Mercado brasileiro de cerveja pressiona troca de CEO global da Heineken em meio a queda de consumo e margens comprimidas
A decisão da Heineken de promover a saída de seu CEO global, Dolf van den Brink, ocorre em um momento particularmente delicado para o mercado brasileiro de cerveja, que enfrenta retração consistente de volumes, pressão sobre margens e mudanças estruturais no comportamento do consumidor. O anúncio, feito no início da semana retrasada, reacendeu debates entre analistas e investidores sobre a sustentabilidade da estratégia de expansão da companhia no Brasil, hoje um dos principais mercados da cervejaria no mundo.
A leitura predominante no mercado financeiro é de que o Brasil, apesar de estratégico, tornou-se um ponto de atenção relevante no desempenho consolidado da Heineken. O enfraquecimento do mercado brasileiro de cerveja não apenas compromete projeções de crescimento de curto prazo, como também eleva o risco de retorno mais lento sobre investimentos bilionários em capacidade produtiva, logística e portfólio.
Pressão estrutural no mercado brasileiro de cerveja
Os dados mais recentes da indústria indicam que o mercado brasileiro de cerveja atravessa uma das fases mais desafiadoras da última década. Entre janeiro e setembro de 2025, o consumo em volume acumulou queda estimada entre 6,5% e 7% na comparação anual. A expectativa é de que o fechamento do ano confirme retração entre 5% e 6%, com o total consumido recuando de cerca de 15,5 bilhões de litros em 2024 para aproximadamente 14,7 bilhões em 2025.
Trata-se de uma contração expressiva em um setor historicamente resiliente e fortemente associado ao consumo cotidiano da população. O impacto é sentido de forma transversal por toda a cadeia produtiva, afetando desde grandes grupos multinacionais até pequenos produtores regionais.
O timing da troca de comando
O momento da substituição do CEO global chama atenção porque coincide com uma fase em que a Heineken mantém investimentos robustos no Brasil. O principal exemplo é a expansão da planta de Passos, em Minas Gerais, projeto que pode adicionar cerca de 5 milhões de hectolitros por ano à capacidade produtiva da companhia em uma primeira etapa.
Para analistas, a combinação entre queda de volumes no mercado brasileiro de cerveja e aumento de capacidade instalada cria um descompasso que tende a alongar o prazo de retorno dos investimentos. Esse cenário reforça questionamentos sobre o ritmo da expansão e sobre a necessidade de ajustes estratégicos na operação local.
A percepção no mercado é de que a mudança no comando global não pode ser dissociada do desempenho abaixo do esperado nas Américas, especialmente no Brasil, que vinha sendo tratado como um dos pilares de crescimento da empresa nos últimos anos.
Desempenho global reforça alerta
No terceiro trimestre de 2025, a Heineken registrou queda de 4,3% no volume global de cerveja em relação ao mesmo período do ano anterior. Nas Américas, a retração foi ainda mais acentuada, chegando a 7,4%. Esse desempenho pressionou as projeções de resultado operacional e levou a companhia a indicar que o crescimento do lucro operacional orgânico em 2025 deve ficar mais próximo do piso do intervalo anteriormente divulgado, entre 4% e 8%.
Embora o enfraquecimento não seja exclusivo da Heineken, o peso do Brasil nesse contexto é significativo. O país responde por uma parcela relevante dos volumes e dos investimentos recentes do grupo, o que faz com que qualquer deterioração no mercado brasileiro de cerveja tenha reflexos diretos na estratégia global.
Consumo afetado por clima, renda e novos hábitos
A retração do consumo não está associada a um único fator, mas a uma combinação de elementos conjunturais e estruturais. Um dos principais vetores apontados pelo setor é a redução das ocasiões favoráveis ao consumo, influenciada por fatores climáticos e pelo calendário.
Temperaturas mais amenas, menos dias de sol e a escassez de feriados prolongados reduziram momentos tradicionalmente associados ao consumo de cerveja. Esse efeito climático, embora temporário, teve impacto direto sobre o desempenho do mercado brasileiro de cerveja em 2025.
Além disso, a deterioração da renda disponível das famílias, combinada com juros elevados e inflação persistente em serviços, levou o consumidor a adotar uma postura mais cautelosa. Mesmo quando a compra ocorre, a quantidade adquirida por ocasião é menor, evidenciando um ajuste fino no orçamento doméstico.
Competição por gasto discricionário
Outro fator relevante é o aumento da competição pelo gasto discricionário do consumidor. As apostas esportivas, por exemplo, passaram a disputar espaço no orçamento de parcelas significativas da população, especialmente entre os mais jovens. Embora o tíquete médio da cerveja seja relativamente baixo, a pulverização desses gastos acaba impactando volumes totais.
O resultado é um mercado brasileiro de cerveja em que a frequência de compra se mantém relativamente estável, mas o volume por compra diminui. Trata-se de uma mudança comportamental que desafia estratégias tradicionais de crescimento baseadas apenas em aumento de penetração ou expansão física.
Política de preços e margens sob pressão
Diante desse cenário, a Heineken optou por manter os preços congelados desde abril de 2024, buscando preservar volumes em um ambiente adverso. No entanto, em julho de 2025, a companhia retomou os reajustes, com aumento médio em torno de 6%, sinalizando uma inflexão na estratégia comercial.
A decisão foi interpretada pelo mercado como um movimento necessário para recompor margens, mas que carrega riscos adicionais em um contexto de consumo fragilizado. No segmento premium, a sensibilidade a preços tende a ser maior, o que exige equilíbrio entre rentabilidade e manutenção de participação de mercado.
Nesse ambiente, analistas observam que concorrentes com portfólio mais diversificado podem apresentar maior resiliência. Ainda assim, a disputa por market share perde relevância quando o bolo total do mercado brasileiro de cerveja encolhe.
Investimentos sob escrutínio
A manutenção de investimentos elevados em um mercado em retração reacende o debate sobre disciplina de capital. A expansão da capacidade produtiva, embora estratégica no longo prazo, pode pressionar indicadores financeiros no curto e médio prazos caso a recuperação do consumo seja mais lenta do que o previsto.
Fontes do mercado avaliam que os baixos volumes registrados na América Latina, com destaque para o Brasil, contribuíram para reforçar as pressões internas por mudanças na liderança global da Heineken. A expectativa é de que o novo comando adote uma postura mais cautelosa, priorizando eficiência operacional e retorno sobre o capital investido.
Perspectivas para 2026
O horizonte para 2026 traz alguns fatores potencialmente positivos para o mercado brasileiro de cerveja, como a realização da Copa do Mundo, um calendário mais favorável de feriados e a expectativa de clima mais quente. Esses elementos tendem a ampliar as ocasiões de consumo, aliviando parte da pressão sobre volumes.
No entanto, a avaliação predominante é de que a recuperação será gradual. A melhora deve estar mais associada ao aumento das oportunidades de consumo do que a uma recomposição plena do poder de compra das famílias. Juros ainda elevados e incertezas macroeconômicas continuam limitando uma retomada mais robusta.
Um novo ciclo estratégico
A troca de CEO na Heineken ocorre, portanto, em um momento de transição não apenas para a empresa, mas para todo o setor. O mercado brasileiro de cerveja passa por ajustes estruturais que exigem revisão de estratégias, maior foco em eficiência e adaptação a novos padrões de consumo.
Para investidores e analistas, o episódio reforça a importância de monitorar de perto indicadores de volume, margens e retorno sobre investimento, especialmente em mercados emergentes que, embora ofereçam potencial de crescimento, também carregam riscos significativos em ciclos adversos.






