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BRB (BSLI3; BSLI4) recebe R$ 376 milhões da XP por ativos ligados ao Banco Master

Venda envolveu CCBs garantidas por 23 imóveis e reforça o caixa do banco enquanto a instituição administra perdas e ativos relacionados ao Master.

por João Souza
16/09/2026 às 17h57
em Empresas
Brb Recebe R$ 376 Milhões Da Xp Por Créditos Ligados Ao Banco Master-Gazeta Mercantil

O Banco de Brasília (BRB) (BSLI3; BSLI4) recebeu R$ 376 milhões com a venda à XP de ativos que haviam chegado ao banco por meio de operações relacionadas ao Banco Master. A transação, concluída depois do desbloqueio judicial de imóveis usados como garantia, converte em dinheiro uma parcela da carteira recebida pelo banco público num momento em que a instituição procura reforçar sua liquidez e reorganizar o balanço após a deterioração de ativos associados ao antigo conglomerado de Daniel Vorcaro.

A parte mais claramente identificada da operação envolve seis Cédulas de Crédito Bancário emitidas pela Esfera Aquisições Imobiliárias. Esses títulos foram transferidos à XP por aproximadamente R$ 304,5 milhões, embora tivessem valor econômico informado de cerca de R$ 400,7 milhões. A diferença de R$ 96,2 milhões equivale a um desconto próximo de 24% sobre essa referência.

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O negócio também envolveu outros ativos, entre eles uma posição relacionada ao fundo Trevi. Informações divulgadas sobre a transação apontam aproximadamente R$ 35 milhões ligados a essa parcela. Os valores individualmente tornados públicos, porém, não explicam integralmente os R$ 376 milhões informados como entrada total de recursos, o que impede atribuir a diferença restante a um ativo específico sem documentação adicional.

A venda das CCBs estava formalizada desde 21 de agosto, mas dependia da retirada de restrições que continuavam registradas sobre 23 imóveis dados como garantia. O obstáculo foi removido após decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, permitindo que os créditos fossem efetivamente transferidos.

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CCBs foram vendidas com desconto de cerca de 24%

Os seis créditos da Esfera tinham valor econômico agregado de aproximadamente R$ 400,7 milhões. A XP desembolsou R$ 304,5 milhões, o equivalente a cerca de 76% dessa referência.

O desconto não significa, por si só, reconhecimento de uma perda definitiva equivalente a R$ 96,2 milhões. O valor econômico atribuído a uma carteira não é necessariamente o preço pelo qual ela consegue ser negociada, especialmente quando entram na avaliação fatores como prazo, liquidez, risco do devedor, qualidade das garantias e custo de carregamento.

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Para o BRB, a vantagem imediata está na transformação de créditos de vencimento futuro em dinheiro disponível. Para a XP, o retorno dependerá da capacidade de recebimento das CCBs e do valor econômico das garantias associadas à operação.

As apurações que revelaram o negócio descrevem esses créditos como uma parcela de melhor qualidade entre os ativos originados ou intermediados pelo Banco Master e posteriormente recebidos pelo BRB. A distinção é importante porque outras carteiras relacionadas ao mesmo grupo foram questionadas por autoridades e obrigaram o banco a revisar valores e reconhecer perdas.

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A transação mostra, portanto, que a exposição do BRB ao Master não é composta por ativos de características uniformes. Há créditos que conseguem encontrar compradores no mercado e outros cuja recuperação permanece incerta.

Bloqueio de 23 imóveis impedia conclusão da transferência

O principal entrave jurídico estava nas garantias das CCBs.

Os empréstimos concedidos à Esfera estavam vinculados a 23 imóveis que acabaram atingidos por medidas de indisponibilidade decretadas durante as investigações da Operação Compliance Zero. Mesmo depois de o próprio BRB deixar de figurar entre os destinatários de determinadas medidas patrimoniais, os registros restritivos continuaram incidindo sobre os bens dados em garantia.

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Na prática, isso impedia que o banco entregasse à XP créditos acompanhados de garantias plenamente disponíveis.

A situação foi levada ao Supremo, e André Mendonça determinou a retirada das indisponibilidades que permaneciam sobre os imóveis vinculados à operação. O entendimento foi de que não havia razão para manter sobre aqueles bens efeitos de medidas patrimoniais que já não alcançavam o BRB, sem prejuízo de eventuais restrições independentes impostas contra terceiros.

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A decisão não representa uma conclusão sobre a regularidade de todas as operações realizadas entre BRB e Master nem encerra as investigações. Seu efeito específico foi retirar o obstáculo jurídico que impedia a utilização econômica das garantias ligadas àquelas CCBs.

R$ 376 milhões reforçam caixa, mas são pequenos diante da exposição ao Master

A entrada de R$ 376 milhões tem relevância para a liquidez do BRB, mas sua dimensão muda quando comparada às cifras discutidas nas investigações e nas análises do Banco Central.

Relatório do BC revelado em setembro indicou perda potencial de R$ 11,4 bilhões para o Banco de Brasília nas operações relacionadas ao Master. O valor supera os R$ 8,8 bilhões que vinham sendo considerados pelo governo do Distrito Federal nas discussões sobre a necessidade de reforço de capital da instituição.

Comparados aos R$ 11,4 bilhões, os R$ 376 milhões obtidos com a venda à XP correspondem a aproximadamente 3,3%.

O cálculo ajuda a colocar a transação em perspectiva. O negócio melhora o caixa e reduz a exposição direta do banco aos ativos vendidos, mas está longe de resolver sozinho as necessidades patrimoniais relacionadas ao conjunto das operações questionadas.

O Banco Central também identificou que o BRB havia adquirido R$ 33,9 bilhões em ativos do Master e de empresas relacionadas. Em dezembro de 2025, o regulador determinou o reconhecimento de quase R$ 5 bilhões em perdas e a reavaliação de outros R$ 8,7 bilhões em fundos, empréstimos e títulos.

Frente ao volume total de R$ 33,9 bilhões de ativos adquiridos, a liquidez gerada agora equivale a pouco mais de 1%.

BRB tenta separar ativos recuperáveis das carteiras problemáticas

A venda para a XP integra uma estratégia que o próprio BRB já havia indicado publicamente no início de 2026: negociar ativos recuperados ou recebidos nas operações relacionadas ao Master para fortalecer sua posição financeira.

O banco informou em janeiro que estudava mecanismos para iniciar a venda desses ativos e afirmou que avaliações técnicas estavam em andamento para determinar composição, valor e capacidade de recuperação de fundos e créditos transferidos à instituição.

Essa separação tornou-se essencial depois que diferentes tipos de ativos passaram a ser analisados pelas autoridades.

De um lado estão operações que possuem devedores identificados, pagamentos em andamento e garantias que podem ser avaliadas e negociadas. De outro estão carteiras cuja documentação, origem ou qualidade econômica passou a ser contestada.

Relatório da Polícia Federal divulgado neste mês afirmou que o BRB adquiriu aproximadamente R$ 17,5 bilhões em créditos em 25 operações relacionadas ao Master. Segundo a investigação, uma parcela expressiva estava associada a títulos sem lastro econômico suficiente originados de carteiras de consignado ligadas à Tirreno.

Essas conclusões fazem parte de investigação em curso e não equivalem a julgamento definitivo de responsabilidade dos envolvidos.

Venda também reduz o risco de manter créditos até o vencimento

A monetização das CCBs altera a natureza do risco para o BRB.

Enquanto os títulos permaneciam em carteira, o banco estava exposto ao pagamento futuro das obrigações, ao valor dos imóveis dados em garantia e às condições de liquidez para uma eventual venda posterior.

Com a cessão, essa exposição econômica passa ao comprador nos termos do contrato. O BRB recebe dinheiro agora, mas abre mão do valor que poderia obter no futuro caso os créditos fossem integralmente pagos nas condições originalmente previstas.

Essa troca entre retorno potencial e liquidez imediata é particularmente relevante em instituições que precisam reforçar caixa ou capital.

No caso das seis CCBs, a diferença de quase R$ 100 milhões entre o valor econômico informado e o preço de venda mostra o custo associado à antecipação dessa liquidez. O dado, isoladamente, não permite concluir se a operação foi favorável ou desfavorável, porque seria necessário comparar o preço recebido com o valor contábil dos ativos, o risco de inadimplência, o prazo até o vencimento e o valor realizável das garantias.

BRB ainda discute reforço de capital

A venda ocorre enquanto o banco procura uma solução mais ampla para sua situação patrimonial.

O governo do Distrito Federal vem discutindo uma operação de até R$ 6,6 bilhões envolvendo recursos do Fundo Garantidor de Créditos para reforçar o capital do BRB. O desenho da operação passou pelo Supremo e depende de definições sobre garantias e contragarantias.

A instituição, por sua vez, sustenta publicamente que mantém suas operações normalmente e afirma trabalhar em diferentes alternativas de recomposição patrimonial e recuperação de ativos.

O contraste entre as duas cifras é relevante. Uma eventual capitalização de R$ 6,6 bilhões teria dimensão quase 18 vezes maior que os R$ 376 milhões obtidos na operação com a XP.

Isso não reduz a importância da venda, mas mostra que a recuperação financeira depende de um conjunto de medidas, e não apenas da alienação pontual de ativos.

Relação com o Master continua sob investigação

As operações realizadas entre BRB e Banco Master permanecem submetidas a investigações policiais, procedimentos regulatórios e disputas judiciais.

A apuração procura esclarecer, entre outros pontos, como foram adquiridas determinadas carteiras, qual era sua qualidade econômica, como os ativos foram avaliados e se houve irregularidades na condução das transações.

O Banco de Brasília também contratou investigação independente para examinar os fatos relacionados à operação com o Master, com trabalhos conduzidos por escritório externo e suporte técnico especializado.

A existência dessas investigações exige uma distinção entre os créditos vendidos à XP e as acusações envolvendo outras carteiras. A liberação das garantias das CCBs da Esfera não constitui uma certificação do STF sobre a regularidade do conjunto das relações entre as instituições.

Da mesma forma, a venda de ativos não interfere, por si só, nas apurações sobre eventuais responsabilidades de executivos ou terceiros.

Operação mostra caminho possível para ativos recuperáveis

A venda para a XP oferece uma indicação de como parte do problema poderá ser administrada: identificar créditos que conservam valor econômico, retirar obstáculos jurídicos quando cabível e transformá-los em liquidez.

Esse processo, entretanto, depende da qualidade de cada ativo. Créditos com devedores identificados, garantias suficientes e fluxo financeiro verificável podem encontrar compradores. Carteiras contestadas, de baixa liquidez ou sem documentação considerada adequada exigem outra abordagem, incluindo provisões, recuperação judicial de valores ou disputa com antigos responsáveis.

Os R$ 376 milhões representam, portanto, mais do que uma simples venda de carteira. A operação funciona como um primeiro retrato da diferença entre ativos do Master que ainda conseguem ser monetizados e aqueles que estão no centro das perdas atribuídas ao BRB.

Para o banco, o desafio permanece muito maior do que essa transação isolada. A instituição precisa converter ativos em caixa, recuperar valores, absorver perdas já identificadas e recompor níveis de capital suficientes para atender às exigências prudenciais.

A venda das CCBs mostra que parte da carteira pode gerar recursos. Ao mesmo tempo, a comparação com a perda potencial de R$ 11,4 bilhões calculada pelo Banco Central deixa claro que a solução para o BRB dependerá de operações de escala muito superior e dos resultados das medidas de recuperação patrimonial ainda em andamento.

Fontes:

Banco de Brasília – comunicados ao mercado e notas públicas sobre ativos recebidos do Banco Master, avaliação das carteiras e medidas de recuperação financeira

Supremo Tribunal Federal – decisão de André Mendonça sobre as restrições incidentes sobre imóveis vinculados às CCBs da Esfera Aquisições Imobiliárias

Banco Central do Brasil – informações regulatórias e avaliações sobre os ativos relacionados às operações entre BRB e Banco Master

Polícia Federal – documentos das investigações sobre operações de crédito realizadas entre Banco Master e BRB

Folha de S.Paulo – informações sobre a venda das CCBs da Esfera para a XP e valores envolvidos na operação

Metrópoles – informações sobre o recebimento de R$ 376 milhões pelo BRB, composição da operação e liberação das garantias

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