A Nutrien, multinacional canadense de fertilizantes e insumos agrÃcolas, encerrou as operações de varejo em São Paulo, segundo relatos de profissionais ligados à s unidades e informações apuradas nesta quarta-feira (23). O movimento marca uma nova etapa da retirada da companhia de áreas do mercado brasileiro que ela própria passou a classificar como não essenciais. Há também relatos de interrupção de atividades em Mato Grosso do Sul, mas, até o inÃcio da tarde, a Nutrien não havia divulgado um comunicado público confirmando a extensão dos fechamentos.
Em 2024, a companhia fechou mais de 50 pontos de atendimento na América do Sul e suspendeu a operação de todas as cinco unidades de mistura de fertilizantes no Brasil. Depois, passou a vender instalações ociosas e a avaliar cada componente do negócio brasileiro.
Varejo paulista perde a estrutura construÃda após aquisições
O encerramento em São Paulo atinge uma rede que havia sido ampliada justamente para aumentar a capilaridade da Nutrien no mercado brasileiro. Em 2022, a companhia concluiu a compra da Casa do Adubo, negócio com 39 lojas e dez centros de distribuição. A aquisição, posteriormente contabilizada pela Nutrien em US$ 277 milhões lÃquidos de caixa, ampliou sua presença no paÃs e integrou uma estratégia de expansão do varejo agrÃcola.
Na época, a Nutrien estimava que a transação acrescentaria cerca de US$ 400 milhões em vendas anuais e ampliaria sua presença para 13 estados. O objetivo era aumentar a distribuição de insumos diretamente aos produtores.
A expansão foi seguida, porém, por uma revisão do portfólio. A partir de 2024, a empresa passou a reduzir a estrutura de varejo e interromper a mistura de fertilizantes no paÃs.
Os relatos desta quarta-feira apontam que a etapa atual é diferente da simples desativação de plantas industriais. Em São Paulo, a redução alcança a operação comercial que ainda permanecia ativa em diversos municÃpios. Entre as cidades associadas à rede estavam Vargem Grande do Sul, Franca, Pilar do Sul, Mogi Mirim, Capão Bonito, Itapetininga, Itapeva e Avaré.
O site brasileiro da Nutrien ainda exibia, na manhã desta quarta-feira, lojas em Vargem Grande do Sul, Franca, Pilar do Sul, Mogi Mirim, Itapeva e Avaré, além de informar 130 unidades em 12 estados. O conteúdo ainda não refletia os relatos mais recentes.
Industrial foi a primeira frente a sair do radar
A desmobilização da indústria de mistura ajuda a explicar o processo atual. As cinco unidades brasileiras da Nutrien deixaram de operar em 2024. A unidade de Itapetininga foi vendida em 2025 ao Grupo EquilÃbrio.
No inÃcio de 2026, a Nutrien também acertou a venda das unidades de Araxá, em Minas Gerais, e Cristalina, em Goiás, para a Terrena Agronegócios. Os dois ativos estavam parados desde 2024. A operação foi formalizada no âmbito do Conselho Administrativo de Defesa Econômica, sem divulgação do valor nos documentos públicos então disponÃveis.
As unidades de Araxá e Cristalina somavam capacidade combinada de aproximadamente 400 mil toneladas por ano de misturas NPK, enquanto Itapetininga tinha capacidade anual de cerca de 750 mil toneladas. A interrupção das cinco plantas, portanto, encerrou uma plataforma industrial relevante que havia sido montada no paÃs antes da revisão estratégica.
A mudança não significa saÃda completa da Nutrien do mercado brasileiro. A companhia continuou atuando na distribuição e venda de insumos.
Resultados financeiros mostram a pressão sobre a operação brasileira
A reestruturação brasileira também aparece nas demonstrações financeiras. Em 2024, a Nutrien registrou uma perda por redução ao valor recuperável de US$ 335 milhões no grupo gerador de caixa do varejo brasileiro. Segundo a companhia, o ajuste refletiu a redução das expectativas de Ebitda em razão da instabilidade do mercado e de perspectivas de margens mais moderadas.
No mesmo exercÃcio, a empresa informou uma perda de US$ 220 milhões relacionada a derivativos de câmbio no Brasil. Os dois efeitos são distintos — o primeiro é uma baixa contábil de ativos e o segundo está relacionado à exposição financeira —, mas ambos mostram que o paÃs teve peso relevante nos resultados daquele ano.
As vendas consolidadas atribuÃdas a clientes no Brasil recuaram de US$ 855 milhões em 2024 para US$ 696 milhões em 2025, queda de US$ 159 milhões, ou cerca de 18,6%. O indicador não representa apenas o varejo, mas ajuda a dimensionar a perda de escala no paÃs.
Ao mesmo tempo, o resultado global da Nutrien melhorou em 2025. A receita total passou de US$ 25,97 bilhões para US$ 26,89 bilhões, enquanto o lucro lÃquido avançou de US$ 700 milhões para US$ 2,30 bilhões. A comparação mostra que o encolhimento brasileiro ocorreu dentro de uma estratégia corporativa mais ampla de concentração de capital em ativos e operações considerados prioritários.
Revisão estratégica ainda não define o destino de todo o Brasil
A Nutrien não tratou a reestruturação brasileira como um processo encerrado. No relatório anual de 2025, a empresa declarou que avaliaria cada componente do negócio brasileiro para definir a forma mais adequada de participar do crescimento de longo prazo do mercado. No segundo trimestre de 2026, a administração voltou a informar que permanecia em curso uma revisão das alternativas estratégicas para o varejo brasileiro.
No primeiro semestre de 2026, a Nutrien informou que havia firmado acordos para vender ativos não essenciais por cerca de US$ 90 milhões desde junho e que, somados os negócios anteriores, havia gerado aproximadamente US$ 1 bilhão em receitas brutas de desinvestimentos desde o quarto trimestre de 2024.
O valor ajuda a dimensionar a prioridade dada pelo grupo à gestão do portfólio. A estratégia prevê não apenas vender ativos, mas também direcionar recursos para negócios com maior capacidade de geração de caixa e retorno sobre capital. No caso brasileiro, a administração ainda não informou qual será o desenho final da operação após a revisão.
Mato Grosso do Sul entra no foco dos cortes
A possÃvel interrupção das atividades em Mato Grosso do Sul amplia o alcance geográfico da nova fase de retração. O estado aparece na estrutura brasileira da Nutrien desde a expansão promovida pelas aquisições de 2022 e continua listado no material institucional da empresa.
Relatos de profissionais indicam que a operação no estado também teria sido interrompida, mas esse ponto ainda não havia sido confirmado publicamente pela Nutrien até o momento desta publicação. A diferença entre os relatos de mercado e a informação formal disponÃvel exige cautela, sobretudo porque o site brasileiro continuava apresentando a empresa como ativa em São Paulo e Mato Grosso do Sul.
O impacto imediato envolve empregados, produtores atendidos pelas lojas e fornecedores ligados às operações locais. Em São Paulo, relatos de demissões já haviam circulado entre profissionais das unidades, inclusive em Pilar do Sul. A extensão dos desligamentos e a eventual migração de clientes para outras redes ainda não foram detalhadas publicamente pela companhia.
Para o mercado de insumos, a saÃda de um varejista de grande porte reduz a presença direta de uma multinacional em algumas regiões produtoras, mas não elimina a oferta de fertilizantes e defensivos. Parte da demanda tende a ser absorvida por concorrentes e distribuidores que já atuam nas mesmas áreas. A questão central passa a ser como a Nutrien reorganizará o atendimento aos produtores que estavam vinculados à s unidades fechadas.
Próximos movimentos dependerão da revisão do varejo brasileiro
A sequência das decisões indica que o encerramento paulista é parte de uma transformação mais ampla da operação brasileira. Primeiro vieram os fechamentos de unidades e a suspensão das plantas de mistura. Depois, a venda dos ativos industriais ociosos. Agora, a redução alcança pontos de venda que permaneciam funcionando.
A companhia ainda não anunciou publicamente uma retirada integral do Brasil. Seus documentos mais recentes continuam tratando o mercado brasileiro como uma frente relevante de varejo e registram que uma decisão estratégica sobre o negócio deve ser consolidada ao longo de 2026.
A trajetória iniciada em 2024 produziu uma mudança estrutural: a Nutrien deixou a expansão territorial acelerada que marcou a aquisição da Casa do Adubo e passou a priorizar racionalização de ativos e redução de custos. O encerramento em São Paulo é o passo mais recente dessa estratégia e coloca novas decisões sobre regiões e formatos de varejo no centro da revisão do grupo no Brasil.
Fontes:
Nutrien – relatório anual de 2025, estratégia corporativa, revisão do negócio brasileiro e desinvestimentos
Nutrien – resultados do segundo trimestre de 2026 e atualização da revisão estratégica do varejo brasileiro
Nutrien – comunicado da aquisição da Casa do Adubo e expansão da operação de varejo no Brasil
Nutrien Brasil – informações institucionais e listagem pública de unidades comerciais
SEC – relatório anual e documentos regulatórios da Nutrien utilizados para verificar valores, impairment, vendas por paÃs e desinvestimentos
Conselho Administrativo de Defesa Econômica – informações públicas sobre a operação envolvendo as unidades de Araxá e Cristalina










