O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reuniu na mesma tribuna os presidentes do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), durante o desfile de 7 de Setembro realizado nesta segunda-feira na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. A presença simultânea dos chefes dos Três Poderes ocorreu em meio à crise instalada no STF nos últimos dias e foi acompanhada por manifestações do público pelo fim da escala de trabalho 6×1.
O desfile começou pouco depois das 9h e terminou por volta das 11h15, encerrado por apresentações aéreas. A Secretaria de Comunicação Social da Presidência estimou em 70 mil o número de pessoas que passaram pela Esplanada durante a cerimônia. O governo não divulgou a metodologia utilizada para chegar ao número, que ficou mais de duas vezes acima da expectativa de cerca de 30 mil pessoas considerada antes do evento.
A celebração marcou os 204 anos da Independência do Brasil. O programa teve três eixos definidos pelo governo: soberania nacional, enfrentamento à violência contra mulheres e a Copa do Mundo Feminina de 2027, que será realizada no Brasil. A programação militar reuniu 2.085 integrantes das Forças Armadas e outros 754 militares da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros do Distrito Federal, totalizando 2.839 participantes desses grupamentos.
Chefes dos Três Poderes dividem tribuna em momento de tensão institucional
Lula chegou ao espaço das autoridades por volta das 9h10. Além de Fachin, Alcolumbre e Motta, estavam na cerimônia o vice-presidente Geraldo Alckmin, a primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, ministros do governo, comandantes militares e outras autoridades.
A presença de Fachin recebeu atenção adicional devido ao momento atravessado pelo Supremo. O presidente da Corte assumiu papel central na administração da crise provocada pelos desdobramentos do caso Banco Master e pelos embates entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça.
Moraes e Mendonça não compareceram ao desfile.
A ausência dos dois contrastou com a presença do presidente do STF e ocorreu poucos dias depois da escalada das divergências entre os ministros. A cerimônia oficial, porém, não teve manifestações públicas de Fachin sobre o episódio.
Também esteve presente o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, citado em discussões relacionadas ao relatório sobre o Banco Master tornado público nos últimos dias. Sua presença foi confirmada durante a cerimônia.
O advogado-geral da União, Jorge Messias, igualmente participou do evento. A presença das autoridades ocorreu sem declarações ao final do desfile.
Público cobra fim da escala 6×1 diante de Alcolumbre
Antes e durante a cerimônia, parte dos participantes nas arquibancadas entoou palavras de ordem relacionadas ao fim da escala de trabalho 6×1.
Os gritos ganharam significado político pela presença de Davi Alcolumbre, que preside o Senado, onde tramita uma proposta de alteração constitucional relacionada à jornada de trabalho.
Em diferentes momentos também houve manifestações de apoio a Lula e gritos contra anistia. O presidente chegou a deixar a área reservada às autoridades para se aproximar do público, cumprimentar participantes e posar para fotografias.
A pauta da redução da jornada ganhou espaço crescente no debate eleitoral. O próprio Lula já vinha defendendo mudanças na organização do trabalho, embora a cerimônia oficial do Dia da Independência tenha sido submetida às limitações impostas pelo período eleitoral.
A realização do desfile durante a campanha exigiu cuidados adicionais. O governo não distribuiu itens promocionais temáticos ao público como ocorreu em outras edições, justamente para reduzir o risco de questionamentos sobre eventual uso da estrutura estatal com finalidade eleitoral.
Secom estima público de 70 mil, mas não divulga metodologia
A Secretaria de Comunicação Social informou que aproximadamente 70 mil pessoas acompanharam a programação na Esplanada.
O número deve ser tratado como estimativa oficial do governo, e não como contagem independente.
Antes do evento, o planejamento de segurança e mobilidade trabalhava com expectativa significativamente menor de público. A projeção divulgada anteriormente era de aproximadamente 30 mil pessoas.
Se os dois números forem comparados diretamente, a estimativa divulgada após a cerimônia é cerca de 133% superior à expectativa inicial.
A Secom não detalhou o método de cálculo utilizado para chegar aos 70 mil. Também houve avaliações divergentes sobre a quantidade efetiva de participantes, razão pela qual o número não pode ser apresentado como uma medição independente definitiva.
As arquibancadas começaram a receber o público desde as primeiras horas da manhã. O acesso foi acompanhado por uma operação integrada envolvendo forças de segurança federais e do Distrito Federal.
Zé Gotinha e Copa Feminina recebem reação do público
Embora o conteúdo político tenha ganhado destaque fora da programação formal, alguns dos momentos de maior reação nas arquibancadas ocorreram durante apresentações relacionadas à saúde e ao futebol feminino.
O Zé Gotinha, mascote associado às campanhas de vacinação do Sistema Único de Saúde, foi recebido com aplausos, assim como trabalhadores da saúde que participaram do desfile.
A Copa do Mundo Feminina de 2027 também ocupou espaço destacado. O Brasil sediará a competição entre junho e julho do próximo ano, e o desfile prestou homenagem a pioneiras do futebol feminino nacional.
Ex-jogadoras que defenderam a seleção entre as décadas de 1980 e 1990 participaram da programação em carro aberto.
A homenagem foi incorporada a um dos três grandes eixos do evento e buscou conectar a celebração da Independência à preparação do país para o torneio.
Primeira turma do serviço militar feminino participa do desfile
A edição de 2026 também marcou a participação de integrantes da primeira turma do Serviço Militar Inicial Feminino.
Mulheres estiveram presentes em todos os grupamentos das Forças Armadas e uma formação especial reproduziu a Bandeira Nacional durante a cerimônia.
A abertura militar incluiu a condução do Fogo Simbólico pelo segundo-tenente Miguel, integrante da equipe brasileira que conquistou o Campeonato Mundial de Pentatlo Militar, acompanhado de atletas do Programa de Incorporação de Atletas de Alto Rendimento das Forças Armadas.
No total, 2.085 militares da Marinha, Exército e Aeronáutica participaram do desfile em pelotões a pé, viaturas e aeronaves.
Somados aos 754 integrantes da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros do Distrito Federal, foram pelo menos 2.839 militares dessas forças diretamente envolvidos nos grupamentos informados pelo Ministério da Defesa.
Gripen, KC-390 e Esquadrilha da Fumaça encerram programação
Entre os equipamentos apresentados estiveram a aeronave remotamente pilotada ScanEagle, da Marinha, acompanhada por dez drones, além de viaturas e outros meios militares.
O Batalhão de Polícia do Exército de Brasília realizou sua tradicional pirâmide humana, formada neste ano por 23 militares.
Também houve desfile da tropa hipomóvel do Exército e demonstrações de paraquedistas das três Forças.
No céu de Brasília, aeronaves como o cargueiro KC-390 Millennium e o caça F-39 Gripen integraram as apresentações.
A Esquadrilha da Fumaça encerrou o desfile, enquanto Lula deixou a tribuna acompanhado da primeira-dama e de outras autoridades.
Soberania foi o principal eixo escolhido pelo governo
O governo adotou “Soberania — A força que une o Brasil” como principal conceito da celebração.
O tema aparece em um momento no qual Lula tem utilizado o conceito de soberania também em seus discursos sobre política externa, minerais estratégicos, indústria, comércio e relações com outros países.
Na mensagem transmitida no domingo, véspera do feriado, o presidente defendeu que recursos naturais estratégicos sejam explorados de maneira a gerar desenvolvimento, tecnologia e empregos no Brasil e criticou interferências estrangeiras.
Durante o desfile desta segunda-feira, entretanto, Lula não fez pronunciamento político formal.
O formato do evento permaneceu centrado nas apresentações civis e militares.
Desfile oficial contrasta com atos eleitorais pelo país
A cerimônia de Brasília ocorreu simultaneamente a manifestações políticas organizadas em outras cidades.
Em São Paulo, Flávio Bolsonaro (PL), principal adversário de Lula na disputa presidencial, reuniu apoiadores na Avenida Paulista em um ato marcado por críticas ao presidente e a Alexandre de Moraes.
Outros presidenciáveis também realizaram agendas relacionadas ao Dia da Independência.
A coexistência entre a cerimônia institucional em Brasília e atos explicitamente eleitorais em outras cidades evidenciou como o 7 de Setembro de 2026 foi atravessado pela proximidade das eleições.
Na capital federal, o principal símbolo político acabou sendo a presença conjunta de Lula, Fachin, Alcolumbre e Motta na tribuna de autoridades, justamente em uma semana de forte tensão institucional.
A imagem dos chefes dos Três Poderes reunidos contrastou com a ausência de Moraes e Mendonça e com manifestações políticas paralelas pelo país.
No plano formal, porém, o desfile manteve o roteiro tradicional: escolas e representantes da sociedade civil abriram a programação, seguidos pelos grupamentos militares, veículos, cavalaria e aeronaves.
Pouco mais de duas horas depois do início, a passagem da Esquadrilha da Fumaça encerrou a celebração dos 204 anos da Independência.







