O Ibovespa opera em queda nesta terça-feira (13), no primeiro pregão após o feriado nacional, interrompendo o movimento de valorização que levou a Bolsa brasileira a renovar seus recordes históricos na semana passada. A realização de lucros ocorre em meio à divulgação de novas pesquisas sobre o segundo turno das eleições presidenciais, à deterioração das expectativas de inflação e à elevação do dólar e dos juros futuros. No exterior, os investidores acompanham as tensões no Oriente Médio e os resultados dos grandes bancos americanos, fatores que acrescentam volatilidade aos mercados globais.
Às 12h37, pelo horário de Brasília, o Ibovespa recuava 0,84%, aos 207.316,78 pontos, depois de oscilar entre a máxima de 209.071,98 pontos e a mínima de 206.146,15 pontos. A diferença de aproximadamente 2.926 pontos entre os extremos da sessão demonstra a intensidade dos ajustes realizados pelos investidores desde a abertura. O índice chegou a perder quase 1,4% em relação ao fechamento anterior, mas recuperou parte do terreno durante a manhã.
O movimento contrasta com o desempenho da última sexta-feira (9), quando o principal indicador da B3 avançou 1,38%, aos 209.066,90 pontos, estabelecendo um novo recorde de fechamento. Na ocasião, a máxima intradiária alcançou 209.713,45 pontos, enquanto a valorização acumulada nos cinco pregões da semana atingiu 8,82%, impulsionada principalmente pela reavaliação de ativos brasileiros após o primeiro turno presidencial.
No câmbio, o dólar comercial voltou a ultrapassar R$ 5, depois de registrar queda de aproximadamente 4,44% na semana anterior. Às 11h59, a moeda americana subia 0,45%, cotada a R$ 5,007, após atingir R$ 5,028 na máxima do dia. Os juros futuros também avançavam, pressionando especialmente empresas de varejo, construção, locação de veículos e outros setores mais sensíveis ao custo de financiamento.
Ibovespa realiza lucros depois de ganhar quase 9% em cinco pregões
A correção desta terça-feira ocorre depois de uma valorização excepcionalmente rápida do mercado brasileiro. Em 5 de outubro, primeiro pregão após o resultado do primeiro turno, o Ibovespa disparou 7,70%, aos 206.911,89 pontos, em um movimento acompanhado pela queda do dólar e pelo fechamento das taxas de juros futuros.
A alta prosseguiu de maneira irregular nos dias seguintes, até culminar no recorde de sexta-feira. No acumulado de outubro até aquela sessão, o índice registrava valorização de 12,20%, enquanto os ganhos em 2026 chegavam a 29,75%.
Esse desempenho criou condições para uma realização de lucros, especialmente entre investidores que haviam ampliado posições em empresas de maior risco ou mais dependentes de uma trajetória favorável da política monetária.
Quando as ações acumulam ganhos expressivos em poucos pregões, parte dos participantes do mercado tende a reduzir posições para preservar os retornos obtidos. O movimento pode ocorrer mesmo sem mudanças relevantes nos fundamentos das companhias, principalmente quando novos acontecimentos aumentam a incerteza sobre as expectativas utilizadas na avaliação dos ativos.
O consultor sênior da ZERO Markets Brasil, Otávio Araújo, atribuiu a pressão vendedora à combinação entre o retorno das negociações após o feriado, as pesquisas eleitorais e o cenário internacional. Na avaliação do especialista, a correção representa inicialmente um ajuste de posições, sem configurar necessariamente uma reversão duradoura da tendência de alta.
A dimensão do recuo também precisa ser considerada em perspectiva. Mesmo na mínima desta terça-feira, aos 206.146 pontos, o Ibovespa permanecia aproximadamente 14 mil pontos acima do fechamento de 2 de outubro, último pregão anterior ao primeiro turno presidencial.
A comparação indica que a correção ainda devolvia apenas uma parte da valorização acumulada desde o início do mês, embora a intensidade das oscilações revele um mercado mais sensível às novas informações econômicas e políticas.
Vale e bancos pressionam Bolsa, enquanto Petrobras avança
O desempenho das ações de maior participação no Ibovespa ajuda a explicar por que o índice registrava perdas apesar da valorização de algumas companhias importantes.
A Vale (VALE3) operava em baixa, acompanhando o recuo do minério de ferro no mercado chinês. Às 11h24, os papéis da mineradora caíam 1,38%, negociados a R$ 66,96. Na Bolsa de Dalian, o contrato futuro da commodity encerrou as negociações diurnas em queda de 1,10%, a 677 yuans por tonelada.
O movimento reflete a sensibilidade das mineradoras às condições de demanda e aos preços internacionais de matérias-primas. Como a Vale possui peso relevante na composição do Ibovespa, sua desvalorização exerce pressão sobre o resultado agregado do índice.
Os principais bancos brasileiros também contribuíam para o desempenho negativo. Às 11h29, as ações preferenciais do Itaú Unibanco (ITUB4) recuavam 1,76%, enquanto as do Bradesco (BBDC4) perdiam 1,72%. Santander Brasil (SANB11) e Banco do Brasil (BBAS3) apresentavam quedas de 0,62% e 0,16%, respectivamente.
A pressão sobre o setor bancário ocorre após uma semana de forte valorização das instituições financeiras, favorecidas anteriormente pela queda dos juros futuros e pela melhora da percepção de risco sobre os ativos domésticos.
Em sentido contrário, a Petrobras apresentou desempenho positivo. Às 12h55, as ações ordinárias PETR3 subiam 1,28%, enquanto as preferenciais PETR4 avançavam 1,39%, contribuindo para limitar a queda do Ibovespa.
O movimento das ações da estatal ocorreu apesar da oscilação dos preços internacionais do petróleo. Às 12h21, o barril do WTI avançava 0,13%, a US$ 93,86, enquanto o Brent recuava 0,74%, a US$ 105,86.
A divergência entre os preços do petróleo e o comportamento dos papéis da Petrobras mostra que a avaliação da empresa não depende exclusivamente da commodity. Expectativas sobre produção, margens de refino, dividendos, investimentos e política de preços também influenciam as decisões dos investidores.
VAMOS3 e Localiza lideram quedas entre ações do Ibovespa
A correção atingiu com maior intensidade empresas que acumulavam valorização expressiva ou apresentam sensibilidade elevada às condições de financiamento.
Às 12h12, a Vamos (VAMO3) liderava as perdas entre os componentes do Ibovespa, com queda de 9,33%, a R$ 6,22. A Localiza (RENT3) aparecia em seguida, recuando 6,40%, a R$ 51,02.
Também figuravam entre as maiores baixas C&A (CEAB3), com desvalorização de 5,82%, Lojas Renner (LREN3), que perdia 4,38%, e Hypera (HYPE3), com queda de 3,97%.
A concentração de perdas em locadoras de veículos e varejistas está relacionada, entre outros fatores, à sensibilidade desses negócios às taxas de juros. Empresas que dependem de financiamento para expandir suas operações ou manter estoques podem ter suas expectativas de lucro afetadas quando o mercado passa a exigir taxas de retorno mais elevadas.
A queda da Localiza ocorreu também em um momento de revisão das preferências dos analistas para o setor de transportes. Em relatório divulgado nesta terça-feira, o JPMorgan elevou a recomendação da Rumo (RAIL3) para exposição acima da média e reduziu a classificação da Localiza para neutra, citando a valorização recente dos papéis e a relação entre risco e retorno.
Na ponta positiva, a Prio (PRIO3) liderava os ganhos às 12h14, com alta de 2,05%, a R$ 65,77. A Brava Energia (BRAV3) avançava 2,04%, seguida por Telefônica Brasil (VIVT3), com 1,81%, Ambev (ABEV3), com 1,44%, e Metalúrgica Gerdau (GOAU4), que subia 1,38%.
A distribuição dos ganhos e perdas indica que a pressão vendedora não estava concentrada em uma única companhia. O recuo alcançava diferentes setores, embora algumas empresas de energia e consumo apresentassem resistência à correção.
Pesquisas BTG/Nexus e PoderData mostram empate técnico nas eleições
A divulgação de novas pesquisas sobre a eleição presidencial acrescentou incerteza à sessão. O levantamento BTG/Nexus, publicado nesta terça-feira, mostrou Flávio Bolsonaro (PL) com 48% das intenções de voto, contra 45% do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na simulação estimulada para o segundo turno.
Considerando apenas os votos válidos, o resultado foi de 52% para Flávio e 48% para Lula. A pesquisa entrevistou 2.002 eleitores por telefone entre 10 e 12 de outubro, com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-07997/2026.
O resultado configura empate técnico, considerando a margem de erro informada pelo instituto.
Outra pesquisa divulgada nesta terça-feira, realizada pelo PoderData em parceria com a Aya, apontou Flávio Bolsonaro com 51% dos votos válidos e Lula com 49%. O levantamento ouviu 3 mil eleitores entre 10 e 12 de outubro, em 686 municípios, com margem de erro de 1,8 ponto percentual e nível de confiança de 95%.
Na comparação com a rodada anterior do PoderData, divulgada em 8 de outubro, a diferença numérica entre os candidatos diminuiu de seis para dois pontos percentuais.
Para os investidores, os levantamentos são relevantes porque influenciam as expectativas sobre a condução da política econômica a partir de 2027. Gestores procuram avaliar propostas relacionadas ao equilíbrio fiscal, regras orçamentárias, tributação e política de investimentos.
A valorização da Bolsa depois do primeiro turno esteve associada, segundo participantes do mercado, à expectativa de um possível ajuste fiscal em um eventual governo Flávio Bolsonaro. Essa interpretação, entretanto, permanece sujeita às propostas efetivamente apresentadas pelos candidatos e às condições de implementação de suas políticas.
A existência de empate técnico nas pesquisas também demonstra que não há definição eleitoral. Oscilações nas intenções de voto não permitem determinar o resultado da eleição nem estabelecem, isoladamente, uma relação causal com o movimento dos preços dos ativos.
Boletim Focus eleva inflação de 2026 para 5,22%
O cenário macroeconômico acrescentou outro elemento de cautela ao pregão. O Relatório Focus divulgado pelo Banco Central nesta terça-feira mostrou que a mediana das expectativas para a inflação brasileira de 2026 aumentou de 5,01% para 5,22%, na quarta semana consecutiva de elevação.
A projeção supera o limite superior de 4,5% do regime de metas de inflação, cujo objetivo central é de 3%. Para 2027, a estimativa permaneceu em 4,30%, enquanto as medianas para 2028 e 2029 ficaram em 3,79% e 3,50%, respectivamente.
A revisão ocorre depois que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou que o IPCA avançou 0,82% em setembro, acumulando alta de 4,58% em 12 meses. O resultado foi pressionado por aumentos de preços em diferentes grupos de consumo, incluindo energia elétrica e transportes.
Apesar da piora nas expectativas inflacionárias, os economistas consultados pelo Banco Central reduziram de 13,50% para 13,25% a projeção da taxa Selic ao final de 2026. Para dezembro de 2027, a estimativa permaneceu em 12%.
A combinação de inflação mais elevada e expectativa de redução dos juros exige atenção porque pode limitar o espaço para flexibilização monetária caso as pressões sobre os preços persistam.
Para a Bolsa, os efeitos não são uniformes. Empresas com elevado endividamento tendem a se beneficiar de taxas menores, enquanto companhias com receitas vinculadas ao dólar ou preços internacionais podem responder de maneira diferente às oscilações cambiais.
A revisão do Focus reforça, portanto, a necessidade de avaliar as ações não apenas pela expectativa de queda dos juros, mas também pela capacidade das empresas de preservar margens e resultados em um ambiente de inflação mais persistente.
FMI reduz previsão de crescimento do Brasil para 2,2% em 2026
O ambiente econômico também foi influenciado pela divulgação das novas projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI). No relatório de outubro, a instituição reduziu de 2,4% para 2,2% a expectativa de crescimento do Produto Interno Bruto brasileiro em 2026.
Para 2027, o FMI passou a projetar expansão de 1,9%, refletindo um cenário de juros elevados, menor impulso fiscal e dificuldades associadas às condições financeiras internacionais.
A revisão contrasta com a perspectiva mundial. O Fundo elevou ligeiramente sua estimativa de crescimento global em 2026, de 3% para 3,1%, apoiada principalmente pela expansão dos investimentos ligados à inteligência artificial.
O relatório também alerta para riscos decorrentes da guerra no Oriente Médio, dos preços elevados da energia e do aumento do endividamento de diferentes economias.
Para o Brasil, a perspectiva de crescimento mais moderado reforça a importância da evolução do crédito, do consumo e dos investimentos. Uma atividade econômica menos dinâmica pode limitar a expansão das receitas empresariais, embora seus efeitos dependam das características de cada setor.
Petróleo, Wall Street e balanços americanos ampliam volatilidade
No exterior, o pregão ocorre em meio à reavaliação das expectativas para os resultados corporativos americanos e à continuidade das tensões geopolíticas.
Em Nova York, os principais índices abriram sem direção única. Por volta das 10h31, o Dow Jones avançava 0,69%, enquanto o S&P 500 recuava 0,04% e o Nasdaq perdia 0,30%.
A temporada de balanços do terceiro trimestre ganhou força com a divulgação dos resultados de grandes instituições financeiras, incluindo JPMorgan Chase, Goldman Sachs e Wells Fargo.
Os investidores também acompanham o desempenho das empresas de tecnologia, especialmente diante das dúvidas sobre a sustentabilidade dos investimentos em inteligência artificial. A pressão recente sobre fabricantes de semicondutores na Ásia acrescentou cautela aos mercados internacionais.
No setor de energia, os preços do petróleo permanecem sensíveis às informações sobre o conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. A possibilidade de interrupções na produção e no transporte de combustíveis mantém elevados os riscos de novas oscilações nas cotações internacionais.
Para a economia brasileira, esses fatores podem produzir efeitos distintos. A valorização do petróleo tende a favorecer determinadas empresas produtoras, mas também pode ampliar pressões inflacionárias e afetar o custo de transporte e produção.
O que esperar do Ibovespa nos próximos pregões?
Depois de uma semana de valorização excepcional, o comportamento do Ibovespa dependerá da capacidade dos investidores de absorver novas informações sem ampliar a realização de lucros.
Do ponto de vista técnico, a região de 209.713 pontos, correspondente à máxima histórica alcançada na sexta-feira, constitui uma referência importante para avaliar eventual retomada das compras. Já a faixa próxima de 204 mil pontos aparece entre os suportes acompanhados por analistas gráficos.
Esses patamares não representam garantias de comportamento futuro, mas referências utilizadas para observar a intensidade dos movimentos compradores e vendedores.
A agenda dos próximos dias inclui novas pesquisas eleitorais, indicadores do comércio varejista e o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), referente a agosto. Também continuará no radar a discussão legislativa sobre a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1.
No exterior, a divulgação de indicadores de inflação dos Estados Unidos e a evolução da temporada de balanços poderão influenciar as expectativas sobre os juros americanos, com efeitos sobre o dólar e os mercados emergentes.
A sessão desta terça-feira mostra que a Bolsa brasileira entrou em uma fase de maior seletividade depois da alta histórica registrada no início de outubro. A recuperação de parte das perdas ao longo da manhã indica que ainda existe demanda por determinados ativos, especialmente empresas de energia, mas o avanço dos juros e do dólar impõe obstáculos à continuidade da valorização generalizada.
A correção observada até o início da tarde ainda não elimina os ganhos expressivos acumulados desde o primeiro turno. Sua continuidade dependerá da evolução das expectativas econômicas, dos resultados corporativos e da percepção de risco dos investidores.
Com o Ibovespa próximo dos 207 mil pontos, o mercado passa a testar se o movimento recente de valorização possui sustentação suficiente para superar novas rodadas de volatilidade, ou se precisará de um período mais prolongado de acomodação antes de buscar outros recordes.








