A presidente do Banco do Brasil (BBAS3), Tarciana Medeiros, afirmou que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pode ser considerado o “presidente do agronegócio”, ao destacar a ampliação dos recursos destinados ao financiamento rural durante o atual governo. A declaração foi feita na noite de sexta-feira (25), durante um jantar com empresários em São Paulo, organizado pelo Esfera Brasil e pelo grupo Prerrogativas, que reuniu integrantes do governo federal e representantes do setor privado.
Em seu discurso, Tarciana relatou que, ao assumir a presidência do Banco do Brasil, em janeiro de 2023, recebeu de Lula a orientação de ampliar a disponibilidade de crédito em diferentes setores da economia, com atenção especial à atividade agropecuária. Segundo a executiva, a expansão do financiamento rural tornou-se uma das prioridades da instituição durante sua gestão.
Ao apresentar os resultados dessa política, ela afirmou que o governo disponibilizou aproximadamente R$ 2 trilhões ao agronegócio por meio do Plano Safra. Também declarou que o volume de crédito colocado à disposição do setor teria dobrado em comparação com a administração anterior.
A manifestação ocorreu em um encontro realizado na reta final da campanha presidencial de 2026. Participaram do evento o vice-presidente Geraldo Alckmin, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, e Fernando Haddad, candidato do PT ao governo de São Paulo, além de empresários e outras autoridades.
A fala de Tarciana reforçou a associação entre a atuação do Banco do Brasil, historicamente ligado ao financiamento agropecuário, e a política de crédito rural desenvolvida pelo governo. Os números oficiais confirmam a ampliação dos valores anunciados para o setor, embora a comparação entre diferentes Planos Safra exija considerar mudanças na composição das linhas de financiamento e distinguir recursos disponibilizados de valores efetivamente desembolsados.
Plano Safra 2026/2027 prevê R$ 525,1 bilhões para agricultura empresarial
A edição mais recente do Plano Safra, anunciada em junho de 2026, prevê R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial, montante R$ 9 bilhões superior ao programado no ciclo anterior. Desse total, R$ 384,9 bilhões estão destinados às operações de custeio e comercialização, enquanto R$ 140,2 bilhões foram reservados para investimentos.
Os recursos financiam diferentes etapas da produção agropecuária, desde a aquisição de insumos e o custeio das lavouras até projetos de irrigação, armazenagem, mecanização, inovação tecnológica e modernização das propriedades. O programa também contempla cooperativas e produtores de diferentes portes, com taxas e condições específicas conforme a finalidade de cada linha.
O Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp) recebeu uma programação de R$ 72,6 bilhões. Para os demais produtores e cooperativas da agricultura empresarial, foram previstos R$ 452,5 bilhões.
Separadamente, o Plano Safra da Agricultura Familiar 2026/2027 destinou R$ 85,2 bilhões às operações do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), além de medidas relacionadas a seguro agrícola, assistência técnica e outras políticas de apoio aos pequenos produtores.
O volume anunciado pelo governo para a agricultura empresarial cresceu ao longo dos últimos quatro ciclos. O Plano Safra 2023/2024 começou com R$ 364,22 bilhões. Na edição 2024/2025, o anúncio inicial foi de R$ 400,59 bilhões. Em 2025/2026, a programação passou para R$ 516,2 bilhões, chegando aos R$ 525,1 bilhões previstos para 2026/2027.
A comparação, entretanto, não é completamente homogênea. A composição dos valores divulgados passou por mudanças, incluindo a incorporação de instrumentos de financiamento privado, como as Cédulas de Produto Rural (CPRs), aos números apresentados e monitorados pelo Ministério da Agricultura.
Por esse motivo, a afirmação de Tarciana sobre a duplicação do crédito precisa ser interpretada dentro da metodologia e do período adotados. Os dados dos anúncios oficiais demonstram crescimento nominal dos recursos programados, mas não permitem afirmar automaticamente que o volume efetivamente emprestado aos produtores tenha dobrado.
Da mesma forma, os R$ 2 trilhões mencionados pela executiva representam uma referência ao conjunto de recursos anunciados ao longo dos ciclos agrícolas, e não uma despesa direta equivalente realizada pelo Tesouro Nacional. O próprio Ministério da Agricultura utiliza a marca de mais de R$ 2 trilhões ao contabilizar o financiamento programado nos quatro Planos Safra lançados pelo atual governo.
Banco do Brasil destinou R$ 210 bilhões à safra atual
A atuação do Banco do Brasil ajuda a dimensionar a participação da instituição na política de financiamento agropecuário.
Em julho, o banco anunciou R$ 210 bilhões para apoiar a safra 2026/2027. Desse montante, aproximadamente R$ 40 bilhões foram destinados a pequenos e médios produtores, enquanto outros R$ 170 bilhões contemplam a agricultura empresarial, incluindo operações de custeio, investimento, comercialização e industrialização.
A programação também considera R$ 25 bilhões para financiamento da cadeia de valor do agronegócio, abrangendo atividades econômicas relacionadas à produção rural.
No ciclo anterior, o Banco do Brasil informou ter desembolsado R$ 209 bilhões em cerca de 500 mil operações, atendendo mais de 200 atividades agropecuárias em todas as regiões do país.
Esse resultado, contudo, inclui R$ 36,6 bilhões em prorrogações de dívidas realizadas com base na Medida Provisória 1.314/2025. Trata-se de uma distinção importante: renegociar ou prorrogar financiamentos existentes não representa necessariamente disponibilizar o mesmo valor em dinheiro novo ao produtor.
O montante anunciado para 2026/2027 é apenas ligeiramente superior ao resultado informado para a safra anterior, embora os dois indicadores também apresentem diferenças de composição.
A expansão do financiamento rural, portanto, deve ser acompanhada não apenas pelos valores anunciados pelo governo e pelas instituições financeiras, mas também pela evolução das contratações, desembolsos efetivos, renegociações e condições de pagamento.
Carteira do agronegócio alcançou R$ 421,6 bilhões
Nos resultados financeiros do segundo trimestre de 2026, o Banco do Brasil informou que sua carteira de crédito destinada ao agronegócio atingiu R$ 421,6 bilhões.
O saldo representa crescimento de 0,8% em relação ao trimestre anterior e de 4,1% na comparação com junho de 2025. A carteira total de crédito expandida da instituição ultrapassou R$ 1,3 trilhão no encerramento do primeiro semestre.
A dimensão desses valores evidencia o peso das operações rurais no balanço do banco. Ao mesmo tempo, mostra que o crescimento da carteira efetivamente mantida pela instituição é um indicador diferente da programação financeira anual do Plano Safra.
A ampliação do crédito envolve ainda a gestão dos riscos de financiamento, especialmente em um setor sujeito a oscilações de preços das commodities, condições climáticas, custos de produção e variações de renda dos produtores.
No segundo trimestre, o Banco do Brasil registrou lucro líquido ajustado de R$ 3,9 bilhões. O custo do crédito do conglomerado alcançou R$ 18,5 bilhões, enquanto a inadimplência superior a 90 dias ficou em 5,61%.
Esses últimos indicadores dizem respeito ao conjunto das operações do banco, não exclusivamente à carteira agropecuária. Ainda assim, ajudam a contextualizar os desafios de rentabilidade e qualidade do crédito enfrentados pela instituição enquanto mantém participação expressiva no financiamento da economia brasileira.
A política de crédito rural precisa, portanto, conciliar disponibilidade de recursos e capacidade de pagamento. A expansão das linhas de financiamento pode sustentar a produção, mas também exige acompanhamento das garantias, da exposição aos diferentes segmentos agrícolas e das condições financeiras de quem contrata os empréstimos.
Tarciana também destacou financiamento sustentável
Além do crédito rural, a presidente do Banco do Brasil mencionou no jantar o reconhecimento internacional recebido pela instituição em sustentabilidade e o financiamento de projetos relacionados à transição energética.
Segundo Tarciana, a atuação do banco nessa área foi ampliada ao longo dos últimos 42 meses, abrangendo iniciativas destinadas à modernização produtiva e à adoção de fontes de energia mais limpas.
Os resultados financeiros da instituição oferecem uma referência quantitativa para essa atuação. Em junho de 2026, a carteira de crédito sustentável do Banco do Brasil somava R$ 431,5 bilhões, avanço de 8,8% em 12 meses e de 2,5% em relação ao trimestre anterior.
O indicador reúne financiamentos classificados pelo banco como associados a impactos socioambientais positivos, incluindo atividades de agricultura sustentável, energias renováveis e infraestrutura.
Esse saldo não corresponde exclusivamente a investimentos em energia limpa nem representa uma medida direta da redução de emissões produzida pelos projetos financiados. Trata-se da carteira enquadrada nos critérios de classificação sustentável adotados pela instituição.
No crédito rural, o Plano Safra também prevê condições específicas para atividades de menor impacto ambiental, recuperação de áreas produtivas, eficiência energética e modernização tecnológica.
A edição 2026/2027 contempla linhas voltadas à irrigação, armazenagem, recuperação de pastagens e geração de energia renovável, além de incentivos financeiros para produtores que atendam a determinadas condições ambientais.
Declaração ocorreu em encontro com empresários na reta final da eleição
O jantar promovido pelo Esfera Brasil e pelo grupo Prerrogativas integrou uma agenda de encontros entre representantes empresariais e candidatos à Presidência da República.
A iniciativa foi organizada em formato de diálogo com integrantes do setor privado, retomando uma prática adotada também em campanhas eleitorais anteriores. Outros presidenciáveis foram convidados para encontros semelhantes.
Nesse contexto, a manifestação de Tarciana combinou um relato sobre as diretrizes recebidas ao assumir o Banco do Brasil com uma avaliação pessoal sobre a participação de Lula no financiamento do agronegócio.
A declaração ganha relevância pelo peso institucional da executiva, que dirige uma das principais fontes de crédito para a produção rural brasileira desde janeiro de 2023 e foi a primeira mulher a assumir a presidência do Banco do Brasil.
Ao utilizar a expressão “presidente do agronegócio”, Tarciana apresentou uma avaliação sobre a atuação do atual governo. A frase não constitui uma classificação econômica oficial nem substitui a comparação dos indicadores de financiamento, produção, investimento e desempenho do setor.
Os dados disponíveis mostram que o financiamento rural foi ampliado em valores nominais durante o mandato, com sucessivos anúncios de recursos para a agricultura empresarial e familiar. Também demonstram que o Banco do Brasil mantém exposição financeira significativa ao agronegócio, com R$ 421,6 bilhões em sua carteira no encerramento de junho.
A discussão sobre os resultados dessa política, entretanto, envolve outras variáveis: os recursos efetivamente contratados, o custo dos financiamentos, o endividamento dos produtores, a produção agrícola e a sustentabilidade financeira das operações.
A declaração da presidente do Banco do Brasil coloca essa agenda no debate eleitoral, enquanto os números do Plano Safra e do balanço da instituição permitem avaliar, separadamente, a dimensão concreta do financiamento disponibilizado e os resultados efetivamente registrados no setor.
Fontes:
Banco do Brasil — comunicado sobre a programação de R$ 210 bilhões para a Safra 2026/2027
Banco do Brasil — demonstrações de resultados e informações financeiras do segundo trimestre de 2026
Ministério da Agricultura e Pecuária — Plano Safra 2023/2024
Ministério da Agricultura e Pecuária — Plano Safra 2024/2025
Ministério da Agricultura e Pecuária — Plano Safra 2025/2026
Ministério da Agricultura e Pecuária — Plano Safra 2026/2027
Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar — Plano Safra da Agricultura Familiar 2026/2027










