A estreia da propaganda eleitoral gratuita para presidente da República colocou neste sábado, 29 de agosto, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) em confronto direto diante do eleitorado, enquanto Ronaldo Caiado (PSD) concentrou sua mensagem na crítica ao PT e na segurança pública e Augusto Cury (Avante) utilizou seus 35 segundos para tentar se apresentar como alternativa à polarização. Os quatro são os únicos presidenciáveis contemplados pelos blocos nacionais de rádio e televisão definidos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A divisão oficial do tempo estabelece uma vantagem significativa para Lula e Flávio. A coligação Brasil Pronto pra Mais, que reúne PDT, PSB, Federação Brasil da Esperança, PSOL e Rede em torno da candidatura do presidente, dispõe de 5 minutos e 31 segundos em cada bloco. O PL ficou com 4 minutos e 20 segundos, o PSD com 2 minutos e 2 segundos e o Avante com apenas 35 segundos.
O primeiro programa mostrou que a diferença de duração também condicionará a maneira como as candidaturas poderão construir suas narrativas. Lula e Flávio dispõem de tempo para combinar ataques, biografia, propostas e personagens familiares. Caiado precisa concentrar sua mensagem em pouco mais de dois minutos. Cury, com pouco mais de meio minuto, tem espaço suficiente basicamente para uma mensagem central por exibição.
A ordem inicial também foi definida pelo TSE. No primeiro dia, o Avante abriu o bloco, seguido pelo PSD, PL e pela coligação de Lula. A partir das exibições seguintes entra em funcionamento um sistema de rodízio, no qual a candidatura apresentada por último passa para a primeira posição.
Flávio usa família, mulheres, segurança e economia
Flávio Bolsonaro utilizou sua estreia para construir uma apresentação menos centrada exclusivamente na figura de Jair Bolsonaro e ampliar a exposição de elementos de sua própria biografia. O ex-presidente apareceu como referência política e familiar, mas a campanha deu espaço também à mãe do candidato, Rogéria, à mulher, Fernanda, e à influência feminina em sua vida.
O movimento coincide com uma tentativa já identificável na comunicação oficial da candidatura de ampliar o discurso para além do eleitorado bolsonarista tradicional. Flávio tem combinado a preservação da identidade política ligada ao pai com mensagens sobre segurança, custo de vida, emprego e dificuldades financeiras das famílias.
Na propaganda, o candidato procurou aproximar-se especialmente das mulheres. Ao falar sobre sua formação pessoal, destacou a presença da mãe, da esposa e das filhas e associou a experiência familiar à valorização da força feminina. Fernanda também participou da construção dessa imagem, apresentando uma dimensão pessoal do senador diferente daquela predominante nas disputas políticas travadas pelo candidato no Congresso e nas redes.
O segundo eixo foi a segurança pública. Flávio voltou a descrever o crime organizado e as facções como um dos principais problemas nacionais e associou sua candidatura a uma política de maior endurecimento contra organizações criminosas. A pauta já ocupa posição central em seus atos públicos e aparece formalmente entre as prioridades apresentadas pela campanha.
A economia surgiu a partir do cotidiano das famílias, com referências ao endividamento, ao custo de vida e à dificuldade de fechar as contas. Em vez de uma apresentação baseada em indicadores macroeconômicos, a campanha optou por traduzir sua crítica ao governo Lula em situações de consumo e orçamento doméstico.
Lula responde a adversário e explora trajetória de governo
Lula entrou no primeiro programa com a maior parcela do horário presidencial e utilizou parte dessa vantagem para confrontar diretamente Flávio Bolsonaro. A campanha petista já havia preparado inserções específicas contra o senador antes da estreia do bloco presidencial, incluindo conteúdo sobre a relação de Flávio com Daniel Vorcaro e o financiamento ligado ao projeto cinematográfico sobre Jair Bolsonaro.
O PT confirmou oficialmente que incorporou o episódio à sua estratégia eleitoral. Uma das peças divulgadas pelo partido contrapõe declarações de Flávio sobre sua relação com Vorcaro a gravações posteriormente conhecidas e usa o caso para questionar a credibilidade do candidato do PL. As acusações da campanha petista constituem argumentos eleitorais e não equivalem, por si mesmas, a uma conclusão judicial sobre a existência de irregularidade.
Depois do confronto, a propaganda de Lula mudou de registro e recorreu à trajetória pessoal e política do presidente. A campanha buscou ligar diferentes momentos de sua vida pública às realizações atribuídas aos três mandatos presidenciais já exercidos e às propostas apresentadas para um eventual quarto governo.
Educação, saúde, renda e economia apareceram como componentes dessa narrativa. O presidente tenta sustentar a campanha em uma combinação de retrospectiva de suas administrações com a promessa de que um novo mandato representaria continuidade e ampliação das políticas adotadas atualmente.
A primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, também participa da comunicação eleitoral e amplia a presença feminina no material da candidatura. Assim como Flávio, Lula utiliza relações familiares para humanizar sua apresentação, embora a estratégia petista esteja ancorada principalmente no histórico político do presidente e nas realizações atribuídas ao governo.
O confronto entre os dois tende a ocupar parte relevante dos blocos futuros. Juntos, Lula e Flávio controlam 9 minutos e 51 segundos dos 12 minutos e 30 segundos reservados à propaganda presidencial em rede, equivalente a quase quatro quintos de todo o tempo disponível.
Caiado transforma segurança em principal contraste com PT
Ronaldo Caiado dedicou seus 2 minutos e 2 segundos a uma apresentação biográfica combinada com ataques ao PT. A trajetória como médico, parlamentar, liderança ligada ao setor agropecuário e governador de Goiás foi usada para fundamentar o conceito de coragem escolhido pela candidatura como uma de suas principais marcas.
A segurança pública ocupou posição central. Caiado relacionou resultados de sua administração em Goiás à capacidade de aplicar nacionalmente uma política de enfrentamento ao crime e às facções. A campanha também mencionou áreas como saúde, educação e infraestrutura para apresentar o Estado como demonstração de sua experiência administrativa.
Quando passou ao cenário nacional, o candidato concentrou as críticas no partido de Lula. Caiado atribuiu ao PT responsabilidade por problemas ligados à criminalidade e ao ambiente econômico e retomou sua antiga oposição política à esquerda, que remonta à sua primeira candidatura presidencial, em 1989.
A escolha produz uma diferenciação importante dentro do campo oposicionista. Em vez de iniciar a propaganda disputando frontalmente com Flávio o eleitorado de direita, Caiado direcionou o ataque ao governo e ao PT. O desafio da campanha será ganhar espaço próprio dispondo de menos da metade do tempo reservado ao candidato do PL.
A mulher de Caiado, Gracinha, também integra sua construção biográfica. A presença da família reforça uma característica comum observada nas primeiras peças: os principais candidatos procuram associar propostas políticas a elementos pessoais capazes de reduzir a distância entre o postulante e o eleitor.
Cury tem apenas 35 segundos para apresentar candidatura
Augusto Cury enfrenta a restrição mais evidente. O Avante recebeu somente 35 segundos por bloco, menor espaço entre as quatro legendas contempladas. Na estreia, o escritor concentrou praticamente toda a mensagem na crítica ao ambiente de confronto permanente entre os dois polos políticos predominantes.
A candidatura explorou a própria associação entre o sobrenome do escritor e a ideia de “curar” o país. Cury apresentou-se como opção ao embate entre petistas e bolsonaristas e defendeu diálogo e redução da polarização como elementos centrais de sua mensagem.
Com apenas 35 segundos, a campanha não dispõe do mesmo espaço de Lula, Flávio e Caiado para detalhar simultaneamente biografia, propostas e críticas. A consequência prática é uma necessidade maior de repetição de mensagens simples nas diferentes inserções e blocos.
A diferença decorre das regras de distribuição previstas na legislação eleitoral e regulamentadas pelo TSE. O horário não é dividido igualmente entre todos os candidatos registrados. A representação partidária na Câmara dos Deputados integra o cálculo utilizado para definir quais legendas participam e quanto tempo recebem.
Lula e Flávio concentram também as inserções
A vantagem das duas principais candidaturas não se limita aos programas em bloco. O plano de mídia do TSE prevê 980 inserções de 30 segundos destinadas à eleição presidencial ao longo da programação, distribuídas conforme os mesmos critérios de representação partidária.
A coligação de Lula ficou com 434 inserções no período, enquanto o PL recebeu 339. O PSD terá 160 e o Avante, 47. Isso amplia a capacidade de Lula e Flávio não apenas de apresentar programas mais longos, mas também de repetir mensagens durante diferentes faixas horárias.
Os programas presidenciais em rede totalizam 12 minutos e 30 segundos por bloco. No rádio, são transmitidos nos horários previstos pela Justiça Eleitoral; na televisão, os blocos presidenciais são exibidos às 13h e às 20h30 nos dias reservados à disputa pelo Palácio do Planalto.
A propaganda gratuita do primeiro turno segue até 1º de outubro. O TSE determinou ainda procedimentos específicos para o envio das mídias às emissoras e centralizou o material presidencial em um grupo único responsável pela geração do sinal nacional.
A estreia deixou definidos os primeiros campos de disputa: Lula pretende confrontar Flávio e, simultaneamente, defender seu histórico de governo; Flávio tenta preservar o eleitor bolsonarista enquanto amplia o discurso para mulheres e questões econômicas; Caiado procura consolidar segurança e oposição ao PT como marcas próprias; e Cury tenta transformar o reduzido espaço de 35 segundos em uma mensagem de rejeição à polarização. A próxima rodada mostrará se as campanhas manterão esses eixos ou utilizarão o rodízio para introduzir novos temas na disputa.
Fontes:
Tribunal Superior Eleitoral — Resolução nº 23.776, de 25 de agosto de 2026
Tribunal Superior Eleitoral — Propaganda Eleitoral Gratuita – Eleições 2026
Tribunal Superior Eleitoral — Horário eleitoral: acesse o plano de mídia para Presidência da República — 27 de agosto de 2026
Partido dos Trabalhadores — “O pior dos Bolsonaros”: PT expõe mentira de Flávio Bolsonaro no horário eleitoral — 28 de agosto de 2026
Campanha Flávio Bolsonaro Presidente 22 — Conteúdos oficiais de campanha — agosto de 2026
Partido Social Democrático — Informações oficiais da candidatura de Ronaldo Caiado








