O fundador do Banco Master, Daniel Vorcaro, afirmou à Polícia Federal que a crise financeira enfrentada pelo Banco de Brasília (BSLI3) foi provocada pela perda de confiança após a investigação e a liquidação do conglomerado que controlava, e não pelas operações de crédito realizadas entre as duas instituições. Durante depoimento prestado em 15 de outubro de 2026, cuja gravação foi divulgada nesta quinta-feira (29), o ex-banqueiro alegou que o BRB sofreu saques de R$ 9 bilhões depois da deflagração da Operação Compliance Zero e de sua prisão.
A declaração representa uma tentativa de contestar a relação entre as transações investigadas e as dificuldades financeiras do banco controlado pelo Governo do Distrito Federal. Vorcaro sustentou que os créditos considerados problemáticos foram substituídos por outros ativos e que o BRB teria recebido garantias suficientes para preservar os recursos utilizados nas operações. A versão, entretanto, diverge das conclusões da Polícia Federal e das informações apresentadas pela atual administração da instituição.
Em relatório concluído em 28 de outubro, a PF apontou aproximadamente R$ 2,7 bilhões em perdas já formalizadas e reconhecidas nas operações investigadas. O presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza, havia informado ao Senado, em junho, que o banco precisava de R$ 8,8 bilhões para fazer frente a possíveis perdas relacionadas aos negócios com o Master. Os valores correspondem a avaliações diferentes e não comprovam, isoladamente, a origem ou a dimensão da crise de liquidez mencionada por Vorcaro.
Vorcaro afirma que retirada de depósitos provocou crise de confiança no BRB
No depoimento à delegada Janaína Palazzo, Vorcaro defendeu que a situação do Banco de Brasília se deteriorou depois que a investigação policial ganhou publicidade e o Banco Central determinou a liquidação do Master, em novembro de 2025.
O empresário argumentou que a associação pública entre as duas instituições afetou a percepção de segurança dos depositantes e provocou uma retirada expressiva de recursos. Segundo ele, aproximadamente R$ 9 bilhões teriam saído do BRB após a liquidação e sua prisão.
“O banco vive de credibilidade”, afirmou Vorcaro durante o interrogatório, ao explicar sua interpretação sobre as dificuldades enfrentadas pela instituição pública.
O ex-controlador do Master sustentou que os saques comprometeram a liquidez do BRB, independentemente da qualidade dos ativos que haviam sido negociados entre as instituições. Também negou ter provocado diretamente essa situação e afirmou que o banco comprador continuava detendo garantias suficientes para cobrir as operações questionadas.
A cifra de R$ 9 bilhões, porém, foi apresentada pelo próprio investigado. Não foi identificada, na documentação pública examinada, uma demonstração financeira atualizada que permitisse confirmar de maneira independente o volume exato dessas retiradas, os períodos em que ocorreram e sua relação direta com a investigação.
Uma retirada de depósitos dessa magnitude pode pressionar o caixa de qualquer instituição financeira. Isso acontece porque os bancos mantêm parte dos recursos captados aplicada em empréstimos e outros ativos com diferentes prazos de vencimento. Quando muitos clientes solicitam simultaneamente a devolução de seus depósitos, a instituição precisa mobilizar recursos disponíveis ou obter novas fontes de financiamento para atender aos pagamentos.
Essa dinâmica, contudo, não elimina a possibilidade de problemas patrimoniais decorrentes da aquisição de ativos com valor inferior ao registrado contabilmente. As duas situações podem ocorrer ao mesmo tempo, embora tenham causas, indicadores e mecanismos de recuperação distintos.
BRB calcula necessidade de R$ 8,8 bilhões para cobrir possíveis perdas
A principal divergência com a explicação de Vorcaro está nas avaliações feitas pela atual administração do Banco de Brasília.
Em audiência pública realizada em 9 de junho de 2026 na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, o presidente Nelson Antônio de Souza informou que as transações entre BRB e Banco Master somaram aproximadamente R$ 30 bilhões entre 2024 e outubro de 2025.
Segundo o executivo, R$ 21,9 bilhões permaneceram no BRB sob a forma de ativos financeiros. Dentro desse conjunto, cerca de R$ 12,12 bilhões estavam associados às operações que deram origem à investigação da Polícia Federal.
A análise interna identificou, inicialmente, R$ 2,6 bilhões em carteiras vinculadas à empresa Tirreno que, segundo o presidente do banco, não possuíam lastro comprovado. A avaliação foi posteriormente ampliada para outros ativos considerados frágeis ou de difícil recuperação, elevando a estimativa de possíveis perdas para R$ 8,8 bilhões.
O montante equivale a aproximadamente 40,2% dos R$ 21,9 bilhões em ativos relacionados ao Master que, conforme os números apresentados ao Senado, haviam permanecido no BRB. O cálculo demonstra a dimensão da exposição considerada problemática pela administração, mas não significa que toda essa parcela tenha sido definitivamente perdida.
A diferença entre os R$ 2,6 bilhões inicialmente identificados e os R$ 8,8 bilhões estimados para provisionamento também é relevante. O primeiro valor corresponde às carteiras que a administração declarou não possuir lastro. O segundo incorpora outros ativos cuja recuperação apresenta incertezas, ainda que não sejam necessariamente inexistentes.
Ao prestar esclarecimentos aos senadores, Nelson Antônio de Souza explicou que a instituição precisava reconhecer potenciais perdas de maneira prudencial, sem esperar que todos os créditos chegassem ao vencimento ou que cada contrato fosse definitivamente declarado irrecuperável.
A manifestação ocorreu meses antes da divulgação do novo depoimento de Vorcaro, mas oferece uma avaliação institucional que contrasta com a tese de inexistência de danos apresentada pelo ex-controlador do Master.
Polícia Federal aponta R$ 2,7 bilhões em perdas já reconhecidas
O relatório parcial da Operação Compliance Zero, encaminhado em 28 de outubro de 2026 ao Supremo Tribunal Federal, acrescentou um terceiro conjunto de informações sobre as consequências das operações.
A Polícia Federal concluiu essa etapa da investigação com o indiciamento de Vorcaro e outras 14 pessoas, entre elas o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa e o ex-sócio do Master Augusto Lima.
Os investigadores atribuíram ao fundador do Master participação pessoal e diretiva nas negociações de carteiras de crédito consideradas irregulares. Para a corporação, a estrutura utilizada permitiu a transferência de ativos sem comprovação adequada de existência e proporcionou recursos financeiros ao banco controlado por Vorcaro.
Segundo o relatório, aproximadamente R$ 2,7 bilhões em perdas já haviam sido formalizados e reconhecidos. Essa cifra não representa o valor total das operações suspeitas nem a integralidade das perdas potenciais estimadas pela administração do BRB.
A diferença decorre da abrangência dos indicadores. Os R$ 2,7 bilhões correspondem ao montante identificado pela investigação policial como perda já reconhecida, enquanto os R$ 8,8 bilhões refletem a avaliação mais ampla de possíveis perdas apresentada pelo presidente do BRB.
A PF também investiga a comercialização de carteiras de crédito avaliadas em aproximadamente R$ 12,2 bilhões, cuja documentação e origem são questionadas. Esse volume indica a dimensão financeira dos negócios examinados e não deve ser automaticamente classificado como prejuízo definitivo.
Na manifestação apresentada após o indiciamento, a defesa de Vorcaro negou a existência de fraude e afirmou que os créditos ligados à Tirreno foram substituídos por outros ativos. Os advogados também sustentaram que nenhuma perícia oficial havia demonstrado o prejuízo atribuído ao empresário.
O indiciamento é um ato da investigação policial e não representa condenação judicial. As conclusões da Polícia Federal continuam sujeitas à avaliação do Ministério Público e ao contraditório no processo judicial.
Banco Central identificou inconsistências antes da liquidação do Master
A interpretação apresentada por Vorcaro também difere da posição institucional divulgada pelo Banco Central sobre as operações com o Banco de Brasília.
Em nota oficial, a autoridade monetária informou que sua área de supervisão identificou inconsistências nas cessões de carteiras de crédito realizadas pelo Master ao BRB. Segundo o órgão, as análises demonstraram a insubsistência de ativos integrantes das carteiras examinadas.
O Banco Central acrescentou que comunicou os indícios de irregularidades ao Ministério Público Federal e adotou medidas prudenciais preventivas para impedir novas operações que pudessem comprometer a liquidez do BRB.
Em 18 de novembro de 2025, a autoridade monetária decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master e de outras instituições de seu conglomerado. No comunicado que anunciou a medida, apontou grave crise de liquidez, comprometimento significativo da situação econômico-financeira e violações das normas do Sistema Financeiro Nacional.
A decisão administrativa atingiu o Master, e não representou a liquidação do BRB, que continuou em funcionamento.
O posicionamento do Banco Central não estabelece, por si só, a responsabilidade criminal de Vorcaro. Entretanto, demonstra que a identificação de inconsistências nas carteiras de crédito foi apresentada oficialmente como resultado de atividades de supervisão anteriores à liquidação.
Assim, a tese de que a investigação provocou a crise do BRB precisa ser distinguida das suspeitas sobre a regularidade dos ativos. Mesmo que a publicidade da operação tenha afetado a confiança dos depositantes, a existência de retiradas de recursos não demonstraria automaticamente que os negócios financeiros investigados eram regulares.
Governo do DF tenta viabilizar empréstimo de R$ 6,6 bilhões ao BRB
Enquanto a investigação avança, a recuperação da capacidade financeira do Banco de Brasília depende de medidas de capitalização e da obtenção de novos recursos.
O plano apresentado pela administração do BRB prevê um reforço patrimonial de R$ 8,8 bilhões. Desse valor, R$ 6,6 bilhões seriam provenientes de uma operação de crédito negociada pelo Governo do Distrito Federal com o Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Os R$ 2,2 bilhões restantes seriam obtidos por meio da securitização de créditos da dívida ativa distrital.
A estrutura foi apresentada à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado em junho e recebeu autorização legislativa da Câmara Legislativa do Distrito Federal em 9 de junho de 2026, por meio do Projeto de Lei nº 2.363/2026.
A aprovação parlamentar autorizou a contratação do empréstimo, mas não significou sua liberação imediata. A operação continuou enfrentando entraves relacionados às garantias e à participação das instituições financeiras envolvidas.
Em agosto, uma audiência de conciliação realizada no STF terminou sem acordo definitivo. Em setembro, o ministro Luiz Fux determinou que a União, o Banco Central e o FGC prestassem esclarecimentos sobre as dificuldades para viabilizar o financiamento.
A estrutura planejada prevê que o GDF obtenha o crédito e utilize os recursos para reforçar o capital da instituição financeira que controla. O mecanismo é diferente de um empréstimo destinado simplesmente a repor depósitos retirados pelos clientes.
Pelos valores anunciados, os R$ 6,6 bilhões representariam 75% do reforço patrimonial planejado, enquanto os R$ 2,2 bilhões da securitização corresponderiam aos 25% restantes.
A combinação dessas fontes de recursos busca recompor os indicadores prudenciais do BRB, preservando sua capacidade de realizar operações e cumprir exigências regulatórias. Até 30 de outubro, as informações públicas consultadas não permitiam confirmar a efetiva contratação e liberação integral do financiamento de R$ 6,6 bilhões.
Saques de clientes e perdas em carteiras têm impactos diferentes
O contraste entre os números apresentados por Vorcaro, pelo BRB e pela Polícia Federal exige distinguir duas dimensões da situação financeira de um banco: liquidez e patrimônio.
A liquidez corresponde à disponibilidade de recursos para cumprir obrigações nos respectivos vencimentos, incluindo saques, transferências e pagamentos. Uma instituição pode enfrentar dificuldades de liquidez quando ocorre uma retirada expressiva de depósitos, mesmo que possua ativos cujo valor contábil seja superior ao montante de suas obrigações.
O patrimônio, por sua vez, é afetado quando a instituição registra perdas em créditos ou outros investimentos. Caso ativos adquiridos por determinado valor não possam ser recuperados integralmente, o banco precisa reconhecer os efeitos contábeis e manter capital suficiente para absorver os riscos.
Essas diferenças ajudam a compreender por que a alegação de saques de R$ 9 bilhões não elimina as preocupações relacionadas às carteiras de crédito negociadas com o Master.
Os recursos que teriam sido retirados pelos depositantes, conforme a versão de Vorcaro, representam uma possível pressão sobre o caixa. Já os R$ 8,8 bilhões estimados pelo BRB correspondem a uma necessidade de reforço patrimonial associada à qualidade dos ativos.
Não seria correto somar automaticamente essas duas cifras para calcular um prejuízo de R$ 17,8 bilhões. Tampouco é possível subtrair uma da outra para concluir que a crise decorreu exclusivamente de retiradas de depósitos ou das operações investigadas. Trata-se de indicadores diferentes, sujeitos a critérios próprios de avaliação.
A determinação precisa dos impactos depende de demonstrações financeiras atualizadas, de auditorias e da identificação dos fluxos efetivos de entrada e saída de recursos.
BRB afirma ter substituído carteiras e reforçado controles internos
Em manifestação institucional sobre a exposição às operações com o Master, o Banco de Brasília informou que mais de R$ 10 bilhões de um conjunto de R$ 12,76 bilhões em carteiras com documentação fora do padrão haviam sido liquidados ou substituídos.
O banco acrescentou que os procedimentos de substituição de ativos e inclusão de garantias estavam previstos contratualmente e foram comunicados ao Banco Central.
A informação confirma a existência de operações de reposição de carteiras, aspecto utilizado por Vorcaro para sustentar sua defesa. Entretanto, não resolve a divergência sobre o valor recuperável dos ativos substitutos nem sobre a regularidade dos negócios originais.
Uma carteira de crédito pode ser substituída formalmente e, ainda assim, exigir avaliação sobre a capacidade de pagamento dos devedores, a qualidade das garantias e a possibilidade efetiva de recuperação dos valores.
O BRB informou também que reforçou seus controles internos e adotou medidas para preservar os interesses da instituição, inclusive no processo de liquidação extrajudicial do Banco Master, no qual figura como credor.
Essas providências são relevantes para a recuperação financeira do banco, mas não equivalem a uma conclusão definitiva sobre a inexistência de perdas ou responsabilidades nas operações realizadas entre 2024 e 2025.
Inquérito no STF ainda depende de perícias e novas diligências
Ao final de seu depoimento, Vorcaro voltou a pedir o arquivamento da investigação, afirmando que as operações questionadas não produziram prejuízo e que os ativos entregues ao BRB deveriam ser submetidos a uma avaliação independente.
A Polícia Federal, entretanto, solicitou ao Supremo Tribunal Federal mais 60 dias para concluir exames periciais pendentes e realizar diligências complementares. O pedido foi apresentado juntamente com o relatório parcial de indiciamentos de 28 de outubro.
O caso tramita no Inquérito nº 5.026, sob relatoria do ministro André Mendonça. A investigação envolve suspeitas de crimes contra o Sistema Financeiro Nacional, organização criminosa e lavagem de dinheiro, entre outras condutas individualmente atribuídas aos investigados.
Vorcaro permanece preso preventivamente no Distrito Federal, e sua defesa também busca a revogação da custódia.
A análise das provas ainda deverá considerar a documentação das carteiras de crédito, a avaliação dos ativos oferecidos em substituição e a participação dos dirigentes nas decisões financeiras. A alegação de retirada de R$ 9 bilhões em depósitos também depende de comprovação independente para que sua dimensão e seus efeitos possam ser estabelecidos.
Até 30 de outubro de 2026, não havia decisão definitiva de mérito que atribuísse responsabilidade criminal a Vorcaro pelos fatos descritos no relatório parcial. A continuidade das apurações deverá esclarecer tanto a regularidade das operações entre Master e BRB quanto os efeitos financeiros efetivamente produzidos sobre a instituição pública.
Fontes:
Polícia Federal — Relatório parcial de indiciamentos de 28 de outubro de 2026, no âmbito da Operação Compliance Zero, com informações sobre os investigados e as perdas identificadas.
Senado Federal — Notas taquigráficas da audiência pública da Comissão de Assuntos Econômicos de 9 de junho de 2026, com declarações do presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza, sobre ativos, provisões e capitalização.
Banco Central do Brasil — Nota institucional sobre as inconsistências identificadas nas operações de cessão de carteiras de crédito do Banco Master ao BRB.
Banco Central do Brasil — Comunicado nº 44.234 e nota oficial de 18 de novembro de 2025 sobre a liquidação extrajudicial do Banco Master.
BRB – Banco de Brasília — Nota institucional sobre substituição e liquidação de carteiras de crédito, reforço de garantias e medidas de controle interno.
Câmara Legislativa do Distrito Federal — Aprovação do Projeto de Lei nº 2.363/2026, em 9 de junho de 2026, sobre a operação de crédito de até R$ 6,6 bilhões destinada à capitalização do BRB.







