Por que o México foi o maior beneficiado pelas tarifas de Trump — e o teste decisivo que pode redefinir o comércio na América do Norte
O anúncio das tarifas de Trump, feito em 2 de abril do ano passado e batizado pelo próprio presidente dos Estados Unidos como “Dia da Libertação”, redesenhou o mapa do comércio internacional. Ao estabelecer novas alíquotas de importação para dezenas de países, a Casa Branca inaugurou uma fase de incerteza para cadeias produtivas globais, pressionou custos para importadores americanos e reacendeu o debate sobre protecionismo. Em meio a esse cenário, um país emergiu como beneficiário inesperado: o México.
A decisão de excluir México e Canadá da lista inicial de países tarifados, aliada a exceções estratégicas para produtos enquadrados no Tratado entre México, Estados Unidos e Canadá (T-MEC), criou uma vantagem competitiva relevante para a economia mexicana. Mais do que escapar do pior impacto das tarifas de Trump, o país conseguiu ampliar exportações, atrair investimentos e consolidar sua posição como principal parceiro comercial dos Estados Unidos.
O “Dia da Libertação” e a nova lógica tarifária
Ao anunciar as tarifas de Trump, o governo americano buscou reforçar a produção doméstica e reduzir a dependência externa, sobretudo de países asiáticos. A lista publicada incluiu dezenas de nações, mas deixou de fora dois parceiros históricos dos EUA. A sinalização inicial foi interpretada pelo mercado como um alívio para o México, cuja economia é fortemente integrada à americana.
Posteriormente, a Casa Branca impôs tarifas específicas para alguns produtos canadenses e mexicanos — como aço, alumínio e componentes automotivos fora do escopo do T-MEC —, mas manteve uma estrutura de exceções que preservou a competitividade regional. Essa assimetria tarifária foi decisiva para a manutenção e expansão das exportações mexicanas.
Exportações em alta e ganho de participação
Desde o anúncio das tarifas de Trump, os dados de comércio exterior mostram que o México não apenas manteve o ritmo de exportações para os Estados Unidos como registrou crescimento próximo de 6%. O desempenho contrasta com a queda observada em outros parceiros comerciais e reforça a leitura de que a política tarifária produziu vencedores e perdedores.
Avaliações independentes de competitividade indicam que os produtos mexicanos enfrentaram uma tarifa efetiva média significativamente inferior à de países asiáticos. Enquanto a China passou a lidar com alíquotas elevadas, o México se beneficiou de uma combinação de isenções, negociações bilaterais e proximidade geográfica, fatores que reduziram custos logísticos e riscos operacionais.
O papel central do T-MEC
O T-MEC, assinado em 2017 durante o primeiro mandato de Donald Trump, revelou-se um escudo essencial diante das tarifas de Trump. Inicialmente, muitos exportadores mexicanos optavam por não utilizar o acordo para evitar exigências burocráticas, preferindo pagar tarifas historicamente baixas. Com a elevação generalizada das alíquotas, a lógica mudou.
A isenção concedida a produtos que atendem às regras do tratado incentivou uma rápida adaptação das cadeias produtivas. Em poucos meses, a proporção de exportações realizadas dentro do T-MEC saltou para patamares superiores a 80%, consolidando o acordo como o principal instrumento de defesa comercial do México.
Reconfiguração das cadeias globais e nearshoring
A experiência do primeiro mandato de Trump já havia mostrado que políticas tarifárias tendem a provocar desvios de comércio. O segundo mandato intensificou esse movimento. Empresas globais passaram a acelerar estratégias de nearshoring, deslocando fábricas para países próximos ao mercado americano e menos expostos às tarifas de Trump.
Nesse contexto, o México reuniu atributos difíceis de replicar: proximidade com os Estados Unidos, infraestrutura industrial consolidada, acordos comerciais ativos e mão de obra qualificada. À medida que estoques de produtos importados de regiões mais distantes se esgotaram, fabricantes instalados no México passaram a conquistar fatias crescentes do mercado americano.
Setores vencedores e limitações persistentes
Apesar do desempenho agregado positivo, nem todos os setores mexicanos se beneficiaram de forma homogênea das tarifas de Trump. O segmento automotivo, por exemplo, apresentou crescimento modesto, refletindo a complexidade das regras de origem e a incidência de tarifas sobre componentes não fabricados nos Estados Unidos.
Já setores como aço e alumínio enfrentaram tarifas elevadas, resultando em retração das exportações. Ainda assim, o impacto geral foi menos severo do que o inicialmente projetado, reforçando a resiliência da economia mexicana diante de choques externos.
Quem paga a conta das tarifas
Do lado americano, o custo das tarifas de Trump recaiu principalmente sobre importadores e consumidores. A elevação de preços de insumos e bens finais pressionou margens empresariais e alimentou debates internos sobre inflação e competitividade. Esse efeito colateral ajudou a sustentar a demanda por produtos mexicanos, relativamente menos onerados.
O teste decisivo: renegociação do T-MEC
Se o presente favoreceu o México, o futuro permanece incerto. A renegociação do T-MEC, prevista para este ano, representa a principal prova de fogo para o país. Declarações recentes de Trump, classificando o acordo como “irrelevante”, reacenderam temores sobre a continuidade do bloco.
A retórica protecionista, somada à defesa explícita da produção doméstica de automóveis, cria um ambiente de incerteza. Ao mesmo tempo, líderes regionais reagem de formas distintas: enquanto o México reafirma a importância da integração produtiva, o Canadá busca diversificar parceiros e firmar novos acordos comerciais fora da América do Norte.
Cenários possíveis e riscos estratégicos
Especialistas apontam três cenários principais para o futuro do T-MEC diante das tarifas de Trump. O mais favorável envolveria a renovação do acordo com ajustes pontuais, preservando a integração regional. Um cenário intermediário traria mudanças setoriais, com vencedores e perdedores. O mais adverso implicaria a dissolução do bloco, com impactos significativos para o México.
A eventual fragmentação do acordo exigiria uma rápida reorientação da política comercial mexicana, com maior diversificação de mercados e redução da dependência dos Estados Unidos. Iniciativas recentes do governo mexicano sinalizam a construção de planos alternativos, ainda que em estágio inicial.
México entre oportunidade e cautela
O balanço até aqui indica que o México soube capitalizar as brechas abertas pelas tarifas de Trump, transformando um choque protecionista em oportunidade de consolidação comercial. No entanto, a natureza volátil da política americana impõe cautela.
A experiência recente demonstra que vantagens tarifárias podem ser transitórias. O desafio do México será transformar ganhos conjunturais em vantagens estruturais, investindo em produtividade, inovação e diversificação de mercados.
Perspectivas para o comércio regional
Independentemente do desfecho da renegociação, as tarifas de Trump já deixaram um legado duradouro: a reconfiguração das cadeias globais e a valorização de acordos regionais como instrumentos de competitividade. Para o México, a consolidação como principal fornecedor dos Estados Unidos representa um marco histórico, mas também uma responsabilidade estratégica.
O próximo capítulo dependerá da capacidade de negociação diplomática, da adaptação do setor produtivo e da habilidade de navegar em um ambiente geopolítico cada vez mais complexo. O “ganhador inesperado” pode se tornar um vencedor permanente — ou enfrentar um novo ciclo de incertezas.






