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Rali da IA perde força e Wall Street gira para ações de valor

Queda da Nvidia e das fabricantes de chips expõe cobrança sobre investimentos bilionários, enquanto energia, dividendos e empresas menos dependentes da inteligência artificial voltam ao radar

por Camila Braga - Repórter de Economia
17/07/2026 às 16h53
em Mercados,Destaque,Notícias
Rali Da Ia Perde Força E Wall Street Gira Para Ações De Valor - Gazeta Mercantil

O mercado acionário norte-americano deu novos sinais de rotação nesta sexta-feira (17), com investidores reduzindo a exposição às empresas que lideraram o rali da inteligência artificial e reavaliando ações de energia, companhias maduras, pagadoras de dividendos e negócios menos dependentes da construção de data centers. A Nvidia (NVDA) recuava cerca de 2% durante a tarde em Nova York, enquanto o fundo que acompanha as principais fabricantes de semicondutores perdia mais de 1%.

O movimento ocorre depois de mais de um ano de forte concentração dos ganhos em fabricantes de chips, empresas de computação em nuvem e fornecedoras de infraestrutura para inteligência artificial. A mudança não representa abandono da tecnologia, mas indica que Wall Street passou a exigir uma relação mais clara entre os investimentos bilionários realizados pelas grandes companhias e o retorno financeiro produzido por essas despesas.

A rotação para ações de valor ganhou visibilidade com a melhora relativa do S&P 500 Equal Weight, versão do índice que concede o mesmo peso a todas as empresas. O indicador ficou quatro pontos percentuais atrás do S&P 500 tradicional no segundo trimestre, mas superou o índice ponderado pelo valor de mercado em três pontos percentuais somente em junho.

A diferença mostra que as altas começaram a alcançar um grupo maior de companhias. Quando o S&P 500 tradicional avança enquanto sua versão de peso igual fica para trás, o mercado tende a estar concentrado nas maiores empresas. Quando o índice igualitário ganha força, setores e ações com menor valor de mercado passam a participar mais do movimento.

Nvidia recua, mas continua maior que a Apple

A Nvidia (NVDA) ainda mantinha nesta sexta-feira o posto de companhia mais valiosa do mundo, apesar da pressão sobre suas ações.

Por volta das 16h30 no horário de Brasília, a fabricante de chips possuía valor de mercado próximo de US$ 4,95 trilhões. A Apple (AAPL) aparecia logo atrás, avaliada em aproximadamente US$ 4,90 trilhões.

A diferença, inferior a US$ 50 bilhões, pode ser eliminada por uma variação relativamente pequena nas cotações. Isso explica por que as duas companhias passaram a alternar posições ou permanecer muito próximas no ranking global.

A Apple operava perto da estabilidade, enquanto a Nvidia recuava mais de 2%. O desempenho relativo favorecia a fabricante do iPhone, mas ainda não era suficiente para colocá-la definitivamente à frente da concorrente.

A percepção de que a Apple seria uma ação defensiva dentro da tecnologia não significa que o papel esteja barato. A companhia negociava a cerca de 40 vezes seu lucro por ação, múltiplo superior ao da própria Nvidia, próximo de 31 vezes.

O que atrai parte dos investidores é a menor exposição direta da Apple à construção de infraestrutura de inteligência artificial em escala comparável à de Microsoft (MSFT), Alphabet (GOOGL), Meta (META) e Amazon (AMZN).

Fabricantes de chips lideram correção

A pressão foi mais ampla no segmento de semicondutores. O ETF iShares Semiconductor, que acompanha empresas do setor, recuava cerca de 1,4% durante a tarde, depois de cair mais intensamente nas primeiras horas do pregão.

O fundo de tecnologia do S&P 500 também operava em baixa, enquanto o setor de energia avançava. A diferença ilustra a movimentação de capital entre grupos que responderam de maneiras opostas ao novo cenário.

As fabricantes de chips estiveram entre as maiores beneficiárias do crescimento dos investimentos em inteligência artificial. GPUs, processadores, memória, sistemas de rede e equipamentos de armazenamento tornaram-se essenciais para o treinamento e a operação de grandes modelos.

A valorização das ações refletiu tanto o aumento dos resultados quanto a expectativa de que a demanda continuaria crescendo em ritmo excepcional durante vários anos.

A mudança recente decorre menos de uma contração dos negócios e mais de uma revisão dessas expectativas. Quando o mercado já atribui à companhia um crescimento extraordinário, a simples manutenção de resultados fortes pode não ser suficiente para produzir novas altas.

Os investidores passam a exigir que as receitas superem as projeções, que as margens permaneçam elevadas e que os clientes mantenham seus programas de investimento sem cortes relevantes.

Receita da Nvidia mostra que demanda continua forte

Os resultados mais recentes da Nvidia (NVDA) não indicam uma retração operacional.

A companhia registrou receita recorde de US$ 81,6 bilhões no trimestre encerrado em 26 de abril, crescimento de 85% em relação ao mesmo período do ano anterior.

A divisão de data centers faturou US$ 75,2 bilhões, alta anual de 92%. O segmento respondeu por aproximadamente 92% da receita total da empresa.

Os números confirmam que a demanda por infraestrutura de inteligência artificial permanece elevada. Grandes empresas de tecnologia, laboratórios, governos e provedores de nuvem continuam comprando processadores para ampliar sua capacidade computacional.

A discussão em Wall Street está concentrada no ritmo futuro. Uma companhia avaliada em quase US$ 5 trilhões precisa continuar expandindo receita e lucro em escala suficiente para justificar esse valor.

Mesmo uma desaceleração moderada pode provocar correções, sobretudo depois de períodos de valorização acentuada e concentração das carteiras em poucas ações.

O risco não é necessariamente uma queda imediata das vendas, mas a possibilidade de que o crescimento deixe de superar as expectativas já incorporadas aos preços.

Alphabet e Microsoft elevam gastos com infraestrutura

Os investimentos das grandes empresas de tecnologia permanecem em expansão.

A Alphabet (GOOGL) elevou sua previsão de investimentos para 2026 a uma faixa entre US$ 180 bilhões e US$ 190 bilhões. A estimativa anterior variava de US$ 175 bilhões a US$ 185 bilhões.

A maior parte dos recursos será aplicada em servidores, data centers, equipamentos de rede e infraestrutura necessária para sustentar os produtos de inteligência artificial e os serviços do Google Cloud.

A Microsoft (MSFT) prevê investir aproximadamente US$ 190 bilhões ao longo de 2026. No trimestre encerrado em março, os investimentos de capital somaram US$ 31,9 bilhões.

Cerca de dois terços das despesas trimestrais foram destinados a ativos de vida útil mais curta, principalmente GPUs e CPUs. O restante foi direcionado a estruturas de longo prazo, como terrenos, prédios e grandes centros de dados.

A empresa espera elevar o investimento trimestral para mais de US$ 40 bilhões no período seguinte. A administração afirma que a demanda continua superior à capacidade disponível e que essa restrição deverá permanecer, pelo menos, até o fim de 2026.

Esses números afastam a hipótese de uma interrupção abrupta do ciclo. Ao mesmo tempo, ampliam a cobrança sobre a rentabilidade dos projetos.

Retorno do Capex vira questão central

O mercado deixou de analisar apenas quanto as empresas estão investindo e passou a cobrar evidências de retorno.

A construção de data centers envolve terrenos, energia, sistemas de refrigeração, redes, servidores e chips avançados. Parte desses ativos poderá ser utilizada por mais de uma década, enquanto processadores precisam ser substituídos em ciclos muito menores.

Essa diferença produz efeitos sobre a depreciação e o fluxo de caixa. Uma companhia pode apresentar crescimento de receita e, ao mesmo tempo, consumir volumes crescentes de recursos para sustentar a infraestrutura necessária.

O investimento cria valor quando o lucro adicional supera o custo do capital e a perda de valor dos ativos. Caso isso não ocorra, o crescimento pode reduzir a rentabilidade em vez de ampliá-la.

Microsoft, Alphabet e outras empresas afirmam que os serviços de inteligência artificial já geram receitas e ampliam a demanda por computação em nuvem. O mercado, porém, busca maior clareza sobre as margens específicas dessas atividades.

Também existe a dúvida sobre a velocidade de utilização da capacidade contratada. Centros de dados construídos para atender a uma expansão muito acelerada podem ficar subutilizados se a demanda crescer abaixo do previsto.

A possibilidade não caracteriza necessariamente uma bolha, mas aumenta o risco financeiro em torno de projetos de grande escala.

Modelos mais eficientes mudam a equação

O surgimento de modelos que utilizam menos capacidade computacional acrescentou outra fonte de incerteza.

Sistemas mais eficientes conseguem produzir resultados semelhantes com menor consumo de chips, memória e energia. Essa evolução reduz o custo de cada consulta e torna a inteligência artificial acessível a um número maior de empresas e usuários.

O efeito sobre a infraestrutura pode seguir duas direções.

De um lado, a eficiência permite executar mais tarefas com a mesma quantidade de equipamentos, reduzindo a necessidade de expansão. De outro, preços mais baixos podem provocar um aumento tão expressivo da utilização que a demanda total por processamento continua crescendo.

O resultado dependerá de qual força prevalecerá. Para as fabricantes de chips, o cenário permanece favorável quando o aumento do número de aplicações supera a redução do custo por tarefa.

A dificuldade de prever esse equilíbrio explica por que ações ligadas à inteligência artificial passaram a apresentar maior volatilidade, mesmo com resultados empresariais ainda robustos.

Rotação não transforma toda empresa antiga em oportunidade

A busca por ações de valor não significa que qualquer companhia com preço baixo seja uma boa alternativa.

Ações de valor são geralmente associadas a empresas negociadas por múltiplos menores em relação ao lucro, ao patrimônio ou ao fluxo de caixa. Bancos, energia, indústria, telecomunicações e consumo básico costumam ter maior presença nesse grupo.

Uma avaliação baixa pode indicar oportunidade quando o mercado subestima a capacidade de geração de resultados. Também pode refletir problemas reais, como queda estrutural da demanda, dívida elevada, perda de mercado ou baixa rentabilidade.

O investidor precisa diferenciar uma empresa temporariamente ignorada de um negócio em deterioração permanente.

A rotação atual favorece companhias que combinam preços menos exigentes com balanços sólidos, receitas previsíveis e capacidade de remunerar os acionistas.

O interesse aumenta quando essas empresas apresentam resultados consistentes enquanto as líderes anteriores enfrentam maior cobrança para justificar avaliações muito elevadas.

Dividendos voltam a ganhar importância

As estratégias de dividendos também recuperaram espaço.

Empresas que distribuem parte relevante do lucro oferecem retorno ao investidor mesmo quando suas ações não apresentam valorização expressiva. Os pagamentos podem reduzir a volatilidade da carteira e produzir renda durante períodos de correção.

Existem diferenças importantes dentro desse grupo.

Alguns investidores priorizam empresas com dividend yield elevado no presente. Outros preferem negócios capazes de aumentar os pagamentos de forma recorrente ao longo dos anos.

Um rendimento muito alto pode ser resultado de uma queda acentuada da ação ou indicar que o mercado espera uma redução futura dos dividendos. Por isso, o fluxo de caixa e a sustentabilidade do lucro são mais relevantes do que o percentual isolado.

Companhias com histórico de dividendos crescentes costumam apresentar maior disciplina financeira, endividamento controlado e posição competitiva mais estável.

Essas características se tornam mais valorizadas quando diminui a disposição do mercado para pagar antecipadamente por lucros que somente serão gerados no futuro.

Energia ganha com petróleo e tensão geopolítica

O setor de energia estava entre os poucos grupos no campo positivo nesta sexta-feira.

O fundo que acompanha as principais empresas de energia do S&P 500 avançava aproximadamente 0,8%, beneficiado pela valorização do petróleo e pelo aumento das tensões no Oriente Médio.

Empresas produtoras de petróleo e gás tendem a gerar mais caixa quando as cotações internacionais sobem, desde que os custos permaneçam controlados.

O setor também oferece exposição a ativos físicos, reservas e fluxos de caixa que respondem de maneira diferente das empresas de tecnologia.

A valorização, entretanto, não decorre apenas da rotação para ações de valor. O petróleo incorporou um prêmio de risco diante de ameaças ao abastecimento e às rotas comerciais no Oriente Médio.

Uma redução das tensões poderá retirar parte desse impulso. Por isso, energia não deve ser tratada como substituta direta e permanente da inteligência artificial, mas como uma fonte de diversificação.

Desmonte de posições amplia as quedas

A correção das ações de tecnologia também possui um componente técnico.

Muitos fundos adotam estratégias de momentum, comprando os ativos que apresentaram melhor desempenho recente. A lógica é que tendências de alta tendem a continuar por algum tempo.

Quando o movimento se inverte, esses modelos podem gerar ordens de venda simultâneas. A queda provoca novos limites de risco e leva outros gestores a reduzir posições, ampliando a pressão sobre as antigas líderes.

Esse processo pode ocorrer mesmo sem mudança relevante nos resultados das empresas.

O excesso de concentração anterior também aumenta a intensidade. Quando muitos fundos possuem as mesmas ações, qualquer tentativa coletiva de reduzir exposição encontra um número elevado de vendedores ao mesmo tempo.

O dinheiro liberado precisa ser realocado. Parte migra para títulos públicos ou caixa, enquanto outra parcela procura setores que ficaram para trás durante o rali.

Esse mecanismo ajuda a explicar por que a rotação pode ganhar velocidade em poucos pregões.

Mercado mais amplo reduz dependência das megacaps

A recuperação relativa do S&P 500 Equal Weight é um sinal importante porque indica menor dependência das maiores empresas.

O índice reúne as mesmas companhias do S&P 500, mas atribui participação semelhante a cada uma delas durante os rebalanceamentos.

No índice tradicional, Nvidia, Apple, Microsoft e outras megacaps exercem influência desproporcional. Uma alta intensa dessas companhias pode sustentar o indicador mesmo quando a maioria das ações cai.

A expansão das altas para um grupo maior torna o mercado menos vulnerável a uma correção isolada nas gigantes.

Isso não elimina riscos. O índice de peso igual também pode cair quando a economia desacelera ou os juros pressionam os lucros empresariais.

O sinal positivo está na diversidade das fontes de retorno. Um mercado sustentado por bancos, energia, indústria, consumo e tecnologia possui uma estrutura mais equilibrada do que outro dependente de um único tema.

Wall Street testa liderança além da inteligência artificial

A rotação para ações de valor ainda precisa demonstrar continuidade.

O próximo teste virá com os balanços das grandes empresas de tecnologia e suas projeções para investimentos, receitas e margens. Resultados capazes de comprovar retorno crescente sobre o Capex poderão recuperar o entusiasmo pelas ações de inteligência artificial.

Caso as despesas continuem subindo sem avanço proporcional do faturamento, a pressão tende a aumentar.

Os juros também serão decisivos. Taxas mais baixas favorecem empresas de crescimento ao elevar o valor presente dos lucros futuros. Juros persistentemente altos beneficiam relativamente companhias que geram caixa e dividendos no presente.

O movimento desta sexta-feira não encerra o ciclo da inteligência artificial. A Nvidia continua registrando receitas recordes, enquanto Microsoft e Alphabet afirmam operar com capacidade insuficiente para atender à demanda.

O que mudou foi o nível de exigência. Wall Street deixou de recompensar qualquer anúncio de investimento em IA e passou a cobrar provas de que cada bilhão aplicado em data centers, servidores e chips produzirá retorno compatível.

Enquanto essa resposta não aparece de forma clara, ações de valor, dividendos, energia e empresas menos dependentes do ciclo de infraestrutura recuperam espaço nas carteiras.

Tags: ações Americanasações de valorAppledividendosInteligência ArtificialmercadosNvidiarotação setorialS&P 500semicondutoresWall Street

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