A Petrobras (PETR3; PETR4) assinou nesta terça-feira, 29 de setembro de 2026, um contrato de longo prazo com a Cheniere Marketing, subsidiária da norte-americana Cheniere Energy (NYSE: LNG), para a compra de aproximadamente 800 mil toneladas de gás natural liquefeito (GNL) por ano durante 22 anos. O acordo amplia a parcela do suprimento de gás contratada com antecedência pela estatal e reduz sua dependência de compras no mercado spot, onde os preços variam de acordo com as condições internacionais de oferta e demanda.
Pelos termos divulgados pelas companhias, a entrega será feita em modalidade FOB (free on board), o que significa que a Petrobras assume a retirada do GNL no terminal de exportação e a logÃstica posterior. O contrato corresponde, na capacidade anual prevista, a 17,6 milhões de toneladas de GNL ao longo dos 22 anos. As informações públicas localizadas sobre a operação não apresentam o valor financeiro total do acordo nem detalham, até o momento, a data de inÃcio das entregas.
O novo contrato ocorre poucos dias depois de a Petrobras anunciar outro compromisso de longo prazo com uma companhia norte-americana. No fim de agosto, a estatal assinou com a Sempra Infrastructure um acordo de 20 anos para receber 800 mil toneladas de GNL por ano, com suprimento previsto a partir do terminal Port Arthur LNG, no Texas. Considerados os dois contratos, a Petrobras passa a ter 1,6 milhão de toneladas anuais de GNL contratadas em operações de longo prazo com fornecedores norte-americanos, embora os prazos sejam diferentes.
Petrobras amplia a parcela contratada do suprimento de gás
A justificativa apresentada pela Petrobras para a contratação com a Cheniere está ligada à gestão do portfólio de gás natural. Segundo a companhia, a contratação de volumes de longo prazo reduz a exposição à volatilidade do mercado spot, melhora a gestão de riscos e amplia a flexibilidade e a segurança para cumprir os contratos de fornecimento de gás firmados com clientes no Brasil.
Esse movimento ocorre em um mercado brasileiro que combina aumento da produção doméstica com necessidade de fontes complementares de abastecimento. Em julho de 2026, o Brasil produziu 214,97 milhões de metros cúbicos de gás natural por dia. Desse total, os campos do pré-sal responderam por 173,72 milhões de metros cúbicos diários. A Petrobras, sozinha ou em consórcio, operou campos responsáveis por 87,27% da produção nacional de petróleo e gás no mês.
A produção doméstica, porém, não se transforma integralmente em oferta disponÃvel ao mercado consumidor. Em julho, foram disponibilizados 66,12 milhões de metros cúbicos por dia de gás natural, enquanto 4,67 milhões de metros cúbicos diários foram queimados. A diferença reflete as etapas de escoamento, processamento, reinjeção, consumo nas próprias operações e outras limitações da cadeia.
Esse quadro ajuda a explicar por que a Petrobras mantém contratos de importação de GNL mesmo com o avanço da produção nacional. O gás produzido no pré-sal está associado principalmente à produção de petróleo e depende de sistemas de escoamento e processamento para chegar ao mercado. O GNL importado funciona como uma fonte complementar, com capacidade de ser direcionada às necessidades do portfólio comercial e das usinas termelétricas.
Contrato de longo prazo substitui parte da exposição ao mercado spot
A diferença central entre a nova estratégia de contratação e a simples compra de cargas no mercado à vista está no horizonte de planejamento. No mercado spot, a Petrobras pode aproveitar momentos de preços mais baixos, mas também fica exposta a oscilações provocadas por clima, demanda asiática e europeia, interrupções de oferta, custos de frete, disponibilidade de navios e choques geopolÃticos.
Com um contrato de 22 anos, a estatal transforma parte dessa incerteza em compromisso de fornecimento previamente contratado. Em contrapartida, perde parte da liberdade que teria para selecionar fornecedores e volumes exclusivamente de acordo com os preços momentâneos do mercado.
No modelo FOB, o comprador também assume a logÃstica marÃtima a partir do terminal de exportação. A própria Cheniere define o termo como a modalidade em que o cliente recebe o GNL no terminal de exportação do vendedor. A estrutura é diferente de uma operação entregue no destino, na qual o fornecedor mantém maior responsabilidade logÃstica até o ponto de recebimento.
As informações disponÃveis não permitem afirmar qual será a fórmula econômica especÃfica do acordo Petrobras-Cheniere. A Cheniere, em seus contratos de longo prazo, utiliza com frequência estruturas compostas por uma parcela fixa e outra variável vinculada ao Henry Hub, referência de preços do gás natural dos Estados Unidos. Em seu relatório anual, a companhia informa que seus contratos de venda de GNL normalmente combinam uma tarifa fixa por MMBtu com uma parcela variável geralmente equivalente a 115% do Henry Hub, embora as condições possam variar de contrato para contrato.
Por isso, não é possÃvel concluir, sem a divulgação integral da fórmula comercial do acordo com a Petrobras, qual será a exposição efetiva da estatal ao Henry Hub, à s tarifas de liquefação, ao frete e a outros componentes do preço.
Dois contratos com os EUA somam 1,6 milhão de toneladas anuais
A operação com a Cheniere ganha dimensão maior quando comparada ao acordo assinado semanas antes com a Sempra Infrastructure. O contrato com a Sempra prevê 800 mil toneladas de GNL por ano por 20 anos e está associado ao Port Arthur LNG, empreendimento em construção no Texas. A Petrobras apresentou a contratação como parte de uma estratégia para diminuir a exposição ao mercado spot e aumentar a flexibilidade do portfólio.
Na prática, os dois contratos acrescentam 1,6 milhão de toneladas anuais de compromissos de compra de GNL com empresas norte-americanas. No caso da Cheniere, mantido o volume indicado no anúncio durante todo o prazo, serão 17,6 milhões de toneladas acumuladas. No acordo com a Sempra, o volume contratual equivalente é de 16 milhões de toneladas ao longo dos 20 anos.
A combinação não significa que a Petrobras deixará de comprar GNL no mercado spot. Contratos de longo prazo e compras oportunÃsticas podem coexistir, permitindo que a empresa use o suprimento contratado como base e recorra ao mercado de curto prazo para ajustar o portfólio conforme as condições de demanda, geração termelétrica e disponibilidade da produção doméstica.
Esse tipo de estratégia é particularmente relevante para uma companhia que atende distribuidoras de gás, consumidores industriais e usinas termelétricas. A Petrobras informa em sua documentação regulatória que seus contratos de venda de gás natural incluem compromissos de longo prazo e de curto prazo e utilizam referências como Brent, Henry Hub, Japan Korea Marker e dólar.
Oferta nacional deve crescer, mas importação continuará no portfólio
A Petrobras trabalha simultaneamente para ampliar a oferta doméstica. No Plano de Negócios 2026-2030, a companhia reservou US$ 4 bilhões para a Carteira em Implantação Alvo do segmento de Gás e Energias de Baixo Carbono. Em gás natural, o objetivo declarado é aumentar a oferta nacional por meio da produção própria e desenvolver novos produtos comerciais.
O plano também prevê crescimento da produção total de óleo e gás e disponibilidade crescente de gás natural, apoiada por novos poços, novos sistemas de produção e projetos destinados a elevar a oferta ao mercado. A empresa estima ainda oito novos sistemas de produção até 2030, dos quais sete já estavam contratados na formulação do plano.
Um dos principais vetores é o pré-sal, que em julho de 2026 respondeu por 82,4% da produção brasileira de petróleo e gás em barris equivalentes. O campo de Mero foi o maior produtor de gás natural do paÃs naquele mês, com 49,14 milhões de metros cúbicos por dia.
O crescimento da oferta doméstica, portanto, não elimina a necessidade de uma carteira diversificada. O próprio modelo de negócios da Petrobras combina gás produzido no paÃs, gás importado da BolÃvia e GNL adquirido no mercado internacional. O relatório de gestão da companhia informa que as unidades de processamento da empresa têm capacidade para tratar 108 milhões de metros cúbicos de gás natural por dia no Brasil e que o produto é comercializado para consumidores e usinas termelétricas.
Cheniere amplia contratos enquanto expande capacidade nos EUA
Do lado norte-americano, o contrato com a Petrobras reforça a estratégia comercial da Cheniere de assegurar compradores de longo prazo para sua capacidade de liquefação. A companhia informa que possui cerca de 55 milhões de toneladas anuais de capacidade de liquefação em operação nos terminais Sabine Pass e Corpus Christi, além de mais de 6 milhões de toneladas anuais em construção. Há ainda mais de 40 milhões de toneladas em projetos em processo de licenciamento regulatório.
No segundo trimestre de 2026, a Cheniere exportou 184 cargas de GNL e, no primeiro semestre, chegou a 371 cargas. A companhia elevou sua previsão de produção para 2026 para uma faixa entre 53 milhões e 54 milhões de toneladas, ante a projeção anterior de 52 milhões a 54 milhões.
A empresa informou ainda que aproximadamente 90% da produção antecipada de seus projetos Sabine Pass e Corpus Christi já estava contratada por meio de acordos de longo prazo e contratos de fornecimento estruturados até meados da década de 2030, considerando as exclusões previstas em sua metodologia. A expansão de contratos de longo prazo é, portanto, parte central do modelo comercial da Cheniere, e não uma operação isolada com a Petrobras.
A expansão da oferta norte-americana também cria espaço para novos contratos de exportação. Em junho de 2026, a Cheniere recebeu autorização da Federal Energy Regulatory Commission para elevar em aproximadamente 5 milhões de toneladas anuais a capacidade dos projetos Corpus Christi Stage 3 e Midscale Trains 8 e 9. Em paralelo, avançaram as obras relacionadas à expansão de Sabine Pass.
Mercado brasileiro passa por abertura e maior diversificação
A contratação também ocorre em um ambiente regulatório mais aberto no Brasil. A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e BiocombustÃveis informou que, desde julho de 2026, o acesso de terceiros aos terminais de GNL passou a ser disciplinado pela Resolução ANP nº 1.003/2026, que regulamenta o acesso não discriminatório, negociado e remunerado à s instalações. A agência também informa que autoriza as atividades de importação e exportação de gás natural.
Outra mudança relevante é o avanço da comercialização direta de gás da União. Em setembro, a Pré-Sal Petróleo S.A. e a Petrobras firmaram acordo para que a estatal atue como agente comercializadora do gás natural pertencente à União, com previsão de operações de compra e venda e preparação do primeiro leilão de gás natural da União. O acordo tem vigência de três anos e está previsto para viabilizar novas ofertas ao mercado a partir de 2026.
Nesse ambiente, a estratégia da Petrobras combina três frentes: aumento da produção doméstica, diversificação dos fornecedores internacionais e contratos capazes de reduzir a exposição excessiva a compras de curto prazo. O acordo com a Cheniere adiciona uma nova camada de previsibilidade ao portfólio e amplia o peso dos Estados Unidos entre as origens de GNL contratadas pela companhia.
O ponto central para o acompanhamento da operação daqui para frente será a execução do contrato: inÃcio efetivo das entregas, fórmula de precificação, volumes efetivamente recebidos, custos logÃsticos e participação desses volumes na carteira de suprimento da Petrobras. Essas informações serão determinantes para medir o efeito financeiro e operacional de uma contratação que, mantidos os 800 mil toneladas anuais anunciados, representa 17,6 milhões de toneladas de GNL ao longo de 22 anos.
Fontes:
Reuters – anúncio do contrato de 22 anos entre Cheniere Marketing e Petrobras, volume anual e modalidade FOB
Petrobras – contrato de longo prazo com a Sempra Infrastructure para compra de GNL
Petrobras – Plano de Negócios 2026-2030 e estratégia para gás natural
Petrobras – relatório de gestão e informações sobre processamento, comercialização e suprimento de gás natural
ANP – produção brasileira de petróleo e gás natural em julho de 2026
ANP – regras de acesso aos terminais de GNL e autorização de importação e exportação de gás natural
PPSA – acordo com a Petrobras para comercialização do gás natural da União
Cheniere Energy – resultados do segundo trimestre de 2026, capacidade de liquefação e produção de GNL
Cheniere Energy – relatório anual e estrutura dos contratos de venda de GNL








