O ouro encerrou esta sexta-feira (17) novamente acima de US$ 4 mil por onça-troy, impulsionado pela intensificação do conflito entre Estados Unidos e Irã, pela busca por ativos de proteção e pelo recuo dos rendimentos dos títulos públicos norte-americanos de longo prazo. O avanço diário, entretanto, não foi suficiente para apagar as perdas acumuladas ao longo da semana, período marcado pela oscilação das expectativas sobre inflação, petróleo e política monetária nos Estados Unidos.
Na Comex, divisão de metais da CME Group em Nova York, o contrato de ouro com vencimento em agosto subiu 0,66%, para US$ 4.018,80 por onça-troy. No acumulado da semana, o metal recuou 2,30%.
A prata para setembro avançou 0,25% na sessão, a US$ 56,326 por onça-troy, mas terminou a semana com desvalorização de 6,4%. O desempenho mais fraco reflete a dupla natureza da prata, que funciona como metal precioso e, ao mesmo tempo, como insumo industrial.
A reação do ouro nesta sexta-feira ocorreu em um ambiente de queda moderada dos rendimentos dos Treasuries. A taxa do título norte-americano de dez anos passou de 4,57% na quinta-feira para 4,55%, enquanto o rendimento de 30 anos recuou de 5,09% para 5,06%.
A redução aparentemente pequena é relevante para o mercado de metais preciosos. Como o ouro não paga juros nem dividendos, seu custo de oportunidade diminui quando os títulos públicos oferecem remuneração menor.
Alta diária não reverte correção semanal
A valorização desta sexta-feira deve ser interpretada dentro de um movimento mais amplo de correção.
O ouro atravessou o primeiro semestre de 2026 em patamares historicamente elevados, sustentado por conflitos geopolíticos, demanda de bancos centrais, compras de fundos e dúvidas sobre a trajetória da inflação global.
O preço médio do metal no primeiro trimestre alcançou US$ 4.873 por onça, segundo o World Gold Council. Em janeiro, a cotação de referência chegou a atingir uma máxima histórica próxima de US$ 5.405.
O fechamento a US$ 4.018,80 mostra que o ouro permanecia aproximadamente 26% abaixo do pico de janeiro, apesar de continuar muito acima dos padrões observados antes da atual fase de tensão econômica e geopolítica.
Essa distância ajuda a explicar a volatilidade. Investidores que compraram o metal em níveis inferiores podem realizar lucros durante períodos de estabilização, enquanto novas ondas de risco atraem compradores interessados em proteção.
A queda semanal de 2,30% não representa, portanto, uma reversão definitiva da tendência de longo prazo. Ela mostra que o ouro passou a responder simultaneamente a forças favoráveis e adversas.
De um lado estão guerras, tarifas comerciais, compras oficiais e incerteza sobre moedas. Do outro estão juros reais elevados, fortalecimento eventual do dólar e a necessidade de liquidez por parte dos investidores.
Conflito com o Irã aumenta prêmio de segurança
A escalada militar no Oriente Médio voltou a elevar a procura por ativos considerados defensivos.
O Comando Central dos Estados Unidos informou ter realizado novas ondas de ataques contra alvos iranianos durante a semana, incluindo operações nos dias 13, 14, 15 e 16 de julho.
A continuidade das ações aumentou o risco de interrupções no fornecimento de energia e nas rotas comerciais da região. O petróleo avançou fortemente na semana diante da possibilidade de redução das exportações e de novas restrições à navegação.
O ouro costuma se beneficiar de crises geopolíticas porque não representa uma obrigação financeira de um governo ou de uma empresa. Uma barra de ouro não depende da capacidade de pagamento de um emissor.
Essa característica diferencia o metal dos títulos de dívida, dos depósitos bancários e de outros instrumentos financeiros. Em situações extremas, investidores atribuem valor à ausência de risco de crédito.
O efeito, contudo, não é automático. Uma guerra que provoca inflação pode elevar as taxas de juros e fortalecer o dólar, fatores normalmente negativos para o ouro.
O impacto final depende de qual movimento domina: a procura por segurança ou o aumento da remuneração dos ativos concorrentes.
Nesta sexta-feira, a queda dos rendimentos longos permitiu que o componente defensivo prevalecesse. No acumulado semanal, a preocupação com inflação e juros ainda limitou o desempenho.
Petróleo cria efeito contraditório para o ouro
A alta do petróleo produz consequências ambíguas para os metais preciosos.
No primeiro momento, o aumento das cotações amplia a percepção de risco geopolítico e pode fortalecer a procura por ouro. Investidores buscam proteção contra possíveis interrupções de oferta e choques sobre a economia mundial.
Em uma segunda etapa, o petróleo mais caro pressiona combustíveis, transportes, fertilizantes, produtos químicos e custos industriais. Caso o aumento persista, a inflação pode voltar a acelerar.
O ouro é frequentemente tratado como proteção contra a perda de poder de compra das moedas. Essa relação, porém, depende da resposta dos bancos centrais.
Quando a inflação sobe e a autoridade monetária mantém os juros abaixo do avanço dos preços, o ouro tende a ganhar atratividade. Quando o banco central reage com taxas reais mais altas, os títulos públicos passam a competir com o metal.
O cenário atual reúne as duas possibilidades. A guerra fortalece a demanda defensiva, mas também pode impedir que o Federal Reserve reduza os juros na velocidade esperada anteriormente.
Por isso, a cotação do ouro pode subir com uma notícia militar e cair horas depois caso o mercado conclua que o choque de energia exigirá uma política monetária mais restritiva.
Fed mantém juros e destaca inflação elevada
O Federal Reserve manteve, em junho, a taxa dos fundos federais em uma faixa entre 3,50% e 3,75% ao ano.
O intervalo permanece inalterado desde o início de 2026. A decisão reflete uma economia que continua crescendo em ritmo sólido, com mercado de trabalho relativamente estável, mas inflação ainda acima da meta de 2%.
No relatório de política monetária publicado em julho, o Fed reconheceu que a incerteza econômica aumentou com o conflito no Oriente Médio. O documento também destacou que choques de oferta elevaram preços em alguns setores, incluindo energia.
Esse diagnóstico não significa que uma nova alta dos juros esteja contratada. Ele indica que a autoridade monetária não possui, neste momento, liberdade suficiente para iniciar uma flexibilização rápida.
Para o ouro, o cenário é menos favorável do que seria um ciclo consistente de cortes.
Taxas elevadas aumentam a remuneração de títulos do Tesouro e de outros ativos denominados em dólares. O investidor passa a exigir uma valorização maior do ouro para compensar a ausência de rendimento corrente.
Ao mesmo tempo, a manutenção dos juros por um período prolongado pode ampliar riscos fiscais, financeiros e de desaceleração, fatores que também sustentam a demanda pelo metal.
Treasuries longos recuam, mas continuam acima de 5%
A queda dos rendimentos nesta sexta-feira foi concentrada principalmente nos vencimentos mais longos.
A taxa de dez anos fechou em 4,55%, dois pontos-base abaixo do dia anterior. O Treasury de 30 anos encerrou em 5,06%, queda de três pontos-base.
Mesmo depois do recuo, os níveis permanecem elevados. Um título considerado livre de risco de crédito oferecendo remuneração anual superior a 5% representa uma alternativa relevante ao ouro.
A comparação mais adequada, entretanto, não deve considerar apenas o juro nominal. O mercado observa a taxa real, obtida depois de descontada a inflação esperada.
Quanto maior o rendimento real dos Treasuries, maior tende a ser a pressão sobre o ouro. Quando a taxa real cai, o metal normalmente ganha suporte.
A relação não é perfeita porque outros fatores interferem no preço, como o dólar, as compras dos bancos centrais, os fluxos dos ETFs e a necessidade de proteção contra eventos extremos.
Ainda assim, os juros reais permanecem entre os indicadores mais importantes para explicar as oscilações diárias do ouro.
A queda dos títulos longos nesta sexta-feira ajudou o metal a recuperar o nível de US$ 4 mil, mas não eliminou a concorrência representada pela renda fixa norte-americana.
Expectativa de inflação melhora, mas continua elevada
A pesquisa preliminar da Universidade de Michigan trouxe sinais mistos para a política monetária.
O índice de confiança do consumidor subiu de 49,5 pontos em junho para 54,4 em julho, avanço de 9,9%. Apesar da recuperação, o indicador permaneceu 11,8% abaixo do registrado no mesmo mês de 2025.
A expectativa de inflação para os 12 meses seguintes caiu de 4,6% para 4,2%. O número representa melhora, mas continua acima dos 3,4% observados em fevereiro, antes da intensificação do conflito no Oriente Médio.
Para o horizonte mais longo, a expectativa permaneceu em 3,3%. O resultado também supera o intervalo entre 2,8% e 3,2% observado durante 2024.
A redução da projeção de curto prazo aliviou parcialmente a pressão sobre os Treasuries e favoreceu o ouro na sessão.
A leitura exige cautela porque mais de 70% das entrevistas foram realizadas antes da retomada dos ataques norte-americanos contra o Irã, em 7 de julho, e da alta posterior dos combustíveis.
A percepção dos consumidores pode piorar no resultado definitivo de julho caso os preços da energia permaneçam elevados.
Para o Fed, expectativas persistentemente acima da meta aumentam o risco de que reajustes se espalhem para salários, serviços e contratos. Essa possibilidade reduz o espaço para cortes antecipados dos juros.
Dólar estável retira uma barreira do caminho
O comportamento do dólar também ajudou o ouro.
Como o metal é negociado internacionalmente na moeda norte-americana, uma valorização do dólar torna sua aquisição mais cara para investidores que utilizam euros, ienes, yuans ou outras moedas.
Quando o dólar permanece estável ou perde força, o ouro tende a se tornar relativamente mais acessível fora dos Estados Unidos.
A relação não é mecânica. Em momentos de crise intensa, dólar e ouro podem subir ao mesmo tempo porque ambos são procurados como ativos de segurança.
Em períodos normais, contudo, a correlação costuma ser negativa.
Nesta sexta-feira, a ausência de uma valorização mais forte da moeda norte-americana permitiu que a queda dos rendimentos dos Treasuries e o risco geopolítico exercessem maior influência sobre a cotação.
O câmbio continuará sendo decisivo. Uma eventual percepção de que o Fed manterá os juros elevados por mais tempo poderá fortalecer o dólar e limitar novas altas do ouro.
Bancos centrais mantêm demanda estrutural
A compra de ouro pelos bancos centrais representa uma das principais mudanças estruturais do mercado.
As autoridades monetárias adquiriram 244 toneladas líquidas no primeiro trimestre de 2026, aumento de 3% sobre o mesmo período do ano anterior e de 17% em relação ao trimestre imediatamente anterior.
O volume superou a média dos cinco anos anteriores, apesar dos preços recordes e das vendas realizadas por algumas instituições.
Nos últimos quatro anos, os bancos centrais compraram, em média, cerca de mil toneladas anuais de ouro. Na década anterior, a média era próxima de 500 toneladas.
A aceleração mostra que a procura oficial não é apenas uma reação tática às oscilações da cotação. O metal passou a exercer um papel mais relevante na estratégia de diversificação das reservas internacionais.
Uma pesquisa realizada com 73 bancos centrais mostrou que 89% esperam aumento das reservas oficiais globais de ouro nos próximos 12 meses.
Além disso, 45% dos gestores consultados afirmaram que pretendem elevar as reservas de suas próprias instituições, o maior percentual registrado pela pesquisa.
As compras oficiais fornecem uma base de demanda menos sensível às oscilações diárias. Bancos centrais não operam necessariamente com os mesmos horizontes de fundos, traders ou investidores individuais.
Por que governos compram ouro
Os bancos centrais apontam três características principais: segurança, liquidez e capacidade de diversificação.
O ouro não depende do sistema de pagamentos de outro país e não possui risco de inadimplência. Também pode ser negociado em mercados profundos e utilizado como garantia em operações financeiras.
O aumento das tensões geopolíticas e das sanções internacionais ampliou o interesse por ativos que não estejam diretamente vinculados a uma única jurisdição.
Isso não significa que o ouro substituirá integralmente o dólar ou os títulos do Tesouro nas reservas. Esses instrumentos continuam essenciais para pagamentos internacionais, intervenção cambial e gestão de liquidez.
O movimento indica uma redução gradual da concentração.
Na pesquisa do World Gold Council, 84% dos bancos centrais afirmaram esperar que o ouro represente uma parcela maior das reservas mundiais em cinco anos.
Conflitos comerciais e tarifas também ganharam importância. Mais da metade dos participantes considerou essas tensões relevantes para as decisões de gestão das reservas.
Essa demanda ajuda a explicar por que o ouro permanece em níveis elevados mesmo diante de juros reais positivos nos Estados Unidos.
ETFs e investidores privados ampliam volatilidade
Enquanto os bancos centrais oferecem uma base estrutural, fundos e investidores privados produzem movimentos mais rápidos.
Os fundos negociados em Bolsa lastreados em ouro registraram entrada líquida de 62 toneladas no primeiro trimestre. O volume foi positivo, mas ficou abaixo das 230 toneladas observadas no mesmo período de 2025.
A demanda por barras e moedas alcançou 474 toneladas, aumento de 42% em um ano e segundo maior resultado trimestral da série histórica.
A combinação entre compras oficiais, fundos e investidores individuais levou a demanda global de ouro, incluindo operações de balcão, a 1.231 toneladas no primeiro trimestre.
Em valor, a demanda atingiu o recorde de US$ 193 bilhões, alta de 74% sobre o ano anterior.
Os fluxos privados são mais sensíveis aos preços. Uma alta rápida pode atrair investidores interessados em acompanhar a tendência, mas também estimular realização de lucros.
Essa característica ajuda a explicar a queda semanal de 2,30%. O risco geopolítico sustentou a procura, mas parte do mercado aproveitou os níveis elevados para reduzir posições.
Prata sofre mais com perspectiva industrial
A prata encerrou a sessão em alta, mas acumulou perda semanal de 6,4%, quase três vezes a queda registrada pelo ouro.
A diferença reflete sua maior exposição à atividade industrial.
Além de funcionar como reserva de valor, a prata é utilizada em painéis solares, componentes eletrônicos, equipamentos médicos, veículos e diferentes processos industriais.
Quando investidores temem desaceleração econômica, a perspectiva de menor demanda industrial pode pressionar a prata mesmo em um ambiente favorável aos metais preciosos.
O mercado da prata também possui menor profundidade e liquidez do que o do ouro, o que amplia as oscilações.
A relação entre os preços dos dois metais costuma ser utilizada para avaliar o grau de aversão ao risco. Quando o ouro apresenta desempenho superior, o mercado pode estar privilegiando proteção em detrimento da atividade econômica.
A queda semanal mais intensa da prata sugere que o componente defensivo dominou o comportamento dos metais.
Ouro dependerá de guerra, juros reais e bancos centrais
A sustentação acima de US$ 4 mil dependerá da evolução de três forças principais.
A primeira é o conflito no Oriente Médio. Uma ampliação dos ataques, interrupções nas exportações de energia ou problemas no transporte marítimo aumentariam a procura por proteção.
A segunda é a política monetária dos Estados Unidos. Inflação mais persistente e juros reais elevados limitam o potencial do ouro, enquanto sinais de flexibilização do Fed tendem a favorecer o metal.
A terceira é a demanda estrutural dos bancos centrais. Compras oficiais próximas dos níveis recentes podem continuar fornecendo suporte mesmo durante períodos de realização de lucros pelos investidores privados.
O fechamento desta sexta-feira resume a complexidade do cenário. O risco militar e a queda dos Treasuries levaram o ouro novamente acima dos US$ 4 mil. Na semana, porém, o custo de oportunidade representado pelos juros norte-americanos prevaleceu.
O metal continua exercendo seu papel de proteção, mas já não responde apenas ao medo. Em preços historicamente elevados, cada avanço precisa ser confrontado com títulos públicos que oferecem rendimento superior a 5%, inflação ainda resistente e um mercado mais exigente quanto ao custo de manter ativos sem remuneração corrente.











