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Mendonça abriu inquérito contra Flávio Bolsonaro por corrupção, lavagem e evasão no caso Dark Horse

Decisão de 22 de julho acolheu pedido da PF com aval da PGR; investigação apura cobranças de aportes, remessas aos EUA e destino de US$ 12,3 milhões.

por Júlia Campos
11/09/2026 às 15h09
em Política
Operação Da Pf Fragiliza Mais Um Aliado De Flávio Bolsonaro No Rj

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, autorizou em 22 de julho a abertura de um inquérito para investigar o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro por suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e outros delitos relacionados ao financiamento de “Dark Horse”, produção cinematográfica sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A decisão tornou-se conhecida no dia seguinte, 23 de julho, mas parte relevante dos documentos que embasaram a investigação permaneceu sob sigilo até setembro.

A investigação nasceu de informações reunidas pela Polícia Federal durante as apurações sobre Daniel Vorcaro e o Banco Master. A representação policial detalhada, datada de 8 de julho, descreveu comunicações, encontros e movimentações financeiras que, na avaliação dos investigadores, justificavam aprofundar a apuração sobre o papel exercido por Flávio na captação e na cobrança de recursos destinados ao filme. A Procuradoria-Geral da República se manifestou favoravelmente à abertura do procedimento, e Mendonça acolheu o pedido.

A autorização para investigar não representa denúncia nem conclusão de que Flávio tenha cometido qualquer crime. Ela permite que a Polícia Federal realize diligências para esclarecer a origem do dinheiro, o caminho percorrido pelos recursos, seus beneficiários finais e a eventual existência de contrapartidas relacionadas à atuação política do senador.

Flávio Bolsonaro nega irregularidades. Ele afirma que buscou financiamento privado para uma produção privada, sem utilização de recursos públicos e sem oferecer qualquer benefício a Daniel Vorcaro ou ao Banco Master.

Relação com o filme começou antes da investigação no STF

A cronologia do caso começa bem antes da decisão de Mendonça.

Documentos e mensagens relacionados à produção mostram tratativas sobre “Dark Horse” desde o fim de 2024. Em janeiro de 2025, segundo registros posteriormente analisados pela Polícia Federal, Daniel Vorcaro chegou a tratar o financiamento do filme como uma de suas prioridades.

Entre fevereiro e maio de 2025, foram realizadas diversas operações para enviar recursos destinados à produção. As primeiras reportagens que reconstruíram o caminho do dinheiro identificaram seis transferências que somavam pelo menos US$ 10,6 milhões naquele período. Com o avanço das investigações e a análise de outros documentos, o total efetivamente pago identificado passou a ser de pelo menos US$ 12,3 milhões.

A Polícia Federal também encontrou mensagens de março de 2025 atribuídas a Eduardo Bolsonaro nas quais eram discutidas formas de administrar os recursos nos Estados Unidos. Em uma comunicação de 21 de março, posteriormente incorporada aos autos, Eduardo teria apresentado sugestões sobre a maneira como o dinheiro poderia ser remetido e gerido em território americano.

A partir de agosto de 2025, segundo o relatório policial, aparecem registros mais claros de interlocução direta entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Em 20 de agosto, mensagens indicam um provável encontro presencial entre os dois. Nos meses seguintes, o senador passou a aparecer também em conversas relacionadas ao andamento dos aportes e à necessidade de regularizar pagamentos para manter a produção.

Projeto previa US$ 24 milhões; pelo menos US$ 12,3 milhões foram pagos

Um dos principais pontos da investigação é a diferença entre o valor total negociado para o filme e a quantia que chegou a ser efetivamente transferida.

O contrato localizado nas comunicações de Daniel Vorcaro previa investimento de US$ 24 milhões, que na época correspondia a aproximadamente R$ 134 milhões. Esse valor representava o compromisso financeiro previsto para o projeto, e não uma transferência já concluída.

Os documentos analisados posteriormente indicaram pagamentos efetivos de pelo menos US$ 12,3 milhões. Parte relevante dos recursos foi encaminhada para o Havengate Development Fund, estrutura sediada nos Estados Unidos e relacionada ao financiamento da produção.

Portanto, os dois valores não devem ser tratados como equivalentes. Os US$ 24 milhões representam o total previsto na negociação, enquanto os US$ 12,3 milhões correspondem ao montante que os documentos disponíveis indicam ter sido efetivamente pago.

É justamente sobre o dinheiro movimentado que se concentram algumas das principais diligências. A PF busca identificar a origem dos recursos, as empresas utilizadas para viabilizar as operações, a regularidade das remessas ao exterior e quem efetivamente recebeu ou administrou os valores depois que eles chegaram aos Estados Unidos.

Flávio aparece cobrando aportes

As comunicações encontradas no celular de Vorcaro passaram a ter importância porque mostram Flávio como participante direto das tratativas.

De acordo com a Polícia Federal, o senador não aparece apenas mencionado por terceiros. Os investigadores identificaram conversas em que ele acompanha o financiamento, trata de reuniões e cobra a liberação de recursos para que a produção continue.

Em setembro de 2025, por exemplo, Flávio teria demonstrado preocupação com atrasos nos aportes e afirmado que a produção enfrentava dificuldades para manter o cronograma de filmagens. A PF considera que esse conjunto de mensagens precisa ser analisado em contexto para determinar qual era exatamente o papel do senador na estrutura financeira do projeto.

A realização de cobranças não constitui crime por si só. Uma pessoa envolvida na captação de investimentos para uma produção privada pode legitimamente acompanhar o cumprimento de compromissos assumidos pelos financiadores. O ponto que interessa aos investigadores é saber se a relação se limitava ao filme ou se havia outros interesses envolvidos.

Última mensagem conhecida veio um dia antes da prisão de Vorcaro

Um dos episódios mais sensíveis ocorreu em novembro de 2025.

Em 16 de novembro, Flávio enviou uma mensagem a Daniel Vorcaro manifestando apoio ao banqueiro e pedindo uma orientação diante da situação daquele momento. No dia seguinte, 17 de novembro de 2025, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no Aeroporto Internacional de Guarulhos.

A prisão ocorreu no âmbito da primeira fase da Operação Compliance Zero. No dia 18 de novembro, um dia depois da detenção, o Banco Central decretou a liquidação do Banco Master.

A proximidade das datas fez com que a mensagem enviada por Flávio ganhasse atenção dos investigadores, mas não há, nos documentos públicos até agora, prova de que o senador tivesse conhecimento antecipado da operação policial.

O que a PF busca entender é o contexto da comunicação. A mensagem encerra uma sequência de contatos que vinha sendo mantida havia meses, inclusive em torno das parcelas destinadas ao filme, justamente quando a situação do Master se deteriorava rapidamente.

Caso veio a público em maio de 2026

A relação entre Flávio Bolsonaro, Daniel Vorcaro e o financiamento de “Dark Horse” só ganhou dimensão pública meses depois.

Em 13 de maio de 2026, reportagem do Intercept Brasil revelou mensagens e documentos indicando que Flávio havia negociado diretamente com Vorcaro um financiamento de US$ 24 milhões para o filme. Naquela ocasião, os documentos disponíveis apontavam pelo menos US$ 10,6 milhões pagos em seis operações realizadas entre fevereiro e maio de 2025.

Flávio reconheceu que havia procurado Vorcaro para captar recursos, mas negou qualquer irregularidade. Disse que o dinheiro era privado e destinado exclusivamente à produção.

A revelação abriu uma disputa política e jurídica sobre a origem e o destino dos valores. Também trouxe para o centro do caso Eduardo Bolsonaro, que vive nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025 e cuja eventual participação na gestão dos recursos passou a ser examinada pelas autoridades.

Fachin definiu Mendonça como relator em 25 de junho

Antes da abertura formal do inquérito, houve uma discussão no próprio Supremo sobre quem deveria conduzir as apurações.

O assunto chegou inicialmente ao gabinete de Alexandre de Moraes porque uma das provocações ao STF buscava relacionar o financiamento de “Dark Horse” a uma investigação que envolvia Eduardo Bolsonaro.

Em 25 de junho de 2026, o presidente do Supremo, Edson Fachin, decidiu que a matéria deveria ficar sob relatoria de André Mendonça. Fachin considerou que os fatos relacionados ao filme coincidiam com outros procedimentos sobre o Banco Master que já estavam sob responsabilidade do ministro.

Cinco dias depois, em 30 de junho, Mendonça pediu manifestação da Procuradoria-Geral da República sobre a necessidade de abertura de investigação.

Paralelamente, a Polícia Federal aprofundava sua própria análise sobre os recursos enviados aos Estados Unidos.

PF apresentou representação em 8 de julho

A etapa seguinte ocorreu em 8 de julho, quando a Polícia Federal formalizou uma representação detalhada ao Supremo.

O documento, com 16 páginas, pediu autorização para aprofundar a investigação sobre Flávio Bolsonaro e outras pessoas envolvidas no financiamento do filme. A PF apontou a necessidade de apurar possíveis crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e delitos relacionados.

Os investigadores sustentaram que os elementos já reunidos iam além de referências indiretas ao senador. As mensagens mostrariam Flávio como interlocutor de Daniel Vorcaro nas negociações relacionadas ao financiamento, incluindo cobranças de pagamentos, encontros e acompanhamento do andamento da produção.

A Polícia Federal também pediu que fossem esclarecidos a origem dos recursos, o emprego de empresas intermediárias e os beneficiários finais das transferências realizadas para o exterior.

Após a manifestação favorável da PGR, Mendonça acolheu o pedido em decisão de 22 de julho.

A abertura do inquérito foi noticiada publicamente no dia seguinte.

PGR quer saber se houve alguma contrapartida política

Uma das linhas mais importantes da investigação envolve a hipótese de corrupção.

A Procuradoria-Geral da República defendeu que fossem analisadas propostas legislativas, atos parlamentares ou outras iniciativas de Flávio que eventualmente pudessem beneficiar o Banco Master ou empresas relacionadas a Daniel Vorcaro.

Isso não significa que a PGR tenha identificado uma contrapartida específica.

O objetivo é justamente descobrir se ela existiu.

Solicitar investimento privado para uma produção cinematográfica não constitui corrupção. Para que essa hipótese avance, será necessário demonstrar que houve solicitação, promessa ou recebimento de vantagem indevida relacionada ao exercício do mandato ou a alguma atuação em benefício do financiador.

Se o dinheiro tiver sido simplesmente um investimento privado no filme, sem qualquer benefício oferecido em troca, essa linha da investigação perde consistência.

Eduardo aparece na estrutura financeira nos Estados Unidos

A participação de Eduardo Bolsonaro também está entre os pontos analisados.

Mensagens de março de 2025 atribuídas ao ex-deputado mostram discussões sobre a gestão do dinheiro nos Estados Unidos. Segundo a PF, Eduardo apresentou orientações que posteriormente chegaram a Daniel Vorcaro por meio de intermediários.

Os investigadores querem saber até onde foi essa participação e se Eduardo exerceu alguma função efetiva sobre a estrutura que administrava os recursos.

O Havengate Development Fund é apontado nos documentos como um dos destinos do dinheiro destinado à produção. A PF busca identificar como os valores foram utilizados depois das transferências e quem foram seus beneficiários finais.

Existe ainda uma linha investigativa sobre a possibilidade de parte dos recursos ter sido empregada para custear despesas de Eduardo nos Estados Unidos ou atividades distintas da realização do filme. A hipótese permanece em investigação e não foi comprovada.

Eduardo nega ter administrado o fundo ou recebido recursos de forma irregular.

Operação Make Up ocorreu em 10 de setembro

Outro ponto que precisa ser separado cronologicamente é a Operação Make Up.

A operação foi deflagrada pela Polícia Federal, com apoio da Controladoria-Geral da União, na manhã de 10 de setembro de 2026. Foram cumpridos 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal.

Essa investigação trata de uma frente diferente daquela conduzida por Mendonça. Sob relatoria do ministro Flávio Dino, a Make Up apura suspeitas de desvio de recursos públicos provenientes de emendas parlamentares e repassados a entidades e empresas que possuem relação com pessoas envolvidas na produção de “Dark Horse”.

Entre os alvos estavam o deputado Mário Frias e estruturas ligadas à produtora do filme.

Flávio Bolsonaro não é investigado nessa operação específica.

A coincidência entre personagens e empresas faz com que as duas apurações frequentemente sejam apresentadas juntas, mas elas possuem origens, objetos e relatores diferentes.

Sigilo começou a cair na noite de 10 de setembro

No mesmo dia da Operação Make Up, o caso Master atravessou outra mudança importante no Supremo.

Na noite de 10 de setembro, Edson Fachin determinou o compartilhamento dos procedimentos relacionados ao Banco Master com os demais ministros da Corte e solicitou o levantamento do sigilo do material, preservando informações cuja divulgação pudesse comprometer diligências ainda em andamento.

André Mendonça respondeu na mesma noite retirando o sigilo da Petição 15.556 e de outros 14 procedimentos relacionados. A decisão abriu ao público milhares de páginas dos autos e permitiu conhecer em maior detalhe a investigação sobre o financiamento de “Dark Horse”.

Foi a partir desses documentos que, na manhã de 11 de setembro, se tornou público que Flávio Bolsonaro é formalmente investigado por suspeitas que incluem corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

O inquérito específico sobre determinados aspectos do financiamento, no entanto, continuou com trechos e diligências protegidos.

Fachin dá novo prazo em 11 de setembro

A discussão sobre transparência continuou ao longo desta sexta-feira.

Depois de críticas sobre a liberação parcial dos documentos, a Procuradoria-Geral da República pediu uma abertura mais ampla dos procedimentos vinculados ao caso Master. Alexandre de Moraes também defendeu a divulgação integral do material e questionou o que chamou de seleção dos documentos retirados do sigilo.

Na tarde de 11 de setembro, Fachin acolheu a manifestação da PGR e deu a Mendonça prazo de até 24 horas para encaminhar aos demais ministros todos os procedimentos relacionados à Petição 15.556 e à Operação Compliance Zero, além de ampliar o levantamento do sigilo.

A ressalva permanece para diligências em andamento ou futuras cuja divulgação possa comprometer a efetividade da investigação.

Isso significa que a abertura dos autos ocorreu em etapas. Primeiro houve a retirada parcial do sigilo na noite de 10 de setembro. No dia seguinte, diante dos pedidos da PGR e de ministros da Corte, Fachin determinou uma ampliação do acesso e fixou prazo para o envio completo dos procedimentos, mantendo reservados apenas os atos investigativos que poderiam ser prejudicados pela publicidade.

Investigação ainda está em fase de apuração

Apesar da quantidade de documentos tornados públicos, o caso continua em fase investigativa.

Flávio Bolsonaro é formalmente investigado, mas não foi denunciado nem condenado nesse procedimento. A Polícia Federal ainda terá de concluir diligências, analisar documentos e esclarecer o destino dos recursos enviados ao exterior.

Quando a apuração estiver concluída, caberá à Procuradoria-Geral da República avaliar o material e decidir se pede novas diligências, requer o arquivamento ou oferece denúncia ao Supremo.

Até agora, a cronologia conhecida mostra uma relação que começou a ser estruturada no fim de 2024, envolveu pagamentos ao longo de 2025, passou a ter participação direta de Flávio nas conversas com Vorcaro pelo menos a partir de agosto daquele ano e continuou até a véspera da primeira prisão do banqueiro, em 17 de novembro.

O caso veio a público em maio de 2026. Fachin definiu Mendonça como relator em 25 de junho. A Polícia Federal formalizou sua representação em 8 de julho. Mendonça autorizou o inquérito em 22 de julho. Em 10 de setembro, a Operação Make Up abriu uma frente distinta sobre recursos públicos e, naquela mesma noite, começou a retirada do sigilo dos procedimentos do Master. Em 11 de setembro, os documentos revelaram em detalhes a condição de Flávio como investigado, enquanto Fachin determinou uma abertura ainda maior dos autos.

Os números também precisam permanecer separados: o projeto previa US$ 24 milhões em financiamento, enquanto pelo menos US$ 12,3 milhões aparecem nos documentos como efetivamente pagos.

É sobre o caminho desse dinheiro, as pessoas que o administraram e a existência ou não de contrapartidas que a investigação deverá se concentrar a partir de agora.

Flávio sustenta que houve apenas financiamento privado de uma produção privada e nega qualquer irregularidade.

A Polícia Federal tenta descobrir se a documentação confirma essa versão.

Fontes:

Supremo Tribunal Federal

Polícia Federal

Procuradoria-Geral da República

Controladoria-Geral da União

Representação da Polícia Federal de 8 de julho de 2026

Documentos do caso Banco Master

Declarações públicas de Flávio Bolsonaro

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