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Brasil e Rússia avançam em sistema próprio de pagamentos e ampliam desdolarização no Brics

Projeto discutido em Brasília busca reduzir dependência do dólar e criar alternativa ao SWIFT nas transações entre os dois países.

por Antônio Lima - Repórter de Economia
03/06/2026 às 18h10
em Economia, Destaque, Notícias
Brasil E Rússia Avançam Em Sistema Próprio De Pagamentos E Ampliam Desdolarização No Brics-Gazeta Mercantil

Brasil e Rússia avançaram nas negociações para criar um sistema bilateral de pagamentos independente, iniciativa que integra a estratégia de desdolarização defendida pelos países do Brics e busca reduzir a dependência do dólar nas transações comerciais entre as duas economias. As discussões ocorreram durante a 13ª reunião da Comissão Intergovernamental Brasil-Rússia, realizada em maio, em Brasília, e ganharam destaque em meio ao esforço das economias emergentes para construir mecanismos financeiros alternativos aos modelos dominados pelo Ocidente.

O projeto prevê a criação de uma infraestrutura própria para liquidação de pagamentos entre os dois países, diminuindo a necessidade de utilização de plataformas financeiras internacionais e reduzindo a exposição a restrições externas. A iniciativa também está alinhada ao desenvolvimento do BRICS Pay, plataforma digital de pagamentos que vem sendo debatida pelo bloco como alternativa para ampliar a integração econômica entre seus integrantes.

A movimentação ocorre em um momento de crescente transformação da geopolítica econômica global. De um lado, países emergentes buscam ampliar sua autonomia financeira. De outro, governos e bancos centrais avaliam formas de reduzir riscos associados à concentração do sistema monetário internacional em torno do dólar.

Para a Gazeta Mercantil, o avanço das negociações entre Brasil e Rússia representa um dos movimentos mais relevantes atualmente em discussão dentro do Brics, tanto pelo potencial econômico quanto pelos efeitos geopolíticos que podem surgir caso o projeto avance para uma fase operacional.

Desdolarização ganha força dentro do Brics

A desdolarização tornou-se um dos temas centrais da agenda econômica do Brics nos últimos anos.

O conceito envolve a redução gradual da dependência do dólar americano em operações comerciais, financeiras e de investimento realizadas entre os países integrantes do bloco. A proposta não significa necessariamente substituir a moeda americana, mas ampliar o uso de moedas locais e criar mecanismos alternativos para liquidação de transações internacionais.

A discussão ganhou força especialmente após o aumento das tensões geopolíticas globais e a adoção de sanções econômicas contra determinados países.

Nesse contexto, governos passaram a avaliar alternativas capazes de reduzir vulnerabilidades externas e ampliar a autonomia de seus sistemas financeiros.

A negociação entre Brasil e Rússia é vista como uma das iniciativas mais concretas dentro desse processo.

Exclusão de bancos russos do SWIFT acelerou busca por alternativas

Um dos principais fatores que impulsionaram a estratégia russa de diversificação financeira foi a exclusão de parte de seus bancos do SWIFT após o início da guerra na Ucrânia em 2022.

O SWIFT é considerado a principal infraestrutura de comunicação financeira internacional, utilizada por milhares de instituições bancárias para transmitir informações relacionadas a transferências globais.

Embora não movimente diretamente os recursos, o sistema funciona como um padrão internacional de comunicação entre bancos e desempenha papel essencial no comércio global.

As restrições impostas à Rússia dificultaram operações financeiras internacionais e estimularam Moscou a acelerar projetos voltados à criação de canais alternativos de pagamentos.

Desde então, o governo russo passou a ampliar negociações bilaterais com parceiros estratégicos e a defender iniciativas multilaterais capazes de reduzir a dependência das estruturas financeiras tradicionais.

É nesse cenário que as conversas com o Brasil ganharam importância crescente.

Sistema bilateral pode facilitar comércio entre Brasil e Rússia

A proposta em discussão prevê a criação de uma rede própria para liquidação financeira entre os dois países.

Na prática, isso permitiria que operações comerciais fossem realizadas com menor dependência de intermediários vinculados ao sistema financeiro internacional tradicional.

Especialistas apontam que mecanismos desse tipo podem reduzir custos operacionais, simplificar transações e ampliar a previsibilidade para empresas exportadoras e importadoras.

Brasil e Rússia mantêm relações comerciais relevantes em diversos segmentos, incluindo fertilizantes, produtos agrícolas, energia e commodities.

Qualquer medida capaz de tornar mais eficiente o fluxo financeiro entre os dois mercados tende a ser acompanhada com atenção pelo setor produtivo.

Além disso, a criação de canais alternativos de pagamento pode aumentar a resiliência das relações comerciais diante de eventuais instabilidades geopolíticas.

BRICS Pay surge como peça estratégica da integração financeira

O avanço das negociações bilaterais ocorre paralelamente ao desenvolvimento do BRICS Pay, projeto que busca criar uma plataforma digital para facilitar pagamentos entre os países do bloco.

A iniciativa vem sendo debatida há vários anos e passou a ganhar relevância à medida que o Brics ampliou sua influência econômica e incorporou novos integrantes.

A proposta pretende permitir que empresas e instituições financeiras realizem transações internacionais com menor dependência das estruturas tradicionais do mercado global.

Embora ainda esteja em fase de desenvolvimento, o BRICS Pay é tratado por integrantes do bloco como um instrumento estratégico para aprofundar a integração econômica.

A expectativa é que futuras soluções digitais possam reduzir custos, aumentar eficiência operacional e ampliar o uso de moedas nacionais em operações comerciais.

Lula reforça defesa de mecanismos financeiros alternativos

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem sido um dos principais defensores da ampliação da cooperação econômica dentro do Brics.

Durante encontros recentes do bloco, Lula voltou a defender mecanismos capazes de fortalecer a autonomia financeira dos países emergentes e ampliar o uso de moedas locais em transações internacionais.

A posição brasileira acompanha uma tendência observada em diferentes economias que buscam diversificar suas reservas, ampliar opções de financiamento e reduzir riscos associados à excessiva concentração monetária.

Apesar disso, especialistas observam que mudanças estruturais no sistema financeiro internacional costumam ocorrer de forma gradual e exigem coordenação política, tecnológica e regulatória entre os países envolvidos.

A implementação de novos mecanismos também depende da adesão de instituições financeiras e do desenvolvimento de infraestrutura compatível com os padrões globais de segurança e eficiência.

Mercado financeiro acompanha possíveis impactos da iniciativa

As discussões sobre desdolarização vêm sendo monitoradas por bancos, gestoras de recursos, exportadores e investidores institucionais.

Embora o dólar continue ocupando posição dominante no comércio internacional e nas reservas globais, movimentos de diversificação passaram a ganhar relevância em diferentes regiões do mundo.

Para empresas que atuam no comércio exterior, a existência de sistemas alternativos de pagamentos pode representar oportunidades de redução de custos e maior flexibilidade operacional.

Por outro lado, especialistas ressaltam que a adoção de novos mecanismos exige adaptações regulatórias, interoperabilidade tecnológica e elevados níveis de confiança institucional.

O sucesso de iniciativas dessa natureza depende da capacidade de garantir eficiência, segurança e aceitação internacional.

Mesmo assim, o avanço das negociações demonstra que a discussão sobre desdolarização deixou de ser apenas uma pauta política e passou a ocupar espaço concreto nas estratégias econômicas de diversos países.

Negociações reforçam protagonismo econômico do Brics

O avanço das tratativas entre Brasil e Rússia reforça o papel crescente do Brics na redefinição das discussões sobre comércio internacional, finanças e governança econômica global.

Ao buscar mecanismos próprios de pagamentos e alternativas ao modelo tradicional de liquidação financeira, os integrantes do bloco ampliam sua influência em um debate que tende a ganhar relevância nos próximos anos.

Na avaliação da Gazeta Mercantil, a negociação em curso representa mais um passo dentro de um processo mais amplo de reorganização das relações econômicas internacionais, marcado pela busca de maior autonomia financeira por parte das economias emergentes.

Embora ainda não exista cronograma público para implementação da rede bilateral de pagamentos, o avanço das conversas entre Brasil e Rússia sinaliza que a desdolarização continuará ocupando posição estratégica na agenda do Brics e nas discussões sobre o futuro do sistema financeiro global.

Tags: BrasilBRICSBRICS Paycomércio internacionaldesdolarizaçãoDólarEconomiageopolítica econômicaLulaRússiaSwift

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