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Guerra no Oriente Médio faz bancos centrais endurecerem discurso e reduz apostas de cortes de juros

Petróleo acima de US$ 100 alterou projeções de inflação e levou Fed, BCE, Japão e Brasil a reverem expectativas para a política monetária.

por Camila Braga
18/06/2026 às 12h47
em Economia
Banco Mundial Corta Projeção Da Economia Global E Alerta Para Pior Crescimento Desde A Pandemia-Gazeta Mercantil

Reprodução

A instabilidade geopolítica provocada pela guerra no Oriente Médio alterou significativamente o cenário da política monetária global e levou bancos centrais das principais economias do mundo a adotar uma postura mais cautelosa em relação aos juros. O aumento dos preços do petróleo, que chegou a levar o barril acima de US$ 100 durante o conflito, elevou as preocupações com a inflação e reduziu o espaço para cortes nas taxas de juros que eram amplamente esperados no início de 2026.

Nas últimas semanas, autoridades monetárias da Europa, Estados Unidos, Japão e Reino Unido passaram a enfatizar riscos inflacionários mais elevados, enquanto algumas instituições já iniciaram movimentos de aperto monetário ou sinalizaram que poderão elevar juros nos próximos meses. O movimento representa uma mudança relevante em relação ao cenário observado no início do ano, quando predominava a expectativa de inflação mais comportada e de flexibilização monetária em escala global.

A mudança de tom ocorre em meio aos impactos econômicos do conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e aliados no Oriente Médio, região responsável por parcela significativa da produção mundial de petróleo. A disparada das commodities energéticas ampliou preocupações com combustíveis, logística, fertilizantes e custos industriais, reacendendo temores sobre uma nova onda inflacionária internacional.

Economistas avaliam que a guerra alterou de forma abrupta as projeções de inflação e crescimento para os próximos trimestres, exigindo reação dos bancos centrais diante da possibilidade de persistência das pressões sobre os preços.

Petróleo volta ao centro das decisões de política monetária

O petróleo tornou-se novamente um dos principais fatores de influência sobre a condução da política monetária global.

Durante o auge das tensões no Oriente Médio, o barril da commodity ultrapassou a marca de US$ 100, refletindo preocupações do mercado com possíveis interrupções no fornecimento global de energia. O movimento ocorreu principalmente devido aos riscos envolvendo o Estreito de Ormuz, corredor estratégico por onde passa aproximadamente 20% do petróleo consumido no planeta.

Embora o recente acordo firmado entre Estados Unidos e Irã tenha contribuído para reduzir parte da pressão sobre os preços internacionais, investidores e autoridades monetárias seguem monitorando os efeitos acumulados da crise sobre a inflação.

O encarecimento da energia afeta diretamente combustíveis, transporte e produção industrial. Além disso, os custos mais elevados de fertilizantes tendem a pressionar cadeias agrícolas e alimentos, ampliando os efeitos inflacionários em diferentes economias.

Para os bancos centrais, esse cenário cria um desafio adicional. A inflação decorrente de choques de oferta costuma responder de forma mais lenta aos instrumentos tradicionais de política monetária, exigindo maior cautela na definição dos juros.

Banco do Japão surpreende com maior taxa em três décadas

Entre as principais economias globais, o movimento mais expressivo ocorreu no Japão.

O Banco do Japão elevou sua taxa básica para 1% ao ano, atingindo o maior patamar em 31 anos. A decisão representa mais um passo na normalização monetária iniciada após décadas de juros extremamente baixos e políticas de estímulo adotadas para combater a estagnação econômica.

A autoridade monetária japonesa justificou a medida citando o aumento dos custos de energia e o fortalecimento das pressões inflacionárias.

A decisão reforçou a percepção de que o choque provocado pelo petróleo está afetando inclusive economias tradicionalmente associadas a baixos índices de inflação.

O movimento também chamou a atenção dos mercados porque ocorre em um país que, durante muitos anos, foi referência global em políticas monetárias expansionistas.

Banco Central Europeu interrompe ciclo de flexibilização

Na Europa, o Banco Central Europeu (BCE) também alterou sua estratégia.

Na semana passada, a instituição elevou os juros em 0,25 ponto percentual, levando a taxa para 2,25% ao ano. Foi a primeira alta promovida pelo BCE desde 2023.

A decisão surpreendeu parte do mercado, que ainda trabalhava com a possibilidade de novos cortes diante da desaceleração econômica observada em algumas economias do bloco.

Segundo analistas, a escalada dos preços de energia e o aumento dos riscos inflacionários decorrentes da guerra levaram a autoridade monetária europeia a reavaliar suas projeções.

O endurecimento do discurso do BCE é visto como um dos sinais mais claros de que a inflação voltou a ocupar posição central nas preocupações das autoridades monetárias globais.

Para investidores, a decisão representa uma mudança importante na precificação dos ativos financeiros, especialmente títulos públicos e mercados acionários da região.

Federal Reserve mantém juros, mas reforça discurso duro

Nos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed) decidiu manter sua taxa básica entre 3,50% e 3,75% ao ano, mas o comunicado divulgado após a reunião trouxe sinais de maior preocupação com a inflação.

As projeções apresentadas pelos dirigentes indicam que parte significativa dos membros da instituição considera necessário elevar os juros ainda em 2026.

Cinco integrantes do comitê enxergam taxas entre 4% e 4,25% ao ano até o fim do período. Outros três projetam juros entre 3,75% e 4%, enquanto um dirigente prevê taxas entre 4,25% e 4,5%.

O posicionamento representa uma mudança relevante em relação ao início do ano, quando predominava a expectativa de cortes ao longo de 2026.

A manutenção de juros elevados nos Estados Unidos tem reflexos diretos sobre mercados emergentes, incluindo o Brasil. Taxas mais altas na maior economia do mundo tendem a fortalecer o dólar, aumentar o custo de financiamento global e reduzir o fluxo de recursos para ativos considerados mais arriscados.

Copom corta Selic, mas reforça incertezas externas

No Brasil, o Comitê de Política Monetária (Copom) optou por manter o ciclo de flexibilização monetária, embora tenha adotado um discurso claramente cauteloso.

Na quarta-feira, o Banco Central reduziu a Selic pela terceira reunião consecutiva, levando a taxa de 14,50% para 14,25% ao ano.

Apesar do corte, o comunicado enfatizou que o ambiente internacional continua cercado de incertezas e que os desdobramentos do conflito no Oriente Médio permanecem no radar da autoridade monetária.

Segundo o Copom, ainda há indefinições relevantes sobre os termos do acordo para encerrar as hostilidades na região e sobre os efeitos econômicos já provocados pelo conflito.

A avaliação é de que os impactos sobre condições financeiras globais, preços de commodities e expectativas de inflação continuam exigindo acompanhamento constante.

O tom adotado pela instituição reforçou a percepção de que o espaço para cortes mais agressivos da Selic diminuiu consideravelmente em comparação com o cenário projetado no início do ano.

Mercado reduz apostas para queda dos juros brasileiros

A mudança no ambiente global já vem alterando as expectativas dos agentes econômicos em relação à trajetória da Selic.

No início de 2026, parte relevante do mercado trabalhava com a possibilidade de a taxa básica encerrar o ano em torno de 12,25%.

Com a piora do cenário inflacionário, entretanto, as projeções passaram por revisões sucessivas.

Atualmente, as estimativas apontam para uma Selic próxima de 13,75% ao final do ano, embora existam avaliações de que a taxa possa permanecer ao redor de 14%.

A mudança reflete não apenas os impactos da guerra sobre os preços internacionais, mas também a persistência de pressões inflacionárias domésticas.

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulou alta de 4,72% em 12 meses até maio, ultrapassando o teto da meta contínua perseguida pelo Banco Central.

Além disso, as projeções para os próximos anos continuam se deteriorando. As estimativas de mercado apontam inflação de 4,10% em 2027 e de 3,68% em 2028, níveis superiores ao centro da meta oficial de 3%.

Reabertura do Estreito de Ormuz será decisiva para os próximos movimentos

Embora o acordo firmado entre Estados Unidos e Irã tenha reduzido parte das tensões nos mercados, economistas destacam que a evolução do cenário dependerá da implementação efetiva dos termos negociados.

A principal atenção está voltada para a normalização das operações no Estreito de Ormuz, considerado um dos corredores energéticos mais estratégicos do mundo.

Qualquer atraso na retomada integral do fluxo de petróleo poderá manter os preços elevados por mais tempo e ampliar as dificuldades enfrentadas pelos bancos centrais.

Mesmo em um cenário de estabilização dos preços da energia, outras ameaças continuam no radar das autoridades monetárias.

A possibilidade de ocorrência de um super El Niño, com impactos sobre a produção agrícola global, adiciona novos riscos para alimentos e inflação. No Brasil, medidas de estímulo à atividade econômica também são observadas com cautela por parte do mercado financeiro devido ao potencial efeito sobre a demanda e os preços.

Nesse ambiente, a trajetória dos juros continuará sendo determinada por uma combinação de fatores geopolíticos, energéticos e inflacionários, consolidando o petróleo e o Oriente Médio como variáveis centrais para as decisões de política monetária ao redor do mundo.

Tags: Banco Central EuropeuBanco do Japãobancos centraisCopomEconomiaFederal ReserveinflaçãojurosOriente Médio.PetróleoSelic

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