O Goldman Sachs reiterou a recomendação de compra para as ações da Axia Energia (AXIA3) e manteve a companhia como sua principal escolha entre as empresas de geração de energia elétrica. A avaliação foi reforçada após uma reunião com Élio Wolff, vice-presidente executivo apontado formalmente como potencial sucessor de Ivan Monteiro no comando da empresa.
O banco manteve o preço-alvo de R$ 67 para AXIA3. O valor representa potencial de valorização próximo de 23% em relação à cotação de referência adotada pelo Goldman. Na manhã desta quinta-feira (2), por volta das 10h53, os papéis avançavam 1,69%, negociados a R$ 54,88.
As avaliações atribuídas ao Goldman foram divulgadas pelo InfoMoney, que teve acesso às conclusões do encontro. O relatório integral do banco não é público.
A preferência pela Axia está apoiada principalmente na exposição da companhia à valorização da energia, na parcela de sua capacidade de geração que ainda não foi contratada para os próximos anos e na expectativa de uma política disciplinada de alocação do caixa.
Segundo o banco, a combinação de dividendos, resgate ou recompra de ações poderá proporcionar um retorno ao acionista entre 10% e 12% em 2026 e 2027. Trata-se de uma estimativa construída pelo Goldman, sujeita às decisões futuras da companhia e às condições do mercado.
O banco também calcula uma taxa interna de retorno real do patrimônio próxima de 12%. A TIR, nesse contexto, representa uma estimativa de retorno implícito calculada a partir do valor dos ativos, da geração projetada de caixa e do preço atual das ações. O indicador não equivale a uma rentabilidade garantida.
Axia pode capturar preços mais elevados da energia
Um dos principais argumentos do Goldman é que a Axia possui uma parcela maior de energia disponível para contratação futura do que outras geradoras acompanhadas pelo banco.
Essa característica aumenta a sensibilidade da empresa aos preços de mercado. Quando os valores da energia sobem, uma companhia com capacidade ainda não contratada pode negociar novos contratos em condições mais favoráveis ou direcionar parte da produção ao mercado de curto prazo.
A estratégia também envolve riscos. A exposição a volumes descontratados pode ampliar os resultados em períodos de preços elevados, mas deixa a companhia mais dependente das condições hidrológicas, da formação do Preço de Liquidação das Diferenças, o PLD, e do comportamento da oferta e da demanda no Sistema Interligado Nacional.
Os números do primeiro trimestre de 2026 ajudam a mostrar essa sensibilidade. A margem de contribuição da energia vendida no Ambiente de Contratação Livre e liquidada no Mercado de Curto Prazo alcançou R$ 4,6 bilhões, ante R$ 899 milhões no mesmo período de 2025.
A margem unitária desse conjunto de operações chegou a R$ 171 por megawatt-hora. Segundo a Axia, o desempenho foi favorecido pelo aumento do volume disponível após a descotização das usinas renovadas no processo de privatização, pela redução das diferenças de preços entre os submercados e pela elevação do PLD. o permite que uma parcela crescente da energia antes remunerada pelo regime de cotas seja comercializada em condições de mercado. Esse processo é um dos pilares da transformação financeira da antiga Eletrobras e amplia a exposição dos resultados da Axia aos preços da energia.
O Goldman considera que parte dos agentes do setor ainda não incorporou integralmente a possibilidade de um ambiente estruturalmente mais favorável para os preços. Por essa razão, a administração não demonstraria intenção de contratar antecipadamente toda a energia disponível.
Manter parte do portfólio descontratada preserva a oportunidade de capturar preços mais elevados. Em contrapartida, aumenta a importância da inteligência comercial, da gestão de riscos e da capacidade de reagir rapidamente às mudanças do mercado.
Retorno ao acionista depende da alocação de capital
A administração reiterou ao Goldman que pretende combinar crescimento, disciplina financeira e remuneração aos acionistas. A definição sobre o uso dos recursos deverá ser revista periodicamente, considerando oportunidades de investimento, aquisições e condições de mercado.
No curto prazo, parte relevante da estratégia envolve as ações preferenciais classe C, conhecidas como PNC e negociadas sob o ticker AXIA7.
O Conselho de Administração aprovou a alocação de até R$ 4 bilhões para o resgate dessas ações ao longo de 2026. O montante representa um limite autorizado, e não significa que todo o valor já tenha sido distribuído ou desembolsado.
A companhia informou que a utilização do capital será reavaliada trimestralmente. Cada operação de resgate ou conversão também dependerá de deliberação específica do conselho. xia iniciou uma operação-piloto envolvendo 576.923 ações PNC, equivalente a R$ 30 milhões e a 0,0951% dessa classe de papéis.
Os acionistas abrangidos pela operação puderam optar pela conversão das ações PNC em ordinárias, na proporção de uma para uma, em vez do recebimento do valor de resgate. A conversão estava prevista para 1º de julho, enquanto o pagamento das ações efetivamente resgatadas foi marcado para 7 de julho.
A realização inicial em valor reduzido teve como objetivo testar os procedimentos operacionais antes de movimentações de maior dimensão. Goldman, o mecanismo pode funcionar como uma forma relevante de devolução de capital. Caso a Axia não encontre projetos ou aquisições que ofereçam retorno adequado, o caixa excedente poderá ser direcionado aos acionistas ao longo do tempo.
A afirmação, entretanto, não constitui compromisso de pagamento. O volume efetivamente devolvido dependerá da geração de caixa, dos investimentos, das condições de financiamento, das oportunidades de expansão e das decisões do conselho.
Sucessão de Ivan Monteiro entra no radar dos investidores
A reunião com o Goldman também colocou em destaque o processo de sucessão na presidência da Axia.
Élio Wolff passou a ocupar a vice-presidência executiva em 1º de junho de 2026. O cargo tem caráter transitório e foi criado como parte de um processo estruturado para a substituição de Ivan Monteiro.
A conclusão da sucessão está prevista para 1º de maio de 2027, após o encerramento do mandato de Monteiro em 30 de abril. Até lá, Wolff será avaliado como potencial sucessor e participará diretamente da condução das principais áreas operacionais e estratégicas.
Engenheiro eletricista com especialização em finanças, Wolff construiu parte significativa da carreira na Engie. Na empresa francesa, exerceu funções ligadas a desenvolvimento de negócios, estratégia e finanças, até assumir a posição de responsável global por fusões e aquisições em Paris.
Ele ingressou na antiga Eletrobras em 2022, após a capitalização da companhia, e assumiu a vice-presidência de Estratégia e Desenvolvimento de Negócios. Desde então, participou de operações de venda, aquisição e reorganização de ativos destinadas a simplificar a estrutura societária e fortalecer o caixa. lanejada reduz o risco de uma mudança abrupta de comando, mas não elimina as incertezas. O mercado acompanhará a continuidade da estratégia, a composição da equipe executiva e a forma como a futura administração equilibrará investimentos, crescimento e remuneração dos acionistas.
Tecnologia e inteligência comercial ganham prioridade
De acordo com a avaliação divulgada pelo Goldman, Wolff indicou três frentes prioritárias para os próximos anos: gestão de pessoas, comercialização de energia e alocação de capital.
Na área de pessoas, a empresa pretende aprofundar a mudança cultural iniciada após a privatização, ampliar a capacidade de atração de profissionais e buscar novos ganhos de eficiência.
A companhia já promoveu uma reestruturação de despesas com pessoal, materiais, serviços e outros custos operacionais. No primeiro trimestre de 2026, o PMSO regulatório ajustado, excluídos determinados custos não gerenciáveis da geração, recuou 4,5% na comparação anual, para R$ 1,37 bilhão.
Na comercialização, a prioridade será investir em tecnologia, análise de dados e inteligência de mercado. A volatilidade dos preços e a ampliação do mercado livre exigem ferramentas capazes de avaliar contratos, riscos hidrológicos, diferenças entre submercados e oportunidades no mercado de curto prazo.
A gestão comercial tornou-se ainda mais importante depois da descotização. À medida que mais energia passa a ser negociada em condições de mercado, decisões sobre prazos, preços e volumes contratados exercem impacto crescente nos resultados.
Transmissão forma a base do crescimento orgânico
Na alocação de capital, a transmissão aparece como um dos principais caminhos de crescimento orgânico.
A Axia encerrou o primeiro trimestre com 286 empreendimentos de transmissão em implantação. A empresa estima que esses projetos possam adicionar R$ 2 bilhões em Receita Anual Permitida entre 2026 e 2030, com investimentos totais projetados em R$ 15,1 bilhões.
Somente no primeiro trimestre, os investimentos da companhia somaram R$ 1,36 bilhão, alta de 36% em relação ao mesmo período de 2025. Os aportes em ampliação da transmissão avançaram de R$ 54 milhões para R$ 263 milhões, enquanto reforços e melhorias receberam R$ 691 milhões. oferece receitas reguladas e relativamente previsíveis, o que pode ajudar a equilibrar a maior volatilidade da geração exposta aos preços da energia.
A companhia também arrematou 190 megawatts no Leilão de Reserva de Capacidade de 2026. O projeto prevê investimento próximo de R$ 1 bilhão em uma nova unidade geradora na Usina Hidrelétrica Luiz Gonzaga, com início de suprimento projetado para agosto de 2031.
Segundo o Goldman, outras oportunidades avaliadas pela administração incluem novos leilões de transmissão, sistemas de armazenamento por baterias, hidrelétricas reversíveis, concessões de usinas com contratos vencidos e aquisições oportunísticas no setor de energia renovável.
Essas possibilidades não devem ser interpretadas como projetos já aprovados. A concretização dependerá das condições dos leilões, dos retornos esperados, das autorizações regulatórias e da disciplina de capital adotada pela empresa.
O que pode alterar a tese do Goldman
A manutenção da recomendação de compra não elimina os riscos para AXIA3.
A tese depende, em parte, da permanência dos preços da energia em níveis favoráveis. Uma melhora relevante das condições hidrológicas, mudanças na oferta ou alterações na regulação podem reduzir os valores negociados no mercado.
Também existem riscos de execução nos investimentos de transmissão, de aumento de custos, de atrasos em licenças e de retornos abaixo do projetado em aquisições ou novos projetos.
A forma como a companhia utilizará os R$ 4 bilhões de capital alocável será outro ponto observado. O retorno aos acionistas poderá ficar abaixo das estimativas do Goldman caso a Axia priorize investimentos ou identifique oportunidades de expansão consideradas mais atrativas.
O preço-alvo de R$ 67 representa a avaliação do Goldman Sachs com base em premissas próprias. Mudanças nos preços da energia, nas taxas de juros, na regulamentação, nos resultados da empresa ou no cenário macroeconômico podem alterar essa estimativa.
A recomendação do banco não constitui garantia de valorização nem substitui a análise individual dos riscos envolvidos em um investimento.









