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Assessoria de investimentos domina registros na CVM, enquanto fee fixo ganha espaço no Brasil

Dados da CVM mostram vantagem de escala da assessoria, enquanto 60,6 milhões de brasileiros ampliam a demanda por orientação financeira.

por João Souza
14/07/2026 às 12h59
em Negócios
Brasil Registra Dez Assessores Por Consultor, Mas Fee Fixo Avança No Mercado - Gazeta Mercantil

O mercado brasileiro registrou 20.273 novos assessores de investimentos entre 2020 e julho de 2026, ante 1.994 consultores de valores mobiliários pessoas físicas no mesmo intervalo, uma relação de aproximadamente dez para um. O levantamento, elaborado a partir do Cadastro de Participantes da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), mostra que a assessoria de investimentos permanece como o principal canal profissional de acesso ao mercado de capitais, embora a consultoria avance impulsionada pelo modelo de honorários recorrentes, pelos juros reais elevados e pela busca de investidores por maior previsibilidade de custos.

A diferença de escala relativiza a percepção de uma migração generalizada da assessoria de investimentos para a consultoria. O movimento existe e ganhou força nos últimos anos, mas representa uma parcela limitada diante do volume de novos profissionais que continuam ingressando na atividade de assessor.

Entre 2020 e 2025, o número anual de novos registros de consultores pessoas físicas avançou de 115 para 533, crescimento superior a 360%. O dado de 2026 é parcial e, por isso, não pode ser comparado diretamente com os anos completos da série.

O avanço também aparece nos números consolidados da CVM. Ao final de 2025, a autarquia contabilizava 2.635 participantes registrados na categoria de consultoria de valores mobiliários, incluindo pessoas físicas e jurídicas. O total cresceu 27,3% em um ano, a maior expansão entre as categorias acompanhadas pelo regulador.

Consultoria cresce, mas assessoria mantém vantagem de escala

A aceleração da consultoria não eliminou a distância em relação à assessoria de investimentos. A atividade de assessor continua sustentada pela expansão das plataformas de investimento, pela capilaridade dos escritórios vinculados a corretoras e bancos e pela possibilidade de integrar atendimento, distribuição de produtos e execução de ordens em uma única relação comercial.

Na prática, o assessor de investimentos atua como representante de uma instituição integrante do sistema de distribuição. Seu trabalho inclui apresentar produtos, fornecer informações, captar clientes, receber e transmitir ordens, além de prestar suporte comercial dentro dos limites definidos pela regulação.

O consultor de valores mobiliários exerce uma função diferente. Ele presta orientação, recomendação e aconselhamento profissional sobre investimentos, com dever de independência e atuação voltada ao melhor interesse do cliente. A execução da operação permanece sob responsabilidade do investidor ou de uma instituição autorizada.

A distinção impede que os números sejam tratados como uma disputa entre profissionais equivalentes. Embora assessores e consultores concorram em determinados segmentos — especialmente entre clientes de maior renda —, as atividades possuem escopos regulatórios, estruturas operacionais e responsabilidades distintas.

A assessoria de investimentos é disciplinada pela Resolução CVM 178. A consultoria de valores mobiliários segue a Resolução CVM 19. Já a Resolução CVM 179 reforçou obrigações de transparência sobre remunerações e incentivos recebidos na distribuição de valores mobiliários.

Juros elevados favorecem expansão do fee based

O ambiente econômico ajuda a explicar por que o modelo de remuneração recorrente ganhou espaço. Com juros reais elevados e maior concentração dos portfólios em renda fixa, parte dos produtos distribuídos passou a gerar receitas comerciais menores do que aquelas observadas em períodos de maior procura por fundos, ações, previdência e ativos estruturados.

Nesse contexto, alguns profissionais buscaram substituir a remuneração associada à distribuição de produtos por honorários pagos diretamente pelo cliente. No chamado modelo fee based, a cobrança pode assumir valor fixo ou percentual calculado sobre o patrimônio acompanhado.

Para o profissional, a receita recorrente reduz a dependência do volume de operações e das comissões pagas pelos distribuidores. Para o investidor, o modelo pode tornar o custo mais previsível e facilitar a identificação do valor cobrado pelo aconselhamento.

A mudança, contudo, não produz automaticamente um serviço mais barato ou adequado. O resultado depende do patrimônio, da frequência das operações, da complexidade financeira do cliente e da extensão do trabalho contratado.

Um investidor com baixa movimentação e carteira simples pode pagar mais em um modelo recorrente do que pagaria por meio da distribuição. Em sentido oposto, um cliente com patrimônio diversificado, demandas tributárias e necessidade de acompanhamento constante pode considerar mais eficiente a contratação de uma consultoria.

Por isso, a comparação entre assessoria de investimentos e consultoria exige examinar o serviço efetivamente prestado, e não apenas o mecanismo de cobrança.

Cancelamentos expõem dificuldade de retenção

A entrada de profissionais é apenas parte da dinâmica. Os dados cadastrais analisados desde 2020 também indicam elevada rotatividade nas duas atividades. Aproximadamente um terço dos consultores registrados durante o período já cancelou o registro. Entre os assessores, a proporção de cancelamentos se aproxima da metade.

A evasão pode refletir mudança de carreira, dificuldade de formação de uma carteira de clientes, custos regulatórios, pressão por resultados e baixa previsibilidade de receitas nos primeiros anos de atividade. Também pode incluir profissionais que trocaram uma categoria regulatória por outra.

A assessoria de investimentos exige capacidade de prospecção, relacionamento e conhecimento técnico, mas o ingresso na carreira não garante uma base suficiente de clientes. Em muitos escritórios, a remuneração inicial depende da captação e do volume financeiro transferido para a instituição.

Na consultoria, o desafio envolve demonstrar ao investidor por que ele deve pagar diretamente por um serviço que historicamente foi percebido como gratuito, embora os custos de distribuição estivessem incorporados aos produtos ou fossem pagos pelas instituições.

Os cancelamentos mostram que o setor enfrenta não apenas uma questão de formação, mas de sustentabilidade econômica. A expansão do mercado depende de manter profissionais qualificados em atividade, reduzir falhas na transição de carreira e ampliar a capacidade de atendimento fora dos grandes centros financeiros.

Base de 60,6 milhões de investidores amplia gargalo

A discussão sobre assessoria de investimentos ocorre diante de uma base crescente de brasileiros com recursos aplicados. A nona edição do Raio X do Investidor Brasileiro, realizada pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA) em parceria com o Datafolha, estima que 36% da população com 16 anos ou mais possui algum investimento financeiro.

O percentual equivale a 60,6 milhões de pessoas. Outros 107,7 milhões ainda não utilizam produtos financeiros, enquanto mais de 23 milhões declararam intenção de começar a investir em 2026.

A dimensão do mercado potencial contrasta com o número de profissionais disponíveis. Considerando aproximadamente 30,5 mil assessores e consultores de valores mobiliários, haveria perto de 2 mil investidores para cada profissional caso toda a população investidora demandasse acompanhamento individual e fosse distribuída de forma uniforme.

Essa conta é apenas indicativa. Muitos clientes utilizam exclusivamente aplicativos bancários, parte mantém apenas a caderneta de poupança e uma parcela não busca orientação personalizada. Também existem gerentes bancários, planejadores financeiros e profissionais de cooperativas que participam do atendimento.

Ainda assim, a ordem de grandeza revela que a simples transferência de profissionais da assessoria de investimentos para a consultoria não amplia a capacidade total do mercado. A migração altera a distribuição entre categorias, mas não resolve o déficit de mão de obra qualificada.

Fundos evidenciam limites do atendimento individual

A pressão fica mais clara quando a análise considera produtos de maior complexidade. Os fundos de investimento estão presentes na carteira de 5% da população brasileira com 16 anos ou mais, o equivalente a aproximadamente 8,4 milhões de pessoas.

Se essa base fosse distribuída entre os cerca de 30,5 mil assessores e consultores, cada profissional teria, em média, 275 investidores. Para manter uma conversa mensal com todos eles, seria necessário realizar de 12 a 13 contatos por dia útil, considerando um mês com 22 dias de trabalho.

O cálculo não inclui prospecção, preparação de carteiras, registro de informações, reuniões presenciais, capacitação, controles internos e cumprimento de exigências regulatórias. Também não considera que investidores com maior patrimônio ou estruturas familiares complexas demandam atendimento mais longo.

A digitalização permite atender um número maior de pessoas por meio de aplicativos, conteúdos padronizados, sistemas de recomendação e canais remotos. O ganho de escala, porém, não substitui integralmente o atendimento humano quando estão em jogo sucessão patrimonial, tolerância a risco, concentração de ativos ou decisões de longo prazo.

O setor enfrenta, portanto, um desafio simultaneamente quantitativo e qualitativo: formar mais profissionais e garantir que o aumento da base não ocorra à custa da adequação das recomendações ao perfil do cliente.

Poupança e bets revelam baixa sofisticação financeira

O perfil dos investidores também limita a expansão de serviços mais sofisticados. A caderneta de poupança continua sendo o produto financeiro mais utilizado no país, presente nas carteiras de 22% da população pesquisada pela ANBIMA.

Os títulos privados aparecem com 7%, seguidos pelos fundos de investimento, com 5%, moedas digitais, com 4%, e ações, com 2%. Os números mostram que produtos típicos do mercado de capitais permanecem concentrados em uma parcela reduzida da sociedade.

Em paralelo, 17% da população declarou ter feito apostas online em 2025. A proporção supera individualmente a adesão a títulos privados, fundos, criptomoedas e ações, embora as categorias possam se sobrepor.

A comparação reforça a necessidade de educação financeira. Sem conhecimento básico sobre risco, liquidez, diversificação, retorno esperado e probabilidade de perda, o investidor pode confundir apostas com instrumentos de formação de patrimônio ou contratar serviços sem compreender os custos envolvidos.

A expansão da assessoria de investimentos e da consultoria depende, nesse sentido, de uma base capaz de avaliar não apenas qual ativo comprar, mas qual tipo de acompanhamento contratar.

Comissão e fee recorrente carregam incentivos distintos

O debate regulatório ganhou intensidade porque os dois modelos de remuneração apresentam potenciais conflitos de interesse. Na assessoria de investimentos, comissões pagas pela distribuição podem criar incentivos para priorizar produtos que gerem maior receita à instituição ou ao escritório.

Esse risco não significa que toda recomendação remunerada por comissão seja inadequada. Ele exige transparência, controles internos, observância ao perfil do investidor e clareza sobre os valores e incentivos envolvidos.

Na consultoria, o pagamento direto reduz a dependência das comissões de distribuição, mas não elimina completamente conflitos. Uma cobrança percentual sobre o patrimônio pode incentivar a manutenção de recursos sob acompanhamento, inclusive quando determinada parcela exige pouca gestão ativa.

Honorários mínimos também podem tornar o serviço inacessível para investidores com patrimônio reduzido. Ao mesmo tempo, a cobrança recorrente pode não compensar para clientes que precisam apenas de intervenções pontuais.

A qualidade do atendimento depende da combinação entre competência técnica, transparência, adequação das recomendações e fiscalização. O modelo regulatório ou a forma de remuneração, isoladamente, não garantem uma relação livre de conflitos.

Para o investidor, a comparação deve considerar quanto será pago, quais serviços estão incluídos, qual profissional poderá executar ordens, quais produtos estão disponíveis e de que forma eventuais incentivos econômicos serão informados.

Formação e retenção definem expansão do mercado de capitais

O crescimento de 27,3% da categoria de consultores em 2025 mostra que há demanda por novas formas de aconselhamento. A vantagem numérica da assessoria de investimentos, por sua vez, indica que bancos, corretoras e plataformas continuarão exercendo papel central na distribuição.

Os dois canais tendem a coexistir e a atender necessidades diferentes. Investidores podem permanecer na assessoria, contratar uma consultoria independente ou utilizar os dois serviços em momentos distintos, desde que as responsabilidades estejam claramente delimitadas.

A questão estrutural está na capacidade de formar, supervisionar e reter profissionais suficientes para acompanhar a expansão do mercado. A ANBIMA estima que o volume aplicado por pessoas físicas chegou a R$ 8,5 trilhões em 2025, crescimento de 15,5% em relação ao ano anterior.

Quanto maior o patrimônio financeiro das famílias e a diversidade de produtos, maior será a demanda por orientação, controles, transparência de custos e adequação das carteiras.

Nesse ambiente, a disputa entre assessoria de investimentos e consultoria perde relevância diante de um problema mais amplo: milhões de brasileiros já investem, outros milhões pretendem começar, mas a estrutura de atendimento ainda cresce em ritmo insuficiente para oferecer acompanhamento personalizado em larga escala.

Tags: Anbimaassessoria de investimentosconsultoria de valores mobiliáriosCVMEducação financeirafee basedfee-fixoinvestidoresmercado de capitaisnegócios

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