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Focus reduz inflação para 4,90%, corta PIB e mantém Selic em 13,75% em 2026

Mercado reduz projeções para inflação e crescimento, mantém dólar em R$ 5,20 e indica espaço para apenas mais um corte de 0,25 ponto na Selic neste ano

por Camila Braga
14/09/2026 às 11h14
em Mercados
Banco Central (Foto: Marcello Casal Jr., Ag. Brasil)

O mercado financeiro reduziu pela terceira semana consecutiva a projeção para a inflação brasileira em 2026, mas passou a esperar um crescimento ainda menor da economia, em uma combinação que reforça o cenário de desaceleração da atividade e abre espaço para mais uma redução da taxa básica de juros. O Boletim Focus divulgado pelo Banco Central nesta segunda-feira, 14 de setembro, mostrou que a mediana das estimativas para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo caiu de 5,00% para 4,90%, enquanto a previsão de expansão do Produto Interno Bruto recuou de 1,93% para 1,89%.

A mudança ocorre às vésperas da reunião do Comitê de Política Monetária, marcada para terça e quarta-feira. A Selic está atualmente em 14% ao ano, e o Focus manteve em 13,75% a estimativa para dezembro. Na prática, se a projeção se confirmar, o mercado trabalha com espaço para apenas mais um corte de 0,25 ponto percentual até o encerramento de 2026. Isso coloca a decisão desta semana no centro das atenções: uma redução para 13,75% poderia significar o encerramento do ciclo de flexibilização ainda neste ano, caso as expectativas não mudem nas próximas reuniões.

O quadro é de melhora da inflação corrente acompanhada de maior cautela com o crescimento. O IPCA de agosto caiu 0,32% e a inflação acumulada em 12 meses desacelerou para 4,22%, resultado abaixo das expectativas e dentro do intervalo de tolerância do regime de metas. A leitura ajudou a fortalecer a percepção de que o processo de desinflação continua, embora parte da queda tenha sido influenciada por componentes temporários, especialmente energia elétrica.

IPCA de 2026 cai para 4,90%

A redução de 5,00% para 4,90% representa a terceira revisão consecutiva para baixo da inflação esperada em 2026. É um movimento relevante porque, depois de meses de deterioração das expectativas, o mercado passou a incorporar uma trajetória menos pressionada para os preços no curto prazo.

Ainda assim, a mediana do Focus continua acima de 4,50%, limite superior do intervalo de tolerância estabelecido em torno da meta de 3%. Desde janeiro de 2025, porém, o Brasil utiliza um sistema de metas contínuas: o cumprimento é verificado pelo IPCA acumulado em 12 meses, mês a mês, e não mais exclusivamente pela inflação fechada em dezembro. Por isso, a projeção de 4,90% para o calendário de 2026 serve como referência importante para a política monetária, mas não equivale automaticamente a uma violação formal da meta.

A diferença é importante porque a inflação efetivamente acumulada em 12 meses estava em 4,22% em agosto, portanto dentro da faixa de tolerância de 1,50% a 4,50%. O Focus indica, entretanto, que os economistas esperam alguma recomposição da inflação até o fim do ano.

A trajetória projetada para 2027 também recomenda cautela. Enquanto a previsão para 2026 caiu, a mediana para o IPCA do próximo ano subiu de 4,29% para 4,30%, na quinta semana consecutiva de aumento.

O movimento mostra que a melhora de curto prazo ainda não foi acompanhada por uma ancoragem completa das expectativas mais longas. Em outras palavras, o mercado vê menos inflação agora, mas continua desconfiado da velocidade com que os preços convergirão para a meta de 3%.

Para 2028, a estimativa permaneceu em 3,80%. Para 2029, ficou em 3,50%. Mesmo nos horizontes mais distantes, portanto, as projeções continuam acima do centro da meta.

PIB menor reforça sinal de desaceleração

O lado mais negativo do Focus desta segunda-feira está na atividade econômica. A projeção de crescimento do PIB em 2026 caiu de 1,93% para 1,89%.

Isoladamente, uma redução de quatro centésimos poderia parecer pouco relevante. O problema é que o movimento não ficou restrito a este ano.

Para 2027, a expectativa caiu de 1,50% para 1,45%. Para 2028, a redução foi ainda maior, de 1,96% para 1,87%. Somente a previsão de 2029 permaneceu inalterada, em 2%.

A revisão simultânea de três anos consecutivos sugere que os economistas não estão enxergando apenas uma perda momentânea de velocidade. O mercado passou a trabalhar com uma trajetória de crescimento estruturalmente mais fraca no médio prazo.

Juros ainda elevados ajudam a explicar o quadro. Mesmo depois do início do ciclo de cortes, uma Selic de 14% continua exercendo forte efeito contracionista sobre crédito, consumo e investimento. Empresas enfrentam custo maior para financiar capital de giro e novos projetos, enquanto famílias encontram taxas elevadas no crédito bancário.

O nível de endividamento também reduz a capacidade de reação do consumo. Somado a isso, setores mais sensíveis ao crédito, como comércio, construção, bens duráveis e parte dos serviços, tendem a sentir com atraso os efeitos de uma política monetária restritiva.

O Focus, portanto, começa a mostrar o outro lado do processo de desinflação: parte da redução das pressões de preços ocorre justamente porque a economia perde velocidade.

Mercado vê apenas mais 0,25 ponto de corte na Selic

A projeção de 13,75% para a Selic ao final de 2026 permaneceu inalterada pela sexta semana consecutiva.

Esse dado ganha importância especial nesta semana porque a taxa básica está atualmente em 14%. O Copom se reúne nos dias 15 e 16 de setembro, e o mercado espera nova redução de 0,25 ponto percentual.

Caso o corte seja confirmado, a Selic chegará exatamente aos 13,75% previstos pelo Focus para dezembro.

Isso significa que, pelas expectativas atuais, os economistas não trabalham com novos cortes nas reuniões restantes do ano. A mensagem implícita é de cautela: mesmo com o IPCA corrente em desaceleração e o PIB perdendo força, o Banco Central ainda teria motivos para preservar juros elevados.

Um deles é justamente a inflação projetada para 2027. O aumento da estimativa pela quinta semana consecutiva indica que as expectativas de médio prazo continuam resistentes. Outro é o fato de a inflação esperada para horizontes mais distantes permanecer acima de 3%.

Há também riscos externos. Preços de petróleo, juros internacionais, comportamento do dólar e tensões geopolíticas podem alterar rapidamente o balanço inflacionário brasileiro.

A consequência é uma política monetária que pode entrar em uma segunda fase. O Copom iniciou a redução da Selic diante da melhora dos preços e da desaceleração econômica, mas poderá interromper o ciclo antes de levar os juros para níveis próximos dos observados em períodos anteriores.

Para empresas e consumidores, isso significa que a queda do custo do crédito tende a continuar lenta.

Dólar em R$ 5,20 reforça estabilidade no câmbio

As previsões cambiais apresentaram poucas alterações. Para o fim de 2026, o mercado manteve a estimativa do dólar em R$ 5,20.

A estabilidade é relevante porque mostra que a redução da previsão de inflação não está sendo acompanhada por uma expectativa de valorização significativa do real. Em outras palavras, os economistas estão reduzindo o IPCA mesmo sem projetar uma ajuda adicional relevante do câmbio.

Para 2027, a estimativa do dólar caiu de R$ 5,30 para R$ 5,28. Para 2028, permaneceu em R$ 5,30. Em 2029, houve pequena alta, de R$ 5,35 para R$ 5,36.

A combinação de câmbio relativamente estável com inflação menor sugere que a revisão do IPCA está ligada principalmente ao comportamento dos preços domésticos e à desaceleração da demanda, e não a uma expectativa de forte barateamento dos produtos importados.

Esse é um elemento importante para a decisão do Copom. Uma moeda estável reduz o risco de repasse cambial para a inflação, mas não elimina a necessidade de acompanhar choques externos.

Focus mostra melhora no presente, mas piora no horizonte

O principal sinal desta edição do Focus aparece quando as projeções são observadas em conjunto.

Para 2026, o cenário melhorou do ponto de vista inflacionário: o IPCA esperado caiu dez pontos-base em apenas uma semana e retornou para abaixo de 5%. Ao mesmo tempo, a economia perdeu força, com o PIB projetado abaixo de 1,9%.

Já para 2027, a combinação é menos favorável. O mercado reduziu a projeção de crescimento para 1,45% e, simultaneamente, elevou a inflação para 4,30%.

Esse movimento merece atenção porque crescimento menor acompanhado de inflação mais resistente limita o espaço da política monetária. Se a desaceleração econômica viesse acompanhada de rápida convergência do IPCA para 3%, o Banco Central teria mais liberdade para reduzir juros. Não é isso que aparece nas medianas do Focus.

O mercado está prevendo atividade mais fraca sem uma desinflação igualmente intensa no médio prazo.

Isso ajuda a explicar por que a Selic projetada continua em dois dígitos por todo o horizonte disponível. A expectativa é de 12% ao final de 2027, 10,50% em 2028 e 10% em 2029.

Mesmo depois de três anos, portanto, os economistas não trabalham com um retorno rápido aos juros nominais observados antes do último ciclo de aperto monetário.

Próxima decisão do Copom ganha peso maior

A reunião desta semana poderá consolidar a mudança de fase da política monetária brasileira.

Depois de sucessivos cortes, a redução esperada de 14% para 13,75% levaria a Selic exatamente ao nível previsto pelo mercado para o encerramento de 2026. Se o Copom entregar esse movimento e adotar uma comunicação cautelosa, investidores poderão interpretar que a autoridade monetária pretende manter a taxa nesse patamar por algum tempo.

Mais importante do que o corte propriamente dito será, portanto, o comunicado.

O mercado buscará indicações sobre o comportamento da inflação de serviços, atividade, mercado de trabalho, expectativas, cenário fiscal e condições internacionais. Qualquer mudança na avaliação desses componentes poderá modificar rapidamente a curva de juros e as próximas edições do Focus.

Para a Bolsa, uma sinalização de que os juros podem voltar a cair mais cedo favoreceria empresas dependentes de crédito e ações de maior duração. Para a renda fixa, a manutenção de uma postura restritiva preserva taxas nominais elevadas. Para o câmbio, o diferencial de juros continua funcionando como um dos elementos de sustentação do real.

O Focus desta segunda-feira entrega, assim, uma fotografia menos simples do que a queda do IPCA projetado sugere. A inflação corrente melhora, mas as expectativas para 2027 voltam a subir. O PIB perde força não apenas em 2026, mas também nos dois anos seguintes. E a Selic permanece projetada em patamar elevado mesmo com uma economia mais fraca.

A síntese é um cenário de desinflação gradual, crescimento baixo e juros ainda restritivos. A inflação de 4,90% é uma melhora importante em relação às projeções recentes, mas continua distante do centro da meta de 3%. Ao mesmo tempo, a queda das estimativas para o PIB mostra que o custo econômico do combate aos preços começa a aparecer de forma mais clara nas projeções.

A partir desta semana, caberá ao Banco Central decidir se essa combinação já é suficiente para levar a Selic a 13,75% e, principalmente, se haverá espaço para ir além.

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