A Paramount Skydance concluiu nesta terça-feira (6) a aquisição da Warner Bros. Discovery (WBD), em uma transação com valor empresarial de cerca de US$ 110 bilhões que encerra mais de um ano de negociações, ofertas concorrentes, aprovação de acionistas e contestações antitruste. A companhia resultante passa a se chamar Skydance Corporation e suas ações da classe B passam a ser negociadas na New York Stock Exchange (NYSE) sob o código SKYD.
A operação coloca sob o mesmo controle dois dos principais grupos tradicionais de entretenimento dos Estados Unidos. O portfólio combinado reúne os estúdios Paramount e Warner Bros., as plataformas Paramount+ e HBO Max, as redes CBS e CNN, além de canais de TV paga, propriedades esportivas e um extenso acervo de filmes e séries. David Ellison permanece como presidente do conselho e CEO, enquanto Ynon Kreiz, ex-presidente-executivo da Mattel, assume como co-CEO com foco na gestão diária e na integração dos negócios.
Para os acionistas da Warner Bros. Discovery, a operação foi fechada em dinheiro. O acordo previa US$ 31 por ação, acrescidos de uma remuneração diária após 30 de setembro até o fechamento. Como a conclusão ocorreu em 6 de outubro, seis dias corridos foram contabilizados, elevando a parcela por ação para US$ 31,01666668. O adicional de US$ 0,01666668 representa cerca de 0,054% do preço-base de US$ 31.
O valor de US$ 110 bilhões usado para dimensionar a transação é o valor empresarial negociado, enquanto a aquisição das ações da WBD foi estimada em cerca de US$ 78 bilhões no fechamento, segundo as demonstrações pro forma preparadas pela Paramount. Os documentos consideram aproximadamente 2,514 bilhões de ações ordinárias e estimam em US$ 42 milhões o custo da chamada ticking consideration aos acionistas em razão do fechamento em 6 de outubro.
Negócio amplia escala, mas também aumenta a alavancagem
A nova companhia inicia a integração com uma escala financeira elevada. Nas projeções apresentadas pela Paramount, a empresa combinada teria receita pro forma de aproximadamente US$ 69 bilhões em 2026 e Ebitda de US$ 18 bilhões, já considerando integralmente as sinergias projetadas. A meta divulgada para as eficiências recorrentes é superior a US$ 6 bilhões em até três anos, com foco em tecnologia, compras, imóveis, serviços corporativos e integração de sistemas.
A estrutura de capital, por outro lado, deixa a Skydance mais alavancada. A Paramount estimava dÃvida lÃquida de cerca de US$ 79 bilhões no fechamento e relação dÃvida lÃquida/Ebitda de 4,3 vezes em uma base ajustada pelas sinergias. A companhia indicou como objetivo reduzir esse indicador para aproximadamente 3 vezes em três anos e recuperar métricas compatÃveis com grau de investimento.
A escala também será medida pelo número de usuários e pelo volume de conteúdo. A administração projetou uma base superior a 200 milhões de assinantes globais somando as plataformas de streaming do grupo. No cinema, a empresa combinada mantém o compromisso de produzir pelo menos 30 filmes para lançamento anual nos cinemas, enquanto a administração estima gasto conjunto de cerca de US$ 35 bilhões por ano em conteúdo.
Esses números ajudam a dimensionar o desafio de integração. A companhia não está apenas combinando duas bibliotecas de conteúdo, mas sistemas tecnológicos, áreas administrativas, infraestrutura, equipes comerciais, operações internacionais e diferentes plataformas de distribuição. A administração diz que a maior parcela das sinergias virá de estruturas duplicadas e não da redução dos estúdios de cinema e televisão, embora a materialização dessas economias dependa da execução do plano de integração.
Disputa começou com a tentativa de separar a Warner Bros. Discovery
A origem do negócio remonta a junho de 2025, quando a Warner Bros. Discovery anunciou um plano para separar seus estúdios e operações de streaming de sua divisão de redes de televisão. A estratégia refletia a pressão sobre a televisão linear e a necessidade de dar maior autonomia aos ativos de streaming e cinema.
A Paramount Skydance entrou na disputa meses depois. Após apresentar propostas rejeitadas pela WBD, a empresa viu Netflix e Comcast também demonstrarem interesse. Em dezembro de 2025, a Netflix chegou a anunciar um acordo para comprar os ativos de cinema e streaming da Warner Bros. Discovery por quase US$ 83 bilhões, enquanto os negócios de televisão ficariam em uma estrutura separada.
A Paramount reagiu com uma oferta hostil em dinheiro de US$ 30 por ação. O confronto terminou em fevereiro de 2026, quando a Netflix recusou-se a acompanhar uma proposta elevada da Paramount para US$ 31 por ação. Em 27 de fevereiro, as empresas anunciaram o acordo definitivo que deu origem à operação concluÃda nesta terça-feira.
A sequência mostra por que o fechamento é mais do que uma troca de controle societário. A transação foi construÃda depois de uma guerra de propostas que mudou o preço pago aos acionistas da WBD e obrigou a Paramount a obter financiamento em larga escala. O plano incluiu US$ 47 bilhões em novas ações da classe B, apoiadas por compromissos do grupo Ellison e da RedBird Capital Partners, além de novas dÃvidas.
Aprovação regulatória exigiu acordo com 12 estados
A aquisição recebeu autorização do Departamento de Justiça dos Estados Unidos em junho. A divisão antitruste concluiu que, com base nas evidências analisadas, a operação não tenderia a prejudicar a competição em streaming, televisão linear ou produção e distribuição de filmes. A Comissão Europeia também aprovou a operação em julho, sob condições, enquanto a Paramount informou em agosto ter obtido as aprovações regulatórias necessárias em 68 paÃses.
O principal obstáculo surgiu depois. Em julho, procuradores-gerais de 12 estados americanos, liderados pela Califórnia, processaram a Paramount e a WBD para tentar bloquear a transação. O argumento central era que a concentração poderia reduzir a produção de filmes e elevar preços para consumidores e distribuidores.
O conflito foi encerrado em setembro com um acordo que impôs compromissos à empresa combinada. A Paramount assumiu a obrigação de elevar a produção cinematográfica doméstica em pelo menos US$ 1,5 bilhão ao longo de cinco anos, criou um fundo de US$ 47,5 milhões para trabalhadores afetados pela fusão e aceitou restrições sobre a forma de negociar determinados contratos de canais de televisão por assinatura.
Em 30 de setembro, uma juÃza federal aprovou o decreto de consentimento e dissolveu a ordem que impedia o fechamento da fusão. A decisão eliminou a última barreira judicial relevante e permitiu que as condições restantes do acordo fossem satisfeitas para a conclusão em 6 de outubro.
A cronologia regulatória acrescentou um custo financeiro ao negócio. Como o acordo previa a cobrança de uma remuneração adicional de US$ 0,25 por ação a cada trimestre, calculada diariamente a partir de 1º de outubro, a conclusão dentro do prazo de 6 de outubro limitou essa despesa a um intervalo de seis dias. Pelos cálculos divulgados pela própria Paramount, isso resultou em cerca de US$ 42 milhões de ticking consideration para os acionistas ordinários.
Skydance estreia com nova administração e marcas preservadas
A estrutura de comando anunciada na véspera do fechamento combina executivos das duas empresas. Ellison concentra a estratégia, a direção criativa e a tecnologia, enquanto Kreiz assume a gestão operacional e a integração. Casey Bloys ficará responsável pelo conteúdo de streaming, George Cheeks dividirá a liderança da televisão, e Mark Thompson e Bari Weiss comandarão, respectivamente, CNN e CBS News.
A estratégia divulgada pela nova administração é preservar as marcas e utilizar a escala para ampliar a distribuição de conteúdo. HBO Max e Paramount+ permanecerão como ativos distintos dentro da estrutura de streaming, enquanto os estúdios também deverão manter identidades separadas. No cinema, a combinação pretende ampliar a oferta anual e explorar conjuntamente franquias e propriedade intelectual de ambos os grupos.
A mudança societária também altera a referência de mercado para os investidores. As ações da antiga Paramount Skydance deixaram a Nasdaq e passaram a ser negociadas na NYSE em 6 de outubro, enquanto a WBD deixa de existir como companhia independente no mercado acionário. O novo ticker SKYD passa a representar uma empresa cujo balanço, geração de caixa e resultados futuros dependerão da integração dos dois negócios.
O fechamento encerra a etapa de aquisição, mas abre a fase mais complexa do processo: executar as sinergias, integrar sistemas e operações, reduzir a alavancagem e sustentar o investimento em conteúdo sem comprometer a geração de caixa. A própria documentação financeira da transação prevê uma companhia maior e mais diversificada, mas também com dÃvida elevada e metas de eficiência que precisarão ser convertidas em resultados operacionais.
Para investidores e para o setor de mÃdia, o próximo teste será medir se a escala obtida com a combinação consegue compensar a pressão estrutural sobre a televisão linear e os custos crescentes da disputa global por audiência no streaming. A companhia começa essa nova fase com uma meta definida de eficiência, uma extensa carteira de ativos e compromissos regulatórios que limitarão parte da forma como poderá conduzir sua expansão.
Fontes:
Paramount Skydance Corporation – acordo de aquisição, estrutura financeira da transação e projeções pro forma da companhia combinada
Paramount Skydance Corporation – anúncio da conclusão prevista, remuneração adicional por ação e mudança de nome e ticker
Paramount Skydance Corporation – composição da liderança executiva da Skydance e estratégia de integração
U.S. Securities and Exchange Commission – documentos societários e demonstrações financeiras pro forma da aquisição da Warner Bros. Discovery
U.S. Department of Justice – encerramento da análise antitruste da aquisição da Warner Bros. Discovery
European Commission – decisão de controle de concentração envolvendo Paramount Skydance e Warner Bros. Discovery
California Department of Justice – acordo com os procuradores-gerais estaduais e compromissos antitruste da fusão
United States District Court for the Northern District of California – decreto de consentimento e autorização para o fechamento da transação
Reuters – confirmação do fechamento da aquisição e inÃcio da negociação da Skydance na NYSE







