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PF investiga jatinhos, imóveis de luxo e uso de entidades religiosas para lavar dinheiro no Rio

Nona fase da Operação Unha e Carne cumpre quatro mandados autorizados pelo STF e apura ocultação de patrimônio por meio de empresas, terceiros e estruturas no exterior.

por Álvaro Lima
29/10/2026 às 09h54
em Brasil
Pf Investiga Jatinhos, Imóveis De Luxo E Uso De Entidades Religiosas Para Lavar Dinheiro No Rio - Gazeta Mercantil - Brasil

A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira, 29 de outubro de 2026, a nona fase da Operação Unha e Carne para investigar uma suposta estrutura de lavagem de dinheiro envolvendo aeronaves executivas, imóveis de alto padrão, veículos de luxo e empresas nacionais e estrangeiras. A investigação também examina indícios de utilização de entidades religiosas e holdings patrimoniais para ocultar a identidade dos verdadeiros proprietários de bens de elevado valor econômico.

A operação cumpre quatro mandados de busca e apreensão na Zona Sudoeste do Rio de Janeiro, expedidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Os endereços incluem salas comerciais que, segundo os investigadores, seriam utilizadas para administrar atividades do grupo, além de um imóvel residencial vinculado a um dos principais operadores identificados pela corporação.

A nova etapa decorre da análise de informações obtidas em fases anteriores, especialmente dados extraídos de um telefone celular apreendido em julho. O material permitiu identificar outros endereços, estruturas empresariais e ativos que estariam envolvidos na administração e movimentação de recursos de origem suspeita.

A Polícia Federal não divulgou oficialmente a identidade dos alvos desta quinta-feira, o valor total do patrimônio investigado ou a existência de novas prisões. As medidas anunciadas concentram-se na obtenção de documentos, registros financeiros e provas eletrônicas capazes de esclarecer a titularidade dos bens.

PF identifica patrimônio em nome de familiares e terceiros

Um dos principais pontos da investigação é a suspeita de que integrantes da organização criminosa utilizavam outras pessoas para registrar formalmente propriedades que continuariam sob seu controle.

Segundo o comunicado oficial da Polícia Federal, os bens investigados incluem imóveis de alto padrão, aeronaves executivas, veículos de luxo e participações empresariais. Parte desse patrimônio estaria registrada em nome de familiares, colaboradores próximos ou pessoas sem vínculo formal aparente com o núcleo investigado.

Os agentes procuram identificar a origem dos recursos utilizados nas aquisições, a relação econômica entre os envolvidos e os mecanismos empregados para administrar os ativos.

A utilização de terceiros como proprietários formais pode dificultar a identificação do beneficiário efetivo de um patrimônio, especialmente quando os registros de propriedade não correspondem à pessoa que exerce o controle econômico sobre os bens.

Entretanto, a existência de propriedades em nome de familiares ou terceiros não configura, isoladamente, prática criminosa. A investigação precisa demonstrar eventual vínculo com recursos provenientes de infrações penais e a intenção de ocultar ou dissimular sua origem ou titularidade.

A apuração envolve ainda operações financeiras realizadas em espécie, movimentações que a Polícia Federal considera incompatíveis com a rastreabilidade esperada e relações entre empresas brasileiras e estrangeiras.

O objetivo é reconstruir a circulação dos recursos para identificar quem efetivamente financiou, administrou e se beneficiou das operações.

Entidades religiosas e holdings entram na investigação patrimonial

A Polícia Federal também identificou indícios de possível utilização de entidades religiosas e holdings patrimoniais na estrutura de ocultação de bens.

Segundo a corporação, essas organizações poderiam ter sido utilizadas para afastar formalmente a propriedade de determinados ativos das pessoas que exerceriam seu controle real.

Os investigadores examinam a eventual existência de estruturas societárias destinadas a dificultar a identificação dos beneficiários econômicos, incluindo empresas estabelecidas em países ou territórios com tributação favorecida.

O uso de holdings para administração e organização de patrimônio é permitido pela legislação brasileira. Da mesma forma, entidades religiosas podem possuir imóveis, veículos, contas bancárias e outros bens necessários ao desenvolvimento de suas atividades.

A suspeita criminal surge quando essas estruturas são supostamente utilizadas para dissimular a origem ilícita de recursos, esconder seus verdadeiros proprietários ou viabilizar operações incompatíveis com as atividades declaradas.

Até a divulgação do comunicado oficial desta quinta-feira, a Polícia Federal não havia identificado publicamente quais instituições religiosas ou holdings estariam sob investigação nessa frente.

Também não foi divulgado se houve bloqueio de contas, sequestro de imóveis ou apreensão de aeronaves na nona fase.

A ausência dessas informações impede determinar o número de entidades envolvidas, o valor dos ativos investigados ou a eventual responsabilidade de seus administradores.

Celular apreendido em julho levou à identificação de novos endereços

A nona fase foi desencadeada a partir do aprofundamento das provas reunidas durante a quinta etapa da Operação Unha e Carne, realizada em 2 de julho de 2026.

Naquela ocasião, a Polícia Federal investigava suspeitas de lavagem de dinheiro relacionadas a uma organização criminosa e possíveis conexões com integrantes de estruturas políticas e empresariais do Rio de Janeiro.

A quinta fase contou com três mandados de prisão preventiva e 14 de busca e apreensão, além de medidas patrimoniais determinadas pelo STF.

Os investigadores também apuravam registros de contabilidade paralela, possíveis pagamentos indevidos e suspeitas de irregularidades envolvendo recursos e atividades empresariais.

A análise posterior de dispositivos eletrônicos permitiu ampliar o levantamento das relações financeiras e patrimoniais do grupo.

Segundo a Polícia Federal, as informações extraídas de um dos celulares apreendidos revelaram endereços e estruturas empresariais que não integravam o foco inicial das buscas.

O conteúdo também teria indicado conexões entre bens de elevado valor, pessoas físicas e empresas formalmente separadas, mas que permaneceriam sob administração de integrantes do grupo investigado.

A nova etapa procura reunir documentos e registros capazes de confirmar ou afastar essas suspeitas.

Operação anterior identificou movimentações superiores a R$ 7,6 bilhões

A nona fase ocorre duas semanas depois de uma ofensiva contra uma rede de postos de combustíveis suspeita de funcionar como estrutura de lavagem de dinheiro na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

Em 15 de outubro, a Polícia Federal deflagrou a oitava fase da Operação Unha e Carne, com seis mandados de prisão preventiva e 16 de busca e apreensão em sete municípios fluminenses.

Todos os seis investigados que eram alvos das ordens de prisão foram detidos, segundo o balanço oficial da corporação.

Na ocasião, a Justiça também determinou o sequestro de bens e valores e a suspensão das atividades econômicas de 112 empresas vinculadas à rede investigada.

Desse total, 96 eram postos de combustíveis que, segundo a Polícia Federal, poderiam ter sido utilizados para dar aparência de legalidade a recursos de origem criminosa.

Os estabelecimentos representavam aproximadamente 85,7% das empresas atingidas pelas medidas de suspensão.

De acordo com o Relatório de Inteligência Financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), o grupo investigado movimentou mais de R$ 7,6 bilhões em um período de seis anos.

Distribuído uniformemente apenas para fins de dimensionamento, esse valor equivale a aproximadamente R$ 1,27 bilhão por ano ou R$ 105,6 milhões por mês.

O cálculo não significa que as movimentações tenham ocorrido de maneira uniforme, nem que a totalidade dos recursos corresponda a dinheiro de origem criminosa.

O montante representa as transações financeiras identificadas na frente da investigação relacionada à rede de postos de combustíveis. Não se trata de um valor de patrimônio apreendido nesta quinta-feira, tampouco de uma estimativa específica dos bens identificados na nona fase.

Justiça suspendeu atividades de 112 empresas na oitava fase

Na operação de 15 de outubro, além das prisões e das restrições impostas às empresas, os policiais apreenderam 12 veículos de luxo, 13 aparelhos celulares, joias, relógios, aproximadamente R$ 90 mil em espécie, 16 armas, munições e documentos.

As buscas ocorreram no Rio de Janeiro, Niterói, Angra dos Reis, Petrópolis, Armação dos Búzios, Nova Iguaçu e São Gonçalo.

A Polícia Federal investiga a possível participação de agentes públicos e estruturas de articulação política na organização criminosa.

Entre os crimes apurados naquela etapa estão lavagem de dinheiro, organização criminosa armada, corrupção ativa e passiva, violação de sigilo funcional, irregularidades na comercialização de combustíveis e formação de cartel.

As suspeitas envolvem atividades distintas e exigem a individualização das condutas de cada investigado.

O comunicado oficial da nona fase não informa que todos os crimes examinados na etapa anterior estejam necessariamente relacionados aos novos endereços e estruturas patrimoniais identificados.

A ligação entre essas diferentes frentes depende da análise dos documentos, das movimentações financeiras e das demais provas reunidas pela investigação.

STF investiga conexões entre empresas e agentes públicos

As investigações da Operação Unha e Carne estão relacionadas ao Inquérito nº 5020, em tramitação no Supremo Tribunal Federal.

No dia 15 de outubro, o ministro Alexandre de Moraes decretou a prisão preventiva de seis investigados por suspeita de participação em uma organização criminosa com atuação no Rio de Janeiro.

Entre eles estavam Márcio Canella, deputado estadual eleito e ex-prefeito de Belford Roxo, e Marcus Vinicius Amim Fernandes, ex-secretário de Polícia Civil do estado.

A decisão também alcançou Pablo Jukiá Felix Ferreira, conhecido como Pablo Russo, José Carlos Alves de Souza Júnior, Christiano Gaspar Fernandes e Giovanni Gaspar Fernandes.

Segundo informações divulgadas pelo STF naquela ocasião, a organização investigada teria núcleos responsáveis por articulação política, administração de empresas, movimentação financeira e obtenção de proteção institucional.

A suspeita é de que integrantes do grupo tenham utilizado influência política e relações com agentes públicos para favorecer atividades econômicas e dificultar a fiscalização.

A decisão judicial de outubro também autorizou buscas, acesso a informações armazenadas em dispositivos eletrônicos, bloqueio de bens e suspensão de atividades empresariais.

O tribunal destacou que as medidas cautelares foram adotadas diante dos elementos apresentados pela Polícia Federal e da necessidade de preservar a investigação.

As prisões preventivas e demais providências judiciais não representam condenação definitiva dos envolvidos.

Lavagem de dinheiro pode envolver ocultação da origem e da propriedade de bens

A legislação brasileira define o crime de lavagem de dinheiro na Lei nº 9.613, de 3 de março de 1998, posteriormente modificada pela Lei nº 12.683, de 2012.

O artigo 1º estabelece como crime a ocultação ou dissimulação da natureza, origem, localização, disposição, movimentação ou propriedade de bens, direitos ou valores provenientes, direta ou indiretamente, de infração penal.

A pena prevista é de três a dez anos de reclusão, além de multa, sem prejuízo de outras sanções eventualmente aplicáveis a crimes distintos.

Entre os mecanismos que podem ser utilizados para esconder patrimônio estão transações entre empresas relacionadas, transferências para terceiros, utilização de estruturas societárias complexas e circulação de recursos por diferentes jurisdições.

Essas operações, consideradas isoladamente, não caracterizam necessariamente lavagem de dinheiro. A responsabilização criminal depende da demonstração dos elementos exigidos pela legislação.

No caso da Operação Unha e Carne, a Polícia Federal procura verificar se os ativos identificados foram adquiridos com recursos provenientes de atividades ilícitas e se houve mecanismos deliberados para esconder sua origem ou seus beneficiários.

As movimentações financeiras em espécie, a presença de empresas no exterior e a utilização de pessoas interpostas são elementos examinados em conjunto com os demais registros obtidos.

Investigações avançam sobre propriedade real de bens de elevado valor

A nona fase amplia o foco patrimonial da Operação Unha e Carne, que já havia atingido suspeitas de vazamento de informações sigilosas, corrupção, irregularidades em contratos públicos e lavagem de dinheiro por meio de estabelecimentos comerciais.

As buscas desta quinta-feira procuram esclarecer três pontos centrais: a origem do dinheiro empregado na aquisição dos ativos, a identidade de seus beneficiários efetivos e a relação entre as estruturas empresariais identificadas.

O material recolhido será submetido à análise da Polícia Federal, que poderá confrontar documentos societários, registros contábeis, comunicações eletrônicas e informações financeiras para reconstruir a movimentação dos recursos.

Também poderão ser examinados vínculos entre pessoas físicas e jurídicas, contratos de aquisição e administração de bens e eventuais transações internacionais relacionadas ao patrimônio investigado.

A corporação ainda não divulgou balanço final das apreensões realizadas nesta quinta-feira nem informou se solicitará novas medidas cautelares ao Supremo Tribunal Federal.

O avanço das investigações dependerá da análise das provas recolhidas e de eventuais decisões judiciais posteriores.

Fontes:

Polícia Federal — comunicado oficial de 29 de outubro de 2026 sobre a nona fase da Operação Unha e Carne, com informações sobre os mandados, os bens investigados e as suspeitas de ocultação patrimonial.

Polícia Federal — comunicado de 15 de outubro de 2026 sobre a oitava fase da Operação Unha e Carne, incluindo prisões, empresas atingidas, apreensões e movimentações financeiras investigadas.

Polícia Federal — comunicado de 7 de julho de 2026 sobre a sexta fase da operação e as movimentações superiores a R$ 7,6 bilhões identificadas em relatório de inteligência financeira.

Supremo Tribunal Federal — comunicado de 15 de outubro de 2026 sobre as prisões preventivas e medidas patrimoniais determinadas no Inquérito nº 5020.

Senado Federal — Lei nº 9.613, de 1998, e Lei nº 12.683, de 2012, que disciplinam a prevenção e a repressão à lavagem de dinheiro.

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