A Berkshire Hathaway concluiu nesta sexta-feira (18) uma etapa central de sua sucessão de comando: Warren E. Buffett deixou a presidência do conselho de administração e foi nomeado presidente emérito, permanecendo como diretor da companhia. Para o posto, o conselho elegeu seu filho, Howard G. Buffett, diretor da Berkshire desde 1993. A mudança é restrita à governança do conselho: Greg Abel continua como diretor-presidente (CEO), cargo que assumiu em 1º de janeiro de 2026.
A decisão formaliza a separação entre a liderança executiva e a presidência do conselho que vinha sendo preparada há anos. Aos 96 anos, Warren Buffett continuará vinculado à companhia e afirmou, em carta aos acionistas divulgada junto com o anúncio, que permanecerá disponÃvel com sua experiência e como acionista. Ele disse ainda que considera concluÃda a transição para Abel e que Howard deverá atuar como guardião da cultura e dos valores construÃdos ao longo de sua trajetória na Berkshire.
O desenho adotado reduz a possibilidade de interpretar a mudança desta sexta-feira como uma nova troca de comando operacional. A principal transição executiva já havia ocorrido no inÃcio do ano, quando Abel passou a ocupar a posição de CEO. A alteração agora atinge o órgão responsável pela supervisão e governança da holding, colocando outro membro da famÃlia Buffett na presidência do conselho, enquanto o executivo escolhido para administrar o conglomerado continua à frente das decisões empresariais.
Howard Buffett assume função prevista no plano de sucessão
Howard Buffett, de 70 anos, chega à presidência do conselho após 33 anos como integrante do colegiado. Além da permanência prolongada na estrutura de governança da Berkshire, ele preside desde 1999 a Howard G. Buffett Foundation, organização dedicada a questões humanitárias, segurança alimentar e mitigação de conflitos. A Berkshire também informou que ele já integrou conselhos de empresas públicas e privadas e chegou a exercer presidências de conselhos empresariais.
A escolha tem relação direta com uma arquitetura de sucessão discutida pela Berkshire há décadas. Em carta aos acionistas de 1993, Warren Buffett explicou que Howard havia ingressado no conselho naquele ano e que a famÃlia não deveria assumir a gestão executiva da companhia no futuro. O papel previsto para um integrante da famÃlia era representar os interesses acionários e participar da supervisão da administração.
A estratégia foi detalhada novamente no material de governança da Berkshire. Na documentação corporativa anterior à transição, a companhia registrava que, depois de Warren Buffett deixar de exercer simultaneamente as funções de CEO e presidente do conselho, nenhum membro da famÃlia Buffett participaria da administração executiva. A mesma documentação indicava que, como acionistas relevantes, os familiares poderiam ajudar o conselho na escolha e na supervisão do CEO e que um integrante da famÃlia poderia ocupar a presidência não executiva do conselho.
A decisão anunciada nesta sexta-feira reproduz esse desenho em sua forma prática. Howard assume o conselho, enquanto Abel permanece responsável pela operação da Berkshire. Susan L. Decker também continua como diretora independente lÃder, preservando um elemento de independência na estrutura do colegiado.
Abel mantém o comando executivo da Berkshire
A distinção entre os dois cargos é relevante porque a Berkshire não está transferindo a condução diária dos negócios para Howard Buffett. Em janeiro de 2026, Abel assumiu formalmente a posição de CEO depois de anos à frente das operações não relacionadas a seguros e de uma participação crescente na supervisão do conglomerado. Em dezembro de 2025, a companhia já havia anunciado que ele passaria a comandar também diretamente os negócios não seguradores, incluindo ferrovias, energia, indústria, varejo e outras atividades.
Na carta distribuÃda nesta sexta-feira, Warren Buffett afirmou que Abel já vinha tomando as decisões relevantes da companhia e que a nova configuração representa a conclusão da transição. A mensagem reduz também uma possÃvel ambiguidade sobre o papel futuro do antigo presidente: Buffett deixa a presidência do conselho, mas continua diretor e pretende permanecer como referência disponÃvel para a companhia.
Essa separação torna mais claro o modelo de governança que a Berkshire vinha desenhando. Abel concentra a gestão executiva e a alocação operacional do grupo; Howard preside o conselho; Decker permanece na função de liderança independente; e Warren Buffett continua no colegiado como presidente emérito. A estrutura preserva a presença da famÃlia na governança sem reproduzir a concentração de funções que marcou a companhia durante a maior parte de sua história.
Berkshire chega à mudança com ativos de US$ 1,26 trilhão
A sucessão ocorre em uma Berkshire muito diferente da companhia que Buffett assumiu em 1965. O balanço do segundo trimestre de 2026 mostra US$ 1,263 trilhão em ativos em 30 de junho, ante US$ 1,222 trilhão no fim de 2025. A diferença de aproximadamente US$ 40,9 bilhões representa crescimento de cerca de 3,3% em seis meses, cálculo a partir dos valores divulgados pela companhia.
O patrimônio lÃquido atribuÃvel aos acionistas da Berkshire também avançou de US$ 717,4 bilhões para US$ 747,9 bilhões no perÃodo, aumento de aproximadamente US$ 30,5 bilhões, ou 4,3%. A própria companhia informou que o resultado foi influenciado pelos ganhos de investimentos registrados durante o primeiro semestre.
A estrutura financeira ajuda a dimensionar o desafio institucional que passa a ser administrado por Abel e supervisionado pelo novo conselho. Em 30 de junho, a Berkshire tinha US$ 324,9 bilhões em tÃtulos de curto prazo do Tesouro dos Estados Unidos na operação de seguros e demais negócios, além de US$ 40,6 bilhões em caixa e equivalentes de caixa somados à s operações de seguros e à s de ferrovias, serviços públicos e energia. Considerados conjuntamente, esses valores chegavam a aproximadamente US$ 365,5 bilhões.
A companhia também acumulou US$ 35,8 bilhões em lucro lÃquido atribuÃvel aos acionistas no primeiro semestre de 2026. Desse montante, cerca de US$ 11,4 bilhões vieram de ganhos de investimentos após impostos, mostrando o peso que a carteira de ativos continua tendo no resultado consolidado e também por que oscilações do mercado podem produzir efeitos relevantes sobre o lucro contábil da holding.
Nova governança preserva a cultura sem repetir o modelo de Buffett
A mudança de sexta-feira também responde a uma questão que acompanhou a Berkshire durante décadas: como preservar uma cultura empresarial associada de maneira muito direta ao seu principal acionista e executivo sem manter uma concentração permanente das funções de gestão e conselho.
O histórico mostra que a empresa já vinha preparando essa separação. Warren Buffett permaneceu como presidente e CEO por mais de cinco décadas, e durante esse perÃodo a polÃtica de alocação de capital e a orientação estratégica da companhia estiveram fortemente vinculadas à sua atuação. A escolha de Abel como sucessor executivo e de Howard para o conselho cria funções distintas para duas dimensões diferentes da continuidade: administração e governança.
A própria declaração de Buffett aos acionistas reforça essa divisão. Segundo ele, Abel conduz a empresa, enquanto Howard terá a responsabilidade de proteger a cultura e os valores que sustentaram a Berkshire. É uma mudança importante porque desloca a missão de preservar a identidade corporativa de uma única pessoa para uma estrutura composta por CEO, conselho e diretor independente lÃder.
Howard chega ao novo cargo com uma longa relação com a Berkshire, mas sua experiência profissional recente está mais concentrada em filantropia e participação em conselhos do que na gestão executiva da holding. Esse perfil é compatÃvel com a função que a companhia desenhou para ele: a presidência do conselho, e não o comando dos negócios.
A escolha também preserva um princÃpio que Buffett havia descrito ainda em 1993: a famÃlia poderia exercer uma função relevante na propriedade e na supervisão da companhia, mas não deveria assumir a gestão operacional. Três décadas depois, a sucessão anunciada implementa essa separação com o filho na presidência do conselho e Abel no comando executivo.
A Berkshire, portanto, entra em uma nova fase sem romper formalmente com a presença de Warren Buffett. Ele deixa de exercer a presidência do conselho, mas continua diretor e acionista. Howard assume o posto de chairman e Abel permanece como CEO. A mudança encerra a última grande sobreposição de funções associada à liderança de Buffett e estabelece, na prática, uma governança em que a continuidade da cultura da companhia passa a conviver com uma administração executiva separada da famÃlia fundadora.
Fontes:
Berkshire Hathaway – comunicado de 18 de setembro de 2026 sobre a nomeação de Warren Buffett como presidente emérito e Howard Buffett como presidente do conselho
Berkshire Hathaway – carta de Warren Buffett aos acionistas sobre a conclusão da transição de liderança
Berkshire Hathaway – relatório financeiro do segundo trimestre de 2026 e balanço patrimonial de 30 de junho
Berkshire Hathaway – declaração de 2025 sobre a estrutura de governança e o planejamento sucessório
Berkshire Hathaway – carta aos acionistas de 1993 sobre o papel da famÃlia Buffett na governança futura da companhia
Berkshire Hathaway – anúncio de dezembro de 2025 sobre a transferência do cargo de CEO para Greg Abel







