MAM Asset é proibida de usar selo Anbima e recebe multa de R$ 1 milhão por falhas graves de gestão
A decisão do Conselho Anbima de Autorregulação para Gestão e Administração de Recursos de Terceiros impôs uma das punições mais severas dos últimos anos ao mercado de gestão de investimentos. A MAM Asset Management Gestora de Recursos Ltda. foi proibida de usar o selo Anbima pelo período de dois anos e recebeu multa de R$ 1 milhão após a identificação de falhas recorrentes em áreas sensíveis da operação, especialmente na gestão de risco de liquidez e na gestão de crédito privado. O episódio reacende o debate sobre governança, diligência técnica e padrões de conduta exigidos no mercado financeiro brasileiro.
A Anbima, entidade que reúne bancos, corretoras, gestoras, distribuidoras e administradoras, reforçou que a penalidade decorre de uma análise criteriosa conduzida pelo conselho responsável pelas regras de autorregulação referentes ao Código de Administração de Recursos de Terceiros (ART). A decisão foi tomada em 19 de novembro e divulgada posteriormente, consolidando um processo que, segundo a entidade, garantiu ampla defesa e espaço para manifestação da gestora.
O caso ganha relevância por envolver um dos principais instrumentos de credibilidade do mercado: o selo Anbima. A certificação funciona como um indicador de que a instituição segue práticas, processos e padrões técnicos mínimos considerados essenciais para o bom funcionamento dos mecanismos de gestão de recursos. A retirada do selo é um sinal de alerta significativo para investidores, cotistas e parceiros comerciais.
Conselho aponta falhas na gestão de liquidez e no crédito privado
Segundo a Anbima, o julgamento identificou problemas estruturais em dois pilares fundamentais da operação de fundos: a gestão de risco de liquidez e a gestão de crédito privado. No âmbito do risco de liquidez, foram encontrados indícios de falta de conduta diligente, insuficiência de processos e fragilidades claras no acompanhamento de políticas internas. Essas deficiências, quando presentes em uma gestora, ampliam a possibilidade de desequilíbrio nos fundos administrados e comprometem a segurança dos investidores.
Na área de crédito privado, o parecer do conselho apontou falhas no processo de aquisição e no monitoramento dos ativos. A avaliação revelou problemas relacionados à análise de risco, à atualização da capacidade de pagamento dos emissores e à identificação de eventos que deveriam ter sinalizado deterioração de crédito. O caso de uma nota comercial vencida sem quitação exemplificou o que o órgão avaliou como falha grave de monitoramento, especialmente porque houve deterioração evidente das condições financeiras do devedor sem que a instituição adotasse medidas adequadas.
A situação se agravou quando o conselho verificou que operações envolvendo essa nota comercial ocorreram a preços incompatíveis com os valores praticados pelo mercado. Para o órgão, tal conduta pode indicar atuação sob conflito de interesses, potencialmente beneficiando partes relacionadas à própria MAM Asset.
Irregularidades persistentes agravaram penalidade
O conselho destacou que as falhas identificadas não foram pontuais. A continuidade de práticas consideradas inadequadas, principalmente no crédito privado, foi tratada como agravante. A entidade ressaltou que a gestora não reavaliou adequadamente o risco de Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) ao longo do tempo, deixando de ajustar o monitoramento para acompanhar a evolução da capacidade de pagamento dos emissores — uma exigência essencial para mitigação de riscos estruturais.
Segundo o relatório final, a reincidência operacional e a ausência de medidas corretivas eficazes contribuíram para a intensidade da punição. A autorregulação da Anbima tem como objetivo estimular padrões elevados de governança e boas práticas, e a repetição de falhas mina diretamente a confiança depositada pelo mercado em instituições que manejam recursos de terceiros.
Suspensão do selo Anbima afeta credibilidade e exigirá comunicação aos cotistas
Além da multa milionária, a proibição temporária do uso do selo Anbima representa um impacto significativo para a imagem da MAM Asset. A certificação é frequentemente utilizada em materiais de comunicação, relação com investidores, documentos de marketing e estratégias institucionais. A perda do selo fragiliza a credibilidade da empresa no mercado, reduz sua competitividade diante de outras gestoras e pode provocar insegurança entre cotistas.
A Anbima determinou que a MAM deve comunicar formalmente aos cotistas dos fundos sob sua administração sobre a suspensão do selo. Essa obrigação decorre das regras de deveres básicos previstas no documento de autorregulação da instituição. A comunicação é considerada essencial para garantir transparência e permitir que investidores avaliem o impacto da penalidade em seus respectivos fundos.
Decisão sinaliza rigor da autorregulação em um contexto de maior exigência regulatória
O julgamento da MAM Asset ocorre em um momento de fortalecimento dos mecanismos de supervisão e autorregulação no mercado brasileiro. A expansão do número de investidores, o crescimento dos fundos multimercado e de crédito privado e a maior complexidade dos instrumentos financeiros demandam processos de fiscalização mais robustos.
A autorregulação exercida pela Anbima funciona como complemento à atuação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), contribuindo para elevar a qualidade técnica dos participantes do mercado. A retirada do selo Anbima demonstra que o conselho está disposto a aplicar sanções severas quando identifica condutas incompatíveis com os padrões exigidos.
O caso também reforça o papel pedagógico da autorregulação. Ao punir a MAM Asset, a Anbima envia um sinal claro às demais gestoras sobre a importância de manter controles internos rígidos, processos de monitoramento contínuos e análises estruturadas que atendam às responsabilidades assumidas perante investidores.
Irregularidades levantam debate sobre riscos na gestão de crédito privado
as falhas apontadas pelo conselho acendem um alerta sobre a dinâmica da gestão profissional de crédito privado no país. A expansão desse mercado, impulsionada pelas baixas taxas de juros no passado recente e pelo aumento do apetite por instrumentos mais rentáveis, intensificou a necessidade de mecanismos de controle mais eficazes.
A aquisição e o monitoramento inadequados de ativos compromete diretamente a segurança dos fundos e expõem investidores a riscos excessivos. A análise de deterioração de crédito, especialmente em notas comerciais, debêntures, CRIs, CRAs e CCBs, é parte essencial do processo de gestão. A falta de reavaliação periódica ou a realização de operações a valores discrepantes dos preços de mercado pode indicar falhas estruturais profundas.
Para especialistas, a punição aplicada no caso reforça a necessidade de as gestoras adotarem práticas mais rigorosas de governança, compliance e análise contínua de risco. O selo Anbima, nesse contexto, funciona como balizador para o mercado ao diferenciar instituições que seguem os padrões da autorregulação daquelas que ficam à margem desses parâmetros.
Impacto no mercado e possíveis repercussões para a MAM Asset
Embora a decisão não impeça a empresa de continuar operando, o impacto reputacional pode ser relevante. A perda do selo Anbima tende a repercutir em negociações com parceiros, na captação de novos recursos e na relação com investidores institucionais. O mercado financeiro é altamente sensível à percepção de risco, e a ausência de certificações de qualidade pode influenciar a tomada de decisões de alocação de capital.
Investidores tendem a priorizar gestoras com histórico transparente e com práticas alinhadas aos padrões do mercado. Em alguns casos, a falta de certificação pode inclusive limitar a entrada ou permanência de determinados investidores em fundos específicos, sobretudo quando a política de investimento prevê padrões de governança.
Importância do selo Anbima para o ecossistema financeiro
O selo Anbima é reconhecido como um indicador de confiança. Ele demonstra que a instituição cumpre procedimentos estabelecidos e atende requisitos técnicos de governança e controle. Para o investidor, a certificação funciona como parâmetro de qualidade e aumenta a previsibilidade de que a gestora segue práticas compatíveis com o mercado.
A autorregulação é vista como elemento essencial para evitar riscos sistêmicos e elevar a qualidade dos serviços prestados. Em um setor complexo e sujeito a volatilidade, padrões regulatórios sólidos fortalecem a estabilidade e ampliam a credibilidade dos participantes.
Processo garantiu ampla defesa e sustentação oral
A Anbima informou que a MAM teve direito à ampla defesa, tanto por meio de documentos escritos quanto pela possibilidade de sustentação oral. esse procedimento é parte do arcabouço de governança da entidade e permite que as instituições apresentem justificativas, argumentos técnicos e eventuais questionamentos. Mesmo assim, o conselho concluiu que as falhas identificadas justificavam punição rigorosa.
Gestoras reforçam controles para evitar penalidades semelhantes
Após o caso vir a público, outras instituições passaram a reavaliar seus processos internos. O movimento é comum em situações dessa natureza, já que a penalidade envia sinal claro ao mercado sobre a importância do cumprimento das regras de ART. Com o crescimento do mercado de fundos, a tendência é que mecanismos de autorregulação se tornem cada vez mais relevantes.






