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PicPay e BRB são alvos de operação que apura descontos em salários de servidores

Ministério Público cumpre 50 mandados e investiga supostas operações financeiras irregulares vinculadas à folha do Distrito Federal.

por João Souza
22/06/2026 às 13h08
em Empresas
Picpay E Brb São Alvos De Operação Que Apura Descontos Em Salários De Servidores - Gazeta Mercantil

O PicPay (PICS) e o Banco de Brasília (BRB) foram alvos, na última sexta-feira, 19 de junho, da Operação Juros Zero, deflagrada pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios para investigar um suposto esquema de descontos irregulares na folha de pagamento de servidores públicos do Distrito Federal. A apuração envolve operações de antecipação salarial, atos praticados por agentes públicos e possíveis cobranças apresentadas como taxas.

A operação cumpriu 50 mandados de busca e apreensão no Distrito Federal, em Curitiba e em São Paulo, onde fica a sede do PicPay. As ordens foram expedidas pelo Conselho Especial do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios.

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Além do PicPay e do BRB, foram alvo das buscas a Secretaria de Economia do Distrito Federal, o Instituto de Previdência dos Servidores do Distrito Federal e uma associação de servidores públicos. A investigação também alcança antigos dirigentes e agentes públicos relacionados à estruturação das operações financeiras examinadas.

A ação é conduzida pela Vice-Procuradoria-Geral de Justiça do Distrito Federal, pela Promotoria de Justiça de Defesa do Consumidor e pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, o Gaeco.

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Os detalhes permanecem sob sigilo. Não há, até o momento, denúncia criminal ou decisão judicial definitiva que reconheça a prática de irregularidades pelas instituições e pessoas investigadas. Todos os citados têm direito à defesa e ao contraditório.

Operação investiga descontos feitos diretamente nos contracheques

O foco da Operação Juros Zero é a suspeita de que a folha de pagamento dos servidores do Distrito Federal teria sido utilizada para viabilizar operações financeiras acompanhadas de descontos questionados pelo Ministério Público.

Segundo as informações divulgadas sobre o caso, os valores teriam sido descontados diretamente dos contracheques e apresentados como taxas relacionadas a um serviço de antecipação salarial.

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A investigação procura esclarecer como as operações foram estruturadas, quais instituições participaram do modelo, quem autorizou os descontos e se houve consentimento adequado dos servidores envolvidos.

Também está em apuração a natureza jurídica dos valores cobrados. Uma das questões centrais é determinar se as quantias correspondiam efetivamente a tarifas permitidas, encargos financeiros, pagamentos associativos ou cobranças sem fundamento contratual suficiente.

O uso da folha de pagamento confere maior segurança às instituições que oferecem crédito ou antecipações, porque o desconto ocorre antes que o salário seja disponibilizado integralmente ao servidor. Essa característica, porém, exige regras claras de autorização, transparência e proteção ao consumidor.

A investigação deverá examinar contratos, documentos administrativos, registros eletrônicos, comunicações internas e bases de dados relacionadas às operações.

Decreto de 2024 está no centro da apuração

A origem do modelo investigado estaria relacionada a um decreto distrital publicado em 8 de agosto de 2024, quando a Secretaria de Economia do Distrito Federal era comandada por Ney Ferraz.

O ato teria criado ou regulamentado condições para que determinados descontos fossem processados diretamente na folha de pagamento dos servidores.

Seis dias após a publicação do decreto, o PicPay teria formalizado interesse em oferecer serviços relacionados à folha do governo do Distrito Federal, incluindo uma modalidade de adiantamento salarial.

O BRB já mantinha relação com o processamento dos pagamentos dos servidores públicos distritais. A investigação busca delimitar a atuação de cada instituição e apurar se houve algum tipo de articulação irregular entre agentes públicos, empresas e entidades associativas.

A proximidade temporal entre o decreto e a manifestação de interesse do PicPay é uma das circunstâncias analisadas, mas não representa, isoladamente, prova de ilegalidade.

O Ministério Público deverá verificar se o ato administrativo foi elaborado para atender a uma demanda legítima da administração pública ou se teria favorecido interesses privados específicos.

Também será apurado se os procedimentos de contratação, credenciamento ou autorização respeitaram os princípios da legalidade, impessoalidade, publicidade e eficiência.

Ex-presidente do BRB e diretor do PicPay são investigados

Entre os nomes citados na investigação estão Ney Ferraz, ex-secretário de Economia do Distrito Federal, Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, e Eduardo Chedid Simões, diretor do PicPay.

Paulo Henrique Costa também foi mencionado em outra investigação relacionada ao BRB, a Operação Compliance Zero. A inclusão em procedimentos distintos não significa reconhecimento de responsabilidade criminal e cada caso deverá ser analisado separadamente.

Eduardo Chedid Simões já havia sido citado em discussões da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito que apurou descontos indevidos em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social.

No âmbito da Operação Juros Zero, os investigadores deverão determinar se os executivos participaram diretamente da criação, aprovação ou execução do modelo financeiro questionado.

As defesas dos investigados poderão apresentar documentos, esclarecimentos e versões alternativas sobre os fatos. Eventuais responsabilidades individuais dependerão da análise das provas apreendidas e de decisões posteriores do Ministério Público e do Judiciário.

O sigilo da investigação limita, neste momento, o conhecimento sobre os fundamentos específicos utilizados para justificar os mandados.

PicPay rejeita suspeita de cobrança indevida

O PicPay afirmou que não reconhece irregularidades nas operações mencionadas e rejeitou a alegação de cobrança indevida.

Segundo a empresa, o produto era estruturado de acordo com as normas aplicáveis aos setores financeiro e de meios de pagamento e estava sujeito a mecanismos de controle, supervisão, governança e compliance.

A fintech declarou que o valor antecipado era disponibilizado no cartão do próprio cliente depois de uma solicitação feita diretamente no aplicativo.

De acordo com o PicPay, não havia intermediação por associações e não era cobrada taxa nessa modalidade de disponibilização dos recursos.

A empresa também informou que continuará colaborando com as autoridades e que espera demonstrar a regularidade de sua atuação durante a investigação.

A posição do PicPay deverá ser confrontada com os documentos apreendidos e com os registros existentes nos sistemas de processamento da folha.

A apuração terá de esclarecer se havia diferentes modalidades de liberação do dinheiro, quais encargos incidiam em cada uma delas e como os consumidores eram informados sobre as condições.

BRB nega contrato com PicPay no contexto investigado

O BRB afirmou que não mantém contrato com o PicPay relacionado ao contexto da Operação Juros Zero.

A manifestação busca separar a atuação do banco público distrital das operações oferecidas pela fintech aos servidores.

Ainda assim, o BRB foi incluído entre os alvos das buscas por sua relação institucional com a folha de pagamento e por sua posição no sistema financeiro do Distrito Federal.

Os investigadores deverão apurar se o banco participou de etapas operacionais, administrativas ou tecnológicas que permitiram a realização dos descontos.

Também será necessário verificar se o BRB recebeu valores, prestou serviços, compartilhou informações ou autorizou procedimentos associados ao modelo sob investigação.

A inexistência de um contrato direto entre BRB e PicPay não exclui, por si só, a possibilidade de relações indiretas ou de participação de outros agentes. Da mesma forma, a busca realizada na instituição não significa que o banco tenha cometido qualquer irregularidade.

Caso amplia pressão institucional sobre o BRB

A Operação Juros Zero ocorre em um momento de forte exposição institucional do Banco de Brasília.

O BRB já vinha sendo acompanhado por autoridades, investidores e órgãos de controle devido a outras investigações e operações financeiras realizadas nos últimos anos.

A inclusão do banco em uma nova ação eleva a pressão sobre sua governança, seus mecanismos de controle interno e sua relação com decisões adotadas pelo governo do Distrito Federal.

Como instituição controlada pelo poder público, o BRB está submetido não apenas às regras do sistema financeiro, mas também a exigências adicionais de transparência, integridade e responsabilização administrativa.

Para o mercado, o principal risco está na possibilidade de surgirem novas obrigações financeiras, sanções, perdas reputacionais ou restrições regulatórias.

Ainda não há informações suficientes para estimar eventual impacto contábil. O desdobramento dependerá do alcance das operações questionadas, do número de servidores envolvidos e da existência de valores considerados indevidos.

PicPay enfrenta risco reputacional após abertura de capital

O PicPay também chega à investigação em uma fase relevante de sua trajetória empresarial.

A fintech passou a negociar ações na Nasdaq sob o ticker PICS e ampliou sua exposição ao mercado de capitais internacional.

Empresas listadas estão sujeitas a exigências rigorosas de divulgação de riscos, controles internos e fatos capazes de influenciar a decisão dos investidores.

Uma investigação envolvendo produtos financeiros, descontos em folha e alegações de cobrança indevida pode gerar questionamentos sobre governança, conformidade regulatória e proteção ao consumidor.

O impacto sobre a companhia dependerá da materialidade do caso e da eventual identificação de falhas nos processos internos.

Até o momento, o PicPay nega as irregularidades e afirma que os serviços foram oferecidos dentro da legislação.

Para acionistas, o principal ponto de atenção será verificar se a empresa precisará reconhecer provisões, revisar produtos, modificar procedimentos ou enfrentar ações judiciais e administrativas.

Descontos em folha exigem autorização clara do consumidor

Operações feitas por meio da folha de pagamento têm características diferentes de empréstimos comuns.

Como o desconto ocorre automaticamente, o risco de inadimplência tende a ser menor. Essa vantagem pode permitir taxas de juros mais baixas, mas também exige controles rigorosos para impedir cobranças não autorizadas.

O servidor precisa conhecer previamente o valor recebido, o custo da operação, o número de parcelas, a taxa de juros, eventuais tarifas e a forma de cancelamento.

Quando um desconto aparece com uma descrição genérica ou é associado a uma entidade que o consumidor não reconhece, aumenta o risco de contestação.

Também é necessário diferenciar um adiantamento salarial de um empréstimo. Embora ambos antecipem recursos, a estrutura jurídica e a forma de remuneração podem ser distintas.

A investigação deverá definir como o produto foi apresentado aos servidores e se sua natureza financeira foi explicada adequadamente.

Ministério Público deve analisar provas apreendidas

Após o cumprimento dos mandados, o Ministério Público iniciará a análise do material recolhido.

Computadores, celulares, contratos, planilhas, mensagens e registros administrativos podem ser submetidos a perícia.

O objetivo será reconstruir o processo de criação do modelo, identificar os fluxos financeiros e verificar quem tomou as decisões centrais.

Os investigadores também poderão ouvir servidores, dirigentes, executivos e responsáveis pelo processamento dos pagamentos.

Caso sejam encontrados indícios suficientes, o Ministério Público poderá oferecer denúncia, propor ações civis, celebrar acordos ou solicitar novas medidas judiciais.

Se as provas não confirmarem as suspeitas, a investigação poderá ser arquivada total ou parcialmente.

O fato de uma instituição ser alvo de busca e apreensão não equivale a condenação. A medida serve para preservar documentos e esclarecer fatos considerados relevantes pelas autoridades.

Operação pode gerar efeitos regulatórios e consumeristas

Além da esfera criminal, o caso pode produzir consequências administrativas e civis.

Se forem confirmadas cobranças indevidas, consumidores poderão buscar restituição dos valores e indenizações por eventuais prejuízos.

Órgãos de defesa do consumidor também poderão aplicar multas ou exigir mudanças nos procedimentos de contratação.

O Banco Central poderá avaliar aspectos relacionados à oferta de produtos financeiros, transparência de tarifas e controles das instituições envolvidas.

No caso do BRB, órgãos de fiscalização e controle do Distrito Federal poderão examinar a atuação de gestores e a regularidade dos atos administrativos.

A investigação também pode levar à revisão de decretos e normas que disciplinam os descontos na folha dos servidores.

O principal impacto institucional será a necessidade de demonstrar que os sistemas públicos de pagamento não foram utilizados para favorecer operações sem transparência suficiente.

Operação Juros Zero aumenta escrutínio sobre folha do DF

A Operação Juros Zero abre uma nova frente de apuração sobre a relação entre instituições financeiras, servidores públicos e a administração do Distrito Federal.

O cumprimento de 50 mandados mostra que a investigação possui alcance amplo e envolve diferentes cidades, órgãos e empresas.

Ao mesmo tempo, o sigilo impede conclusões definitivas sobre a existência do esquema e sobre a responsabilidade dos investigados.

O PicPay sustenta que não houve cobrança indevida e que o produto dependia de solicitação direta do cliente. O BRB afirma não ter contrato com a fintech no contexto examinado.

As versões serão confrontadas com os documentos apreendidos e com os registros da folha de pagamento.

O avanço do caso deverá esclarecer se os descontos obedeceram à legislação ou se a estrutura teria sido utilizada para impor custos irregulares aos servidores do Distrito Federal.

 

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