O presidente Luiz Inácio Lula da Silva manifestou apoio à intervenção do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, para conter a crise aberta pelas decisões e acusações cruzadas envolvendo André Mendonça, Alexandre de Moraes e Flávio Dino. Em entrevista concedida na noite desta quinta-feira, 10 de setembro, Lula afirmou que Fachin começou a “colocar ordem na casa” e defendeu que a Presidência da Corte assuma o controle institucional de uma disputa que, na avaliação do chefe do Executivo, ameaça a credibilidade do Supremo.
A manifestação ocorre depois de uma sequência incomum de decisões contraditórias dentro do próprio STF. André Mendonça afastou o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência, Leandro Almada. Flávio Dino determinou a reintegração dos dois. Diante do impasse, Fachin suspendeu tanto a decisão de Mendonça quanto a de Dino, manteve os dirigentes em suas funções enquanto analisa o conflito e convocou uma sessão extraordinária do plenário para 15 de setembro.
Lula também fez uma defesa explícita de Andrei Rodrigues, a quem classificou como pessoa de sua “total confiança”. Ao mesmo tempo, evitou defender que integrantes do Supremo sejam poupados de investigação. O presidente afirmou que suspeitas envolvendo ministros precisam ser apuradas e que eventual responsabilidade deve alcançar qualquer autoridade, independentemente do cargo.
A posição combina dois movimentos políticos. De um lado, Lula respalda Fachin como autoridade capaz de restaurar uma linha de comando institucional dentro do Supremo. De outro, procura evitar que a defesa da Polícia Federal ou a proximidade política com determinados integrantes da Corte seja interpretada como tentativa de impedir investigações.
O presidente também voltou a atacar o sigilo e os vazamentos seletivos de informações relacionadas ao Banco Master e às fraudes no INSS. Para Lula, documentos parcialmente divulgados podem alimentar acusações políticas sem permitir que a sociedade conheça o conjunto das provas.
Horas depois da entrevista, André Mendonça atendeu à solicitação de Fachin e retirou o sigilo de 15 procedimentos relacionados ao caso Master, ampliando o acesso dos demais ministros e do público a parte do material que está no centro da crise. Diligências consideradas sensíveis, porém, poderão continuar protegidas.
Lula diz que STF não pode funcionar em clima de desconfiança
A avaliação do presidente é que o Supremo chegou a um ponto em que conflitos pessoais e processuais começaram a afetar a imagem institucional da Corte.
Lula demonstrou preocupação com a exposição pública das divergências e usou uma expressão forte para definir o ambiente: afirmou que o STF não pode se transformar em uma “balbúrdia”.
O problema, para o presidente, não está simplesmente na existência de divergências entre ministros. Cortes constitucionais naturalmente abrigam interpretações jurídicas distintas. O que elevou a crise a outro patamar foi a sucessão de medidas em que decisões de um integrante do Tribunal passaram a produzir efeitos contrários às determinações de outro.
Esse cenário ficou particularmente evidente no caso da direção da Polícia Federal.
Mendonça determinou na terça-feira, 8, o afastamento de Andrei Rodrigues e Leandro Almada. No dia seguinte, Dino ordenou a reintegração. Horas mais tarde, Fachin suspendeu as duas decisões e assumiu a administração institucional do impasse.
A intervenção foi recebida positivamente pelo governo.
A Advocacia-Geral da União havia recorrido a Fachin contra a decisão de Mendonça e sustentado que o afastamento do diretor-geral da PF interferia em uma prerrogativa constitucional do presidente da República relacionada ao comando da corporação.
Depois da decisão de Fachin, a AGU afirmou que a medida restaurava a ordem administrativa e institucional.
Lula dá respaldo direto a Fachin
Ao comentar o episódio, Lula indicou que considera correta a atuação do presidente do Supremo.
A avaliação é de que Fachin deve utilizar as atribuições da Presidência para impedir que disputas individuais entre ministros comprometam o funcionamento da Corte.
Lula, entretanto, sinalizou esperar novas medidas.
O presidente afirmou que Fachin já colocou “um pouco de ordem na casa”, expressão que combina elogio com cobrança. Na interpretação do chefe do Executivo, o trabalho de reconstrução da confiança no STF ainda não está concluído.
Desde o agravamento da crise, Fachin tomou uma série de providências.
Além de suspender as decisões conflitantes envolvendo a Polícia Federal, retirou Alexandre de Moraes da relatoria do inquérito das fake news. Os atos anteriormente praticados por Moraes foram preservados, mas o processo passou para o controle da Presidência da Corte.
Fachin também restringiu a abertura ou continuidade de procedimentos capazes de atingir ministros do próprio Supremo sem análise institucional prévia e convocou o plenário para discutir o caso.
A sessão extraordinária está marcada para 15 de setembro.
Andrei Rodrigues tem “total confiança” de Lula
A defesa mais enfática feita pelo presidente foi dirigida ao diretor-geral da Polícia Federal.
Lula declarou ter “total confiança” em Andrei Rodrigues e destacou o desempenho da corporação durante sua gestão.
O diretor-geral foi indicado pelo governo Lula e ocupa o comando da PF desde 2023. O presidente atribuiu a ele parte dos resultados obtidos pela instituição em operações contra organizações criminosas, apreensão de drogas, recuperação de recursos e investigações de grande repercussão.
A permanência de Andrei tornou-se um ponto de tensão entre o governo e Mendonça depois que o ministro determinou seu afastamento.
Mendonça argumentou que existiam indícios de irregularidades na produção e circulação de relatórios de inteligência da Polícia Federal, inclusive documentos que reuniam informações sobre autoridades.
O ministro afirmou ser necessário interromper o que classificou como possível monitoramento indevido.
A decisão gerou forte reação dentro da própria PF.
Integrantes da cúpula da corporação manifestaram apoio público a Andrei, e 11 diretores colocaram seus cargos à disposição depois do afastamento. O número dois da instituição, William Murad, também declarou confiança no diretor-geral.
Lula diz que Moraes e Mendonça devem responder se houver irregularidade
Apesar de defender Andrei e elogiar Fachin, Lula não adotou o mesmo tom de proteção ao falar sobre os ministros envolvidos.
O presidente sustentou que qualquer integrante do Supremo deve ser investigado quando existirem elementos que justifiquem uma apuração.
A afirmação atinge diretamente Alexandre de Moraes e André Mendonça, protagonistas da disputa.
Moraes passou a ser citado em relatórios produzidos no âmbito das investigações relacionadas ao Banco Master, principalmente por causa de mensagens atribuídas ao ex-controlador da instituição, Daniel Vorcaro.
Mendonça, por sua vez, tornou-se alvo de questionamentos depois que Moraes encaminhou a Fachin documentos da Polícia Federal que apontariam possíveis irregularidades na atuação do colega em investigações relacionadas ao Master e ao INSS.
Nenhuma dessas acusações corresponde, por si só, a uma conclusão de culpa.
O que está em discussão é justamente se houve irregularidade, se os documentos foram produzidos de forma legal e qual autoridade possui competência para determinar as respectivas investigações.
Para Lula, a resposta política deve ser investigação ampla, não proteção corporativa.
Presidente critica vazamentos seletivos
A questão do sigilo ocupa espaço central na posição apresentada por Lula.
O presidente reclamou do que considera divulgação fragmentada de investigações. Na avaliação dele, liberar pequenos trechos de documentos enquanto o restante continua protegido permite que versões parciais sejam utilizadas para atacar adversários.
A crítica tem impacto particular em 2026 porque as investigações do Banco Master e do INSS passaram a alcançar personagens ligados a diferentes grupos políticos durante uma campanha presidencial.
Lula defende que, sempre que juridicamente possível, os documentos sejam divulgados de maneira mais ampla.
O presidente afirmou que prefere uma investigação transparente a uma sucessão de vazamentos.
A lógica apresentada é que a publicidade permitiria à sociedade diferenciar fatos comprovados de interpretações, acusações ou informações retiradas de contexto.
Essa defesa da transparência passou a ser reproduzida também pelo PT, que pediu ao STF o levantamento de sigilo de investigações relacionadas ao Banco Master.
Mendonça levanta sigilo de 15 procedimentos
A pressão ganhou um resultado concreto ainda na noite de quinta-feira.
Depois de Fachin pedir maior publicidade aos procedimentos, André Mendonça retirou o sigilo de 15 processos e procedimentos ligados ao Banco Master.
Entre eles estão peças relacionadas à investigação que alcançou Daniel Vorcaro e inquéritos associados à apuração conduzida sob responsabilidade do ministro.
O material também deverá ser compartilhado com os gabinetes dos integrantes do Supremo antes da sessão extraordinária.
A abertura, entretanto, é parcial.
Informações relacionadas a diligências ainda em andamento e cuja divulgação possa comprometer a apuração permanecem sujeitas a sigilo.
A diferença é relevante.
O levantamento do segredo não significa que todos os documentos policiais, dados bancários, mensagens ou providências futuras serão imediatamente expostos. O sigilo continuará sendo possível quando houver justificativa investigativa concreta.
O movimento, porém, atende à tentativa de Fachin de permitir que o colegiado examine uma base documental mais ampla antes de deliberar.
Caso Master está na origem da disputa
A escalada institucional começou com documentos relacionados às investigações do Banco Master.
Relatórios da Polícia Federal passaram a reunir informações sobre contatos mantidos pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro com diferentes autoridades e personagens políticos.
Parte do material mencionou Alexandre de Moraes.
André Mendonça, relator de procedimentos relacionados ao banco, deu publicidade a informações que levantaram questionamentos sobre a relação entre Moraes e Vorcaro.
A Procuradoria-Geral da República reagiu.
O procurador-geral Paulo Gonet sustentou que determinadas diligências apresentariam problemas de competência e pediu a anulação de atos que, na visão da PGR, acabaram produzindo uma investigação sobre outro ministro do Supremo sem observância do procedimento adequado.
Moraes também reagiu ao encaminhar a Fachin documentos que levantavam suspeitas sobre a atuação de Mendonça.
A partir daí, o caso deixou de ser apenas uma investigação financeira e se transformou numa disputa interna do STF.
Fachin tenta devolver conflito ao plenário
A estratégia adotada por Fachin é reduzir o espaço para decisões individuais conflitantes e devolver ao plenário a responsabilidade pelas questões mais sensíveis.
A sessão de 15 de setembro será o primeiro grande teste dessa abordagem.
Os ministros deverão discutir a validade de atos praticados nas investigações, a situação dos relatórios produzidos pela Polícia Federal e os limites de atuação de cada autoridade.
Também poderá entrar em debate o procedimento adequado quando informações reunidas em uma investigação atingem um integrante do próprio Supremo.
O tema é institucionalmente delicado porque ministros da Corte possuem foro no STF e porque a investigação de um integrante do Tribunal exige regras capazes de evitar tanto proteção corporativa quanto perseguição interna.
Fachin procura construir uma solução colegiada justamente para diminuir a percepção de que decisões individuais estejam sendo utilizadas na guerra entre ministros.
Crise chega à campanha eleitoral
A preocupação de Lula não é apenas institucional.
A disputa acontece a poucas semanas das eleições e tem capacidade de produzir consequências políticas para governo e oposição.
Alexandre de Moraes tornou-se uma figura de rejeição para setores bolsonaristas. André Mendonça foi indicado ao Supremo por Jair Bolsonaro. Flávio Dino foi ministro da Justiça de Lula antes de chegar à Corte.
Andrei Rodrigues, por sua vez, é uma escolha direta do atual presidente para comandar a Polícia Federal.
O caso Master também possui ramificações envolvendo personagens de diferentes campos políticos.
Esse conjunto cria terreno para que cada decisão judicial seja interpretada como vitória ou derrota eleitoral, mesmo quando seu fundamento formal é processual.
Lula tenta se posicionar acima dessa divisão ao defender investigação de todos, ao mesmo tempo em que deixa claro seu apoio a Andrei e à atuação de Fachin.
O equilíbrio é politicamente delicado.
Apoio de Lula não encerra crise no Supremo
A intervenção de Fachin reduziu momentaneamente a existência de ordens conflitantes, mas não eliminou as divergências que deram origem à crise.
Mendonça continua responsável por procedimentos relevantes do caso Master. Moraes contesta a legalidade de parte da investigação. A PGR questiona atos praticados na apuração. Dino tomou decisões que entraram diretamente em choque com determinações de Mendonça.
A retirada de sigilo também pode produzir novos desdobramentos à medida que documentos até então protegidos passam a ser examinados por outros ministros, pelas partes e pela opinião pública.
O apoio de Lula reforça politicamente a autoridade de Fachin, mas a solução jurídica dependerá do próprio STF.
A sessão de 15 de setembro será decisiva porque obrigará a Corte a substituir a sequência de decisões individuais por uma posição coletiva.
Até lá, a mensagem do presidente da República é clara: Fachin deve continuar exercendo a autoridade da Presidência do Supremo para organizar o Tribunal, as investigações devem alcançar qualquer pessoa sobre quem existam suspeitas fundamentadas e o sigilo não pode servir de instrumento para vazamentos seletivos.
Para Lula, recuperar a credibilidade do STF exige simultaneamente três movimentos: apuração, transparência e restauração da hierarquia institucional.
A partir de agora, caberá aos próprios ministros demonstrar se o plenário consegue fazer aquilo que as decisões individuais dos últimos dias não conseguiram — estabelecer uma regra comum para uma crise que passou a envolver o Supremo, a Polícia Federal, a PGR, o governo e a eleição presidencial.
Fontes: Supremo Tribunal Federal; Agência Brasil; Advocacia-Geral da União; Polícia Federal; entrevista de Luiz Inácio Lula da Silva ao SBT; informações públicas dos procedimentos relacionados ao Banco Master.








