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Pastor Márcio Poncio é preso pela PF em operação que mira contabilidade paralela

Quinta fase da Operação Unha e Carne cumpre três prisões preventivas, 14 buscas e determina o sequestro de cerca de R$ 22 milhões por suspeitas de lavagem de dinheiro e pagamentos indevidos

por Júlia Campos - Repórter de Política
02/07/2026 às 11h04 - Atualizado em 16/07/2026 às 19h38
em Política,Destaque,Notícias
Marcio Poncio É Preso - Gazeta Mercantil

Reprodução

O pastor e empresário Márcio Poncio foi preso pela Polícia Federal na manhã desta quinta-feira, 2 de julho, durante a quinta fase da Operação Unha e Carne, no Rio de Janeiro. A nova etapa da investigação foi autorizada pelo Supremo Tribunal Federal e tem como foco documentos que, segundo a PF, revelaram uma contabilidade paralela voltada à lavagem de dinheiro, além de registros de supostos pagamentos indevidos e doações eleitorais irregulares.

Ao todo, foram expedidos três mandados de prisão preventiva e 14 ordens de busca e apreensão em endereços localizados no Rio de Janeiro e em São João de Meriti, na Baixada Fluminense. O STF também determinou o sequestro de aproximadamente R$ 22 milhões em bens e valores relacionados aos investigados.

Poncio foi localizado em um imóvel na Barra da Tijuca. Entre os outros alvos divulgados estão o contraventor Adilson Oliveira Coutinho Filho, conhecido como Adilsinho, e o ex-deputado estadual Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Os dois já estavam presos por outros desdobramentos judiciais. O ex-deputado federal Marco Antônio Cabral também foi alvo de busca e apreensão.

A informação mais importante para a compreensão do caso, porém, é que a nota divulgada pela Polícia Federal não individualiza, até o momento, qual conduta específica é atribuída a Márcio Poncio. O documento oficial confirma a operação, os mandados, o valor alcançado pela medida patrimonial e a existência dos registros financeiros suspeitos, mas não descreve como o pastor teria participado do esquema investigado.

A prisão é preventiva, uma medida cautelar aplicada antes de eventual julgamento. Ela não representa condenação nem comprovação definitiva das suspeitas. A responsabilidade individual dos investigados ainda dependerá da análise das provas, da manifestação das defesas e das decisões que serão tomadas no curso do inquérito ou de uma futura ação penal.

Documentos deslocam investigação para o fluxo do dinheiro

A quinta fase representa uma mudança relevante no eixo da Operação Unha e Carne. As etapas iniciais estavam concentradas principalmente na suspeita de vazamento de informações sigilosas sobre ações policiais. Agora, a investigação avança sobre a circulação de recursos, os possíveis beneficiários dos pagamentos e a estrutura que teria sido utilizada para ocultar a origem ou o destino do dinheiro.

Segundo a Polícia Federal, documentos apreendidos durante as apurações revelaram uma espécie de escrituração clandestina, com registros de pagamentos considerados suspeitos, doações eleitorais que podem ter ocorrido de forma irregular e movimentações associadas à lavagem de capitais. A corporação ainda não divulgou a íntegra dessas planilhas nem informou publicamente quais lançamentos seriam atribuídos a cada investigado.

A ausência dessa individualização exige cautela. Até que a decisão judicial ou os relatórios policiais sejam tornados públicos, não é possível afirmar que todos os alvos tenham desempenhado a mesma função, recebido recursos ou participado diretamente de todas as condutas investigadas.

Reportagens publicadas nesta quinta-feira identificam Adilsinho como uma das figuras centrais da nova frente de apuração. Ele é apontado por autoridades de segurança como integrante relevante da estrutura do jogo do bicho no Rio e já se encontrava preso quando a nova ordem judicial foi expedida. Bacellar também estava detido e deverá ser submetido às determinações estabelecidas pelo STF no processo.

O sequestro de cerca de R$ 22 milhões tem natureza patrimonial e cautelar. A medida busca impedir que bens supostamente relacionados a atividades ilícitas sejam vendidos, transferidos ou ocultados antes da conclusão do processo. Ela não equivale ao perdimento definitivo do patrimônio, que depende de decisão judicial e das condições previstas na legislação. O Código de Processo Penal admite o sequestro quando há indícios relevantes de que os bens tenham origem ilícita.

Operação começou com suspeita de vazamento de informações

A Operação Unha e Carne foi deflagrada em 3 de dezembro de 2025 para apurar a atuação de agentes públicos que teriam repassado informações sigilosas e prejudicado uma investigação anterior, denominada Operação Zargun.

Na primeira fase, a Polícia Federal cumpriu uma prisão preventiva, oito mandados de busca e apreensão e uma ordem para aplicação de medidas cautelares diferentes da prisão. Após o cumprimento das ordens, os agentes encontraram R$ 90.840 em espécie dentro de um veículo oficial utilizado pelo parlamentar investigado, além de três telefones celulares que foram encaminhados para perícia.

O STF informou na ocasião que Rodrigo Bacellar, então presidente da Alerj, era investigado por possível obstrução das apurações relacionadas a uma facção criminosa. A suspeita era de que informações reservadas de uma operação policial teriam sido transmitidas antes do cumprimento dos mandados, criando condições para ocultação ou destruição de provas.

Dias depois, em 16 de dezembro de 2025, a PF abriu a segunda fase da operação. Foram expedidos um mandado de prisão preventiva e dez ordens de busca e apreensão no Rio de Janeiro e no Espírito Santo. A corporação voltou a apontar como objeto da investigação o vazamento de informações que teria provocado a obstrução da Operação Zargun.

A terceira fase ocorreu em 27 de março de 2026, com uma prisão preventiva e uma busca em Teresópolis. A Polícia Federal informou que o investigado respondia por suspeita de participação no vazamento de dados sigilosos, mas não apresentou, na nota oficial, detalhes adicionais sobre a identidade ou a função atribuída ao alvo.

Em maio, a quarta etapa ampliou novamente o alcance do caso. A PF cumpriu sete mandados de prisão e 23 de busca e apreensão para investigar uma suposta organização criminosa envolvida em fraudes na compra de materiais e na contratação de serviços e reformas para escolas estaduais do Rio de Janeiro.

Segundo a corporação, havia indícios de que contratos de unidades escolares eram direcionados a empresas previamente selecionadas e vinculadas ao grupo investigado. Entre os delitos sob apuração estavam organização criminosa, peculato, fraude em licitação e lavagem de dinheiro.

A sequência mostra que a Operação Unha e Carne deixou de investigar apenas um episódio de possível vazamento. Em sete meses, passou a reunir três frentes que podem estar relacionadas: obstrução de investigações, fraudes envolvendo estruturas públicas e circulação de dinheiro entre operadores privados e agentes políticos.

Isso não significa, contudo, que todos os investigados estejam ligados a todas as frentes. Cada responsabilização deverá ser demonstrada individualmente, com indicação da conduta, das provas e do vínculo entre o suspeito e o crime atribuído.

Prisão ocorre após mudanças no comando político da Alerj

Rodrigo Bacellar presidiu a Assembleia Legislativa fluminense e foi um dos principais nomes da política estadual nos últimos anos. Em março de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral decidiu cassar seu diploma e mandato de deputado estadual, além de declará-lo inelegível, em um processo eleitoral distinto da Operação Unha e Carne. A decisão também determinou a retotalização dos votos para o cargo.

A distinção entre os processos é necessária. A cassação eleitoral tratou de acusações relacionadas a abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022. Já a Operação Unha e Carne apura suspeitas criminais que envolvem vazamento de informações, lavagem de dinheiro, corrupção e possíveis conexões entre organizações criminosas e agentes públicos.

Márcio Poncio ganhou projeção nacional como líder religioso, empresário e integrante de uma família com forte presença nas redes sociais. Ele é pai do cantor Saulo Poncio e da deputada estadual Sarah Poncio, filiada ao Solidariedade. A Alerj identifica Sarah como parlamentar em exercício e atual presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher.

O parentesco possui caráter exclusivamente biográfico. Até as informações tornadas públicas nesta quinta-feira, os filhos do pastor não figuravam entre os alvos divulgados da quinta fase. A investigação deve ser tratada de forma individual, sem transferência de suspeitas a familiares ou pessoas que não tenham sido formalmente incluídas no procedimento.

ADPF das Favelas abriu frente contra conexões institucionais do crime

A Polícia Federal afirma que a Operação Unha e Carne está inserida nas providências decorrentes da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 635, conhecida como ADPF das Favelas.

O processo foi criado para discutir a política de segurança pública no Rio de Janeiro, especialmente a letalidade policial e os procedimentos empregados em operações realizadas em comunidades. No julgamento concluído em abril de 2025, o STF homologou parcialmente o plano apresentado pelo governo fluminense e determinou medidas de controle, acompanhamento e aperfeiçoamento das ações policiais.

Dentro desse conjunto de providências, a Polícia Federal recebeu a incumbência de investigar a atuação dos principais grupos criminosos violentos no estado e suas possíveis conexões com agentes públicos. Essa determinação passou a fundamentar operações voltadas não apenas ao braço armado das organizações, mas também às estruturas políticas, empresariais e financeiras que possam fornecer proteção ou recursos às atividades criminosas.

A vinculação à ADPF 635 não altera as garantias processuais dos investigados. As ordens de prisão, busca e bloqueio patrimonial continuam sujeitas à fundamentação judicial, ao contraditório e ao controle do próprio Supremo.

Material apreendido poderá definir alcance da nova fase

A etapa iniciada nesta quinta-feira deverá se concentrar na perícia dos documentos, aparelhos eletrônicos e demais materiais recolhidos. Os investigadores buscarão reconstruir o caminho dos recursos, identificar eventuais beneficiários, intermediários e operadores financeiros e comparar os registros encontrados com dados bancários, fiscais, empresariais e eleitorais.

Essa análise poderá confirmar parte das suspeitas, ampliar o número de investigados ou afastar pessoas inicialmente alcançadas pelas medidas. Também será necessário determinar a origem dos aproximadamente R$ 22 milhões submetidos ao sequestro e estabelecer quais bens ou valores pertencem a cada alvo.

A prisão de Márcio Poncio é, portanto, um fato confirmado, assim como a existência das ordens expedidas pelo STF. O envolvimento específico atribuído ao pastor, no entanto, ainda depende da divulgação da decisão judicial, da apresentação dos elementos reunidos pela Polícia Federal e do exercício do direito de defesa.

Até o momento, não há condenação decorrente desta fase da Operação Unha e Carne. O inquérito permanece sob supervisão do Supremo, enquanto a Polícia Federal analisa o material apreendido e procura individualizar a participação de cada investigado.

Fonte:  https://www.gov.br

 

Tags: AdilsinhoAlexandre de MoraesLAVAGEM DE DINHEIROMárcio PoncioOperação Unha e CarnePolícia FederalPolíticaRio de JaneiroRodrigo BacellarSTF

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