A confiança da indústria brasileira caiu em julho ao menor nível desde junho de 2020, período em que o setor ainda enfrentava o choque inicial da pandemia. O Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI), calculado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), recuou 2,3 pontos ante junho, de 46,7 para 44,4 pontos, com piora na avaliação do ambiente econômico e das perspectivas para os próximos seis meses.
Foi a segunda queda mensal consecutiva. Com o resultado, a confiança da indústria permaneceu pelo 19º mês seguido abaixo dos 50 pontos, linha que separa confiança de falta de confiança na metodologia da CNI. Quanto mais distante o indicador fica desse patamar, maior e mais disseminado é o pessimismo entre os empresários consultados.
O ICEI de julho ficou 8,9 pontos abaixo de sua média histórica, de 53,3 pontos. Também recuou 2,9 pontos em relação a julho de 2025, quando marcava 47,3 pontos. O último resultado inferior havia sido registrado em junho de 2020, quando o índice chegou a 41,2 pontos.
A deterioração ocorre no início do segundo semestre, quando as empresas definem parte relevante dos planos de produção, contratação, formação de estoques e investimento para os meses seguintes. Por funcionar como indicador antecedente da atividade, a confiança da indústria tende a sinalizar mudanças de comportamento antes que elas apareçam integralmente nos dados de produção e emprego.
Expectativas registram a maior queda desde novembro de 2022
O principal fator por trás do recuo do ICEI foi a piora das expectativas. O índice que mede a visão dos empresários para os seis meses seguintes caiu 3,1 pontos, de 48,9 para 45,8 pontos.
Foi a maior queda mensal desde novembro de 2022, quando o componente havia recuado 10,8 pontos. A distância em relação aos 50 pontos mostra que as expectativas negativas deixaram de se limitar à economia nacional e passaram a alcançar, com maior intensidade, o desempenho projetado pelas empresas para suas próprias operações.
O componente referente à economia brasileira caiu 3,8 pontos em julho, de 41 para 37,2 pontos. Trata-se do resultado mais fraco entre todos os indicadores que compõem o ICEI e de um sinal de pessimismo acentuado com o ambiente macroeconômico.
A expectativa para as próprias empresas recuou 2,7 pontos, de 52,8 para 50,1 pontos. Embora tenha permanecido ligeiramente acima da linha divisória, o indicador praticamente eliminou o otimismo que ainda resistia nos meses anteriores. Em julho de 2025, esse componente estava em 54,3 pontos.
A diferença entre a percepção sobre a economia e a visão relativa aos próprios negócios é comum em pesquisas empresariais. Uma companhia pode manter carteira de pedidos, produção ou faturamento em níveis administráveis no curto prazo, mas reduzir investimentos quando percebe riscos mais amplos para juros, demanda, crédito e custos.
O dado de julho mostra que essa proteção relativa começou a diminuir. Caso a expectativa sobre as próprias empresas caia abaixo dos 50 pontos, a confiança da indústria poderá sofrer nova pressão, com reflexos mais diretos sobre decisões de contratação e ampliação da capacidade produtiva.
Condições atuais seguem piores que as de seis meses atrás
A avaliação das condições correntes também se deteriorou, embora em ritmo menor. O Índice de Condições Atuais caiu 0,7 ponto, de 42,3 para 41,6 pontos.
O resultado indica que os empresários industriais consideram a situação da economia e de suas empresas pior do que a observada seis meses antes. O componente está abaixo dos 50 pontos desde 2023 e permanece distante da média histórica.
A percepção sobre a economia brasileira recuou 1,3 ponto, para 34,7 pontos. Já a avaliação das próprias empresas caiu 0,3 ponto, para 45,1 pontos.
A diferença de 10,4 pontos entre os dois indicadores confirma que a avaliação do ambiente macroeconômico é significativamente mais negativa que a percepção sobre as fábricas. Ainda assim, a leitura das condições empresariais também se encontra na zona de deterioração.
A pesquisa ouviu 1.118 empresas entre 1º e 7 de julho. A amostra reuniu 442 companhias de pequeno porte, 411 médias e 265 grandes indústrias. O documento foi concluído pela CNI em 10 de julho.
A participação expressiva de pequenas e médias empresas ajuda a dimensionar o alcance do pessimismo. Esses negócios costumam ter menor acesso ao mercado de capitais, menor capacidade de absorver aumentos de custos e maior dependência de crédito bancário para financiar estoques, capital de giro e investimentos.
Produção industrial perde força após quatro meses de alta
A queda da confiança da indústria coincide com sinais de perda de tração na produção. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a atividade industrial recuou 0,2% em maio ante abril, interrompendo quatro meses consecutivos de crescimento.
Na comparação com maio de 2025, a produção avançou apenas 0,2%. No acumulado dos cinco primeiros meses de 2026, houve crescimento de 1,4%. Em 12 meses, a expansão foi de 0,4%.
O quadro revela uma indústria ainda acima do nível do ano anterior, mas com ritmo limitado e desempenho bastante desigual entre os segmentos. Em maio, apenas oito dos 25 ramos pesquisados apresentaram crescimento na comparação anual, enquanto 17 registraram retração.
Na passagem de abril para maio, três das quatro grandes categorias econômicas tiveram queda. A produção de bens de consumo semi e não duráveis recuou 1,3%, enquanto bens intermediários caíram 0,4% e bens de capital diminuíram 0,2%. Bens de consumo duráveis foram a única categoria em alta, com avanço de 3,6%.
Entre os setores, as principais pressões negativas vieram de coque, derivados de petróleo e biocombustíveis, com queda de 6,1%, e das indústrias extrativas, com retração de 2,6%. Produtos alimentícios, têxteis e equipamentos de informática também recuaram.
Na direção oposta, houve crescimento na fabricação de produtos farmacêuticos, veículos, produtos químicos, metalurgia e máquinas e equipamentos. A composição dos resultados indica que a atividade permanece sustentada por um grupo restrito de segmentos, sem recuperação disseminada por toda a indústria.
Bens de capital acumulam queda de 6,2% no ano
O desempenho dos bens de capital reforça a cautela em relação aos investimentos. A categoria, que reúne máquinas e equipamentos destinados à ampliação ou modernização da produção, caiu 6,7% em maio frente ao mesmo mês de 2025.
No acumulado de janeiro a maio, a retração chegou a 6,2%. Foi a única das quatro grandes categorias econômicas com resultado negativo no período.
A queda foi puxada principalmente pelos bens de capital agrícolas, cuja produção recuou 16,9% nos cinco primeiros meses, e pelos equipamentos de uso misto, com redução de 15,7%. A fabricação de bens de capital para fins industriais diminuiu 4,5%.
A contração nesse segmento possui efeito duplo. No curto prazo, reduz as encomendas para fabricantes de máquinas, equipamentos e componentes. Em um horizonte mais longo, pode limitar os ganhos de produtividade e a expansão da capacidade instalada das empresas compradoras.
A combinação entre confiança da indústria em queda e menor produção de bens de capital sugere que o setor produtivo está mais seletivo na alocação de recursos. Projetos com retorno demorado ou maior dependência de financiamento tendem a ser reavaliados diante de incerteza elevada.
Faturamento e horas trabalhadas confirmam perda de impulso
Os Indicadores Industriais da CNI mostram que a atividade da indústria de transformação também perdeu dinamismo em outras frentes. O faturamento real cresceu apenas 0,2% entre abril e maio, variação classificada pela entidade como estabilidade.
Nos cinco primeiros meses de 2026, o faturamento acumulou queda de 2,7% em relação ao mesmo período do ano anterior. O resultado contrasta com a sequência de variações mensais positivas e mostra que a recuperação recente ainda não compensou integralmente as perdas anteriores.
As horas trabalhadas na produção ficaram estáveis em maio, após queda de 1,3% em abril. Na comparação anual, recuaram 2,2%. No acumulado de janeiro a maio, a redução foi de 1,6%.
O emprego industrial subiu 0,5% em maio, interrompendo duas quedas consecutivas. Mesmo assim, o número de postos de trabalho ficou 0,6% abaixo do observado em maio de 2025 e também acumulou retração de 0,6% nos cinco primeiros meses do ano.
A utilização da capacidade instalada avançou de 77,1% para 77,5%, mas permaneceu abaixo do nível do ano anterior. O uso médio do parque fabril entre janeiro e maio ficou 0,9 ponto percentual inferior ao registrado no mesmo período de 2025.
Os números mostram que a indústria ainda possui capacidade ociosa para atender a uma eventual retomada da demanda. Essa condição reduz a necessidade imediata de novas fábricas ou ampliações e ajuda a explicar o enfraquecimento das encomendas de bens de capital.
Juros mantêm crédito e decisões de investimento sob pressão
O custo do crédito permanece no centro das preocupações empresariais. Em junho, o Comitê de Política Monetária do Banco Central reduziu a taxa Selic para 14,25% ao ano, mas manteve a política monetária em patamar contracionista.
A ata do Copom reconheceu que o período prolongado de juros elevados produziu efeitos sobre a desaceleração da atividade. O Banco Central também indicou que a magnitude do ciclo de redução continuará condicionada à evolução da inflação e dos riscos do cenário econômico.
Para a indústria, os juros elevados afetam diferentes pontos da operação. Eles encarecem o financiamento de máquinas, aumentam o custo de carregamento de estoques, pressionam empresas endividadas e reduzem a demanda por produtos comprados a prazo, como veículos, eletrodomésticos e materiais de construção.
Consulta empresarial da CNI mostrou que 56% das empresas que esperavam aumento da necessidade de financiamento de contas a receber também projetavam elevação dos juros dessas operações. No crédito para estoques, a proporção chegou a 63%.
A manutenção de condições financeiras restritivas tende a atingir com maior força as empresas menores. Além de pagarem taxas mais elevadas, essas companhias dispõem de menos alternativas para substituir o crédito bancário por emissão de dívida ou captação no mercado.
Pessimismo ameaça contaminar produção e emprego no segundo semestre
A confiança da indústria não mede diretamente a quantidade produzida, o faturamento ou o número de trabalhadores empregados. Seu impacto está na capacidade de antecipar mudanças de comportamento.
Quando o pessimismo se prolonga, empresas tendem a reduzir compras de insumos, rever turnos, adiar contratações e preservar caixa. Investimentos de longo prazo são particularmente sensíveis à confiança porque exigem expectativa de demanda suficiente para remunerar o capital comprometido.
O resultado de julho não significa que a indústria entrará necessariamente em recessão. A produção ainda acumula crescimento de 1,4% em 2026 e alguns segmentos, como veículos e produtos farmacêuticos, registram desempenho positivo.
O risco está na convergência de indicadores. A confiança da indústria caiu ao menor nível em seis anos; os bens de capital acumulam retração; o faturamento está abaixo do resultado do ano passado; e as horas trabalhadas continuam menores na comparação anual.
A evolução dos próximos meses dependerá da intensidade da redução dos juros, da recuperação da demanda doméstica e da capacidade das empresas de recompor margens sem interromper investimentos. Até que esses fatores mostrem melhora consistente, os 44,4 pontos do ICEI colocam a indústria brasileira em posição defensiva no início do segundo semestre.










