A alta recente do petróleo no mercado internacional pode dificultar o ciclo de cortes da taxa Selic e elevar a pressão sobre a inflação brasileira em 2026, segundo relatório do Itaú BBA divulgado nesta quinta-feira, 22 de maio. De acordo com o banco, um avanço de 10% no preço da commodity pode acrescentar entre 0,5 e 0,7 ponto percentual ao IPCA, considerando impactos diretos nos combustíveis e efeitos indiretos sobre transporte, logística, energia, embalagens e insumos industriais.
A avaliação reforça a percepção de que o choque do petróleo não se limita à gasolina e ao diesel. Para os economistas Julia Gottlieb, Luciana Rabelo e Mario Mesquita, autores do relatório, a alta da commodity se espalha pela economia por meio das cadeias produtivas e pode gerar efeitos mais persistentes sobre os preços ao consumidor.
O Itaú BBA afirma que os efeitos indiretos são mais difíceis de mensurar, mas podem se tornar relevantes em um ambiente de atividade econômica aquecida, quando empresas têm maior capacidade de repassar custos ao consumidor final.
Petróleo já adicionou 1,1 ponto ao cenário do IPCA
O cenário-base do Itaú BBA para a inflação de 2026 está em 5,2%. Essa projeção já considera petróleo médio de US$ 85 por barril e câmbio de R$ 5,15.
Segundo o banco, a alta recente do petróleo já adicionou cerca de 1,1 ponto percentual ao cenário de IPCA do próximo ano. Desse total, 0,5 ponto percentual viria do efeito direto sobre combustíveis, enquanto 0,6 ponto percentual estaria associado aos efeitos indiretos sobre a economia.
As simulações indicam que o impacto indireto pode variar entre 0,75 e 1,25 ponto percentual, dependendo do comportamento do dólar e da intensidade do repasse aos preços finais.
A combinação entre petróleo mais caro e câmbio pressionado tende a ampliar o risco inflacionário. Como a commodity é cotada em dólar, a desvalorização do real pode intensificar o impacto sobre custos domésticos.
Diesel concentra parte relevante da pressão
O diesel aparece como um dos principais vetores de transmissão da alta do petróleo para a inflação. Segundo o estudo, o combustível concentra cerca de um terço do impacto indireto da commodity sobre os preços.
A explicação está no peso do diesel no transporte de cargas. No Brasil, grande parte da distribuição de alimentos, bens industriais e produtos de consumo depende do modal rodoviário. Quando o diesel sobe, o custo de frete aumenta e pode ser repassado ao longo da cadeia.
Esse efeito costuma aparecer em diferentes setores. Produtos agrícolas, alimentos processados, materiais de construção, bens industriais e itens vendidos no varejo podem incorporar custos maiores de transporte e logística.
Por isso, a pressão do petróleo sobre o IPCA tende a ser mais ampla do que a variação observada diretamente nos postos de combustíveis.
IGPs já mostram sinais de transmissão
O Itaú BBA também aponta que os Índices Gerais de Preços já mostram sinais de transmissão mais rápida da alta do petróleo para preços industriais e bens comercializáveis.
Os IGPs costumam captar movimentos de preços no atacado antes que eles cheguem ao consumidor final. Quando há pressão em combustíveis, insumos industriais e bens intermediários, esses índices podem antecipar parte do movimento que, posteriormente, aparece no IPCA.
Esse ponto é importante para o Banco Central porque indica que a pressão pode ganhar persistência. Choques concentrados em poucos itens tendem a ter efeito temporário. Já aumentos disseminados por cadeias produtivas podem afetar expectativas de inflação e dificultar a condução da política monetária.
Banco Central deve manter cautela com a Selic
O relatório do Itaú BBA reforça um balanço de riscos mais altista para a inflação brasileira. Nesse cenário, o Banco Central tende a ter menos espaço para acelerar cortes da taxa Selic.
A autoridade monetária observa não apenas a inflação corrente, mas também expectativas, núcleos de inflação, preços de serviços, câmbio, atividade econômica e choques de commodities. Um petróleo mais caro pode tornar o processo de desinflação mais lento.
Se o repasse para combustíveis, fretes e bens industriais ganhar força, o BC pode optar por uma postura mais conservadora, mantendo juros elevados por mais tempo ou reduzindo o ritmo de cortes.
A Selic é um dos principais instrumentos para controlar a inflação. Juros mais altos encarecem crédito, reduzem consumo e ajudam a conter pressões de demanda. Por outro lado, também pesam sobre atividade econômica, investimentos e custo da dívida pública.
Cenário combina petróleo, dólar e atividade
O impacto final da alta do petróleo sobre o IPCA dependerá de três variáveis principais: preço internacional da commodity, câmbio e capacidade de repasse das empresas.
Se o petróleo permanecer elevado e o real se desvalorizar, a pressão tende a ser maior. Caso o câmbio se estabilize ou a commodity recue, parte do impacto pode ser atenuada.
A atividade econômica também influencia o repasse. Em momentos de demanda aquecida, empresas conseguem transferir custos com mais facilidade. Em períodos de consumo fraco, parte do aumento pode ser absorvida nas margens.
Para o Itaú BBA, o choque recente exige atenção porque ocorre em um ambiente em que a inflação ainda demanda cautela e as expectativas seguem sensíveis a fatores fiscais, cambiais e externos.
Choque aumenta desafio da política monetária
A alta do petróleo adiciona complexidade ao trabalho do Banco Central. O choque pode elevar preços administrados, pressionar custos produtivos e contaminar bens e serviços por meio de fretes, energia e insumos.
Esse tipo de pressão é especialmente desafiador porque combina fatores externos, como geopolítica e oferta global de petróleo, com variáveis domésticas, como câmbio, demanda e política de preços.
Para consumidores, o efeito pode aparecer em combustíveis, transporte, alimentos e produtos industrializados. Para empresas, o impacto ocorre em custos logísticos, margens e planejamento de preços.
O relatório do Itaú BBA indica que a trajetória do petróleo será um dos fatores centrais para a inflação de 2026. Se a commodity permanecer em patamar elevado, o IPCA pode ficar mais pressionado e o Banco Central terá menos margem para reduzir a Selic de forma mais agressiva.






