O Ibovespa fechou em queda de 2,50%, aos 167.874,64 pontos, nesta terça-feira, 11 de agosto, em uma sessão marcada pela piora da percepção de risco doméstico, pela alta dos juros futuros e por perdas concentradas em ações de grande peso na carteira. O principal índice da B3 perdeu 4.305,29 pontos em relação ao fechamento anterior e completou a sexta baixa consecutiva, terminando no menor nível desde 20 de janeiro.
A pressão ganhou intensidade à medida que investidores repercutiram uma combinação de fatores: o IPCA de julho veio acima da expectativa do mercado, a ata do Copom manteve um tom cauteloso sobre a inflação, uma nova pesquisa eleitoral ampliou as discussões sobre o cenário político de 2026 e o JPMorgan reduziu sua recomendação relativa para ações brasileiras. Os bancos estiveram entre os principais vetores negativos, com o Índice Financeiro recuando 3,27% e o BTG Pactual (BPAC11) perdendo 5,81%.
O movimento também foi acompanhado pela valorização do dólar e pela abertura das taxas futuras de juros. Mesmo a alta do petróleo no mercado internacional não foi suficiente para sustentar as ações da Petrobras (PETR3; PETR4), enquanto a Vale (VALE3) recuou 2,02%. No lado positivo, apenas seis componentes do Ibovespa conseguiram encerrar o pregão em alta.
Fechamento do Ibovespa em números
- Pontuação final: 167.874,64 pontos
- Variação no dia: -2,50%
- Variação em pontos: -4.305,29 pontos
- Abertura: 172.345,95 pontos
- Máxima confirmada da sessão: 172.345,95 pontos
- Mínima da sessão: 167.568,94 pontos
- Fechamento anterior: 172.179,93 pontos
- Dólar comercial: R$ 5,1608
- Variação do dólar: +0,98%
- Acumulado em agosto: -5,69%
- Acumulado em 2026: +4,19%
Ibovespa hoje começou perto da estabilidade e perdeu força rapidamente
O comportamento da sessão mostrou uma deterioração progressiva do apetite por risco. Logo depois da abertura dos negócios, o Ibovespa chegou a registrar 172.345,95 pontos, em alta de aproximadamente 0,10%, mas o movimento positivo teve curta duração. Poucos minutos depois, o índice já havia invertido o sinal e passado para o território negativo.
As vendas ganharam força ao longo da manhã e se intensificaram na segunda metade do pregão. Por volta das 15h, o índice atingiu 167.568,94 pontos, mínima intradiária confirmada na apuração, correspondendo a uma queda de aproximadamente 2,68%. A partir desse nível houve uma recuperação limitada, insuficiente para alterar a direção da sessão.
O fechamento aos 167.874,64 pontos deixou o índice pouco mais de 300 pontos acima da mínima e marcou a sexta sessão consecutiva no vermelho. A referência brasileira terminou também abaixo dos 170 mil pontos e no menor patamar de encerramento desde 20 de janeiro.
A amplitude do movimento foi evidenciada pela composição da carteira. Apenas seis ações terminaram em terreno positivo, enquanto companhias dos setores financeiro, siderúrgico, saúde e petróleo apareceram entre as principais pressões negativas.
Inflação, Copom e eleições aumentaram a cautela
A agenda econômica começou com a divulgação do IPCA de julho, que avançou 0,07%, depois de alta de 0,16% em junho. Embora o resultado tenha mostrado desaceleração mensal e levado a inflação acumulada em 12 meses para 4,44%, a leitura ficou acima da mediana de 0,03% esperada na pesquisa de mercado utilizada como referência antes do indicador.
O resultado anual colocou o IPCA novamente abaixo do limite superior de tolerância da meta de inflação, de 4,5%, mas a composição do dado e a surpresa em relação às estimativas limitaram uma interpretação mais favorável para os juros.
O mercado também analisou a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). O Banco Central voltou a demonstrar preocupação com a possibilidade de disseminação dos efeitos indiretos de choques de petróleo e de eventos climáticos sobre os preços, além de destacar riscos associados à demanda doméstica.
Essa combinação contribuiu para a abertura da curva de juros. O contrato de DI para janeiro de 2028 encerrou a sessão em 13,905%, alta de 8 pontos-base em relação ao ajuste anterior de 13,825%. Na parte mais longa, o DI para janeiro de 2035 terminou em 14,530%, avanço de 2,4 pontos-base.
O movimento dos juros teve efeito especialmente desfavorável sobre empresas mais sensíveis ao custo de capital e reforçou a pressão observada sobre ativos domésticos.
JPMorgan reduz exposição recomendada à Bolsa brasileira
Outro elemento que ganhou peso durante o pregão foi a decisão do JPMorgan de rebaixar sua recomendação relativa para ações brasileiras de overweight para neutra.
A mudança não corresponde a uma recomendação de venda do mercado brasileiro, mas significa que a instituição deixou de sugerir aos investidores internacionais uma exposição ao Brasil superior ao peso do País nos índices de referência. O banco também reduziu sua projeção para o Ibovespa no fim de 2026 de 190 mil para 185 mil pontos.
Entre os argumentos apresentados estão a proximidade do fim do ciclo de flexibilização monetária, a desaceleração esperada da atividade econômica, a deterioração do ciclo de crédito e o aumento potencial da volatilidade com a aproximação das eleições.
Os fluxos estrangeiros já vinham demonstrando perda de força. No acumulado de agosto até esta terça-feira, investidores estrangeiros registravam retiradas líquidas estimadas em R$ 3,3 bilhões no mercado à vista e R$ 4,4 bilhões em futuros. Mesmo assim, o saldo de entrada no mercado à vista durante 2026 permanecia positivo, em R$ 37,8 bilhões.
Uma nova pesquisa CNT/MDA também entrou nas mesas de operações. Em eventual segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, o levantamento mostrou 48% para Lula e 39,1% para Bolsonaro. Mais do que a preferência por um candidato específico, o mercado passou a incorporar com maior intensidade a proximidade do período eleitoral e a incerteza sobre a política econômica a partir de 2027.
Bancos puxam perdas e BPAC11 cai 5,81%
O setor financeiro teve peso decisivo no fechamento. O Índice Financeiro caiu 3,27%, refletindo a piora generalizada do apetite por ativos domésticos e movimentos específicos entre os bancos.
O maior destaque foi o BTG Pactual (BPAC11), que fechou em baixa de 5,81%, a R$ 50,13, mesmo depois de apresentar números robustos para o segundo trimestre. O banco reportou lucro líquido ajustado de R$ 5,1 bilhões e rentabilidade sobre o patrimônio de 26,7%, mas investidores concentraram atenção em pontos como a expansão acelerada do crédito ao consumidor e a evolução futura da qualidade dos ativos.
BPAC11 esteve também entre os papéis de maior movimentação financeira da sessão, com giro superior a R$ 1,8 bilhão.
O desempenho do setor não foi uniforme. Santander Brasil (SANB11) resistiu à pressão e terminou em alta de 0,92%, a R$ 29,52. Banco do Brasil, Itaú e Bradesco, por outro lado, estiveram pressionados durante o pregão, acompanhando o movimento predominante do setor.
No caso do Banco do Brasil (BBAS3), investidores ainda ajustaram posições antes da divulgação do balanço do segundo trimestre, programada para esta quarta-feira (12), com a qualidade da carteira de crédito rural e o nível das provisões entre os indicadores mais aguardados.
Petrobras cai mesmo com Brent perto de US$ 89
As ações da Petrobras seguiram direção oposta à do petróleo internacional. A Petrobras ON (PETR3) fechou em baixa de 1,44%, a R$ 46,53, enquanto a Petrobras PN (PETR4) perdeu 1,35%, para R$ 41,66.
A queda ocorreu mesmo com o Brent avançando pelo quinto pregão consecutivo. O contrato para outubro subiu 1,36%, a US$ 88,91 por barril, em meio à continuidade do impasse entre Estados Unidos e Irã sobre a reabertura do Estreito de Ormuz.
O WTI para setembro também terminou em alta, de 1,30%, a US$ 83,20 por barril. A valorização das commodities energéticas manteve o risco inflacionário internacional no radar, mas não foi suficiente para compensar a pressão vendedora sobre as ações brasileiras de grande peso.
A Vale (VALE3) também encerrou a sessão no vermelho, com queda de 2,02%, a R$ 74,40. O papel perdeu força em um dia de aversão ao risco, apesar de o UBS BB ter elevado seu preço-alvo para as ADRs da companhia de US$ 16 para US$ 16,50, mantendo recomendação neutra.
Somados, bancos, Petrobras e Vale representam uma parcela expressiva do Ibovespa, o que explica a intensidade com que movimentos simultaneamente negativos nesses grupos atingiram o índice.
Usiminas lidera as quedas do Ibovespa
A Usiminas (USIM5) apresentou a maior perda entre os integrantes do Ibovespa, com baixa de 7,54%, a R$ 6,62. O movimento ocorreu após o Itaú BBA rebaixar sua recomendação para as ações de compra para neutra e estabelecer preço-alvo de R$ 8 para o fim de 2027.
A avaliação mais cautelosa foi associada à dinâmica enfraquecida do mercado de aço e a preços de produtos planos abaixo das expectativas. O papel já acumulava uma correção significativa em relação aos níveis máximos registrados anteriormente no ano.
Na sequência das maiores quedas apareceram BTG Pactual (BPAC11), com -5,80%; RD Saúde (RADL3), com -5,68%, a R$ 18,28; Cosan (CSAN3), com -4,96%, a R$ 3,28; e Hapvida (HAPV3), com -4,95%, a R$ 9,79.
No caso da RD Saúde, o movimento também ocorreu depois da forte valorização registrada nos pregões anteriores, quando os investidores haviam reagido aos resultados trimestrais da companhia.
Só seis ações conseguiram fechar em alta
A ponta positiva foi bastante restrita. A CSN Mineração (CMIN3) liderou os ganhos com alta de 2,01%, a R$ 5,57.
A Natura (NATU3) avançou 1,49%, a R$ 8,20, seguida pela MBRF (MBRF3), que ganhou 1,38%, a R$ 16,16. Santander subiu 0,92%, para R$ 29,52, enquanto Brava Energia (BRAV3) teve alta de 0,81%, a R$ 18,65.
A lista de ações positivas foi completada pelo Assaí (ASAI3), com ganho de 0,25%, a R$ 8,08.
O fato de apenas seis papéis da carteira terem terminado em alta mostra que a queda não ficou limitada a uma ou duas empresas de grande peso, embora bancos, Vale e Petrobras tenham intensificado o efeito sobre a pontuação final.
Dólar sobe a R$ 5,1608 e juros futuros avançam
O dólar à vista fechou em alta de 0,98%, cotado a R$ 5,1608, na segunda sessão consecutiva de valorização diante do real.
O câmbio acompanhou a redução do apetite por ativos brasileiros depois dos dados de inflação, da ata do Copom, da pesquisa eleitoral e da revisão do JPMorgan. No exterior, o índice DXY apresentava variação pequena próximo ao fim da sessão brasileira, o que reforçou a predominância dos fatores domésticos na movimentação do real.
Na renda fixa, a curva de juros abriu em praticamente todos os trechos acompanhados. O DI de janeiro de 2028 avançou para 13,905%, enquanto o vencimento de janeiro de 2035 atingiu 14,530%.
A alta simultânea do dólar e das taxas futuras aumentou a pressão sobre companhias domésticas e ajudou a explicar a diferença entre o desempenho brasileiro e o de algumas bolsas internacionais.
Petróleo sobe e Ormuz continua no radar global
No mercado de commodities, o petróleo permaneceu como o principal foco internacional. O Brent fechou a US$ 88,91 por barril e se aproximou novamente dos US$ 90, enquanto investidores acompanharam o impasse para a normalização da navegação pelo Estreito de Ormuz.
A passagem marítima é estratégica para o abastecimento mundial de energia, e a incerteza sobre seu funcionamento mantém incorporado aos contratos um prêmio de risco geopolítico.
A alta também tem implicações monetárias. Uma permanência do petróleo em níveis elevados pode pressionar combustíveis, fretes e outros custos de produção, tornando ainda mais importante a leitura da inflação dos Estados Unidos que será divulgada nesta quarta-feira.
Para as empresas brasileiras, o comportamento das commodities produziu efeitos distintos. Petrobras não acompanhou a valorização do petróleo, enquanto Vale permaneceu pressionada mesmo com notícias positivas específicas sobre a avaliação de sua divisão de metais básicos.
Wall Street também termina no vermelho
Os principais índices americanos fecharam em queda, pressionados pela alta do petróleo e pelas preocupações sobre as consequências inflacionárias de uma eventual interrupção prolongada das rotas energéticas no Oriente Médio.
O Dow Jones caiu 0,34%, aos 53.791,85 pontos, o S&P 500 recuou 0,32%, aos 7.728,20 pontos, e o Nasdaq perdeu 0,60%, aos 26.445,45 pontos.
Na Europa, o Stoxx 600 ficou praticamente estável, com alta de 0,01%, aos 660,51 pontos.
Na Ásia, os mercados tiveram comportamento misto. O Nikkei, no Japão, avançou 2,08%, aos 66.970,22 pontos, enquanto o Hang Seng, em Hong Kong, caiu 1,10%, aos 25.652,82 pontos.
O resultado internacional adicionou pressão ao fim do pregão brasileiro, mas a queda de 2,50% do Ibovespa foi significativamente mais intensa, refletindo a concentração de fatores domésticos ao longo da sessão.
Ibovespa acumula queda de 5,69% em agosto
Depois de encerrar julho aos 177.999 pontos, com valorização mensal de 3,47%, o Ibovespa passou a acumular queda de aproximadamente 5,69% em agosto até o fechamento desta terça-feira.
Apesar da correção recente, o índice ainda registra alta de cerca de 4,19% em 2026, tomando como referência os 161.125,37 pontos do último pregão de 2025.
A sequência de seis baixas reduziu de forma significativa parte da valorização acumulada anteriormente e devolveu o índice a níveis observados em janeiro.
O que acompanhar no próximo pregão
A agenda desta quarta-feira (12) terá dois eventos de peso para os mercados.
Nos Estados Unidos, o Bureau of Labor Statistics divulgará o CPI de julho, indicador que deverá ser acompanhado especialmente de perto diante da recente valorização do petróleo. O resultado poderá alterar as expectativas para a trajetória da política monetária americana e, por consequência, influenciar dólar, juros globais e ativos de mercados emergentes.
No Brasil, o Banco do Brasil (BBAS3) apresenta as informações financeiras do segundo trimestre. A atenção estará concentrada na inadimplência, no custo do crédito, nas provisões e principalmente no desempenho da carteira ligada ao agronegócio.
Investidores também continuarão acompanhando a evolução das negociações envolvendo Estados Unidos, Irã e o Estreito de Ormuz, além da repercussão doméstica das pesquisas eleitorais e do comportamento do fluxo estrangeiro na B3.








