O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) encerrou a semana na liderança dos cinco principais levantamentos nacionais divulgados sobre o primeiro turno da eleição presidencial, mas a vantagem sobre Flávio Bolsonaro (PL) praticamente desaparece quando os institutos simulam um confronto direto entre os dois. BTG/Nexus, Real Time Big Data, Quaest e Datafolha colocam Lula e Flávio em situação de empate técnico no segundo turno, enquanto apenas a AtlasIntel registra o presidente à frente além da margem de erro.
A diferença entre os dois cenários é um dos dados mais relevantes da atual fotografia eleitoral. No primeiro turno, a vantagem de Lula sobre Flávio varia de 5 a 9,7 pontos percentuais entre os cinco levantamentos. No segundo, cai para zero a 4,5 pontos. Em três pesquisas, a distância numérica não supera dois pontos percentuais.
O movimento mostra que Lula preserva uma posição mais confortável enquanto a disputa permanece fragmentada entre vários candidatos, mas encontra uma eleição significativamente mais apertada quando os votos são concentrados entre os dois principais nomes.
Há ainda uma segunda mudança relevante: Augusto Cury (Avante) consolidou-se como terceiro colocado nos cinco institutos, com percentuais que variam de 7,8% a 11%. O crescimento do candidato acrescenta uma variável importante ao primeiro turno e transforma seu eleitorado em uma das reservas de votos potencialmente decisivas para uma eventual segunda rodada.
Lula abre de 5 a 9,7 pontos sobre Flávio no primeiro turno
A liderança de Lula aparece de maneira consistente nos cinco levantamentos realizados em perÃodos próximos, apesar das diferenças metodológicas entre os institutos.
O Datafolha registra a menor vantagem entre os dois principais candidatos. Lula aparece com 38% das intenções de voto, contra 33% de Flávio, distância de cinco pontos percentuais.
Na pesquisa BTG/Nexus, o presidente tem 39%, enquanto Flávio registra 33%. A diferença é de seis pontos. Na rodada anterior do mesmo instituto, Lula aparecia com 41% e Flávio com 37%, o que significa que ambos oscilaram para baixo, mas a distância entre os dois passou de quatro para seis pontos.
A Real Time Big Data aponta Lula com 38% e Flávio com 30% em um dos principais cenários testados, diferença de oito pontos percentuais.
A Quaest encontra praticamente a mesma distância: 37% para Lula e 29% para Flávio.
A maior vantagem entre os levantamentos analisados aparece na AtlasIntel. O presidente tem 43,4% das intenções de voto e Flávio, 33,7%, diferença de 9,7 pontos percentuais.
Apesar das variações absolutas, os cinco levantamentos produzem a mesma ordem no topo: Lula em primeiro lugar e Flávio Bolsonaro em segundo.
Uma média aritmética simples dos cinco resultados coloca Lula em aproximadamente 39,1% e Flávio em 31,7%, diferença de cerca de 7,4 pontos. O cálculo serve apenas para dimensionar os números publicados e não equivale a uma pesquisa eleitoral, já que não pondera metodologia, tamanho das amostras nem perÃodo das entrevistas.
Vantagem praticamente desaparece no confronto direto
A situação muda de forma expressiva nas simulações de segundo turno.
Na BTG/Nexus, Lula aparece com 46% e Flávio com 45%. A diferença é de apenas um ponto percentual e os dois estão tecnicamente empatados.
A Real Time Big Data registra igualdade também nos números absolutos: 44% para Lula e 44% para Flávio. Na rodada anterior do instituto, realizada em julho, Lula tinha 45%, contra 42% do senador.
A aproximação, portanto, ocorreu principalmente pelo crescimento de Flávio dentro da série da pesquisa.
Na Quaest, Lula tem 42% e Flávio registra 41%. Novamente, apenas um ponto separa os dois candidatos.
O Datafolha apresenta resultado semelhante, com 46% para Lula e 44% para Flávio. A diferença de dois pontos permanece dentro da margem de erro do levantamento.
Na pesquisa anterior do instituto, Lula aparecia com 47%, contra 43% de Flávio. A vantagem numérica do presidente, portanto, caiu de quatro para dois pontos.
Quatro dos cinco levantamentos convergem, dessa forma, para uma disputa em que não é possÃvel apontar estatisticamente um vencedor no momento.
AtlasIntel é exceção e mantém Lula à frente no segundo turno
A AtlasIntel apresenta o cenário mais favorável a Lula entre as pesquisas recentes.
No confronto direto, o presidente aparece com 47,1% das intenções de voto, contra 42,6% de Flávio Bolsonaro. A vantagem é de 4,5 pontos percentuais.
Como a margem de erro informada pelo instituto é de um ponto percentual, Lula permanece numericamente e estatisticamente à frente nesse levantamento.
Mesmo na AtlasIntel, porém, a distância entre os dois é menor no segundo turno do que no primeiro.
Na primeira etapa, Lula abre 9,7 pontos sobre Flávio. Quando os demais candidatos são retirados da disputa, essa diferença cai para 4,5 pontos — uma redução de 5,2 pontos.
A comparação reforça o padrão encontrado também nos demais institutos: a dispersão de votos no primeiro turno favorece uma vantagem maior do presidente, enquanto a concentração da eleição em dois nomes aproxima Flávio de Lula.
Distância média cai de mais de 7 pontos para menos de 2 no segundo turno
A diferença entre os dois cenários fica mais clara quando os levantamentos são observados em conjunto.
Considerando apenas uma média aritmética simples das cinco pesquisas de primeiro turno, Lula aparece aproximadamente 7,4 pontos à frente de Flávio.
Nos cenários de segundo turno divulgados pelos mesmos institutos, essa diferença cai para aproximadamente 1,7 ponto percentual.
A redução é de quase seis pontos.
O resultado não permite prever uma eleição futura nem deve ser interpretado como um agregador estatÃstico, mas evidencia uma caracterÃstica comum à s pesquisas: Flávio Bolsonaro apresenta desempenho proporcionalmente melhor quando enfrenta Lula sozinho do que quando concorre contra um conjunto mais amplo de candidatos.
Esse movimento torna especialmente relevante a distribuição dos votos atualmente destinados aos demais concorrentes.
A eventual decisão presidencial, caso haja segundo turno, poderá depender em grande medida da capacidade de Lula e Flávio de conquistar eleitores que hoje optam por Augusto Cury, Ronaldo Caiado, Renan Santos e outros candidatos.
Augusto Cury consolida terceiro lugar
O crescimento de Augusto Cury é a outra convergência relevante dos levantamentos da semana.
O candidato do Avante aparece em terceiro lugar nas cinco pesquisas, registrando entre 7,8% e 11% das intenções de voto.
Na BTG/Nexus, Cury alcança 11%. O crescimento é expressivo em comparação com a rodada anterior do instituto, quando aparecia com apenas 2%.
No Datafolha, o candidato passou de 2%, em levantamento realizado em agosto, para 8%.
A AtlasIntel registra movimento semelhante: Cury tinha aproximadamente 3% anteriormente e agora alcança 7,8%.
Na Real Time Big Data, aparece com 11%, enquanto a Quaest registra 10%.
São metodologias diferentes, realizadas por empresas diferentes, mas todas apontando na mesma direção: Cury deixou a faixa residual de intenção de voto e passou a ocupar com consistência o terceiro lugar.
A magnitude do crescimento varia, mas a mudança é superior às margens de erro observadas nas séries de alguns dos próprios institutos.
Crescimento de Cury ajuda a explicar diferença entre primeiro e segundo turnos
O novo patamar do candidato do Avante também interfere na matemática da eleição.
Com aproximadamente 8% a 11% dos votos em diferentes pesquisas, Cury passou a concentrar uma parcela relevante do eleitorado que não escolhe Lula nem Flávio no primeiro turno.
Quando o nome dele e os demais candidatos são retirados das simulações de segundo turno, esses eleitores precisam escolher entre os dois lÃderes, votar em branco ou nulo ou declarar indecisão.
Os levantamentos sugerem que essa redistribuição beneficia Flávio proporcionalmente mais do que Lula, já que a distância observada no primeiro turno diminui drasticamente no confronto direto.
Isso não significa, entretanto, que seja possÃvel atribuir aos eleitores de Cury a aproximação de Flávio. Os institutos não apresentam nesses resultados uma transferência individualizada suficiente para estabelecer de qual candidato vêm todos os votos adicionais.
Também não é possÃvel presumir que o comportamento atual se repetirá no dia da eleição.
O que os dados permitem afirmar é que uma disputa mais fragmentada produz uma vantagem maior para Lula, enquanto uma escolha binária reduz essa distância.
Lula e Flávio também aparecem próximos na rejeição
Outro indicador ajuda a explicar a dificuldade dos dois principais candidatos em se distanciarem no segundo turno: ambos enfrentam nÃveis elevados de rejeição.
Na BTG/Nexus, 50% dos entrevistados afirmam que não votariam em Flávio Bolsonaro de maneira alguma. Lula registra Ãndice praticamente igual, de 49%.
Na Real Time Big Data, ambos chegam a 50% de rejeição.
A AtlasIntel também aponta equilÃbrio: Flávio registra 52,7% e Lula, 52%.
As diferenças ficam dentro das respectivas margens de erro.
O quadro coloca os dois principais candidatos diante do mesmo problema eleitoral. Além de mobilizar seus próprios eleitores, cada um precisa conquistar parcelas de um eleitorado que hoje manifesta forte resistência ao seu nome.
Cury apresenta rejeição significativamente menor nos institutos que divulgaram o indicador. Na AtlasIntel, está em 18,5%. Na Real Time Big Data, chega a 28%.
Parte dessa vantagem pode estar relacionada ao grau de conhecimento do candidato e à menor exposição acumulada em disputas polÃticas nacionais.
Metodologias diferentes exigem cautela nas comparações
As pesquisas foram realizadas em intervalos próximos, mas não podem ser tratadas como se fossem uma única série.
A BTG/Nexus ouviu 2.005 eleitores por telefone entre 28 e 30 de agosto. A margem de erro informada é de dois pontos percentuais.
A AtlasIntel entrevistou 5.014 pessoas entre 25 e 30 de agosto e trabalha com margem de erro de um ponto percentual.
A Real Time Big Data ouviu 2.000 eleitores entre 27 e 31 de agosto, com margem de dois pontos.
A Quaest realizou 2.004 entrevistas entre 30 de agosto e 1º de setembro, com margem de erro de dois pontos percentuais e nÃvel de confiança de 95%.
O Datafolha entrevistou 2.002 eleitores em 125 municÃpios nos dias 1º e 2 de setembro. A margem também é de dois pontos.
Além do tamanho das amostras, os institutos utilizam métodos diferentes de seleção e entrevista, ponderações distintas e perÃodos de campo que não coincidem integralmente.
Por isso, variações pequenas entre uma empresa e outra não necessariamente representam mudança de intenção de voto. A comparação mais adequada para identificar tendência é acompanhar diferentes rodadas do mesmo instituto e observar, adicionalmente, movimentos que aparecem simultaneamente em pesquisas independentes.
Pesquisas desenham duas eleições diferentes
O conjunto dos cinco levantamentos produz, até aqui, duas fotografias distintas da corrida presidencial.
Na primeira, com vários candidatos, Lula ocupa a liderança de maneira consistente. Sua vantagem sobre Flávio Bolsonaro fica entre cinco e quase dez pontos percentuais, dependendo do instituto.
Na segunda, quando apenas Lula e Flávio são apresentados aos eleitores, a distância desaba. Quatro dos cinco institutos registram empate técnico, com diferenças entre zero e dois pontos. Apenas a AtlasIntel mantém o presidente à frente fora da margem de erro.
A ascensão de Augusto Cury acrescenta complexidade ao cenário porque consolida um terceiro contingente eleitoral que já chega a aproximadamente um décimo dos votos em diferentes pesquisas.
A corrida, portanto, não apresenta o mesmo grau de vantagem para Lula em todas as etapas. O presidente mantém posição mais sólida no primeiro turno, mas os levantamentos disponÃveis indicam que uma eventual segunda rodada contra Flávio Bolsonaro começaria, nas condições atuais, como uma disputa muito mais equilibrada.
Fontes:
BTG Pactual e Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados – levantamento nacional sobre intenções de voto, segundo turno e rejeição
AtlasIntel – pesquisa nacional sobre cenários de primeiro e segundo turnos e rejeição dos candidatos
Real Time Big Data – levantamento nacional sobre intenção de voto e simulações de confronto direto
Quaest – pesquisa nacional sobre a eleição presidencial e cenários de primeiro e segundo turnos
Datafolha – pesquisa nacional sobre intenção de voto, segundo turno, rejeição e evolução dos candidatos
Tribunal Superior Eleitoral – registros oficiais dos levantamentos eleitorais utilizados na reportagem






