Fusão entre Petz e Cobasi é aprovada pelo Cade com restrições e redesenho competitivo do varejo pet
A aprovação da fusão entre Petz e Cobasi pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) marca um dos momentos mais relevantes do setor pet brasileiro na última década. A decisão, anunciada nesta quarta-feira (10/12), estabelece novas bases para o mercado de produtos e serviços voltados a animais de estimação e exige contrapartidas importantes para assegurar a concorrência no setor. O caso passa a integrar o grupo de análises mais complexas já enfrentadas pela autarquia no varejo.
A operação prevê a união das duas maiores redes do segmento no País, criando uma empresa de porte inédito no mercado latino-americano. Em meio ao acirramento competitivo entre players físicos e digitais, a aprovação da fusão entre Petz e Cobasi representa um reposicionamento estratégico que deve alterar preços, oferta, logística e estrutura de atendimento ao consumidor.
O aval do Cade veio acompanhado de medidas específicas, sobretudo a determinação de venda de lojas em áreas consideradas sensíveis sob a ótica concorrencial. O órgão regulador entendeu que, sem ajustes, a união poderia gerar concentração excessiva e impacto direto sobre pequenos e médios operadores locais.
Um marco no setor pet brasileiro
A nova empresa resultante da fusão entre Petz e Cobasi será a maior do Brasil em faturamento e número de unidades, além de se posicionar como uma das maiores redes da América Latina. A operação impressiona pelo alcance e pela soma de competências: de um lado, a Petz, reconhecida pela forte estratégia de expansão e tecnologia; de outro, a Cobasi, pioneira no varejo especializado e com presença consolidada no Sudeste.
A sinergia entre as duas companhias foi apresentada ao Cade como um caminho para elevar a eficiência logística, ampliar o sortimento de produtos e expandir os serviços veterinários e de bem-estar animal. Segundo fontes do setor, a união tende a fortalecer negociações com fornecedores, viabilizando melhores condições comerciais e volume de importação, fatores que podem redefinir padrões de preço ao consumidor.
A empresa comunicou que a integração ocorrerá apenas após o cumprimento das condições suspensivas impostas pelo Cade. A data definitiva não foi anunciada.
Venda de 26 lojas e compromissos comportamentais
Uma das exigências centrais para a aprovação da fusão entre Petz e Cobasi foi a alienação de 26 unidades localizadas no estado de São Paulo, região na qual a concentração gerada pelo negócio despertou maior atenção. Segundo a Petz, essas lojas representaram cerca de 3,3% do faturamento conjunto nos últimos 12 meses.
Além da venda dos pontos, o acordo inclui compromissos comportamentais que envolvem práticas comerciais e padrões de atuação competitiva. Embora os detalhes não tenham sido divulgados integralmente, o Cade reforçou que a medida tem o objetivo de evitar pressões indevidas sobre fornecedores menores e preservar um ambiente saudável para novos entrantes.
A conselheira Camila Cabral Pires Alves destacou que a operação demandou uma das análises mais extensas já realizadas pela autarquia no varejo pet. O caso contou ainda com manifestações de concorrentes, entre eles a Petlove, que se posicionou contra a operação, alegando que a empresa resultante poderia assumir vantagem competitiva excessiva.
Impacto sobre concorrentes digitais e físicos
O mercado pet brasileiro é um dos mais dinâmicos do mundo, impulsionado pelo aumento da população de animais domésticos, pela expansão da renda destinada ao cuidado dos pets e pela profissionalização das redes de serviços veterinários. A fusão entre Petz e Cobasi vai além da ampliação de lojas: ela consolida uma nova lógica de escala que pressiona concorrentes de médio porte e acirra a disputa com empresas digitais especializadas.
Nos últimos anos, o varejo pet passou por forte digitalização, com avanço de compras por assinatura, aplicativos de consulta veterinária e marketplaces exclusivos. Nesse ambiente, a união entre duas redes líderes cria barreiras de entrada mais robustas, especialmente no Sudeste. A Petlove, que contestou formalmente a operação, alegou que a venda de apenas 26 lojas seria insuficiente para equilibrar o setor. O Cade, contudo, avaliou que existem interessados aptos a adquirir as unidades, o que mitigaria riscos concorrenciais.
A análise final considerou, entre outros pontos:
– impacto sobre preços de medicamentos veterinários;
– variação regional da oferta de produtos;
– capacidade logística da nova empresa;
– histórico de relacionamento com pequenos fornecedores;
– possibilidade de expansão acelerada após a integração.
Repercussão no mercado financeiro
A decisão refletiu imediatamente no desempenho das ações PETZ3. Logo após o anúncio, os papéis chegaram a subir mais de 7%, movimento atribuído à expectativa de captura de sinergias operacionais. Para analistas, a fusão entre Petz e Cobasi representa uma das maiores reorganizações do varejo brasileiro desde as fusões de grandes redes de farmácias e supermercados.
Do ponto de vista contábil, a operação deve melhorar a alavancagem operacional e reduzir custos logísticos, permitindo crescimento mais equilibrado nos próximos anos. Contudo, a materialização dessas vantagens dependerá do ritmo de integração e do cumprimento rigoroso das exigências impostas pelo Cade.
O que ainda falta para a conclusão da fusão
Apesar da aprovação, a fusão entre Petz e Cobasi não está finalizada. A operação deve seguir os seguintes passos:
– cumprimento de todas as condições suspensivas determinadas pelo Cade;
– formalização da venda das 26 lojas;
– revisões contratuais entre as empresas;
– aprovação interna pelos conselhos de administração;
– integração operacional gradual, levando em conta sistemas, preços e logística.
A etapa de integração costuma ser a mais complexa em operações de grande porte. No caso específico do varejo pet, a fusão envolve equipes de veterinários, serviços em loja, hospitais, grooming, logística refrigerada e relacionamento com milhares de fornecedores.
O novo cenário competitivo após a fusão
O setor pet brasileiro, estimado em mais de R$ 60 bilhões anuais, deve passar por uma nova fase de consolidação. A fusão entre Petz e Cobasi altera o equilíbrio concorrencial e abre espaço para movimentos estratégicos de outros players.
Entre as mudanças esperadas:
1. Maior poder de negociação com fornecedores
Com maior volume de compras e capilaridade, a nova empresa deve conquistar condições comerciais mais favoráveis, o que pode gerar impacto em preços de medicamentos, rações premium e serviços veterinários.
2. Expansão rápida de serviços veterinários e hospitais
As duas redes investiram fortemente nesse segmento. A fusão deve acelerar a implantação de novas unidades e fortalecer parcerias com empresas de diagnóstico.
3. Integração digital com potencial dominante
A Petz tem uma plataforma de e-commerce reconhecida, enquanto a Cobasi avançou em soluções omnichannel. A união pode consolidar o canal digital como o maior do País.
4. Pressão sobre concorrentes regionais
Redes independentes precisarão se especializar ou buscar fusões para competir. Aquisições menores no interior do País devem se intensificar.
5. Riscos de concentração monitorados
O Cade continuará acompanhando o setor para evitar desequilíbrios e preservar diversidade de preços e marcas.
A decisão do Cade e o entendimento regulatório
A aprovação da fusão entre Petz e Cobasi se fundamentou na visão de que a operação, apesar de elevar a concentração, não elimina a concorrência. A venda das lojas e os compromissos comportamentais foram considerados suficientes para manter um ambiente competitivo.
O presidente do Cade ressaltou que o número de interessados nas lojas a serem vendidas indica viabilidade de continuidade operacional. Além disso, a autarquia avaliou que o mercado pet, embora concentrado, ainda apresenta espaço para novos entrantes digitais e redes especializadas menores.
Perspectivas para o setor pet em 2026
O Brasil se consolida como um dos maiores mercados pet do mundo, impulsionado pelo aumento da longevidade animal, humanização dos cuidados, expansão da renda classe média e crescimento de centros urbanos com novas demandas de serviços veterinários e de convivência. A fusão entre Petz e Cobasi se insere nesse movimento e reforça o protagonismo do País no cenário latino-americano.
Analistas projetam:
– crescimento contínuo do segmento premium;
– expansão de planos de saúde animal;
– maior integração entre serviços em loja e atendimento digital;
– abertura de hospitais de alta complexidade em capitais;
– investimento em marcas próprias com margens superiores.
Nesse contexto, a aprovação regulatória realizada hoje é apenas o primeiro capítulo de uma transformação mais ampla.






