Auditoria aponta falta de comprovação de ‘valor justo’ em fundo ligado ao resort Tayayá e amplia crise do Banco Master
Uma complexa teia de transações financeiras, ausência de lastro documental e alertas contábeis de gravidade máxima colocaram o resort Tayayá no centro de um dos maiores imbróglios corporativos e políticos do ano. Documentos e relatórios de auditoria independente revelaram que o fundo de investimento responsável pela compra de parte da participação de familiares do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), no empreendimento, opera sob uma nuvem de incertezas contábeis.
A situação do resort Tayayá ganha contornos de crise institucional ao se conectar diretamente com a liquidação extrajudicial do Banco Master, decretada pelo Banco Central (BC) em novembro de 2025, e com as investigações da Operação Compliance Zero. O cenário expõe falhas graves de governança e levanta suspeitas sobre a real valoração dos ativos que compõem o patrimônio do fundo gerido pela Reag.
Nesta análise aprofundada, detalhamos como a falta de transparência sobre o valor justo do resort Tayayá, a abstenção de opinião dos auditores e as conexões políticas criaram uma tempestade perfeita no mercado financeiro e jurídico.
O Alerta dos Auditores: O ‘Valor Justo’ do Resort Tayayá em Xeque
No mercado financeiro, a confiança é lastreada em números auditados. Quando auditores independentes se recusam a emitir uma opinião sobre um balanço, o sinal de alerta máximo é acionado. Foi exatamente isso que ocorreu com o fundo que detém participação no resort Tayayá.
Segundo os relatórios analisados, os auditores identificaram uma ausência crítica de documentações e demonstrações contábeis que pudessem comprovar, de forma fidedigna, o patrimônio declarado pelo fundo. Nas demonstrações financeiras mais recentes, que cobrem o período de dezembro de 2024 até maio de 2025, o fundo declara possuir um patrimônio líquido de R$ 34,6 milhões. No entanto, a veracidade desse montante não pôde ser atestada.
O ponto nevrálgico da questão reside na mensuração do “valor justo” (fair value) da participação no resort Tayayá. Na contabilidade moderna, o valor justo é o preço que seria recebido pela venda de um ativo em uma transação não forçada entre participantes do mercado. Para ativos ilíquidos ou de difícil precificação, como participações em empreendimentos imobiliários de luxo, laudos de avaliação robustos são mandatórios.
Contudo, a auditoria registrou formalmente que não obteve acesso ao laudo de avaliação do resort Tayayá. O trecho do relatório é contundente: “Como consequência, não nos foi possível concluir de forma satisfatória quanto a adequação do saldo apresentado, nem sobre possíveis distorções que poderiam impactar as demonstrações financeiras.
Abstenção de Opinião: A Gravidade do Silêncio Contábil
Para o investidor leigo, o termo “abstenção de opinião” pode parecer técnico e inofensivo, mas no universo da auditoria, ele representa uma falha estrutural grave. A abstenção ocorre quando o auditor não consegue obter evidência de auditoria apropriada e suficiente para fundamentar sua opinião, e os possíveis efeitos de distorções não detectadas sobre as demonstrações contábeis poderiam ser relevantes e generalizados.
No caso do fundo ligado ao resort Tayayá, essa abstenção não foi um evento isolado. As mesmas observações foram reiteradas em balanços referentes a períodos anteriores: dezembro de 2023 a maio de 2024, dezembro de 2022 a maio de 2023, e dezembro de 2021 a maio de 2022. Ou seja, há anos o fundo opera sem que seus números sejam validados externamente, o que lança dúvidas sobre a real saúde financeira e a valoração do resort Tayayá dentro do portfólio.
Essa recorrência é extremamente incomum e só não é considerada mais grave do que a “opinião adversa”, que é emitida quando os auditores têm certeza de que as demonstrações contábeis contêm distorções relevantes. A persistência dessa falha de conformidade (compliance) sugere uma dificuldade crônica de acesso a dados ou, na pior das hipóteses, uma ocultação deliberada de informações sobre o ativo imobiliário.
A Conexão Reag e o Colapso do Banco Master
Aberto em 2021, o fundo que investiu no resort Tayayá é administrado pela Reag, uma gestora que se encontra hoje no olho do furacão. A Reag é investigada por fraudes envolvendo o Banco Master no âmbito da Operação Compliance Zero. O Banco Master, por sua vez, teve sua liquidação extrajudicial decretada pelo BC em novembro de 2025, após a descoberta de inconsistências financeiras insustentáveis.
A relação entre a gestora e o banco liquidado contamina a percepção de risco sobre os ativos sob sua administração, incluindo a participação no resort Tayayá. Investigações jornalísticas e policiais revelaram que Fabiano Zettel, pastor, empresário e cunhado de Daniel Vorcaro (dono do Banco Master), está por trás de uma complexa teia de fundos geridos pela Reag.
Foi por meio de um desses fundos que, segundo reportagens da “Folha de S. Paulo” e do “Estado de S. Paulo”, Zettel adquiriu, em 2021, parte da participação de dois irmãos do ministro Dias Toffoli no resort Tayayá. À época da transação, a participação foi avaliada em R$ 6,6 milhões. Com a venda, a Maridt, empresa dos irmãos do ministro, passou a ter o fundo ligado a Zettel como principal sócio.
O Fator Político: Dias Toffoli e o Conflito de Interesses
O imbróglio financeiro do resort Tayayá ganha dimensão política devido à figura do ministro Dias Toffoli. O magistrado é o relator, no Supremo Tribunal Federal (STF), de casos que atingem diretamente Daniel Vorcaro e o Banco Master. A descoberta de que um fundo ligado ao cunhado de Vorcaro comprou a participação dos irmãos de Toffoli no resort gerou questionamentos éticos e jurídicos sobre um possível conflito de interesses.
O resort Tayayá, situado à beira de uma represa em Ribeirão Claro (PR) e considerado um destino de luxo, tornou-se o epicentro dessa crise. A proximidade entre as transações financeiras do fundo, a gestão do Banco Master e as decisões judiciais relatadas pelo ministro criaram um cenário de pressão sobre a Corte.
Além das transações societárias, registros de despesas públicas adicionam mais combustível à controvérsia. Dados do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 2ª Região indicam o pagamento de diárias para seguranças que atendem o STF em viagens para a região do resort Tayayá.
Gastos Públicos e Segurança Institucional
O levantamento dos custos com segurança revela que foram gastos R$ 460 mil em diárias para agentes que viajaram para a cidade de Ribeirão Claro, onde fica o resort Tayayá. Os registros apontam 128 dias de viagens entre 2022 e 2025, coincidindo com feriados, finais de semana estendidos e o recesso do Judiciário.
Embora o TRT-2 não revele nominalmente o ministro atendido, a frequência das viagens para a localização exata do resort Tayayá, frequentado assiduamente por Toffoli, estabelece um vínculo direto. O uso de recursos públicos para a segurança de autoridades é previsto em lei, mas o contexto das viagens para um empreendimento que possui laços societários controversos com investigados pelo próprio ministro amplifica o escrutínio público.
A Teia de Fundos e a Operação Compliance Zero
A Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal, tem como objetivo desbaratar esquemas de fraude financeira e gestão temerária. A segunda fase da operação, ocorrida na semana passada, teve como um dos alvos Fabiano Zettel, consolidando a suspeita de que a estrutura de fundos da Reag — incluindo aquele que investe no resort Tayayá — pode ter sido utilizada para manobras financeiras irregulares ligadas ao Banco Master.
A falta de comprovação do valor justo do resort Tayayá nos balanços do fundo pode indicar uma superavaliação de ativos para inflar o patrimônio líquido ou, inversamente, uma tentativa de ocultar a real natureza das transações entre as partes relacionadas. A opacidade é a inimiga da regulação, e a atuação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e do Banco Central deve se intensificar sobre esses veículos de investimento.
Impactos no Mercado Imobiliário e Financeiro
A crise reputacional que atinge o resort Tayayá serve como um case de alerta para o mercado de fundos imobiliários e de participações (FIPs). A governança de fundos que investem em ativos ilíquidos depende crucialmente da independência e da qualidade das avaliações (valuations).
Quando um ativo como o resort Tayayá é inserido em um fundo sem a devida transparência de valor, todo o ecossistema perde credibilidade. Investidores institucionais e privados tendem a se afastar de estruturas que apresentam “abstenção de opinião” por parte dos auditores, pois o risco de perdas financeiras — ou de envolvimento em investigações criminais — torna-se incalculável.
A liquidação do Banco Master já provocou ondas de choque no mercado de crédito. Agora, a contaminação atinge o setor de hospitality e investimentos imobiliários através do resort Tayayá, demonstrando como o risco sistêmico pode se propagar por canais não óbvios.
O Futuro do Empreendimento e as Investigações
Diante da abstenção dos auditores e das investigações policiais, o futuro da estrutura societária do resort Tayayá é incerto. A Maridt, empresa dos irmãos de Toffoli, encontra-se sócia de um fundo sob suspeita e incapaz de comprovar contabilmente o valor de seu principal ativo.
As autoridades devem aprofundar a análise sobre a origem dos recursos utilizados para a compra da participação no resort Tayayá em 2021. Se ficar comprovado que a transação serviu para ocultar patrimônio ou beneficiar indevidamente agentes públicos e privados, as consequências jurídicas podem incluir o bloqueio de bens e a anulação de negócios jurídicos.
Para o Banco Central e a Polícia Federal, o foco permanece em rastrear o fluxo de capitais entre o Banco Master, a gestora Reag e os beneficiários finais dos fundos. O resort Tayayá, antes apenas um destino turístico paradisíaco no Paraná, transformou-se em uma peça-chave para desvendar um dos esquemas financeiros mais complexos da atualidade.
A Necessidade de Transparência Absoluta
O caso do resort Tayayá transcende a esfera de um negócio imobiliário privado. Ele expõe fragilidades na auditoria de fundos de investimento, conflitos de interesse no mais alto escalão do Judiciário e a ousadia de operadores financeiros em criar estruturas opacas.
A “abstenção de opinião” dos auditores sobre o valor justo do resort Tayayá não é um mero detalhe técnico; é um grito de alerta que foi ignorado por anos até a implosão do Banco Master. Para que a confiança no mercado de capitais seja restabelecida, é imperativo que a caixa-preta desses fundos seja aberta, revelando o verdadeiro valor dos ativos e a real motivação por trás das transações bilionárias que conectam banqueiros, pastores e familiares de ministros da Suprema Corte.
A Gazeta Mercantil seguirá acompanhando os desdobramentos das investigações e a análise dos balanços financeiros que sustentam essa intrincada rede de negócios.






