As vendas de etanol no mercado interno brasileiro atingiram um recorde histórico em agosto de 2026, impulsionadas pelo crescimento do consumo do biocombustÃvel e pela expansão da produção no Centro-Sul do paÃs. Segundo levantamento divulgado nesta sexta-feira (23) pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA), as usinas da região comercializaram 3,15 bilhões de litros no mercado doméstico, o maior volume mensal já registrado pela entidade. Considerando também as exportações, as vendas totalizaram 3,36 bilhões de litros, ante aproximadamente 2,95 bilhões de litros no mesmo mês da safra anterior. O resultado representa crescimento próximo de 13,9% na comparação anual.
O desempenho foi sustentado principalmente pelo etanol hidratado, utilizado diretamente como combustÃvel em veÃculos flex. As vendas domésticas dessa modalidade alcançaram 1,96 bilhão de litros, crescimento de 15,42% em relação a agosto de 2025. O etanol anidro, destinado à mistura obrigatória com a gasolina, registrou comercialização interna de 1,19 bilhão de litros, avanço de 6,78%. Os números indicam expansão simultânea da demanda por ambas as modalidades, com maior intensidade no combustÃvel vendido diretamente aos motoristas.
No acumulado da safra 2026/2027, iniciada em abril, a comercialização de etanol no Centro-Sul chegou a 15,38 bilhões de litros até o encerramento de agosto. O volume representa aumento de 6,34% em relação ao mesmo perÃodo do ciclo anterior. Desse total, 9,49 bilhões de litros corresponderam ao etanol hidratado, enquanto 5,88 bilhões foram de anidro. A evolução reforça a importância do biocombustÃvel no abastecimento nacional e na atividade econômica do setor sucroenergético.
Etanol hidratado impulsiona recorde de vendas
O crescimento de 15,42% nas vendas internas de etanol hidratado foi um dos principais destaques do levantamento. Com 1,96 bilhão de litros comercializados em agosto, o produto respondeu por aproximadamente 62% das vendas domésticas de etanol realizadas pelas unidades do Centro-Sul. O desempenho evidencia o aumento da movimentação do combustÃvel utilizado diretamente em veÃculos flex, que representam parcela expressiva da frota brasileira. A expansão ocorre em um mercado no qual a competitividade do etanol depende principalmente da relação de preços com a gasolina.
A escolha entre os combustÃveis envolve fatores como preço por litro, consumo energético e caracterÃsticas do veÃculo. Como o etanol possui menor densidade energética que a gasolina, o motorista precisa considerar a autonomia obtida com cada produto. Tradicionalmente, utiliza-se a relação de aproximadamente 70% do preço da gasolina como referência inicial de comparação, embora o ponto de equilÃbrio varie conforme o automóvel. O aumento das vendas nas usinas não permite concluir, isoladamente, que o etanol ficou mais barato para o consumidor final.
A dinâmica de comercialização também depende dos estoques mantidos por distribuidores, da logÃstica e das condições regionais de abastecimento. O Centro-Sul concentra parte significativa da capacidade industrial sucroenergética brasileira, abastecendo mercados de diferentes estados. Alterações na disponibilidade do produto podem influenciar os custos de distribuição e a formação de preços nos postos. O recorde anunciado pela UNICA, entretanto, refere-se à s vendas realizadas pelas unidades produtoras, não ao volume diretamente adquirido pelos consumidores nos estabelecimentos varejistas.
Mistura de etanol na gasolina chega a 32% em 2026
O avanço do etanol anidro ocorre em um perÃodo de mudança regulatória no mercado brasileiro de combustÃveis. Desde 1º de agosto de 2026, a mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina comum e comum aditivada passou temporariamente de 30% para 32%. A medida foi estabelecida pela Resolução nº 9/2026 do Conselho Nacional de PolÃtica Energética (CNPE), com vigência inicial de 180 dias e possibilidade de uma prorrogação pelo mesmo perÃodo. Para a gasolina premium, a proporção permaneceu em 25%.
A elevação da mistura aumenta a participação do biocombustÃvel na composição da gasolina comercializada ao consumidor. Em termos operacionais, distribuidoras precisam adquirir etanol anidro em quantidade compatÃvel com as exigências regulatórias e com o volume de gasolina que pretendem comercializar. Essa mudança pode contribuir para ampliar a demanda estrutural pelo produto. Entretanto, o levantamento de agosto não quantifica quanto do crescimento das vendas decorreu especificamente da adoção da mistura E32.
Segundo o Ministério de Minas e Energia, a elevação temporária da mistura integra a estratégia de diversificação da matriz energética e de redução da dependência de gasolina de origem fóssil. A medida também busca aproveitar a capacidade brasileira de produção de biocombustÃveis. Seus efeitos sobre preços, importações e abastecimento dependerão das condições de oferta e demanda ao longo de sua vigência. O aumento do consumo de anidro torna ainda mais relevante o acompanhamento da produção e dos estoques disponÃveis para as distribuidoras.
Exportações de etanol crescem 57,4% em agosto
O mercado externo também apresentou expansão expressiva. As exportações de etanol realizadas pelas unidades produtoras do Centro-Sul totalizaram 214,46 milhões de litros em agosto, crescimento de 57,4% em relação aos 136,25 milhões de litros registrados no mesmo mês de 2025. Na comparação com julho de 2026, quando foram embarcados 118,40 milhões de litros, o avanço chegou a 81,13%. O resultado indica uma aceleração das vendas internacionais durante o perÃodo analisado.
A expansão das exportações amplia as possibilidades comerciais das usinas e pode contribuir para a geração de receitas em moeda estrangeira. Entretanto, o volume embarcado precisa ser analisado em conjunto com os preços internacionais, o câmbio e os custos logÃsticos para determinar seus efeitos sobre a rentabilidade. Um crescimento expressivo em litros não significa necessariamente aumento proporcional do faturamento. A UNICA não apresentou, nesse levantamento, o valor financeiro correspondente à s exportações de agosto.
A participação do mercado externo permaneceu menor que a das vendas domésticas. Dos 3,36 bilhões de litros comercializados no mês, aproximadamente 6,4% corresponderam às exportações, considerando os números arredondados divulgados pela entidade. A proporção demonstra a predominância do consumo interno na destinação do etanol produzido pelo Centro-Sul. Ao mesmo tempo, evidencia que o comércio internacional constitui uma alternativa de escoamento relevante para parte da produção brasileira.
Produção de etanol cresce 13,88% na safra 2026/2027
O crescimento das vendas foi acompanhado pela expansão da produção nas unidades industriais do Centro-Sul. Entre abril e agosto, a fabricação de etanol alcançou 21,09 bilhões de litros, aumento de 13,88% em relação ao mesmo intervalo da safra anterior. O volume acumulado inclui 13,35 bilhões de litros de etanol hidratado, avanço de 14,96%, e 7,75 bilhões de litros de anidro, crescimento de 12,06%. O desempenho indica maior direcionamento da atividade industrial à produção do biocombustÃvel.
Somente em agosto, as usinas produziram 4,90 bilhões de litros de etanol, alta de 6,24% na comparação anual. A fabricação de hidratado alcançou 3,08 bilhões de litros, crescimento de 11,83%, enquanto o anidro registrou 1,82 bilhão de litros, queda de 2,04%. Os dados mostram que as duas modalidades tiveram comportamentos diferentes no mês, apesar do crescimento conjunto no acumulado da safra. Essa distinção é importante para compreender a evolução da oferta de cada produto.
O volume produzido não deve ser confundido com a quantidade comercializada no mesmo perÃodo. A diferença pode refletir movimentações de estoques, condições contratuais, destinação da produção e outros componentes da operação industrial. Para determinar a evolução dos estoques, seria necessário considerar os saldos iniciais e finais, além de informações adicionais sobre entradas e saÃdas. O levantamento demonstra expansão simultânea da produção acumulada e das vendas, mas não permite concluir automaticamente que houve aumento ou redução dos estoques disponÃveis.
Etanol de milho amplia participação na produção brasileira
A fabricação de etanol a partir do milho continua ganhando espaço na matriz de biocombustÃveis do Centro-Sul. Em agosto, a produção dessa modalidade atingiu 812,69 milhões de litros, crescimento de 5,08% em relação aos 773,37 milhões registrados no mesmo mês do ciclo anterior. O volume representou 16,59% de todo o etanol fabricado na região durante o mês. A participação demonstra a importância crescente de uma matéria-prima que complementa a produção tradicional baseada na cana-de-açúcar.
No acumulado da safra 2026/2027 até agosto, a produção de etanol de milho chegou a 4,04 bilhões de litros, avanço de 8,47% na comparação anual. A expansão está relacionada ao desenvolvimento de unidades industriais especializadas e à utilização de milho como matéria-prima para a fabricação do combustÃvel. Diferentemente da cana-de-açúcar, o processamento do grão permite uma organização industrial menos dependente da disponibilidade imediata da matéria-prima recém-colhida. Essa caracterÃstica contribui para diversificar as alternativas de produção ao longo do ano.
O crescimento do segmento também cria oportunidades relacionadas ao aproveitamento de subprodutos industriais, como ingredientes utilizados na alimentação animal. A viabilidade econômica das operações depende dos preços do milho, dos custos energéticos e do mercado para esses produtos. Em regiões produtoras de grãos, a proximidade entre agricultura e indústria pode reduzir determinadas despesas logÃsticas. A expansão, contudo, permanece sujeita à s condições de oferta da matéria-prima e à capacidade de comercialização do etanol.
Moagem de cana aumenta, mas produção de açúcar recua
O levantamento da UNICA também mostra mudanças relevantes na atividade sucroenergética. Em agosto, as unidades do Centro-Sul processaram 100,59 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, ante 98,04 milhões no mesmo perÃodo da safra 2025/2026. No acumulado entre abril e agosto, a moagem chegou a 412,37 milhões de toneladas, aumento de 1,81%. O desempenho confirma uma expansão moderada no volume de matéria-prima processada.
Apesar da maior moagem, a produção de açúcar apresentou retração. Em agosto, foram fabricadas 7,09 milhões de toneladas do adoçante, queda de 5,61% em relação à s 7,51 milhões de toneladas registradas um ano antes. No acumulado da safra, a fabricação alcançou 24,08 milhões de toneladas, redução de 10,29%. Os números mostram uma evolução distinta entre açúcar e etanol durante o atual ciclo agrÃcola.
A diferença pode estar associada ao direcionamento industrial da matéria-prima e à s condições técnicas e comerciais enfrentadas pelas usinas. A produção de açúcar e etanol compete pelo aproveitamento dos açúcares presentes na cana, permitindo ajustes conforme a estrutura industrial e as perspectivas de mercado. Entretanto, o levantamento não atribui integralmente a retração do açúcar a uma decisão deliberada de priorizar o biocombustÃvel. Essa conclusão exigiria informações complementares sobre o mix de produção e os rendimentos industriais.
A qualidade da matéria-prima também merece atenção. Em agosto, o indicador de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR) ficou em 143,09 quilos por tonelada de cana, abaixo dos 147,18 quilos registrados no mesmo mês de 2025. A queda de 2,77% indica menor quantidade de açúcar potencialmente recuperável por tonelada processada. Esse fator pode influenciar os resultados industriais, mesmo quando a moagem aumenta.
Centro-Sul tinha 255 unidades produtoras em operação
Ao final de agosto, a região Centro-Sul contabilizava 255 unidades produtoras em atividade, segundo a UNICA. Desse total, 235 processavam cana-de-açúcar, 11 eram empresas dedicadas à fabricação de etanol a partir do milho e nove operavam como usinas flex. A distribuição revela a predominância da cadeia canavieira, embora a produção de milho tenha ampliado sua contribuição para o volume total de biocombustÃvel. A diversificação tecnológica é uma das caracterÃsticas da atual expansão do setor.
A capacidade industrial instalada possui importância estratégica para atender à demanda doméstica e à s oportunidades de exportação. Além do processamento agrÃcola, o abastecimento depende da disponibilidade de armazenamento, transporte e distribuição. O crescimento das vendas exige coordenação entre produtores e empresas responsáveis pela comercialização dos combustÃveis. Restrições em qualquer uma dessas etapas podem afetar custos e disponibilidade regional, mesmo quando existe produção suficiente em escala nacional.
Recorde reforça importância do etanol na matriz energética
Os números de agosto mostram um setor com expansão simultânea da comercialização doméstica, das exportações e da produção acumulada. O recorde de 3,15 bilhões de litros vendidos no mercado interno evidencia a dimensão alcançada pelo etanol no abastecimento brasileiro. A maior utilização do hidratado e a elevação temporária da mistura de anidro à gasolina também reforçam a importância das decisões de consumidores, distribuidores e autoridades regulatórias. A evolução do mercado dependerá da relação de preços entre combustÃveis e das condições de oferta nos próximos meses.
O crescimento da produção de milho acrescenta outra dimensão ao desempenho do setor. A ampliação dessa modalidade reduz a dependência exclusiva da cana-de-açúcar como matéria-prima e pode contribuir para uma oferta mais diversificada. Ao mesmo tempo, o recuo da fabricação de açúcar demonstra que as condições de produção e comercialização das diferentes atividades continuam influenciando as decisões industriais. O equilÃbrio entre esses mercados será relevante para os resultados econômicos da safra.
A expansão dos volumes também não garante redução automática dos preços nos postos. A formação do preço final envolve custos de produção, tributos, logÃstica, margens comerciais e concorrência regional. A existência de maior oferta pode favorecer condições de abastecimento, mas seu efeito sobre os consumidores depende da transmissão dessas condições ao longo da cadeia. A próxima etapa será acompanhar se o crescimento das vendas continuará nos meses seguintes e como a produção responderá à demanda.
Com 15,38 bilhões de litros comercializados nos cinco primeiros meses da safra 2026/2027, o Centro-Sul apresenta crescimento de 6,34% em relação ao ciclo anterior. O resultado confirma a expansão da atividade sucroenergética e o avanço da participação dos biocombustÃveis na matriz brasileira de transportes. O recorde doméstico de agosto constitui um indicador relevante dessa trajetória, mas sua sustentação dependerá dos preços, da disponibilidade de matéria-prima e das condições econômicas do mercado. A continuidade do crescimento será determinante para o desempenho do setor no restante da safra.
Fontes
União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA) — Relatório Safra 2026/2027, agosto, divulgado em 23 de outubro de 2026.
Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e BiocombustÃveis (ANP) — Comunicado sobre a adoção temporária da mistura E32, publicado em 31 de julho de 2026.
Ministério de Minas e Energia — Resolução CNPE nº 9/2026 e informações sobre a elevação do teor de etanol anidro na gasolina para 32%.
Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e BiocombustÃveis (ANP) — Informações técnicas sobre etanol hidratado e etanol anidro.










