O Brasil pode ocupar uma posição mais relevante na nova ordem global, marcada por crises simultâneas no Oriente Médio, guerra na Ucrânia, disputa tecnológica entre Estados Unidos e China e reorganização das cadeias de energia, alimentos e minerais críticos. A avaliação foi feita por especialistas em clima, energia e geopolítica, que veem o país diante de uma janela estratégica rara, mas dependente de capacidade de execução, pragmatismo e maior articulação entre setor público, setor privado e mercado financeiro.
A discussão ocorre em um momento em que a segurança energética voltou ao centro da agenda internacional. Depois de uma década em que a transição climática dominou parte do debate sobre energia, a escalada de conflitos e a reorganização das alianças globais recolocaram o fornecimento seguro, diversificado e competitivo como prioridade para governos e empresas.
Para Izabella Teixeira, ex-ministra do Meio Ambiente e integrante de conselhos de instituições como o BNDES, o mundo passa por uma ruptura estrutural. Segundo ela, não se trata de uma sequência de crises isoladas, mas de processos simultâneos que redesenham a ordem internacional em ritmo acelerado.
Segurança energética volta ao centro da geopolítica
O retorno da segurança energética ao centro do debate internacional muda a forma como países avaliam seus ativos estratégicos. Petróleo, gás, energia renovável, biocombustíveis, minerais críticos, alimentos e capacidade logística passaram a integrar uma mesma agenda de segurança nacional e competitividade econômica.
Nesse novo ambiente, o Brasil reúne atributos relevantes. O país tem matriz elétrica majoritariamente renovável, produção crescente de petróleo no pré-sal, liderança em biocombustíveis, capacidade agrícola, reservas minerais e posição diplomática de menor atrito em relação a grandes potências.
A combinação desses fatores pode tornar o Brasil mais importante em uma economia global que busca reduzir dependências excessivas. A guerra na Ucrânia expôs a vulnerabilidade europeia diante da dependência energética da Rússia. Ao mesmo tempo, a disputa entre Estados Unidos e China colocou cadeias de semicondutores, baterias, energia limpa e minerais estratégicos no centro das decisões de política industrial.
Para Luciana Antonini Ribeiro, fundadora e CEO da Flying Rivers Capital, a Europa oferece um exemplo dos riscos de concentração. A região reduziu dependência em relação à Rússia, mas passou a ampliar exposição aos Estados Unidos em algumas frentes. A lição, segundo ela, é que países e empresas precisam diversificar geografia e tipos de energia para ganhar estabilidade.
Natureza passa a ser ativo estratégico
A avaliação das especialistas indica que a natureza deixou de ser tratada apenas como tema ambiental e passou a ser vista como ativo geopolítico. Recursos naturais, água, florestas, biodiversidade, capacidade agrícola e minerais críticos ganharam importância em um mundo mais fragmentado.
Izabella Teixeira afirmou que não é possível analisar o cenário global sem considerar minerais críticos e estratégicos. Esses insumos são fundamentais para baterias, veículos elétricos, redes de transmissão, energia renovável, data centers, defesa e tecnologias de baixo carbono.
O Brasil possui reservas relevantes, mas enfrenta gargalos de licenciamento, infraestrutura, regulação e previsibilidade. A ex-ministra chamou atenção para a necessidade de transformar potencial em execução. Segundo ela, não basta o país afirmar que é potência; é preciso realizar trabalho concreto para converter recursos em capacidade econômica e influência internacional.
Essa observação toca em um ponto central da agenda brasileira. O país costuma aparecer em análises globais como beneficiário potencial da transição energética e da demanda por alimentos, mas ainda enfrenta dificuldades para acelerar projetos, atrair investimento de longo prazo e coordenar políticas industriais, ambientais e comerciais.
América Latina ganha prêmio de resiliência
A América Latina começa a ganhar relevância em um cenário global de busca por resiliência. Energia, alimentos e minerais críticos colocam a região no radar de investidores, governos e empresas que querem reduzir concentração de fornecedores.
O Brasil aparece como peça central nesse movimento. Além de escala econômica, o país tem capacidade de produção agrícola, base industrial, mercado interno relevante, matriz energética diversificada e relações diplomáticas com diferentes blocos.
Outro elemento citado pelas especialistas é a paz regional. O Brasil mantém relações diplomáticas com todos os países do mundo e convive de forma pacífica com seus vizinhos há quase 180 anos. Em um período de guerras, sanções e tensões comerciais, a estabilidade institucional e diplomática pode ganhar valor econômico.
Esse fator tende a pesar em decisões de investimento de longo prazo. Projetos de mineração, energia, infraestrutura, alimentos e tecnologia exigem previsibilidade, segurança jurídica e menor risco de interrupção por conflitos.
China dita ritmo da transição energética
A China aparece como ator decisivo na transição energética global. O país domina cadeias de painéis solares, baterias, veículos elétricos, equipamentos e tecnologias associadas à eletrificação. Para Izabella Teixeira, Pequim não avançou em renováveis apenas por convicção climática, mas por estratégia de independência energética e liderança industrial.
Essa leitura é relevante para o Brasil porque qualquer plano de expansão em energia renovável, eletrificação, mobilidade elétrica ou infraestrutura de baixo carbono passa, em alguma medida, por tecnologia chinesa.
O desafio brasileiro será decidir se atuará como parceiro interdependente ou como país dependente de tecnologias, financiamento e cadeias produtivas externas. A diferença entre os dois caminhos está na capacidade de desenvolver indústria local, atrair transferência tecnológica, negociar acordos estratégicos e usar seus recursos naturais como alavanca de barganha.
Luciana Antonini Ribeiro comparou esse movimento ao que ocorreu com os Estados Unidos em décadas anteriores, quando o país saiu de uma condição de dependência energética para a autossuficiência. Essa transformação alterou sua postura internacional e ampliou sua capacidade de negociação.
Brasil precisa ir além do discurso de potência
O Brasil já tomou decisões que aumentaram sua relevância energética, como o desenvolvimento do pré-sal e a expansão da matriz renovável. A questão agora é se conseguirá converter esses ativos em estratégia nacional coordenada.
O país tem vantagens em segurança alimentar, energética e mineral, mas enfrenta entraves recorrentes. Entre eles estão lentidão no licenciamento, insegurança regulatória, baixa coordenação entre políticas públicas, gargalos logísticos e dificuldade de transformar inovação em escala industrial.
A frase de Izabella Teixeira sobre licenciamento de minas resume parte do problema: se o país leva 15 anos para autorizar um projeto estratégico, perde a janela de oportunidade. Em um mundo que se reorganiza rapidamente, atraso regulatório pode significar perda de investimento, mercado e influência.
Ao mesmo tempo, acelerar não significa eliminar critérios ambientais ou sociais. O desafio está em criar processos mais previsíveis, técnicos e eficientes, capazes de conciliar proteção ambiental, consulta adequada, segurança jurídica e desenvolvimento econômico.
Setor financeiro terá papel decisivo
O setor financeiro é uma das peças centrais nessa agenda. A transição para uma economia mais resiliente exigirá capital em larga escala para energia, transmissão, mineração, biocombustíveis, agricultura de baixo carbono, adaptação climática, infraestrutura hídrica e inovação tecnológica.
Para Izabella Teixeira, se o setor financeiro não fizer um realinhamento sobre como quer participar desse novo jogo, corre o risco de repetir modelos antigos e perder relevância. A avaliação aponta para a necessidade de instrumentos financeiros mais conectados à economia real e à resiliência climática.
Isso inclui financiamento de longo prazo, seguros, fundos de infraestrutura, crédito para cadeias produtivas, instrumentos de mercado de capitais e estruturas capazes de atrair investidores globais. O Brasil tem condições de ser destino relevante desse capital, mas precisa oferecer projetos estruturados, governança e previsibilidade.
A agenda também exige participação ativa de empresas. Companhias dos setores de energia, mineração, alimentos, tecnologia, logística e infraestrutura terão de adaptar estratégias a um ambiente em que segurança de fornecimento, pegada ambiental e geopolítica passam a influenciar decisões de investimento.
Retrocesso científico nos EUA abre espaço para outros atores
Outro ponto destacado no debate é a redução do protagonismo científico dos Estados Unidos em temas climáticos. Izabella Teixeira afirmou que a interrupção de pesquisas, o desmonte de equipes e a saída de cientistas podem produzir efeitos duradouros.
A ciência climática é essencial para modelar riscos, orientar investimentos, prever eventos extremos e apoiar decisões em setores como energia, seguros, agricultura, infraestrutura e finanças. Quando um país reduz sua capacidade científica, abre espaço para que outros atores ocupem liderança técnica e política.
Para o Brasil, esse movimento representa oportunidade e risco. O país tem base científica relevante em clima, agricultura tropical, biodiversidade, energia renovável e monitoramento ambiental. No entanto, precisa preservar capacidade de pesquisa, financiar instituições e aproximar ciência de política pública e mercado.
Sem esse elo, o país pode ser visto apenas como fornecedor de recursos naturais, e não como protagonista de uma nova economia baseada em conhecimento, tecnologia e resiliência.
Janela brasileira pode se fechar rapidamente
A oportunidade brasileira não é permanente. A reorganização global está em andamento, e outros países também disputam espaço nas cadeias de energia, alimentos e minerais críticos. Quem se posicionar primeiro tende a capturar investimentos, tecnologia e influência.
O Brasil precisa definir com clareza onde quer atuar. Pode ser fornecedor de commodities estratégicas, plataforma de energia limpa, potência agrícola de baixo carbono, polo de minerais críticos, centro de biocombustíveis, hub de hidrogênio ou parceiro industrial em cadeias globais. A escolha mais forte seria combinar essas frentes em uma estratégia integrada.
Para isso, o país terá de abandonar a lógica de abundância passiva. Ter recursos naturais já não basta. A nova ordem global premia quem consegue transformar recursos em segurança, tecnologia, produtividade, diplomacia econômica e contratos de longo prazo.
A posição brasileira é favorável, mas depende de execução. Em meio à disputa entre Estados Unidos e China, à crise energética global e à busca por resiliência, o Brasil pode se tornar mais indispensável. O custo da inação, porém, é assistir a janela histórica se fechar enquanto outros países ocupam o espaço.









