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PolÃcia Federal investiga o ex-banqueiro Daniel Vorcaro por supostos repasses da ordem de R$ 61 milhões ao Havengate Development Fund LP, veÃculo registrado nos Estados Unidos, para financiar a produção de
Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro, e revelação publicada nesta quinta-feira (2) pelo site
The Intercept Brasil mostra que o próprio fundo receptor foi originalmente estruturado como um projeto imobiliário que nunca existiu na prática. Os recursos teriam sido encaminhados a pedido do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e administrados nos Estados Unidos por Paulo Calixto, advogado de imigração do também senador
Eduardo Bolsonaro (PL-SP), por meio da empresa Entre Investimentos e Participações. A avaliação preliminar da corporação é que as operações podem configurar crime de evasão de divisas, e a mesma estrutura que intermediou os envios também movimentou recursos com um fundo alvo de inquérito que apura esquema de
lavagem de dinheiro atribuÃdo ao Primeiro Comando da Capital. Os investigados têm direito à defesa e ainda se manifestaram amplamente sobre o conteúdo das apurações.
Havengate surgiu como empreendimento de US$ 21 milhões no Texas, mas nunca existiu
Criado e apresentado a potenciais investidores, inclusive brasileiros, a partir de 2020, o Havengate Development Fund LP tinha como objeto oficial o desenvolvimento da Havengate Community, um empreendimento imobiliário misto avaliado em US$ 21,1 milhões na cidade de Melissa, no condado de Collin, no Estado do Texas. O material de apresentação, produzido pela Calixsan Capital Management LLC, empresa registrada na Flórida e comandada por Paulo Calixto e Altieris Santana, prometia 300 lotes residenciais, 58 unidades habitacionais em sobrados e cerca de 29 mil metros quadrados de área comercial distribuÃdos por aproximadamente 38 hectares, além de abrir perspectiva de obtenção de visto de residência permanente — o chamado green card — para aportes acima de determinado valor.
Cinco anos depois do lançamento da proposta, contudo, nenhuma das estruturas anunciadas chegou a ser construÃda. Levantamento feito por equipe do The Intercept junto a cartórios de registro de imóveis do Texas, à s autoridades do condado de Collin e à prefeitura de Melissa não encontrou qualquer terreno registrado em nome do fundo, da Calixsan ou de pessoas ligadas diretamente ao projeto. A administração municipal também não emitiu qualquer alvará de construção ou licença de desenvolvimento vinculada à Havengate Community na área delimitada nos materiais de divulgação.
Em visita feita ao local em junho de 2026, a reportagem constatou que a porção reservada à área comercial permanece intacta: uma extensão coberta por vegetação nativa, sem placas de obra, identificação de incorporadora ou qualquer sinal de atividade imobiliária. Os loteamentos residenciais existentes nas imediações pertencem ao empreendimento Meadow Park, de responsabilidade da construtora Ashton Woods, sem qualquer vÃnculo societário ou contratual com o fundo ou com seus controladores. Mesmo sem cumprir seu objeto declarado, o veÃculo permaneceu ativo e, anos depois de anunciado o projeto que nunca saiu do papel, passou a funcionar como destino de recursos enviados do Brasil com a finalidade declarada de custear a produção cinematográfica.
Recursos visavam financiar cinebiografia e movimentam suspeita de evasão de divisas
Conforme apuração da PolÃcia Federal, com detalhamento inicial publicado pela Revista Fórum, o volume total de recursos que teriam sido alvo de planejamento de envio por Daniel Vorcaro ao Havengate chega a R$ 61 milhões, convertidos e movimentados em moeda norte-americana. Documentos bancários e contratuais obtidos pela reportagem indicam um cronograma de até 14 desembolsos, somando cerca de US$ 24 milhões, programados para o intervalo entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026. Desse total, ao menos US$ 10,6 milhões foram de fato creditados em contas do fundo nos Estados Unidos.
Um dos registros disponÃveis é um comprovante de transferência internacional pela rede SWIFT, datado de 13 de fevereiro de 2025, que dá conta de uma única remessa de US$ 2 milhões com origem em estruturas ligadas a Vorcaro e destino ao Havengate. A operação foi intermediada pela Entre Investimentos e Participações, empresa que atuou como ponte financeira ao longo de todo o esquema investigado, sob orientação do senador Flávio Bolsonaro e com gestão operacional e jurÃdica a cargo de Paulo Calixto, na condição de administrador dos recursos já em território americano.
Para as autoridades policiais, a combinação entre um veÃculo de investimento cujo negócio original se revelou inexistente, o volume expressivo de capitais enviados para fora do paÃs e a ausência de contrapartida comercial ou produtiva clara é o elemento central que embasa a suspeita de evasão de divisas, além de abrir caminho para investigação sobre eventual lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio. Os investigadores ponderam, contudo, que todas as linhas ainda estão em curso e que nenhuma conclusão definitiva foi produzida até o momento, com necessidade de aprofundamento em análise documental e em depoimentos.
Empresa intermediária tem ligação com fundo investigado por lavagem do PCC
A teia de relacionamentos em torno do caso vai além das pessoas diretamente ligadas à famÃlia Bolsonaro e ao financiamento do longa-metragem. Dados obtidos pela PolÃcia Federal e citados pela Revista Fórum, com cruzamento de informações da Folha de S.Paulo, mostram que a mesma Entre Investimentos e Participações que canalizou valores ao Havengate também movimentou cerca de R$ 20 milhões em operações com o FIDC Gold Style, fundo de investimento em direitos creditórios administrado pela Reag Trust.
O FIDC Gold Style é alvo de inquérito policial separado, no qual se apura que o veÃculo recebeu aproximadamente R$ 1 bilhão oriundo de pessoas jurÃdicas e fÃsicas identificadas como integrantes ou prestadoras de serviço a esquemas financeiros atribuÃdos ao Primeiro Comando da Capital. A linha de investigação sustenta que o fundo serviu como camada de dissimulação de origem e propriedade de recursos obtidos em atividades criminosas, com posterior distribuição e reintegração ao circuito econômico formal.
Até o momento não há comprovação de que Daniel Vorcaro ou qualquer dos senadores envolvidos tivessem conhecimento da origem ilÃcita dos recursos que passaram pelo FIDC, nem de participação direta no esquema investigado ligado à facção criminosa. A coincidência estrutural, contudo — uma mesma empresa atuando como canal tanto para o financiamento privado da cinebiografia quanto para operações com um veÃculo sob suspeita grave — ganha peso analÃtico na medida em que reforça a avaliação de que a estrutura de envio de capitais ao exterior carecia de controles e de separação clara entre origens e finalidades distintas.
Sobreposição de papéis alimenta linha de investigação da PolÃcia Federal
Quem responde legalmente pelo Havengate Development Fund LP, desde sua criação, são os mesmos sócios que controlam a Calixsan Capital: Paulo Calixto e Altieris Santana. A dupla assina os documentos de registro do fundo, os materiais de apresentação do projeto imobiliário que nunca saiu do papel e, posteriormente, os registros de recebimento dos valores enviados por Vorcaro.
A sobreposição de funções é um dos pontos que mais chamam a atenção dos investigadores. Calixto acumula a condição de sócio controlador e administrador do veÃculo financeiro que recebeu os recursos, de advogado pessoal de
Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos e de responsável direto pela gestão operacional dos valores enviados para produção do filme. A mesma pessoa que estruturou o projeto imobiliário sem correspondente fÃsico passou a gerir, com poderes amplos, o dinheiro que ali chegou com finalidade completamente diversa da originalmente apresentada a autoridades e a potenciais investidores.
Para a PolÃcia Federal, essa ausência de barreiras claras entre funções jurÃdicas, societárias e pessoais cria ambiente favorável a operações não registradas ou formalizadas de maneira incompleta, e dificulta inclusive a reconstrução exata do destino final de cada parcela dos capitais enviados. Parte dos recursos, conforme indicam os documentos, foi repassada a produtoras e profissionais ligados à produção audiovisual; outra parte permaneceu depositada ou foi movimentada dentro da própria estrutura do fundo, sem contrapartida imediata que justifique o envio.
Revelação amplia pressão polÃtica e judicial em caso com articulação internacional
A divulgação dos detalhes sobre a verdadeira natureza do Havengate chega em momento de
desgaste polÃtico acentuado para a ala liderada pela famÃlia Bolsonaro, com desdobramentos que vão da esfera criminal à articulação institucional com as autoridades norte-americanas. Do lado jurÃdico, a existência de um veÃculo de investimento sem objeto real fortalece a linha de acusação sobre evasão e pode dar base a novas medidas processuais, como quebra de sigilos adicionais e pedidos de cooperação jurÃdica internacional.
Do lado polÃtico, o caso ganha contornos ainda mais sensÃveis porque envolve dois senadores em exercÃcio, articulação direta com autoridades e operadores do direito nos Estados Unidos e, agora, a revelação de que o fundo central da operação foi construÃdo sobre uma promessa empresarial que nunca se concretizou. A ligação, ainda que indireta e por meio de uma empresa comum, com estrutura investigada por movimentação de capitais atribuÃdos ao PCC também funciona
como elemento de pressão adicional, tanto no Congresso Nacional quanto no Supremo Tribunal Federal, onde tramulam diversas das ações que envolvem os investigados.
Para o
mercado e para as instituições, o episódio reforça a atenção sobre regras de controle de capitais enviados ao exterior, sobre transparência em estruturas de investimento transfronteiriças e sobre a separação obrigatória entre interesses polÃticos, atividades econômicas e produção cultural. Nenhuma das partes citadas — Daniel Vorcaro, os senadores Flávio e Eduardo Bolsonaro, Paulo Calixto ou a Entre Investimentos — se pronunciou publicamente de maneira detalhada sobre o conteúdo da reportagem desta quinta-feira ou sobre o andamento das investigações policiais. Como é direito de todos os investigados, a ampla defesa e o contraditório serão assegurados ao longo da tramitação processual.