Tesouro Direto Encerrou 2025 com Estoque Histórico de R$ 213,2 Bilhões e Crescimento de 35,9%
O mercado de renda fixa brasileiro consolidou sua trajetória de expansão robusta ao final do último exercício fiscal, impulsionado pela busca dos investidores por segurança e rentabilidade real. O Programa Tesouro Direto, plataforma de negociação de títulos públicos federais para pessoas físicas, encerrou o ano de 2025 com um estoque recorde de R$ 213,2 bilhões. Este montante representa não apenas um marco financeiro, mas um indicativo comportamental da sociedade brasileira em relação à educação financeira e à gestão de patrimônio.
Os dados, divulgados nesta terça-feira (27) pela Secretaria do Tesouro Nacional, revelam um crescimento expressivo de 35,9% na comparação com dezembro de 2024. A evolução do Tesouro Direto reflete a consolidação da plataforma como a principal porta de entrada para novos investidores no mercado de capitais, oferecendo liquidez, segurança soberana e diversificação de indexadores.
Neste artigo analítico, dissecaremos os números apresentados pelo Tesouro Nacional, a composição da carteira dos brasileiros, o perfil dos vencimentos e o que esses dados sinalizam para o cenário econômico nacional.
A Evolução Exponencial do Estoque do Tesouro Direto
O salto para R$ 213,2 bilhões no estoque do Tesouro Direto não foi um evento isolado, mas o ápice de um ano de captação líquida consistente. Apenas na variação mensal, entre novembro e dezembro de 2025, o estoque avançou 3,8%. Esse crescimento acima da inflação demonstra que o brasileiro está aportando “dinheiro novo” na plataforma, e não apenas contando com a correção de juros dos papéis já custodiados.
O Tesouro Direto se beneficiou de um cenário onde a taxa básica de juros e a volatilidade dos ativos de risco (como a Bolsa de Valores) levaram o investidor a buscar o “porto seguro” da dívida pública. A atratividade das taxas oferecidas pelos títulos públicos continuou a drenar recursos da poupança e de outros instrumentos bancários menos eficientes, canalizando-os para o financiamento da dívida federal de forma direta.
Esse volume de R$ 213,2 bilhões confere ao Tesouro Direto uma relevância sistêmica na gestão da Dívida Pública Federal (DPF). Embora os grandes investidores institucionais ainda detenham a maior fatia da dívida, a participação do varejo via Tesouro Direto cresce em importância qualitativa, pois tende a ser um passivo de carregamento mais longo e estável para o governo.
Composição da Carteira: A Preferência pela Proteção Inflacionária
Ao analisarmos a distribuição dos ativos dentro do Tesouro Direto, fica evidente a preocupação do investidor brasileiro com a preservação do poder de compra. Os títulos atrelados a índices de preços (conhecidos como Tesouro IPCA+) continuam sendo a âncora do portfólio nacional.
Em dezembro de 2025, esses papéis somavam R$ 107 bilhões, representando a maioria absoluta do estoque, com 50,2% do total. A preferência histórica pelo Tesouro Direto indexado à inflação reflete a memória econômica do país. O investidor entende que, para o longo prazo, garantir uma taxa de juros real (acima do IPCA) é a estratégia mais prudente para aposentadoria e acumulação de patrimônio.
Em segundo lugar na preferência, aparecem os títulos indexados à taxa Selic (Tesouro Selic), totalizando R$ 79,3 bilhões, ou 37,2% do estoque. O Tesouro Selic funciona, para muitos, como a reserva de emergência ou caixa de oportunidade, devido à sua baixa volatilidade e liquidez diária. A robustez dessa fatia no Tesouro Direto indica que o brasileiro segue utilizando a plataforma como substituto imediato da caderneta de poupança.
Por fim, os títulos prefixados somaram R$ 26,9 bilhões, respondendo por 12,6% do total. Esta categoria, que exige maior apetite ao risco devido à marcação a mercado, atrai investidores que buscam travar taxas nominais altas, apostando em um cenário futuro de queda de juros ou controle inflacionário.
O Perfil de Vencimento: Confiança no Longo Prazo
Um dado qualitativo de extrema relevância no relatório do Tesouro Direto é o perfil de vencimento da dívida nas mãos das pessoas físicas. Contrariando a tese de que o investidor de varejo é imediatista, os números mostram uma carteira alongada.
A parcela do estoque com vencimento acima de 5 anos soma R$ 97,5 bilhões, correspondendo a 45,7% do total. Isso significa que quase metade do dinheiro investido no Tesouro Direto está “travado” em projetos de longo prazo. Esse alongamento é benéfico tanto para o investidor, que usufrui das taxas mais altas da curva longa, quanto para o Tesouro Nacional, que melhora o perfil de refinanciamento da dívida pública.
A parcela do estoque vencendo entre 1 e 5 anos é de R$ 91,9 bilhões (43,1%), enquanto a parcela de curtíssimo prazo, com vencimento em até 1 ano, representa apenas R$ 23,8 bilhões (11,2%) no fim de dezembro. A estrutura a termo do Tesouro Direto revela, portanto, um amadurecimento do poupador, que utiliza os títulos públicos como instrumento de planejamento previdenciário e sucessório.
A Democratização do Investimento e a Base de Usuários
O ano de 2025 foi marcado por uma forte expansão na base de participantes do Tesouro Direto. O número de investidores cadastrados no programa atingiu a impressionante marca de 34.256.941 pessoas. Isso representa um crescimento de 10,35% em relação a dezembro de 2024.
Durante o ano de 2025, mais de 3,2 milhões de novos investidores realizaram seu cadastro no Tesouro Direto. Contudo, é importante fazer a distinção entre investidores cadastrados e investidores ativos (com saldo). O total de investidores que efetivamente possuem dinheiro aplicado atingiu a marca de 3,4 milhões de pessoas em dezembro de 2025.
Houve um aumento de 127.019 investidores com saldo apenas no mês de dezembro, e um crescimento de 14% no acumulado do ano. Essa discrepância entre cadastrados e ativos mostra que ainda há um vasto potencial de crescimento orgânico para o Tesouro Direto. Milhões de brasileiros já possuem a conta habilitada (muitas vezes automaticamente por bancos e corretoras), mas ainda precisam dar o primeiro passo para realizar o aporte inicial.
Dezembro de 2025: Um Mês de Recordes Operacionais
O mês de dezembro costuma ser sazonalmente forte para o mercado financeiro devido à injeção do 13º salário e à reorganização de carteiras para o ano seguinte. No caso do Tesouro Direto, dezembro de 2025 foi histórico.
O programa realizou 1.196.655 operações de investimento em um único mês. Este foi o segundo maior volume de operações da série histórica. Em termos financeiros, isso se traduziu em R$ 9,48 bilhões investidos, também o segundo maior valor já registrado na história do Tesouro Direto.
Mais impressionante ainda foi o dado de emissão líquida (aportes menos resgates). No mês, os resgates somaram R$ 3,53 bilhões, resultando em uma emissão líquida positiva de R$ 5,95 bilhões. Este foi o maior valor de entrada líquida de recursos da série histórica do Tesouro Direto. Esse dado confirma que, no fechamento do ano, a preferência do brasileiro recaiu massivamente sobre os títulos públicos, superando outras opções de investimento disponíveis no mercado.
O Pequeno Investidor como Protagonista
A análise do ticket médio das operações reforça o caráter democrático do Tesouro Direto. As aplicações de valor até R$ 1.000,00 representaram 56,6% de todas as operações de investimento realizadas no mês de dezembro.
Isso demonstra que a plataforma não é exclusiva para grandes fortunas. Pelo contrário, a maioria das transações é feita por pequenos poupadores que utilizam o Tesouro Direto para construir patrimônio mês a mês. O valor médio por operação ficou em R$ 7.918,47, um número que é puxado para cima por aportes maiores, mas que convive com a realidade da maioria das operações sendo de baixo valor.
A facilidade de acesso via aplicativos de bancos e corretoras, somada à possibilidade de investir com valores a partir de aproximadamente R$ 30,00, consolidou o Tesouro Direto como o principal instrumento de inclusão financeira no mercado de capitais brasileiro.
Análise do Cenário Econômico e o Tesouro Direto
O desempenho do Tesouro Direto em 2025 não pode ser dissociado do contexto macroeconômico. a manutenção de juros em patamares que garantem rentabilidade real e a volatilidade de ativos de renda variável contribuíram para esse fluxo.
Quando o investidor observa o estoque de R$ 213,2 bilhões, ele está vendo o reflexo da credibilidade do Tesouro Nacional. A dívida pública federal, negociada via Tesouro Direto, é considerada o ativo de menor risco de crédito da economia (risco soberano). Em tempos de incerteza global ou doméstica, a fuga para a qualidade (flight to quality) beneficia diretamente a captação através desses títulos.
Além disso, a diversidade de produtos oferecidos pelo Tesouro Direto — como o Tesouro Educa+ e o Tesouro RendA+ — ajudou a atrair perfis específicos de investidores focados em objetivos de vida, como a educação dos filhos e a aposentadoria complementar, respectivamente.
Perspectivas para 2026
Com o estoque consolidado acima de R$ 200 bilhões, o Tesouro Direto entra em 2026 com o desafio e a oportunidade de continuar sua expansão. A expectativa é que a volatilidade natural de anos eleitorais e os ajustes fiscais continuem tornando os títulos públicos atraentes.
A curva de juros futuros continuará ditando a precificação dos títulos prefixados e indexados à inflação no Tesouro Direto. Se o cenário de controle inflacionário se mantiver, os títulos IPCA+ continuarão sendo a principal escolha para proteção de capital. Por outro lado, o Tesouro Selic deve manter sua posição como a reserva de liquidez preferencial dos brasileiros, competindo com a poupança e os CDBs bancários.
A digitalização e a integração das plataformas de investimento devem facilitar ainda mais o acesso ao Tesouro Direto, reduzindo a barreira de entrada para os milhões de cadastrados que ainda não realizaram o primeiro aporte. A educação financeira continuará sendo o motor principal para converter esses cadastros em investidores ativos.
Conclusão
O balanço de 2025 do Tesouro Direto é uma prova de maturidade do mercado financeiro nacional. Um crescimento de estoque de quase 36% em um ano é um feito notável. Ele sinaliza que o brasileiro está aprendendo a emprestar dinheiro para o governo em troca de taxas justas, fugindo de produtos bancários com taxas de administração abusivas ou rentabilidade inferior à inflação.
O Tesouro Direto se firmou como um pilar da poupança nacional. Com R$ 213,2 bilhões sob custódia, o programa não é apenas uma fonte de financiamento para o Estado, mas uma ferramenta de cidadania financeira. À medida que mais brasileiros descobrem as vantagens do Tesouro Direto, a tendência é que esse estoque continue a quebrar recordes, fortalecendo a cultura de investimento no país.
Para o investidor, os dados de dezembro trazem uma mensagem clara: a renda fixa soberana continua sendo uma parte indispensável de qualquer carteira equilibrada. Seja para proteção contra a inflação, para liquidez imediata ou para multiplicação de capital via juros compostos, o Tesouro Direto oferece soluções para todos os perfis. O recorde de emissão líquida no último mês do ano sugere que a confiança na plataforma está em seu ponto mais alto, preparando o terreno para um 2026 ainda mais robusto para os títulos públicos.






