O GPA (PCAR3), controlador das redes Pão de Açúcar e Extra, passou a operar com uma corretora de seguros própria depois que a Superintendência de Seguros Privados (Susep) autorizou a GPA 2 Corretora e Administradora de Seguros Ltda. a atuar em todo o território nacional. A estrutura permitirá ao grupo participar diretamente da intermediação dos seguros contratados para proteger seus próprios negócios e os de empresas afiliadas, com potencial de reter uma parcela das comissões que antes ficava com corretoras terceirizadas.
A autorização foi comunicada pelo GPA em 29 de setembro e contempla seguros de danos e de pessoas. A nova empresa não substituirá integralmente a operação já existente: o grupo fechou um contrato de co-corretagem com a Willis Corretores de Seguros Ltda., que continuará fornecendo suporte técnico, relacionamento com o mercado segurador, estrutura para colocação das apólices e gestão de sinistros.
A mudança ocorre em um momento em que o custo de proteção patrimonial e judicial tem peso relevante nas contas da companhia. No balanço do segundo trimestre, o GPA informou que a concentração de pagamentos de prêmios para renovação de seguros-garantia vinculados a discussões tributárias na Justiça contribuiu para o aumento do custo financeiro lÃquido acumulado nos 12 meses encerrados em junho.
Nova estrutura busca capturar parte da remuneração paga pela atividade de corretagem
A lógica econômica da operação está na remuneração recebida pela intermediação de apólices. Em vez de contratar exclusivamente uma corretora independente para conduzir os seguros corporativos do grupo, o GPA passa a ter uma estrutura própria habilitada para realizar essa atividade e compartilhar a corretagem com a Willis.
A companhia informou que a iniciativa tem como objetivos elevar a eficiência operacional e gerar receitas adicionais. Na prática, parte da atividade que era desempenhada integralmente por terceiros passa a ser realizada dentro do grupo econômico, criando a possibilidade de captura de uma parcela das comissões associadas aos prêmios dos contratos.
O movimento, porém, não significa que o GPA passará a registrar como receita o valor total dos prêmios pagos às seguradoras. Prêmio é o valor desembolsado pela contratação da cobertura, enquanto a comissão remunera a intermediação. O próprio grupo ainda não divulgou qual será o percentual das comissões destinado à GPA 2 nem apresentou uma estimativa de receita incremental.
Essa diferença é importante porque os R$ 185 milhões informados pelo GPA se referem aos prêmios de seguro-garantia reconhecidos nos últimos três exercÃcios sociais. O montante representa a dimensão das contratações realizadas, e não o valor que a nova corretora receberá.
Tomando os três exercÃcios como referência, o volume equivale a uma média simples de aproximadamente R$ 61,7 milhões por ano em prêmios de seguro-garantia. Esse cálculo não representa uma previsão para o futuro, porque o GPA não informou como os contratos se distribuÃram entre os exercÃcios nem qual percentual das comissões será capturado pela subsidiária.
Seguro-garantia já aparece entre os fatores que pressionam o custo financeiro
A criação da corretora também se conecta a uma despesa que ganhou relevância nas demonstrações financeiras recentes do grupo. No segundo trimestre de 2026, o GPA registrou resultado financeiro lÃquido negativo de R$ 385 milhões, ante R$ 304 milhões negativos um ano antes, alta de 26,4% no valor da despesa.
Considerando a métrica anterior ao efeito do IFRS 16, o resultado financeiro lÃquido foi negativo em R$ 260 milhões no segundo trimestre, contra R$ 178 milhões no mesmo perÃodo de 2025. O balanço atribuiu a evolução principalmente à menor receita financeira, ao comportamento do endividamento e aos custos financeiros acumulados.
Na análise dos 12 meses encerrados no segundo trimestre, o custo financeiro lÃquido chegou a R$ 951 milhões, avanço de R$ 247 milhões sobre os R$ 703 milhões registrados no perÃodo anterior. A alta equivale a aproximadamente 35,1%.
Foi nesse indicador acumulado que a companhia citou de forma expressa a concentração de pagamentos de prêmios relacionados à renovação de seguros-garantia vinculados a discussões tributárias judiciais como um dos fatores que explicaram a variação do custo financeiro.
O seguro-garantia tem a função de assegurar o cumprimento de obrigações assumidas pelo tomador perante o segurado. No caso do GPA, a utilização da modalidade para disputas tributárias cria uma despesa relacionada à manutenção das garantias exigidas em processos e obrigações de natureza judicial ou administrativa.
A existência desse custo não significa, por si só, que a nova corretora reduzirá imediatamente as despesas financeiras da companhia. A economia potencial está associada à captura de comissões de intermediação, enquanto o prêmio pago à seguradora continua sendo necessário para a manutenção das coberturas contratadas.
Operação com a Willis preserva estrutura técnica do mercado segurador
O acordo de co-corretagem com a Willis foi estruturado para manter o acesso do GPA à infraestrutura técnica necessária à contratação dos seguros. A companhia informou que a parceria inclui capacidade técnica, conhecimento especializado, relacionamento com o mercado segurador, estrutura de colocação e gestão de sinistros.
A configuração reduz a possibilidade de interpretar a iniciativa como uma substituição integral das corretoras especializadas. O GPA passa a ter participação direta na corretagem dos próprios contratos, mas a Willis permanece envolvida na operação por meio do acordo firmado entre as empresas.
Esse desenho também ajuda a separar duas funções distintas. O GPA será responsável pela intermediação dos seguros de seus próprios riscos seguráveis por meio da nova corretora, enquanto a atividade de assumir o risco segurado continua associada às companhias seguradoras responsáveis pela emissão das apólices.
A estratégia, portanto, está mais relacionada à reorganização da cadeia de contratação dos seguros corporativos do que à entrada do grupo no negócio de seguros como seguradora.
GPA registra melhora operacional, mas mantém pressão financeira
A criação da corretora ocorre paralelamente a um processo mais amplo de redução de custos e reestruturação financeira no GPA. No segundo trimestre, o grupo registrou EBITDA ajustado de R$ 450 milhões, alta de 7,1% em relação aos R$ 420 milhões do mesmo perÃodo de 2025. A margem EBITDA ajustada passou de 9,0% para 10,6%, avanço de 1,7 ponto percentual.
Ao mesmo tempo, a receita lÃquida consolidada caiu de R$ 4,676 bilhões no segundo trimestre de 2025 para R$ 4,228 bilhões no segundo trimestre de 2026, retração de 9,6%. O prejuÃzo lÃquido consolidado aumentou de R$ 216 milhões para R$ 251 milhões no perÃodo.
O contraste entre o avanço operacional e a pressão financeira ajuda a contextualizar a busca por fontes adicionais de eficiência. A administração informou no balanço que o plano de eficiência incluiu redução de despesas, revisão de contratos, otimização logÃstica e diminuição de perdas operacionais.
Dentro desse quadro, a corretora própria representa uma iniciativa de menor escala em relação ao resultado operacional total, mas diretamente relacionada a uma despesa recorrente do grupo. O potencial econômico depende, sobretudo, do volume de apólices efetivamente intermediado pela GPA 2 e da parcela da comissão que permanecerá com a companhia.
Como o percentual de remuneração ainda não foi divulgado, não é possÃvel estimar a receita anual que a nova subsidiária poderá gerar com base apenas nos R$ 185 milhões em prêmios de seguro-garantia.
Empresa foi constituÃda dias antes da divulgação da autorização
A GPA 2 Corretora e Administradora de Seguros foi constituÃda em São Paulo em 23 de setembro de 2026. O registro empresarial identifica a Companhia Brasileira de Distribuição como sócia e estabelece como atividade principal a corretagem de seguros, além de atividades auxiliares relacionadas ao setor.
A abertura ocorreu seis dias antes da divulgação pública da autorização da Susep. O intervalo indica que a estrutura societária já estava formalizada quando o GPA comunicou ao mercado a habilitação regulatória para a operação.
A constituição da nova empresa também mostra que a iniciativa foi organizada como uma atividade segregada dentro do grupo, em vez de simplesmente incorporar a corretagem à estrutura operacional da companhia varejista.
O GPA não informou, até o momento, qual será a participação da nova empresa no conjunto de seguros corporativos do grupo nem se a atividade poderá ser ampliada futuramente para outras empresas fora do conglomerado. O comunicado divulgado ao mercado concentrou a atuação da GPA 2 na contratação de seguros para cobertura dos riscos da própria companhia e de suas afiliadas.
Próximo ganho dependerá do volume de apólices e das comissões
O efeito financeiro da nova corretora tende a aparecer à medida que os contratos sejam renovados ou novos seguros sejam intermediados pela estrutura própria. A principal variável que permanece desconhecida é a comissão efetivamente destinada à GPA 2.
A referência de R$ 185 milhões em prêmios de seguro-garantia ajuda a dimensionar o mercado potencial dentro do próprio grupo, mas não permite transformar esse valor diretamente em uma estimativa de receita. O montante corresponde aos prêmios das apólices, enquanto a comissão representa apenas uma parcela do valor intermediado.
Também não está definido quanto da atividade será efetivamente compartilhado com a Willis. O modelo de co-corretagem significa que a remuneração da intermediação será distribuÃda entre as partes segundo as condições contratadas.
Para o GPA, o benefÃcio pretendido é criar uma nova fonte de receita associada a uma despesa que já faz parte da operação corporativa. A companhia passa a ter participação econômica na etapa de intermediação sem assumir diretamente o risco financeiro coberto pelas apólices.
A medida se insere, assim, na agenda de eficiência anunciada pelo grupo e ocorre em paralelo à redução do endividamento e à reorganização financeira decorrente do processo de recuperação extrajudicial. O resultado concreto da estratégia dependerá da escala dos contratos administrados pela GPA 2, do nÃvel das comissões e da frequência das renovações de seguros.
Fontes:
Companhia Brasileira de Distribuição (GPA) – divulgação de 29 de setembro de 2026 sobre a habilitação da GPA 2 Corretora, a operação em co-corretagem com a Willis e os R$ 185 milhões em prêmios de seguro-garantia
Companhia Brasileira de Distribuição (GPA) – release de resultados do segundo trimestre de 2026, com dados de resultado financeiro, EBITDA, dÃvida e referência aos pagamentos de prêmios de seguros-garantia
Superintendência de Seguros Privados (Susep) – informações oficiais sobre seguro-garantia, funcionamento do mercado supervisionado e estatÃsticas de 2026
GPA Relações com Investidores – informações corporativas, documentos regulatórios e séries financeiras da companhia







