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Justiça da Bahia suspende venda bilionária de mina de ouro entre canadenses e chineses

por João Souza
04/03/2026 às 11h15
em Negócios
Justiça Da Bahia Suspende Venda Bilionária De Mina De Ouro Entre Canadenses E Chineses - Gazeta Mercantil

Foto: Reprodução / Brasil Mineral

Justiça da Bahia suspende venda bilionária de mina de ouro entre canadenses e chineses

A venda bilionária de uma mina de ouro na Bahia, envolvendo grupos canadenses e chineses, foi suspensa pela Justiça estadual nesta quarta-feira (3), gerando impacto imediato no mercado de mineração e colocando em evidência os desafios regulatórios do setor mineral brasileiro. A decisão atende a um pedido da Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM), autarquia vinculada ao governo estadual, que questiona a legalidade da transação e a falta de comunicação formal sobre o negócio.

O acordo original previa que a Equinox Gold, mineradora canadense com operações em Minas Gerais, Maranhão e Bahia, transferisse o controle de todos os seus ativos brasileiros para a CMOC, companhia chinesa considerada uma das maiores do setor global. O valor total da negociação ultrapassa US$ 1 bilhão, sendo US$ 900 milhões pagos no fechamento e US$ 115 milhões adicionais após um ano.

Leia também: B3 suspende ações da Oi (OIBR3) após decretação de falência: entenda o impacto no mercado.

Contrato de arrendamento e disputa judicial

No centro da disputa está o contrato de arrendamento da mina firmado entre a CBPM e a Equinox, operacionalizado por meio da empresa Santa Luz. De acordo com Henrique Carballal, presidente da CBPM, qualquer negociação envolvendo terceiros depende da anuência prévia da estatal. Em fevereiro, Carballal convocou representantes da Equinox e da CMOC para reunião na sede da CBPM e anunciou que a autarquia recorrereria ao Judiciário diante da ausência de comunicação formal.

A Equinox, por sua vez, defende que a titularidade do direito minerário permanece sob a Santa Luz, agora administrada pela CMOC, e que todas as obrigações contratuais foram cumpridas durante a transação. A empresa reafirmou a disposição para diálogo com o governo estadual, garantindo a continuidade das operações e o cumprimento da legislação vigente.

Leia também: Ouro mantém-se em níveis istóricos com apoio da demanda chinesa e de bancos centrais.

O juiz Dario Gurgel de Castro acolheu parcialmente os argumentos da CBPM, destacando que, mesmo sem alteração formal da personalidade jurídica da arrendada, a mudança de controle societário pode afetar elementos que fundamentam a confiança da administração pública, incluindo critérios técnicos, gerenciais, financeiros e fiscais.

Apesar da suspensão da venda, a atividade operacional no complexo minerário permanece em andamento. A CMOC já opera a mina desde 23 de janeiro, conforme balanço financeiro divulgado pela Equinox. A decisão judicial determinou que as empresas apresentem documentação detalhada sobre a venda, mas rejeitou o pedido da CBPM para retomada imediata da área arrendada.

Leia também: Justiça manda leiloar marcas da Chapecó Alimentos por R$ 82 milhões.

Impacto econômico e relevância estratégica da mina

O complexo minerário baiano é considerado o ativo mais rentável da Equinox no Brasil. Em 2024, as duas minas localizadas no estado geraram receita de US$ 290 milhões, representando cerca de metade do faturamento nacional da mineradora e aproximadamente um quinto da receita global. A interrupção ou anulação da venda pode afetar não apenas os resultados financeiros das empresas envolvidas, mas também a percepção de investidores estrangeiros sobre o ambiente regulatório do setor de mineração no país.

Além disso, a valorização histórica do ouro em 2025 e 2026, impulsionada por tensões geopolíticas internacionais, aumenta a importância estratégica do ativo. O mercado acompanha atentamente a movimentação judicial, que pode servir de precedente para futuras transações envolvendo recursos minerais no Brasil.

Repercussões sobre contratos de mineração e compliance

Especialistas em direito mineral destacam que o caso evidencia a complexidade dos contratos de arrendamento de áreas minerais no país. A anuência de autoridades estaduais e a necessidade de observância rigorosa de cláusulas contratuais são pontos centrais, especialmente em operações de alto valor e relevância estratégica.

O episódio também reforça a necessidade de compliance robusto em transações internacionais de mineração. A ausência de comunicação formal à CBPM foi suficiente para acionar o Judiciário, demonstrando que contratos de arrendamento não podem ser tratados como meras formalidades, mas sim como instrumentos que asseguram direitos, obrigações e fiscalização por parte do Estado.

Perspectivas e possíveis desdobramentos

A suspensão judicial da venda coloca em evidência o papel do Estado como regulador e guardião do patrimônio mineral. Caso a operação seja anulada, toda a negociação entre a Equinox e a CMOC pode ser impactada, gerando repercussões financeiras significativas. A Equinox já havia anunciado que os recursos da venda seriam utilizados para quitar empréstimos de US$ 800 milhões e reduzir despesas com juros, o que torna o desfecho do caso ainda mais relevante para a saúde financeira da companhia.

O cenário também acende um alerta para investidores internacionais, que avaliam não apenas o potencial de retorno econômico de ativos minerais no Brasil, mas também o grau de segurança jurídica para operações de grande porte. Decisões judiciais que suspendem transações podem gerar volatilidade no setor e influenciar a percepção sobre o risco-país.

O contexto global e a valorização do ouro

O momento da negociação coincide com uma valorização histórica do ouro, impulsionada por incertezas geopolíticas e pressões econômicas globais. Commodities preciosas têm se mostrado refúgios seguros para investidores diante de crises internacionais, e minas estratégicas, como a localizada na Bahia, ganham destaque tanto do ponto de vista econômico quanto geopolítico.

A presença da CMOC no Brasil reforça o interesse crescente de empresas chinesas em ativos de alto valor em mercados estratégicos. Ao mesmo tempo, o controle regulatório exercido por estados brasileiros, por meio de autarquias como a CBPM, demonstra que operações internacionais estão sujeitas a supervisão rigorosa, que pode alterar cronogramas e planos de expansão.

Desdobramentos para o setor de mineração brasileiro

O caso da mina de ouro na Bahia evidencia a tensão entre expansão internacional e regulação local. Empresas estrangeiras que atuam no Brasil devem considerar cuidadosamente contratos de arrendamento, cláusulas de anuência e comunicação formal com autoridades para evitar questionamentos judiciais que possam comprometer operações de alto valor.

Para o setor, o episódio serve como alerta para maior transparência e diligência em negociações, bem como reforça a importância de entendimento profundo do arcabouço regulatório estadual e federal. A decisão judicial, embora não interrompa imediatamente a produção, estabelece precedentes que podem influenciar futuras transações bilionárias no setor de mineração brasileiro.

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