O estrategista político Jason Miller, integrante da equipe de comunicação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi apontado como um dos participantes de um encontro de aliados da família Bolsonaro em Miami durante a apuração das eleições brasileiras, em 25 de outubro. Os relatos divulgados nesta sexta-feira (30) situam o norte-americano no mesmo evento frequentado por Eduardo Bolsonaro, dois dias antes da saída de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) do Brasil e três dias antes de sua chegada aos Estados Unidos.
A participação de Miller na viagem do senador foi confirmada pelo próprio assessor a jornalistas na quinta-feira (29). Ele reconheceu ter providenciado o jato particular utilizado por Flávio, sua mulher e suas duas filhas no deslocamento da Argentina até Miami, com escala no Equador. A viagem ocorreu depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou medidas cautelares contra o parlamentar, incluindo a entrega de passaportes e a proibição de deixar o território brasileiro.
O episódio colocou a atuação de um integrante da administração Trump no centro de uma controvérsia envolvendo uma decisão da Justiça brasileira. A Polícia Federal confirmou que investiga as circunstâncias da saída de Flávio do país, mas esclareceu expressamente que a existência de restrições sobre documentos de viagem não caracteriza, por si só, a condição jurídica de foragido.
A relação entre Miller e os irmãos Bolsonaro já era pública antes da eleição. O estrategista participou de atividades políticas ligadas ao grupo, manifestou apoio à candidatura presidencial de Flávio e criticou decisões judiciais brasileiras. A organização do transporte aéreo, entretanto, acrescentou uma dimensão operacional a esse relacionamento, até então identificado principalmente por declarações públicas e articulações políticas.
Encontro em Miami reuniu aliados de Bolsonaro durante a apuração
O evento realizado na Freedom Tower, em Miami, reuniu aproximadamente 400 pessoas ligadas ao bolsonarismo para acompanhar o segundo turno presidencial de 25 de outubro. Eduardo Bolsonaro participou da programação ao lado de Paulo Figueiredo e Alexandre Ramagem, integrantes do grupo político que atua nos Estados Unidos.
Informações divulgadas em 30 de outubro apontam que Jason Miller também esteve no encontro, circulando entre uma área reservada para convidados e o auditório principal. Segundo esses relatos, o assessor demonstrava confiança em uma vitória de Flávio Bolsonaro durante parte da apuração, mas deixou o local quando o resultado começou a favorecer Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Eduardo Bolsonaro também teria se retirado antes do encerramento da divulgação dos votos. A presença de Miller no evento e os detalhes de seu comportamento foram apresentados em relatos jornalísticos, sem que documentos oficiais consultados permitam confirmar independentemente os horários de sua chegada e saída.
A realização do encontro ocorreu em meio à mobilização de apoiadores do candidato brasileiro nos Estados Unidos. Durante o segundo turno, integrantes do grupo questionaram decisões da Justiça Eleitoral, especialmente a ampliação do horário de votação determinada pelo ministro Cristiano Zanin, do STF.
O resultado oficial foi anunciado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na noite de domingo. Lula obteve 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro recebeu 59.826.041 votos, ou 48,21%.
A diferença final foi de 4.430.191 votos, correspondente a 3,58 pontos percentuais. O resultado foi reconhecido oficialmente pelo presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, que declarou a reeleição de Lula.
Jason Miller providenciou jato particular utilizado por Flávio Bolsonaro
A organização da viagem de Flávio Bolsonaro começou a ser articulada após a determinação judicial de entrega de documentos de viagem. O senador havia sido intimado pela Polícia Federal na manhã de segunda-feira (26), mas não cumpriu o prazo de 24 horas estabelecido para apresentar eventuais passaportes de outras nacionalidades.
Segundo as informações disponíveis sobre a operação, Miller participou da obtenção da aeronave utilizada no deslocamento internacional. O avião, um Gulfstream G400 de matrícula LV-JQW, operado pela empresa argentina Baires Fly, transportou Flávio e seus familiares até os Estados Unidos.
O trajeto passou por Puerto Iguazú, na Argentina, e Guayaquil, no Equador, antes de terminar no Aeroporto Executivo de Opa-locka, próximo a Miami, na quarta-feira (28).
Autoridades migratórias argentinas informaram que o senador e sua família ingressaram no país na noite de terça-feira (27), após atravessar a fronteira terrestre com o Brasil na região de Foz do Iguaçu.
O desembarque em território norte-americano ocorreu na manhã seguinte. Registros de monitoramento aéreo e imagens da chegada confirmaram a presença do senador e dos familiares na aeronave.
A participação de Miller na logística foi confirmada pelo próprio estrategista em 29 de outubro. Permanecem sem esclarecimento público suficiente os detalhes financeiros da contratação do avião, quem arcou com os custos e se foram empregados recursos governamentais norte-americanos na operação.
A confirmação de que um assessor da Casa Branca providenciou o transporte não significa, isoladamente, que a viagem tenha sido executada como uma missão oficial do governo dos Estados Unidos.
Polícia Federal confirma investigação sobre saída do senador
Em comunicado publicado em 28 de outubro, a Polícia Federal informou que havia solicitado ao STF, no próprio dia da eleição, medidas cautelares contra Flávio Bolsonaro no âmbito da Petição nº 16.877, diante de um risco identificado de saída do país.
As providências solicitadas incluíam apreensão de passaportes, proibição de viagem internacional e restrições de contato com outros investigados.
Após a decisão judicial, os passaportes brasileiros comum e diplomático do parlamentar foram cancelados. A PF também inseriu um alerta migratório no Sistema Nacional de Alertas e Restrições, utilizado para o controle de deslocamentos internacionais.
A corporação informou não possuir registro oficial da saída do senador pelos postos brasileiros de fiscalização migratória. Esse dado não significa que sua presença no exterior seja desconhecida: a chegada aos Estados Unidos foi documentada, e autoridades argentinas divulgaram informações sobre a passagem da família pelo país.
O objeto da investigação é esclarecer as circunstâncias do deslocamento e do descumprimento das determinações judiciais. A eventual responsabilização penal dependerá da apuração dos fatos e das decisões das autoridades competentes.
Em sua manifestação oficial, a PF também fez uma ressalva jurídica sobre a situação do parlamentar: as restrições existentes não autorizam automaticamente sua prisão ou a classificação como foragido.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, sustenta que sofre perseguição política e contesta as medidas adotadas pela Justiça brasileira. O senador também questionou o resultado da eleição presidencial, sem apresentar elementos capazes de invalidar a totalização oficial dos votos.
Críticas à prorrogação da votação são confrontadas por dados do TSE
A atuação pública de Jason Miller durante o segundo turno incluiu críticas à decisão do ministro Cristiano Zanin que permitiu a continuidade da votação até as 19h, pelo horário de Brasília.
O assessor questionou a imparcialidade da medida e, posteriormente, publicou mensagens que colocavam em dúvida a vitória de Lula.
A decisão de Zanin, entretanto, não determinou a reabertura indiscriminada de todas as seções eleitorais. Conforme esclarecimento oficial do TSE publicado em 25 de outubro, a continuidade da votação foi autorizada apenas nos locais em que o procedimento ainda não havia sido encerrado às 17h.
A Justiça Eleitoral também registrou que as duas candidaturas presidenciais haviam relatado dificuldades relacionadas ao transporte de eleitores. Os pedidos e as manifestações, portanto, não ficaram restritos à campanha do presidente reeleito.
Em levantamento atualizado em 29 de outubro, o TSE informou que 34.393 votos foram registrados após as 17h em território nacional. Desse total, 32.399 foram computados entre 17h e 18h, outros 1.981 entre 18h e 19h e apenas 13 depois das 19h.
A comparação desses números com o resultado presidencial permite dimensionar a controvérsia. A diferença final entre Lula e Flávio foi aproximadamente 129 vezes superior ao total de votos registrados depois das 17h.
Mesmo na hipótese matemática extrema de que todos esses votos fossem atribuídos a apenas um dos candidatos, o quantitativo corresponderia a menos de 0,8% da vantagem obtida por Lula. Essa comparação não representa uma recontagem nem identifica a distribuição dos votos por candidato, mas demonstra que o volume registrado após o horário inicialmente previsto não seria suficiente para inverter o resultado nacional.
O presidente do TSE reconheceu que a decisão de prorrogar a votação exigiu adaptações técnicas e operacionais. Entre as providências adotadas esteve a suspensão temporária do recebimento dos boletins de urna e da divulgação dos resultados até as 19h.
Essas dificuldades administrativas foram registradas oficialmente, mas não constituem comprovação de fraude eleitoral.
Relação de Miller com os Bolsonaro antecede eleição presidencial
Jason Miller atua há anos na comunicação política ligada a Donald Trump. O estrategista participou de campanhas do republicano e manteve proximidade com integrantes do movimento conservador norte-americano.
Sua relação com a família Bolsonaro também antecede a disputa presidencial de 2026. Miller participou de eventos políticos com integrantes do grupo, manifestou apoio público a Flávio e criticou decisões do ministro Alexandre de Moraes, do STF.
Em maio, o norte-americano acompanhou uma entrevista coletiva realizada após uma reunião entre Flávio Bolsonaro e Trump, na Casa Branca. Na ocasião, apresentou sua presença como demonstração de apoio político, embora tenha afirmado não ter participado diretamente do encontro realizado no Salão Oval.
O assessor também declarou que a escolha do presidente brasileiro caberia aos eleitores do país, apesar de manifestar confiança no candidato do PL.
Em agosto de 2026, Miller voltou a exercer funções de assessoramento político na administração Trump, em meio à preparação do Partido Republicano para as eleições legislativas norte-americanas.
Essa condição tornou sua participação na viagem de Flávio um assunto que ultrapassa a relação pessoal entre aliados políticos. O envolvimento de alguém vinculado à Casa Branca em uma operação relacionada a um parlamentar submetido a medidas judiciais brasileiras suscita questões sobre a natureza da assistência prestada e a eventual participação institucional de Washington.
Até o momento, não há comprovação pública de que Miller tenha utilizado recursos oficiais para financiar o voo ou de que o governo norte-americano tenha participado diretamente da saída do senador do território brasileiro.
Viagem de Flávio amplia atenção sobre relações entre Brasil e Estados Unidos
O episódio ocorre durante a transição política brasileira após a reeleição de Lula e em um momento de incerteza sobre a posição da administração Trump diante do resultado presidencial.
O presidente norte-americano autorizou a entrada de Flávio e seus familiares nos Estados Unidos, segundo informações divulgadas após o desembarque. A medida, contudo, não equivale ao reconhecimento de uma vitória eleitoral do senador nem altera os efeitos das decisões judiciais brasileiras.
A chegada de Flávio ao país também ocorreu após declarações do parlamentar nas quais se apresentou como vítima de perseguição política. Em manifestações posteriores, ele contestou a legitimidade da eleição e agradeceu o apoio recebido de aliados estrangeiros.
Do ponto de vista institucional, permanecem três questões distintas: as circunstâncias da saída de Flávio do Brasil, a participação de Miller na organização do transporte e as condições migratórias que permitiram a entrada da família em território norte-americano.
A Polícia Federal conduz a apuração sobre o eventual descumprimento das ordens judiciais brasileiras. Já a atuação do assessor de Trump e as condições de ingresso nos Estados Unidos dependem de esclarecimentos das autoridades e dos envolvidos naquele país.
O resultado da eleição presidencial, por sua vez, permanece formalmente consolidado pelo TSE. A relação entre integrantes do governo norte-americano e aliados de Flávio Bolsonaro poderá produzir novos desdobramentos políticos e diplomáticos, mas não modifica a votação oficialmente totalizada em 25 de outubro.
Fontes:
Tribunal Superior Eleitoral — balanço oficial do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, publicado em 26 de outubro.
Tribunal Superior Eleitoral — esclarecimento de 25 de outubro sobre a decisão judicial de prorrogação do horário de votação.
Tribunal Superior Eleitoral — levantamento atualizado em 29 de outubro sobre os votos registrados depois das 17h.
Polícia Federal — nota oficial de 28 de outubro sobre as medidas cautelares impostas a Flávio Bolsonaro e a investigação das circunstâncias de sua saída do Brasil.
Organização dos Estados Americanos — comunicado sobre a missão internacional de observação do segundo turno das eleições brasileiras de 2026.








