As taxas dos títulos intermediários e longos do Tesouro Direto voltaram a subir na abertura desta quarta-feira, 7 de outubro, interrompendo dois pregões consecutivos de forte fechamento da curva de juros após o primeiro turno das eleições presidenciais. O Tesouro Prefixado com Juros Semestrais 2037 avançou de 12,81% para 12,90% ao ano, enquanto o Prefixado 2032 passou de 12,76% para 12,82%.
O movimento representa uma correção parcial da queda observada desde segunda-feira, mas está longe de devolver todo o rali dos títulos públicos. Na sexta-feira, 2 de outubro, o Prefixado 2032 oferecia 14,21% ao ano. Mesmo depois da alta desta quarta, sua taxa permanece 1,39 ponto percentual — ou 139 pontos-base — abaixo daquele nível.
A dimensão da diferença ajuda a entender o que ocorreu no mercado desde o primeiro turno. Para quem comprou títulos prefixados de prazo mais longo antes da queda dos juros, o fechamento abrupto das taxas provocou valorização dos papéis pela marcação a mercado. Já para quem pretende investir agora e carregar o título até o vencimento, a remuneração contratada caiu significativamente em relação à disponível antes da eleição.
Nos vencimentos curtos, o movimento desta quarta-feira foi mais contido. O Tesouro Prefixado 2029 passou de 12,56% para 12,55% ao ano, enquanto o Tesouro IPCA+ 2032 recuou de IPCA mais 6,98% para IPCA mais 6,95%.
A abertura mostra, portanto, uma curva dividida: os papéis longos devolveram parte dos ganhos recentes, enquanto títulos mais curtos permaneceram praticamente estáveis ou apresentaram pequena queda nas taxas.
Prefixado 2037 volta ao nível de segunda-feira
A maior alta entre os prefixados ocorreu no Tesouro Prefixado com Juros Semestrais 2037, cuja taxa passou de 12,81% no fechamento de terça-feira para 12,90% na abertura desta quarta.
Com isso, o papel voltou aproximadamente ao nível observado no fechamento de segunda-feira, depois de ter apresentado nova queda na sessão seguinte.
O Prefixado 2032 também devolveu a redução registrada na terça. A taxa de 12,82% desta quarta ficou um ponto-base acima do fechamento de segunda-feira.
A comparação com sexta-feira, porém, mostra que a magnitude do movimento pós-eleitoral continua expressiva. O título saiu de 14,21% para 12,82%, redução de aproximadamente 9,8% na taxa nominal oferecida ao investidor em apenas três pregões.
Essa diferença tem impacto relevante no preço do título. Em renda fixa prefixada, taxa e preço caminham em sentidos opostos: quando a taxa exigida pelo mercado cai, o preço do papel existente sobe; quando a taxa aumenta, o preço recua.
Por isso, investidores que acompanham o valor dos títulos antes do vencimento podem observar oscilações importantes mesmo em aplicações classificadas como renda fixa.
Taxas do Tesouro Direto nesta quarta-feira
Na abertura desta quarta, as taxas disponíveis eram as seguintes:
| Título | Rendimento anual | Vencimento |
|---|---|---|
| Tesouro Reserva 2036 | Selic | 01/01/2036 |
| Tesouro Selic 2031 | Selic + 0,0867% | 01/03/2031 |
| Tesouro Prefixado 2029 | 12,55% | 01/01/2029 |
| Tesouro Prefixado 2032 | 12,82% | 01/01/2032 |
| Tesouro Prefixado com Juros Semestrais 2037 | 12,90% | 01/01/2037 |
| Tesouro IPCA+ 2032 | IPCA + 6,95% | 15/08/2032 |
| Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2037 | IPCA + 6,95% | 15/05/2037 |
| Tesouro IPCA+ 2040 | IPCA + 6,69% | 15/08/2040 |
| Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2045 | IPCA + 6,71% | 15/05/2045 |
| Tesouro IPCA+ 2050 | IPCA + 6,62% | 15/08/2050 |
| Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2060 | IPCA + 6,62% | 15/08/2060 |
As taxas são referências da abertura e podem mudar ao longo do dia de acordo com as negociações dos títulos públicos e dos contratos de juros no mercado.
IPCA+ longos também voltam a pagar mais
O movimento de alta apareceu ainda nos títulos indexados à inflação de prazo mais longo.
O Tesouro IPCA+ 2050 passou de IPCA mais 6,55% para IPCA mais 6,62% ao ano, aumento de sete pontos-base. O IPCA+ 2040 subiu de IPCA mais 6,66% para IPCA mais 6,69%.
Já o IPCA+ 2032 seguiu na direção contrária e teve redução de três pontos-base, de IPCA mais 6,98% para IPCA mais 6,95%.
A diferença entre os vencimentos mostra que o ajuste está concentrado principalmente na parte intermediária e longa da curva, mais sensível às expectativas fiscais, à trajetória futura da inflação e ao nível de juros esperado para os próximos anos.
Taxas reais acima de 6% continuam elevadas em termos históricos. No caso do IPCA+ 2050, por exemplo, o investidor que mantiver o título até o vencimento contrata uma remuneração equivalente à inflação acumulada no período acrescida de uma taxa real de 6,62% ao ano, antes do Imposto de Renda e das demais condições aplicáveis.
Esse retorno contratado até o vencimento não impede que o preço do título apresente fortes variações no caminho.
Quanto maior o prazo, maior tende a ser a sensibilidade do preço às mudanças nas taxas de mercado.
Primeiro turno provocou movimento excepcional nos juros
A alta desta quarta acontece depois de uma movimentação incomum nos dois primeiros pregões após a eleição.
Na segunda-feira, as taxas dos títulos públicos despencaram diante da reprecificação dos ativos brasileiros após Flávio Bolsonaro terminar o primeiro turno da eleição presidencial à frente de Luiz Inácio Lula da Silva.
O mercado passou a incorporar uma percepção diferente para o risco fiscal e para a trajetória futura da política econômica. Como consequência, dólar, Bolsa e principalmente a curva de juros apresentaram movimentos de grande magnitude.
O Prefixado 2032 estava em 14,21% ao ano no fechamento de sexta-feira e chegou à terça-feira em 12,76%. A queda acumulada foi de 145 pontos-base.
Com a taxa em 12,82% nesta quarta, apenas seis pontos-base dessa redução foram devolvidos.
Em outras palavras, aproximadamente 96% do fechamento acumulado desde sexta-feira ainda permanecia preservado na abertura desta sessão.
O cálculo ajuda a colocar a alta desta quarta em perspectiva: embora as taxas tenham voltado a subir, o mercado ainda negocia muito abaixo dos níveis anteriores ao primeiro turno.
JPMorgan vê espaço para continuidade do movimento
O JPMorgan elevou de neutra para overweight sua recomendação para os juros locais brasileiros depois da reação dos mercados ao resultado eleitoral.
A avaliação do banco é de que a velocidade do fechamento das taxas superou suas expectativas iniciais, mas o movimento ainda pode encontrar espaço para continuar.
A instituição, entretanto, não espera uma queda linear nem um ciclo acelerado de cortes de juros pelo Banco Central.
Esse ponto é fundamental porque uma parcela relevante da valorização recente dos títulos depende da expectativa de que a inflação permaneça controlada e de que haja condições para redução da taxa básica no futuro.
Quanto maior a percepção de risco fiscal ou inflacionário, maior tende a ser a taxa exigida pelos investidores para financiar a dívida pública brasileira. No sentido contrário, melhora das expectativas pode provocar nova redução dos juros de mercado e valorização dos títulos prefixados e IPCA+ já adquiridos.
A disputa presidencial continuará sendo uma fonte importante de volatilidade até o segundo turno, marcado para 25 de outubro.
IGP-DI acelera para 1,50%
A inflação também voltou ao radar do mercado nesta quarta-feira.
O Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna, o IGP-DI, avançou 1,50% em setembro, depois de subir apenas 0,06% em agosto.
A aceleração foi puxada principalmente pelos preços ao produtor e ao consumidor, com pressão de commodities agrícolas, combustíveis, energia e alimentos.
O dado ganha relevância para o mercado de juros porque uma inflação mais resistente pode limitar a velocidade de eventual flexibilização monetária pelo Banco Central.
O impacto do IGP-DI sobre a política monetária, entretanto, não deve ser analisado isoladamente. O Banco Central utiliza um conjunto mais amplo de indicadores, com destaque para o IPCA, expectativas de inflação, atividade econômica, câmbio, mercado de trabalho e cenário fiscal.
Ainda assim, uma aceleração dos índices de preços adiciona um elemento de cautela justamente no momento em que os investidores passaram a apostar em taxas menores no futuro.
Petróleo volta a superar US$ 100
O ambiente externo também oferece resistência à continuidade da queda dos juros.
O petróleo Brent voltou a subir nesta quarta-feira e operava acima dos US$ 100 por barril, em meio às tensões no Oriente Médio e a novos ataques atribuídos aos houthis.
Petróleo mais caro representa um risco inflacionário global porque afeta combustíveis, transporte, produção industrial e cadeias de logística.
Nos Estados Unidos, o mercado aguarda a divulgação da ata da reunião de setembro do Federal Reserve. O documento será analisado em busca de sinais sobre a avaliação dos dirigentes em relação à inflação e sobre o caminho das taxas de juros americanas.
Juros elevados nos Estados Unidos aumentam a atratividade dos títulos do Tesouro americano e podem pressionar ativos de países emergentes, incluindo o Brasil.
Esse conjunto de fatores ajuda a explicar por que, depois de dois dias de forte fechamento, os juros brasileiros passaram a apresentar uma correção.
Dólar volta à região de R$ 5
O câmbio também mudou de direção nesta quarta-feira.
Depois de fechar terça-feira a R$ 4,975, com queda de aproximadamente 0,5%, o dólar voltou à região de R$ 5 na abertura desta sessão.
Na terça, o Ibovespa havia recuado 0,52%, aos 205.835,29 pontos, após disparar 7,70% na segunda-feira.
A combinação reforça a leitura de que o mercado entrou em uma fase de acomodação após a reação extraordinária ao primeiro turno.
Isso não significa que a precificação anterior esteja sendo anulada. Tanto no câmbio quanto nos juros, parte relevante do movimento registrado na segunda-feira permanece.
No Tesouro Direto, o exemplo mais evidente é o Prefixado 2032. A taxa desta quarta, de 12,82%, está ligeiramente acima dos níveis de terça, mas continua muito distante dos 14,21% disponíveis antes do primeiro turno.
Para quem avalia entrar agora, a diferença é significativa.
Um investidor que contratou 14,21% ao ano na sexta-feira garantiu uma taxa nominal aproximadamente 1,39 ponto percentual superior à oferecida na abertura desta quarta, caso ambos mantenham o papel até o vencimento e sejam comparadas apenas as taxas contratadas.
Para quem já possuía o título e pretende vendê-lo antes do vencimento, porém, a forte queda das taxas dos últimos dias produziu valorização pela marcação a mercado.
A sessão desta quarta começa, portanto, com uma correção dos excessos do rali pós-eleitoral, mas não com uma reversão completa. Enquanto o Prefixado 2032 permanecer perto de 12,8% e não retornar à região acima de 14% observada antes da eleição, a maior parte da reprecificação realizada desde segunda-feira continuará incorporada aos títulos públicos brasileiros.
Fontes
Tesouro Direto — taxas e preços dos títulos públicos
Tesouro Nacional — histórico de preços e taxas
FGV IBRE — IGP-DI de setembro de 2026
JPMorgan — estratégia para juros locais brasileiros
Banco Central do Brasil — política monetária e mercado de juros
B3 — contratos futuros de juros
Federal Reserve — política monetária dos Estados Unidos








