Glauber Braga é retirado à força da Presidência da Câmara e episódio reacende debate sobre dois pesos e duas medidas no Congresso
O deputado federal Glauber Braga (Psol-RJ) protagonizou, nesta terça-feira (9/12), um dos momentos mais simbólicos e tensos do atual ciclo político ao ocupar a cadeira da Presidência da Câmara dos Deputados em ato de protesto. A intervenção foi rapidamente interrompida pela Polícia Legislativa, que retirou o parlamentar à força, numa cena que expôs de forma contundente as contradições, disputas internas e assimetrias de tratamento dentro do Parlamento.
O episódio aconteceu em meio à pauta que previa a votação do Projeto de Lei 2162/2023, conhecido como PL da Anistia, e horas após o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), anunciar que incluiria o processo de cassação do mandato de Glauber Braga na ordem do dia. Poucos instantes depois de se sentar na cadeira principal da Mesa Diretora, o deputado foi cercado por agentes legislativos, culminando numa ação brusca que suspendeu a sessão e interrompeu a transmissão oficial da TV Câmara.
A imagem do parlamentar sendo contido por um policial, num movimento que lembrava um mata-leão, rapidamente se espalhou pelos corredores e acentuou o debate sobre a falta de isonomia na condução dos conflitos internos. A contundência da intervenção contrastou com episódios recentes protagonizados por parlamentares bolsonaristas, que, em agosto, bloquearam o funcionamento do plenário por mais de 30 horas sem qualquer medida coercitiva da mesma gravidade.
A situação reacendeu críticas sobre “dois pesos e duas medidas” adotados pela Casa, alimentando questionamentos sobre seletividade política, falta de critérios uniformes e fragilização das garantias parlamentares.
Protesto de Glauber Braga aumenta clima de tensão em votação decisiva
O ato de Glauber Braga, que subiu à Mesa Diretora enquanto a sessão era conduzida pela deputada Benedita da Silva (PT-RJ), ocorreu momentos antes da votação da proposta que busca revisar penas aplicadas a condenados pelos atos de 8 de janeiro. O protesto tensionou um ambiente já inflamado e escancarou divergências entre os grupos partidários.
A ocupação da cadeira da Presidência, símbolo máximo da autoridade interna da Câmara, foi interpretada como um gesto político calculado para denunciar o que o deputado considera perseguição institucional. Desde cedo, Glauber já indicava que reagiria contra a inclusão de seu processo de cassação na pauta, mas poucos imaginavam que ele avançaria até o assento presidencial, gesto raríssimo na história legislativa recente.
A Polícia Legislativa rapidamente cercou o parlamentar. Em uma operação considerada dura por diversos congressistas, agentes o retiraram fisicamente do local enquanto a transmissão oficial era cortada, impossibilitando que o público acompanhasse integralmente os acontecimentos.
O corte no sinal, embora previsto nos protocolos internos para situações de risco, foi imediatamente criticado por parlamentares que classificaram a ação como excessiva e desproporcional. Para analistas políticos, a suspensão da transmissão e o impedimento de jornalistas de acompanhar o desfecho ampliaram a percepção de opacidade institucional.
Dois pesos e duas medidas: contraste com episódios bolsonaristas acirra debate
O episódio envolvendo Glauber Braga reacendeu discussões sobre critérios de atuação da Mesa Diretora. Para muitos parlamentares, a ação contra o deputado do Psol contrasta de forma evidente com a postura adotada diante de episódios recentes envolvendo a bancada bolsonarista.
No início de agosto, deputados de direita bloquearam o plenário por mais de 30 horas, impedindo votações, interrompendo negociações e gerando instabilidade institucional. Em vez de medidas coercitivas, a Presidência optou por negociações prolongadas, sem uso da força e sem interrupção do sinal institucional.
Para críticos do episódio atual, a diferença de tratamento evidencia seletividade motivada por conjunturas políticas. A avaliação divulgada nos bastidores é que Glauber Braga, atuando sozinho, teria recebido resposta mais dura do que aquela aplicada a um grupo organizado com capacidade real de paralisar a Casa.
essa assimetria fere, segundo parlamentares e especialistas, o princípio da igualdade entre representantes eleitos e transmite a mensagem de que decisões disciplinares podem variar conforme conveniências momentâneas. A crítica central é que a atuação do Parlamento deveria seguir regras rígidas e uniformes, independentemente de ideologia, volume político ou pressão social.
Sessão suspensa e clima institucional de instabilidade
A sessão foi oficialmente suspensa logo após o início da operação policial. O encerramento abrupto, somado à retirada de Glauber Braga, reforçou a imagem de um Parlamento sob tensão. O corte no sinal da TV Câmara, circunstância incomum em situações de protesto parlamentar, gerou desconfiança entre jornalistas, servidores e parlamentares presentes.
A falta de transparência, segundo críticos, coloca em risco valores fundamentais do sistema democrático. Para analistas, o Parlamento deve ser palco de debates públicos e visíveis, e não ambiente onde divergências se transformam em conflitos físicos ou episódios censurados ao público.
Cassação de Glauber Braga entra no centro do debate
A movimentação do parlamentar deve agora influenciar diretamente o processo que pode levar à cassação de seu mandato. Glauber argumenta que seu gesto simboliza resistência a uma perseguição política e a uma tentativa de puni-lo por suas posições contrárias às lideranças da Casa.
Para setores da oposição, sua postura é retrato de coerência ideológica e enfrentamento legítimo. Já adversários veem o ato como violação grave das regras e argumento adicional para sustentar a necessidade de cassação.
O processo deve avançar rapidamente na Mesa Diretora. Após apresentação de defesa, a análise seguirá para deliberação política. A votação promete acirrar ainda mais a polarização e aprofundar fissuras internas no Parlamento.
O papel de Hugo Motta e a resposta institucional
Hugo Motta, presidente da Câmara, se torna figura central na condução da crise. O episódio impôs à sua gestão um teste de autoridade, isenção e capacidade de articulação.
Aliados argumentam que o uso da força foi necessário para restabelecer a normalidade e impedir que a sessão fosse tomada pelo tumulto. O grupo afirma que a presença física do deputado na cadeira da Presidência colocou em risco o funcionamento da Casa.
Já críticos apontam que Motta deveria ter adotado postura mais equilibrada, preservando a ordem sem recorrer imediatamente à força e garantindo a publicidade dos atos. A acusação principal é que faltou proporcionalidade.
A Câmara e o desafio da isonomia em tempos polarizados
O episódio que envolveu Glauber Braga expõe um problema recorrente na política: decisões institucionais que variam conforme o protagonista. O contraste entre a ação vigorosa contra o deputado do Psol e a tolerância histórica a atos de parlamentares bolsonaristas evidencia, segundo analistas, fragilidade na aplicação uniforme das regras.
Essa percepção de dois pesos e duas medidas aprofunda a desconfiança no Parlamento e amplia tensões num momento em que o país vive disputas intensas sobre democracia, participação política e liberdade de expressão dentro da Casa.
A violência vista no plenário, aliada ao corte da transmissão e à ausência de imprensa no momento mais crítico, acende nova preocupação sobre transparência e legitimidade. Para estudiosos da área política, transformar divergências em confrontos físicos é retrocesso e pode alimentar comportamentos extremistas.
Próximos passos e impacto político
O futuro do mandato de Glauber Braga será definido nos próximos dias, mas o impacto simbólico do episódio já se consolidou. O protesto e a reação policial ocupam o centro do debate nacional e tendem a influenciar não apenas a decisão da Câmara, mas a percepção pública sobre a condução interna da Casa.
Independentemente do desfecho, o episódio ficará marcado como um dos eventos mais controversos da atual legislatura e sinaliza um Parlamento que precisa urgentemente equilibrar autoridade, transparência e pluralidade.






