, o senador voltou a demonstrar preocupação com o financiamento e afirmou que a produção estava no limite, segundo mensagens recuperadas pela investigação.

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Por essa razão, é mais preciso tratar o pagamento de 16 de setembro como a última remessa identificada no relatório financeiro, e não necessariamente como a última parcela prevista ou solicitada para o projeto.

Sete operações somaram cerca de US$ 12,3 milhões

O empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”, tornou-se personagem central na reconstrução do fluxo financeiro.

Freixo é dono da Entre Investimentos e Participações, empresa utilizada nas transferências ao Havengate. Em acordo de colaboração premiada homologado pelo ministro André Mendonça nesta semana, ele detalhou operações realizadas para atender demandas ligadas a Daniel Vorcaro.

Segundo as informações da colaboração e os documentos já reunidos pela investigação, foram realizadas sete operações de subscrição de cotas do fundo americano entre janeiro e setembro de 2025. O conjunto dessas transações alcançou aproximadamente US$ 12,33 milhões.

A última delas foi justamente a de US$ 1,666 milhão executada em 16 de setembro.

Assim, os valores conhecidos podem ser organizados de maneira objetiva: aproximadamente US$ 10,6 milhões já haviam sido identificados antes dessa operação; a remessa de setembro acrescentou cerca de US$ 1,67 milhão; e o total documentado chegou a aproximadamente US$ 12,3 milhões.

Esse montante ainda é bem inferior aos US$ 24 milhões previstos na estrutura geral de financiamento encontrada pelos investigadores.

A diferença entre valor planejado e valor efetivamente identificado é importante porque evita a conclusão equivocada de que os R$ 134 milhões mencionados nos documentos tenham necessariamente sido transferidos. Até agora, as movimentações financeiras conhecidas e associadas ao Havengate somam pouco mais da metade daquele total.

PF coloca Eduardo na administração dos recursos nos EUA

A investigação também procura esclarecer o papel de Eduardo Bolsonaro na estrutura americana.

Segundo a Polícia Federal, em março de 2025, Thiago Miranda informou a Daniel Vorcaro que Flávio e Eduardo pretendiam conversar com ele a respeito do filme. Na sequência, foi compartilhada uma captura de tela atribuída a Eduardo contendo orientações sobre como os recursos poderiam ser administrados nos Estados Unidos.

Os investigadores afirmam que Eduardo colocou Altieris Chaves Santana, diretor da Havengate Development Fund GP LLC, à disposição para auxiliar na operação financeira. Outro nome associado à estrutura é o advogado Paulo Calixto, que possui relação profissional com Eduardo Bolsonaro e aparece ligado ao fundo americano.

O ponto é relevante porque a PF não trata Eduardo apenas como participante artístico ou político do projeto. Os documentos indicam uma possível atuação na organização da estrutura financeira utilizada no exterior.

Ainda assim, a existência dessas mensagens não estabelece, por si só, que Eduardo tenha praticado qualquer crime.

A PF investiga se a movimentação dos recursos para os Estados Unidos seguiu todas as normas cambiais, qual foi o destino final do dinheiro e se houve utilização para finalidades diferentes da produção cinematográfica.

Uma das linhas investigativas mencionadas ao longo da apuração é a possibilidade de parte dos recursos ter sido utilizada para despesas de Eduardo durante sua permanência nos Estados Unidos. Ele nega essa hipótese.

Havengate tornou-se peça central da investigação

O Havengate Development Fund passou a ocupar posição central no caso porque funcionou como destino das remessas realizadas a partir do Brasil.

O fundo havia sido originalmente estruturado para outro tipo de investimento e posteriormente passou a ser utilizado na engenharia financeira relacionada a “Dark Horse”. A Polícia Federal procura entender como essa mudança ocorreu e por que a produção cinematográfica adotou uma estrutura de investimento nos Estados Unidos para receber recursos captados no Brasil.

A existência de um fundo estrangeiro não constitui irregularidade.

O que chamou a atenção dos investigadores foi a combinação de valores elevados, intermediários financeiros, empresas usadas para realizar os aportes, movimentações internacionais e ausência, nos documentos inicialmente encontrados, de uma demonstração detalhada sobre a destinação final de todo o dinheiro.

A perícia também encontrou um plano de negócios que projetava investimento de US$ 24 milhões e receita potencial de até US$ 100 milhões para o filme. A estimativa de bilheteria foi considerada pela PF muito superior aos parâmetros observados historicamente no cinema brasileiro.

Esse conjunto levou os investigadores a levantar hipóteses de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção, que agora são objeto de um inquérito próprio autorizado por André Mendonça.

PF vê Flávio como interlocutor direto de Vorcaro

A documentação divulgada nesta sexta-feira também reforça uma diferença importante em relação às primeiras informações conhecidas sobre o caso.

Flávio Bolsonaro não aparece apenas mencionado por terceiros. A PF afirma ter identificado contatos diretos entre o senador e Daniel Vorcaro relacionados ao andamento do financiamento.

Há registros de ligações, mensagens, cobrança de pagamentos e tentativa de marcação de encontros presenciais.

Para a Polícia Federal, esses elementos justificam investigar qual era exatamente o papel desempenhado pelo senador na captação dos recursos e se essa atuação esteve ligada exclusivamente ao projeto privado ou se houve alguma contrapartida relacionada ao exercício do mandato parlamentar.

Flávio admite ter procurado Vorcaro para obter financiamento, mas afirma que se tratava de investimento privado em uma produção privada e que não ofereceu qualquer vantagem ao banqueiro.

Essa distinção será decisiva para a investigação de eventual corrupção.

A obtenção de financiamento privado por um político, isoladamente, não configura crime. Para sustentar uma hipótese de corrupção, seria necessário identificar uma vantagem indevida relacionada à função pública, seja por meio de ato praticado, prometido ou solicitado em benefício do financiador.

PGR quer investigar propostas de interesse do Master

Foi justamente por isso que o procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu o levantamento de informações sobre proposições legislativas apresentadas ou apoiadas por Flávio Bolsonaro que eventualmente pudessem ser de interesse do Banco Master, de Daniel Vorcaro ou de empresas ligadas ao grupo.

O mesmo tipo de verificação foi solicitado em relação ao deputado Mário Frias (PL-SP), que também aparece nas tratativas relacionadas à produção de “Dark Horse”.

O pedido não significa que a PGR tenha identificado uma proposta legislativa específica como contrapartida.

O objetivo é verificar se existe alguma conexão entre os milhões de dólares destinados ao filme e atos parlamentares que possam ter beneficiado interesses empresariais de Vorcaro.

Caso essa conexão não seja encontrada, uma das principais hipóteses necessárias para caracterizar corrupção perderá força. Se surgir algum vínculo documental entre os aportes e uma atuação parlamentar, a investigação ganha outra dimensão.

Mário Frias aparece desde o início das tratativas

Mário Frias também é mencionado nos documentos como participante de encontros e possível idealizador do projeto cinematográfico.

O deputado já é investigado em outra frente relacionada a “Dark Horse”, conduzida sob a relatoria do ministro Flávio Dino. Essa apuração trata de suspeitas de desvio de emendas parlamentares e de recursos públicos que teriam beneficiado estruturas ligadas à produção.

Na quinta-feira, 10, Frias foi alvo de busca e apreensão autorizada por Dino.

É importante separar as duas investigações.

O procedimento relatado por Mendonça nasceu do caso Banco Master e concentra-se principalmente nos recursos privados associados a Daniel Vorcaro, na utilização da Entre Investimentos, nas remessas ao Havengate e nas possíveis relações entre o financiamento e a atuação de agentes políticos.

A investigação de Dino possui origem distinta e se volta para possíveis desvios de recursos públicos.

Os personagens se cruzam porque “Dark Horse” aparece nas duas frentes, mas os fatos e as hipóteses criminais não são necessariamente os mesmos.

Delação de “Mineiro” pode esclarecer caminho do dinheiro

A homologação da colaboração premiada de Antônio Carlos Freixo Júnior abriu uma nova etapa da investigação.

Freixo afirmou ter participado diretamente das operações financeiras realizadas a pedido de Vorcaro e detalhou à PGR a forma como recursos eram movimentados.

No que diz respeito a “Dark Horse”, seu papel é particularmente relevante porque sua empresa aparece formalmente como remetente dos valores ao Havengate.

Os investigadores agora poderão confrontar as declarações do colaborador com registros bancários, mensagens, dados cambiais, documentos societários e informações encontradas nos aparelhos eletrônicos apreendidos.

Uma delação, isoladamente, não serve como prova suficiente para condenação. As informações fornecidas precisam ser confirmadas por elementos independentes.

Nesse caso, entretanto, parte das movimentações financeiras já aparece em registros bancários e relatórios do Coaf, o que permite aos investigadores verificar objetivamente datas e valores.

Caso ganha peso na campanha presidencial

A divulgação ocorre em um momento especialmente sensível para Flávio Bolsonaro.

O senador é o principal nome da oposição na disputa presidencial de 2026 e aparece competitivo contra o presidente Lula em pesquisas recentes. O caso Master, portanto, deixou de ser apenas um problema policial e judicial para se tornar também uma variável eleitoral.

A informação de que Flávio falou com Vorcaro no mesmo dia da remessa de US$ 1,67 milhão tem potencial político evidente, embora juridicamente precise ser analisada com cautela.

Não há, nos documentos divulgados até agora, demonstração pública de que a ligação tenha provocado a transferência ou de que o conteúdo da conversa tenha tratado especificamente daquele pagamento.

O que existe é uma sequência de fatos: Flávio cobrou parcelas atrasadas em 8 de setembro; em 15 de setembro, um intermediário informou a Vorcaro que o senador queria encontrá-lo; no dia 16, os dois falaram por telefone; e na mesma data ocorreu a transferência que levou o total conhecido de aportes ao Havengate para aproximadamente US$ 12,3 milhões.

É essa sequência que a Polícia Federal pretende esclarecer.

Da mesma forma, a investigação sobre Eduardo procura determinar se as orientações para administrar os recursos nos Estados Unidos se limitaram à organização legítima do financiamento ou se a estrutura teve outra finalidade.

Por enquanto, ambos negam irregularidades.

O inquérito está em andamento, e as revelações desta sexta-feira não representam conclusão de culpa. Elas, porém, tornam mais clara a participação atribuída pela PF a cada personagem e oferecem uma cronologia financeira bem mais precisa do financiamento de “Dark Horse”.

O ponto que antes aparecia de forma dispersa agora pode ser resumido com números objetivos: o projeto previa até US$ 24 milhões; pelo menos sete remessas totalizando cerca de US$ 12,3 milhões foram identificadas; a última delas, de US$ 1.666.666,67, ocorreu em 16 de setembro de 2025; e naquele mesmo dia Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro mantiveram uma ligação telefônica.

É sobre a natureza dessa relação, a origem e o destino do dinheiro e as eventuais contrapartidas que a investigação seguirá avançando.

Fontes:

Polícia Federal

Procuradoria-Geral da República

Supremo Tribunal Federal

Conselho de Controle de Atividades Financeiras

Documentos do Inquérito do caso Banco Master

Colaboração premiada de Antônio Carlos Freixo Júnior

Reuters

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