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Funcionários do Will Bank podem ser obrigados a devolver bônus após liquidação do banco digital

por Álvaro Lima
09/03/2026 às 18h40
em Economia
Escritório Do Will Bank, Em São Paulo: Sem Acesso Ao Sistema, Eles Não Vão Ao Escritório Nem São Demitidos — Foto: Reprodução

Funcionários do Will Bank enfrentam impasse sobre devolução de bônus após liquidação do banco digital

Os funcionários do Will Bank, banco digital que pertenceu ao grupo do Banco Master e que entrou em liquidação extrajudicial em janeiro de 2026, vivem um cenário de incerteza jurídica e financeira. Muitos receberam bônus de retenção em março de 2025, antes da crise se tornar pública, e agora podem ser obrigados a devolver os valores caso decidam pedir demissão. A situação expõe falhas de comunicação da empresa liquidante e aumenta a tensão entre colaboradores que, em grande parte, já investiram o dinheiro recebido.

Desde a liquidação, os funcionários não têm acesso ao sistema do banco, permanecendo afastados do ambiente operacional, mas continuam a receber salários e benefícios. O liquidante da instituição, a EFB Regimes Especiais de Empresas, não apresentou cronograma de desligamentos, deixando os colaboradores sem previsibilidade quanto à manutenção de seus contratos.

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O bônus de retenção é um incentivo financeiro estratégico pago para garantir a permanência de funcionários em cargos-chave durante períodos críticos da empresa. No caso do Will Bank, o incentivo foi destinado a gerentes e profissionais de cargos superiores, com compromisso de permanência que variava entre um e dois anos. Muitos colaboradores utilizaram os recursos para investimentos pessoais, como aquisição de imóveis, o que agora dificulta a devolução do valor em caso de pedido de demissão.


Crise interna e liquidação extrajudicial do Will Bank

Relatos de funcionários indicam que problemas financeiros internos já eram visíveis antes da liquidação. Um colaborador, que prefere manter o anonimato e atua na instituição há cinco anos, afirmou que o ano de 2025 foi marcado por severas dificuldades operacionais, intensificadas quando a Mastercard reduziu os limites de aprovação de transações de clientes no Brasil, levando a rejeições frequentes e falta de liquidez no banco.

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“Começamos a ter transações reprovadas porque não havia dinheiro em caixa. O bônus foi oferecido para manter parte dos funcionários durante este período crítico. Não imaginávamos que tudo culminaria em uma liquidação,” disse o colaborador, que recebeu aproximadamente R$ 100 mil, equivalente a quatro salários, utilizado para aquisição e reforma de um imóvel.

Outro funcionário, que também atua há cinco anos no banco, contou que recusou propostas de emprego externas confiando nos planos de crescimento do Will Bank. Ele recebeu o bônus em duas parcelas, março e outubro de 2025, totalizando R$ 150 mil, já investidos em reformas de imóvel próprio. A devolução do valor agora é financeiramente inviável.

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Um terceiro funcionário, presente no banco há dois anos e seis meses, recebeu R$ 150 mil de bônus e também utilizou os recursos para reformas de imóvel. Ele relata não poder aceitar novas oportunidades de emprego sem risco de ter que restituir a quantia recebida.


Especialista explica direitos e medidas judiciais

Segundo Silvia Correia, advogada trabalhista e vice-presidente da Comissão da Justiça do Trabalho (CJT) da OAB-RJ, a empresa liquidante pode exigir a devolução do bônus, e o valor pode ser descontado das verbas rescisórias em caso de demissão voluntária. Para os colaboradores, a única saída segura é recorrer à Justiça, com pedido de esclarecimentos sobre a permanência de funcionários e condições de pagamento.

“Os funcionários precisam analisar as condições do pagamento do bônus e levar a questão para a esfera judicial. Podem ainda exigir que o liquidante esclareça quais colaboradores serão mantidos ou desligados, mas normalmente é um número reduzido. Caso não haja movimento judicial, qualquer pagamento em caso de demissão será retido,” explicou a advogada.

Bônus de retenção são comuns em períodos de crise, fusão, aquisição ou reestruturação, pagos à vista e normalmente correspondendo a 10% a 25% do salário ou mais, condicionados à permanência até data previamente estabelecida.


Incerteza sobre desligamentos aumenta ansiedade

A ausência de comunicação clara do liquidante do Will Bank agrava a tensão entre os funcionários. Em comunicado, a EFB Regimes Especiais de Empresas afirmou que “até o presente momento não há previsão de desligamento, tampouco confirmação de que o desligamento ocorrerá. Ressalta-se, contudo, que o colaborador poderá, caso deseje, solicitar o desligamento por iniciativa própria.”

A orientação para pedir demissão tem sido considerada absurda por alguns empregados. “É um sentimento de impotência. Trabalhei cinco anos, mais de dez horas por dia, e agora sou obrigado a pedir demissão sem ter meus direitos assegurados,” relatou um gerente do banco digital.

De acordo com o advogado trabalhista Antônio Carlos Aguiar, a liquidação extrajudicial de bancos não rescinde automaticamente os contratos de trabalho, mas normalmente leva à dispensa sem justa causa formalizada pelo liquidante. Direitos trabalhistas, incluindo verbas rescisórias e saldo de salário, continuam válidos, assim como normas coletivas e acordos internos.


Alternativas jurídicas para preservar direitos

Os funcionários do Will Bank podem recorrer à Justiça solicitando rescisão indireta, garantindo verbas rescisórias como se fossem demitidos sem justa causa. Embora salários e benefícios estejam sendo pagos normalmente, é possível alegar danos psicológicos causados pela imprevisibilidade do futuro profissional, caracterizando descumprimento parcial do contrato.

Especialistas jurídicos reforçam que casos de bônus de retenção em instituições em liquidação exigem avaliação cuidadosa do contrato, prazo de vigência do bônus e impacto financeiro das cláusulas de devolução.


Impacto do caso Will Bank no setor bancário digital

O episódio envolvendo o Will Bank evidencia riscos operacionais e jurídicos em bancos digitais que enfrentam liquidação extrajudicial. Estratégias de retenção de talentos baseadas em bônus podem se tornar problemáticas quando não há estabilidade financeira, reforçando a necessidade de cláusulas contratuais claras e comunicação transparente.

Profissionais e investidores do setor bancário digital devem considerar medidas de mitigação de risco e acompanhamento jurídico em situações de liquidação. A experiência do Will Bank serve como alerta para o mercado sobre a importância de planejamento estratégico e jurídico em bancos digitais, incluindo a definição de políticas de bônus e incentivos.

O caso também destaca a importância de supervisão regulatória e fiscalização rigorosa, especialmente em instituições que operam predominantemente no ambiente digital, onde liquidez e confiabilidade podem se tornar vulneráveis rapidamente.

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