A candidata a deputada federal Val Marchiori afirmou estar sendo boicotada dentro de seu próprio grupo político e acusou dirigentes de priorizarem candidaturas masculinas na reta final das eleições de 2026. Em vídeo divulgado a dois dias do primeiro turno, a empresária diz sentir “na pele” um tratamento desigual por ser mulher e sustenta que candidatas femininas seriam procuradas apenas para cumprir as exigências de participação de gênero nas eleições.
Marchiori disputa uma cadeira na Câmara dos Deputados pelo Republicanos em São Paulo, com o número 1077. Seu registro está deferido pela Justiça Eleitoral. Dados atualizados da candidatura mostram R$ 820 mil em receitas declaradas até esta sexta-feira, 2 de outubro, integralmente provenientes da direção nacional do partido.
“Eu tô sendo boicotada pelo meu próprio grupo político”, afirma Marchiori no início da gravação. Em seguida, associa o tratamento recebido ao fato de ser mulher e declara que os homens estariam recebendo prioridade dentro da estrutura política à qual pertence.
A candidata não apresenta no vídeo documentos que demonstrem o suposto boicote nem identifica nominalmente os dirigentes responsáveis. Também não especifica quais candidatos masculinos teriam sido favorecidos em razão do gênero.
Por isso, a gravação comprova a existência da acusação feita por Marchiori, mas não permite concluir, isoladamente, que decisões de financiamento ou apoio partidário tenham sido determinadas pelo fato de ela ser mulher.
Dados mostram diferenças relevantes no financiamento
A prestação de contas eleitoral oferece uma forma objetiva de comparar os recursos destinados às campanhas do Republicanos para deputado federal em São Paulo.
Marchiori declarou R$ 820 mil em receitas. O valor corresponde a aproximadamente 25,8% do teto de R$ 3,176 milhões permitido para a candidatura ao cargo no estado. Os recursos informados por ela foram repassados pela direção nacional do Republicanos.
Alguns dos principais candidatos da legenda receberam valores significativamente maiores.
Marcos Pereira declarou R$ 2,805 milhões em receitas, dos quais R$ 2,8 milhões vieram da direção nacional do Republicanos. O montante corresponde a cerca de 3,4 vezes o registrado por Marchiori.
Celso Russomanno aparece com R$ 1,885 milhão, integralmente proveniente das estruturas nacional e estadual do partido. O valor é aproximadamente 2,3 vezes o recebido por Marchiori.
Milton Vieira declarou R$ 1,48 milhão em receitas. Desse total, R$ 1,47 milhão vieram das direções nacional e estadual do Republicanos, enquanto R$ 10 mil correspondem a recursos próprios.
Os dados confirmam, portanto, que Marchiori recebeu menos recursos do que esses candidatos homens.
Mulher do próprio partido recebeu três vezes mais
A comparação com outras candidaturas femininas, entretanto, impede concluir que a diferença observada decorra necessariamente do gênero.
Maria Rosas, deputada federal e candidata à reeleição pelo Republicanos em São Paulo, aparece com R$ 2,513 milhões em receitas de campanha. Aproximadamente R$ 2,48 milhões foram transferidos pelas direções nacional e estadual da legenda.
O total recebido por Maria Rosas equivale a pouco mais de três vezes os R$ 820 mil registrados por Marchiori.
Esse dado não invalida a acusação feita pela candidata, porque uma eventual discriminação poderia ocorrer de maneira individual ou envolver critérios específicos da estrutura partidária. Mas impede afirmar, apenas pela distribuição dos recursos, que o Republicanos esteja favorecendo sistematicamente homens em relação a mulheres.
Os quatro nomes utilizados na comparação — Marcos Pereira, Celso Russomanno, Milton Vieira e Maria Rosas — possuem histórico eleitoral anterior e, em diferentes momentos, exerceram mandato ou já disputaram eleições.
Marchiori, por outro lado, não apresenta candidatura anterior na base eleitoral consultada para esse mesmo histórico.
Experiência eleitoral, mandato, expectativa de votos, estrutura regional e estratégia partidária podem integrar os critérios utilizados pelas legendas para distribuir recursos. Sem conhecer os critérios internos adotados pelo Republicanos, não é possível determinar qual fator explica a diferença.
Valor recebido por Marchiori está acima de muitos correligionários
Outro ponto ajuda a colocar a acusação em perspectiva.
Embora Marchiori tenha recebido menos do que algumas das principais candidaturas da legenda, os R$ 820 mil destinados à sua campanha também superam os valores recebidos por vários outros candidatos do Republicanos a deputado federal em São Paulo.
Há candidaturas registradas pela legenda com repasses de R$ 20 mil, R$ 25 mil, R$ 35 mil, R$ 60 mil, R$ 100 mil, R$ 160 mil, R$ 170 mil e outros valores inferiores ao montante destinado a Marchiori.
Portanto, o financiamento da empresária não está entre os menores da chapa.
A questão relevante levantada por ela é outra: se, diante de sua exposição pública e de sua candidatura, teria recebido menos apoio político e financeiro do que esperava e se essa diferença teria relação com o fato de ser mulher.
Os dados de prestação de contas conseguem medir a diferença de recursos, mas não a motivação política por trás dela.
Marchiori diz que mulheres são usadas para “cumprir cota”
No vídeo, Marchiori afirma que mulheres seriam procuradas apenas para permitir que partidos cumpram as exigências de gênero impostas pela legislação eleitoral.
A legislação brasileira estabelece que, nas eleições proporcionais, partidos e federações devem preencher no mínimo 30% e no máximo 70% das candidaturas com pessoas de cada gênero. A regra está prevista na Lei das Eleições e é aplicada aos registros para deputado federal, deputado estadual e deputado distrital.
O objetivo é impedir que as chapas sejam compostas quase exclusivamente por candidatos de um único gênero.
O descumprimento da proporção pode produzir consequências sobre o registro da chapa e também existe jurisprudência específica para situações em que candidaturas femininas são lançadas apenas formalmente para simular o cumprimento da cota.
Marchiori usa justamente essa lógica ao afirmar que mulheres seriam tratadas internamente apenas como instrumento para atingir o percentual exigido.
A declaração, porém, representa a avaliação da própria candidata e não uma constatação da Justiça Eleitoral sobre a chapa do Republicanos.
Regra também alcança recursos públicos
As regras de participação feminina não se limitam ao número de candidaturas.
O Fundo Especial de Financiamento de Campanha e o Fundo Partidário também precisam observar percentuais mínimos destinados às campanhas de mulheres.
Para as eleições de 2026, o TSE fixou que a proporção dos recursos destinados às candidaturas femininas deve acompanhar a participação de mulheres nas candidaturas apresentadas por cada partido em âmbito nacional, respeitado o piso mínimo de 30%.
Esse ponto merece uma distinção importante.
O TSE calculou que, no conjunto nacional utilizado para definir as cotas de financiamento, havia 20.560 candidaturas: 7.165 de mulheres, equivalentes a 34,85%, e 13.395 de homens, ou 65,15%.
Os 34,85%, entretanto, correspondem ao conjunto de todos os partidos.
Não significa que cada legenda seja obrigada a aplicar exatamente 34,85% dos recursos em candidaturas femininas. O percentual é apurado individualmente conforme a composição nacional de candidaturas de cada partido, sempre respeitado o mínimo legal.
Partido decide como distribuir recursos entre suas candidatas
Mesmo depois de definido o montante reservado às candidaturas femininas, a legislação não determina uma divisão igual entre todas as mulheres.
A Portaria nº 541 do TSE estabelece que os critérios de distribuição do Fundo Eleitoral e do Fundo Partidário são definidos pelos próprios órgãos de direção das legendas, conforme suas normas internas, desde que sejam respeitados os percentuais mínimos destinados a mulheres, pessoas negras e indígenas.
Isso significa que uma candidata pode receber significativamente mais recursos do que outra sem que essa diferença represente automaticamente violação das regras eleitorais.
É exatamente o que aparece dentro do Republicanos em São Paulo: Maria Rosas recebeu mais de R$ 2,5 milhões, enquanto Marchiori registra R$ 820 mil e outras candidatas aparecem com valores ainda menores.
Para demonstrar discriminação por gênero seria necessário avaliar os critérios utilizados pelo partido, o conjunto das candidaturas e as condições políticas de candidatos e candidatas comparáveis.
Republicanos destaca participação feminina
O Republicanos divulgou em agosto que tinha 426 mulheres em “efetiva disputa” nas eleições de 2026 e afirmou ocupar a terceira posição entre os partidos com maior número absoluto de candidaturas femininas.
Segundo a própria legenda, 203 dessas 426 candidatas eram mulheres pretas ou pardas.
A publicação institucional apresentava a participação feminina como parte relevante da estratégia eleitoral do partido.
Esse discurso público contrasta com a acusação de Marchiori, que afirma estar sendo tratada de maneira desigual dentro de seu próprio grupo político.
As duas informações, entretanto, tratam de aspectos diferentes. O número de mulheres registradas mede presença formal nas chapas; a acusação de Marchiori se refere ao grau de apoio oferecido individualmente às candidatas.
Dados não permitem confirmar motivo do tratamento
Os números disponíveis deixam duas conclusões objetivas.
Marchiori efetivamente recebeu menos recursos do que alguns dos candidatos mais financiados do Republicanos a deputado federal por São Paulo.
Ao mesmo tempo, uma mulher da própria legenda, Maria Rosas, recebeu mais de três vezes o montante destinado à campanha de Marchiori.
Esses dados não confirmam nem descartam integralmente a acusação feita pela empresária. Eles demonstram diferenças na distribuição, mas não revelam os critérios ou a motivação adotada pelos dirigentes partidários.
Para verificar a denúncia seria necessário conhecer os parâmetros utilizados pelo Republicanos para definir os repasses, comparar candidaturas com condições eleitorais equivalentes e obter a versão da direção partidária sobre as afirmações feitas pela candidata.
Até o fechamento desta apuração, não havia sido localizada manifestação pública específica do Republicanos respondendo ao vídeo de Marchiori.
A poucos dias da votação, a declaração coloca em debate uma questão que ultrapassa a candidatura individual: a diferença entre cumprir formalmente as cotas de gênero e garantir às mulheres condições efetivas de disputar votos dentro das estruturas partidárias.
Veja o vídeo:
Fontes
Vídeo de Val Marchiori analisado pela Gazeta Mercantil.
Tribunal Superior Eleitoral — cadastro de candidatura e prestação de contas das Eleições 2026.
Tribunal Superior Eleitoral — Lei das Eleições e normas sobre cota de gênero.
Tribunal Superior Eleitoral — Portaria nº 541/2026 e regras de distribuição do Fundo Especial de Financiamento de Campanha e Fundo Partidário.
Republicanos — levantamento institucional sobre candidaturas femininas nas Eleições 2026.






