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Pessimismo do consumidor nos EUA cai ao pior nível em 70 anos enquanto Wall Street bate recordes

Confiança das famílias americanas despenca em meio à inflação e incertezas, mas bolsas seguem em alta puxadas pela inteligência artificial.

por Maria Helena Costa
26/05/2026 às 13h11
em Economia
Pessimismo Do Consumidor Nos Eua Cai Ao Pior Nível Em 70 Anos Enquanto Wall Street Bate Recordes-Gazeta Mercantil

O pessimismo do consumidor nos Estados Unidos atingiu o pior nível em cerca de 70 anos ao mesmo tempo em que Wall Street opera próxima de recordes históricos, em um descompasso que passou a chamar atenção de economistas, investidores e formuladores de política monetária. Dados divulgados pela Universidade de Michigan mostram que o índice de sentimento do consumidor americano recuou ao menor patamar desde o início da série histórica, iniciada nos anos 1950, em meio à inflação persistente, ao encarecimento do custo de vida, ao enfraquecimento gradual do mercado de trabalho e às tensões geopolíticas envolvendo o Oriente Médio.

Na direção oposta, os principais índices acionários dos Estados Unidos seguem acumulando ganhos expressivos em 2026. O S&P 500 opera próximo de máximas históricas, o Dow Jones renovou recordes recentes e empresas ligadas à inteligência artificial lideram a valorização das bolsas americanas, impulsionando avaliações consideradas elevadas por parte do mercado.

Leia também: Wall Street: Impasse diplomático entre EUA e Irã e decisão do Fed travam mercados em Nova York.

A divergência entre o humor das famílias e a euforia dos investidores rompe um padrão historicamente observado na economia americana, no qual expansão do mercado acionário costuma caminhar ao lado de confiança elevada do consumidor, fortalecimento do emprego e crescimento econômico consistente.

O cenário atual reacendeu debates sobre a sustentabilidade da valorização das ações americanas, os riscos associados às apostas em inteligência artificial e a capacidade da economia dos EUA de evitar uma desaceleração mais forte nos próximos trimestres.

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Inflação persistente e custo de vida pressionam famílias americanas

O índice de sentimento do consumidor calculado pela Universidade de Michigan é uma das principais referências para medir a percepção econômica das famílias nos Estados Unidos. O indicador é elaborado a partir de entrevistas mensais com consumidores e avalia expectativas sobre renda, emprego, inflação e condições financeiras futuras.

Segundo a leitura mais recente, o pessimismo do consumidor superou inclusive os níveis observados em junho de 2022, período marcado pelo pico inflacionário pós-pandemia e pela forte alta dos juros promovida pelo Federal Reserve.

A deterioração recente da confiança reflete uma combinação de fatores econômicos e geopolíticos. O avanço dos preços dos combustíveis, provocado pelas tensões envolvendo o Irã e os riscos sobre a oferta global de petróleo, voltou a pressionar despesas cotidianas das famílias americanas.

Embora a inflação tenha desacelerado em relação aos níveis extremos registrados entre 2021 e 2023, o custo de vida nos Estados Unidos permanece significativamente acima do observado antes da pandemia de Covid-19. Itens como alimentação, aluguel, energia e seguros continuam consumindo parcela relevante da renda das famílias.

Economistas observam que a percepção da população sobre inflação costuma ser influenciada principalmente pelos gastos cotidianos, e não apenas pelos indicadores agregados acompanhados pelo mercado financeiro. A elevação persistente dos preços em categorias essenciais ajuda a explicar por que parte dos consumidores ainda sente deterioração do poder de compra mesmo após a desaceleração dos índices oficiais de inflação.

Outro elemento que pesa sobre o humor econômico é a perda gradual de força do mercado de trabalho americano. Apesar de os Estados Unidos ainda registrarem desemprego relativamente baixo em comparação histórica, indicadores recentes mostram desaceleração na abertura de vagas, redução no ritmo de contratações e aumento da cautela das empresas.

Wall Street opera em níveis próximos da bolha “dotcom”

Enquanto consumidores demonstram crescente preocupação com renda e inflação, Wall Street segue em trajetória oposta. Analistas apontam que o mercado acionário americano passou a operar em níveis historicamente elevados de valuation, sobretudo nas empresas de tecnologia.

Um dos indicadores mais utilizados para medir o grau de valorização das ações é o CAPE ratio, criado pelo economista Robert Shiller, vencedor do Nobel de Economia em 2013. O indicador ajusta o preço das ações pelos lucros médios das empresas ao longo de dez anos, descontando os efeitos da inflação.

Segundo os dados mais recentes compilados por Shiller, o CAPE do S&P 500 ultrapassou o nível de 40 pontos, marca alcançada anteriormente apenas durante a fase mais intensa da bolha das empresas de internet no fim da década de 1990 e no início dos anos 2000.

Naquele período, entretanto, o contexto macroeconômico era diferente do atual. Os Estados Unidos viviam expansão econômica robusta, desemprego reduzido, inflação controlada e forte entusiasmo com a digitalização da economia após a popularização da internet.

Além disso, o ambiente geopolítico internacional apresentava maior estabilidade após o fim da Guerra Fria, enquanto os consumidores americanos exibiam níveis elevados de confiança.

Agora, o quadro é inverso em diversos aspectos. O pessimismo do consumidor atinge mínimas históricas justamente em um momento em que os mercados acionários operam próximos da euforia.

O movimento tem levado parte dos analistas a comparar o ambiente atual com períodos anteriores de excesso de otimismo em relação ao potencial de novas tecnologias.

Inteligência artificial impulsiona bolsas americanas

A inteligência artificial se consolidou como principal motor da valorização recente das ações americanas. Empresas de tecnologia, semicondutores, computação em nuvem e infraestrutura digital passaram a concentrar grande parte dos ganhos registrados em Wall Street desde 2024.

Gigantes do setor de tecnologia ampliaram investimentos bilionários em data centers, chips avançados e sistemas de IA generativa, alimentando expectativas de aumento de produtividade e expansão dos lucros corporativos nos próximos anos.

A percepção predominante entre investidores é que a inteligência artificial poderá provocar uma transformação estrutural semelhante à observada durante a revolução da internet nas décadas anteriores.

Essa expectativa elevou significativamente os múltiplos das empresas associadas ao setor. Em alguns casos, companhias ligadas à cadeia da IA passaram a concentrar peso relevante nos índices americanos, aumentando a dependência de Wall Street em relação ao desempenho de um grupo restrito de ações.

Ao mesmo tempo, a expansão acelerada da inteligência artificial também alimenta preocupações entre trabalhadores e consumidores. Pesquisas recentes conduzidas por centros de estudos nos Estados Unidos mostram aumento da apreensão em relação ao impacto da automação sobre empregos administrativos, funções operacionais e atividades ligadas ao setor de serviços.

Para investidores, a IA representa potencial de aumento de eficiência, redução de custos e ampliação das margens corporativas. Para parte da população, porém, o avanço tecnológico também é percebido como fonte de insegurança profissional e concentração econômica.

A divergência ajuda a explicar parte do descolamento atual entre Wall Street e o sentimento das famílias americanas.

Concentração de riqueza amplia diferença entre mercado e população

Outro fator estrutural citado por economistas envolve a concentração patrimonial nos Estados Unidos. Embora milhões de americanos possuam alguma exposição indireta ao mercado financeiro por meio de fundos de aposentadoria e planos de investimento, a maior parcela das ações continua concentrada entre famílias de renda mais elevada.

Dados do Federal Reserve indicam que os grupos mais ricos detêm participação desproporcional nos ativos financeiros do país, o que reduz o impacto direto da valorização das bolsas sobre a percepção econômica média da população.

Na prática, isso significa que altas expressivas em Wall Street não necessariamente produzem melhora equivalente no consumo ou no humor econômico das famílias de renda média e baixa.

Pesquisas da própria Universidade de Michigan mostram que consumidores com maior exposição ao mercado acionário tendem a demonstrar confiança econômica mais elevada do que aqueles menos inseridos no sistema financeiro.

Mesmo assim, o nível atual de pessimismo do consumidor permanece historicamente elevado inclusive entre parte dos investidores individuais.

A combinação entre custo de vida elevado, juros ainda altos e receio sobre o mercado de trabalho vem limitando a recuperação mais ampla da confiança nos Estados Unidos.

Federal Reserve monitora sinais contraditórios da economia

O descompasso entre mercado financeiro e sentimento do consumidor também passou a ocupar espaço central nas análises do Federal Reserve. A autoridade monetária americana acompanha os efeitos da inflação persistente sobre o consumo ao mesmo tempo em que observa condições financeiras relativamente favoráveis nos mercados.

Para o Fed, a permanência de bolsas aquecidas pode contribuir para manter o nível de consumo e investimento por meio do chamado “efeito riqueza”, no qual famílias e empresas se sentem mais confortáveis financeiramente diante da valorização dos ativos.

Por outro lado, o pessimismo do consumidor pode sinalizar perda gradual de fôlego da atividade econômica, especialmente caso o mercado de trabalho continue desacelerando.

Parte dos economistas avalia que investidores podem estar antecipando um cenário de inflação mais controlada e eventual redução dos juros nos próximos meses, hipótese que sustentaria as avaliações elevadas das ações.

Outra corrente considera que Wall Street pode estar subestimando riscos relacionados ao crescimento econômico, ao cenário geopolítico e à capacidade das empresas de manter lucros robustos em um ambiente de desaceleração global.

O debate ganhou força porque divergências prolongadas entre economia real e mercado financeiro historicamente costumam anteceder períodos de maior volatilidade.

Euforia em Wall Street amplia debate sobre riscos para a economia americana

O atual cenário americano reúne sinais contraditórios que dificultam a leitura sobre os próximos passos da economia dos Estados Unidos. De um lado, empresas ligadas à inteligência artificial continuam reportando crescimento acelerado, sustentando parte relevante da valorização das bolsas.

De outro, consumidores seguem pressionados por inflação acumulada, juros elevados e incertezas geopolíticas, fatores que limitam a recuperação da confiança.

O contraste entre o pessimismo do consumidor e a euforia de Wall Street passou a ser interpretado por analistas como um dos principais termômetros do momento econômico americano em 2026.

A manutenção desse descompasso deve continuar influenciando decisões do Federal Reserve, estratégias de investimento e projeções para crescimento global nos próximos meses, especialmente diante da relevância da economia americana para os mercados internacionais.

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