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PF deflagra 2ª fase da Operação Disclosure e mira fraude bilionária na Americanas

Mandados são cumpridos no Rio e em São Paulo; Justiça determinou bloqueio de bens de investigados em até R$ 54 bilhões.

por Alice Nascimento
25/06/2026 às 10h28
em Empresas
Pf Deflagra 2ª Fase Da Operação Disclosure E Mira Fraude Bilionária Na Americanas - Gazeta Mercantil - Empresas

A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (25), em conjunto com o Ministério Público Federal, a segunda fase da Operação Disclosure, investigação que apura supostas fraudes contábeis na Americanas (AMER3), um dos maiores casos corporativos do mercado brasileiro. A ação cumpre nove mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro e em São Paulo e inclui decisão judicial de bloqueio e sequestro de bens de investigados em até R$ 54 bilhões, valor associado às irregularidades em apuração.

Segundo apuração da Gazeta Mercantil, a nova fase da Operação Disclosure aprofunda uma linha investigativa voltada a identificar o grau de conhecimento e participação de executivos, ex-executivos, acionistas de referência e pessoas ligadas à administração da companhia no período em que as inconsistências contábeis teriam sido praticadas.

A investigação mira indícios dos crimes de manipulação de mercado e associação criminosa. Os alvos têm direito à defesa e à presunção de inocência.

Operação mira núcleo ligado à antiga gestão da varejista

Dois endereços ligados a ex-integrantes do alto escalão da Americanas (AMER3), no Rio de Janeiro, estão entre os locais de cumprimento dos mandados. Também há diligências em São Paulo.

Entre os nomes citados no âmbito da operação está o empresário Beto Sicupira, um dos acionistas de referência historicamente associados à varejista. A investigação busca documentos, dispositivos eletrônicos, comunicações e registros que possam ajudar a reconstruir a cadeia de decisões da empresa antes da revelação do rombo contábil.

A apuração da Gazeta Mercantil indica que a PF tenta avançar sobre a eventual participação de pessoas que não integravam diretamente a diretoria operacional, mas que poderiam ter tido acesso a informações relevantes sobre a situação financeira da companhia.

Fraude contábil colocou Americanas em recuperação judicial

A crise da Americanas (AMER3) veio à tona em janeiro de 2023, quando a empresa informou inconsistências contábeis bilionárias. O caso levou à saída de executivos, derrubou o valor de mercado da companhia e culminou em um dos maiores processos de recuperação judicial do país.

A empresa, que já foi uma das principais referências do varejo brasileiro, passou a enfrentar forte desconfiança de credores, fornecedores, investidores e bancos.

As suspeitas envolvem, entre outros pontos, operações de risco sacado e contratos de verba de propaganda cooperada, conhecidos no setor como VPC. Segundo as investigações, parte dessas operações teria sido contabilizada de forma inadequada ou sem lastro econômico compatível.

Risco sacado e VPC estão no centro da apuração

O risco sacado é uma operação financeira usada por empresas para antecipar pagamentos a fornecedores por meio de bancos. Embora seja comum no varejo, a forma de registro contábil dessas operações tornou-se um dos pontos centrais do caso Americanas.

A suspeita é que dívidas financeiras tenham sido tratadas de maneira a reduzir artificialmente a percepção de endividamento da companhia.

Já as verbas de propaganda cooperada envolvem valores negociados entre varejistas e fornecedores para ações comerciais, exposição de produtos e campanhas promocionais. Na investigação, a hipótese é que contratos desse tipo teriam sido usados para melhorar artificialmente resultados contábeis.

Segundo fontes que acompanham o caso ouvidas pela Gazeta Mercantil, a segunda fase da operação tenta responder uma pergunta central: quem sabia, quando soube e qual foi a conduta adotada diante das informações internas.

Bloqueio de R$ 54 bilhões eleva pressão sobre investigados

A decisão da Justiça Federal de autorizar bloqueio e sequestro de bens até R$ 54 bilhões amplia a pressão sobre os investigados.

O valor não significa condenação nem reconhecimento definitivo de dano individual por parte dos alvos. A medida tem caráter cautelar e busca preservar patrimônio que, em tese, poderia ser usado para reparação futura, caso as suspeitas sejam confirmadas ao final do processo.

Para o mercado financeiro, o montante chama atenção por superar com folga o rombo inicialmente informado pela companhia em 2023, quando a Americanas (AMER3) revelou inconsistências contábeis de cerca de R$ 20 bilhões.

A diferença entre os valores reflete a evolução das apurações, a inclusão de possíveis efeitos financeiros, impactos sobre credores e a estimativa mais ampla dos danos investigados.

Caso atingiu bancos, credores e acionistas minoritários

A crise da Americanas (AMER3) teve impacto direto sobre bancos, fundos de investimento, fornecedores, acionistas minoritários e o mercado de capitais.

A revelação das inconsistências provocou forte queda das ações, redução abrupta da confiança na governança da companhia e deterioração da relação com instituições financeiras.

Bancos credores passaram a disputar judicialmente garantias, pagamentos e responsabilidades. Fundos que detinham ações ou papéis de dívida da varejista também sofreram perdas expressivas.

A Comissão de Valores Mobiliários acompanhou o caso desde o início, em razão dos reflexos para investidores e para a integridade do mercado de capitais.

Americanas tenta reconstruir operação após crise

Enquanto a investigação avança, a Americanas (AMER3) segue em processo de reestruturação operacional e financeira.

A companhia tenta recompor relações comerciais, renegociar dívidas, reduzir custos e recuperar a confiança de consumidores e fornecedores.

O desafio é considerado elevado. A varejista perdeu relevância competitiva em um setor pressionado por margens estreitas, avanço do comércio eletrônico, concorrência internacional e mudanças no comportamento do consumidor.

Segundo avaliação de fontes do setor financeiro ouvidas pela Gazeta Mercantil, a nova fase da Operação Disclosure pode manter a empresa sob escrutínio prolongado, ainda que a atual gestão tente se distanciar das práticas investigadas.

Investigados têm direito à defesa

A Operação Disclosure está em fase investigativa. Nenhum dos alvos pode ser tratado como culpado antes de eventual condenação definitiva.

A apuração busca reunir elementos sobre suposta manipulação de demonstrações financeiras, eventual omissão de informações relevantes ao mercado e possível atuação coordenada para mascarar a real situação econômica da companhia.

As defesas dos investigados poderão se manifestar nos autos, contestar medidas cautelares, pedir acesso integral às provas e apresentar explicações sobre documentos, comunicações e decisões tomadas à época dos fatos.

Nova fase reacende debate sobre governança corporativa no Brasil

A segunda fase da Operação Disclosure recoloca o caso Americanas (AMER3) no centro do debate sobre governança corporativa, auditoria, fiscalização e responsabilidade de administradores.

O episódio expôs fragilidades em controles internos, processos de divulgação de informações e mecanismos de supervisão em empresas abertas.

Para investidores, o caso permanece como um marco negativo do mercado brasileiro por envolver uma companhia de grande porte, acionistas conhecidos, credores relevantes e milhares de investidores impactados.

A nova etapa da investigação aumenta a pressão por respostas sobre como uma inconsistência bilionária pôde se acumular por anos sem detecção tempestiva pelos mecanismos internos e externos de controle.

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