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Energia solar acelera e ajuda renováveis a superar carvão na geração global em 2026

Expansão da geração fotovoltaica deve adicionar cerca de 600 TWh neste ano e coloca as fontes renováveis em posição de ultrapassar o carvão, segundo a Agência Internacional de Energia

por João Souza
12/08/2026 às 14h47
em Negócios
Energia Solar - Gazeta Mercantil

A energia solar deve manter em 2026 um dos ritmos de expansão mais fortes entre todas as fontes de geração elétrica e será uma das principais responsáveis por uma mudança histórica na matriz mundial: pela primeira vez, as fontes renováveis, consideradas em conjunto, devem superar o carvão na produção global de eletricidade.

A projeção consta do Electricity Mid-Year Update 2026, atualização de meio de ano da Agência Internacional de Energia (AIE). O relatório estima crescimento superior a 8% na geração renovável em 2026, depois de essas fontes terem praticamente alcançado o carvão em 2025.

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A mudança ocorre justamente em um momento no qual o consumo mundial de eletricidade continua acelerando. A AIE projeta que a demanda global aumentará 3,6% em 2026 e mais 3,8% em 2027, depois de crescer 3% no ano passado. O consumo deve passar de aproximadamente 28.600 terawatts-hora (TWh) em 2025 para 30.700 TWh em 2027.

Esse avanço é sustentado por diferentes fatores estruturais, entre eles a expansão da atividade industrial, a maior utilização de aparelhos elétricos, a eletrificação dos transportes, o crescimento do uso de ar-condicionado e bombas de calor e a rápida multiplicação dos data centers, particularmente daqueles dedicados a aplicações de inteligência artificial.

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Energia solar lidera crescimento da oferta mundial

A geração solar fotovoltaica permanece como a principal responsável pelo aumento da oferta de eletricidade no mundo. Para 2026, a AIE estima um acréscimo de aproximadamente 600 TWh na produção solar, volume semelhante ao crescimento recorde registrado no ano anterior.

Mantido esse movimento, a geração solar deve ultrapassar a eólica ainda em 2026, tornando-se a segunda maior fonte renovável de eletricidade do mundo, atrás apenas das hidrelétricas.

Esse ponto é importante para compreender a transformação da matriz global. Não é a energia solar isoladamente que deve produzir mais eletricidade do que o carvão em 2026. A ultrapassagem prevista pela AIE ocorre quando todas as fontes renováveis — incluindo solar, eólica, hidráulica, bioenergia e outras tecnologias — são consideradas em conjunto.

A participação das renováveis na geração mundial, estimada em cerca de 33% em 2025, deve chegar a aproximadamente 37% em 2027. Além de aumentar sua contribuição em termos percentuais, essas fontes precisarão responder a uma parcela cada vez maior do crescimento absoluto do consumo elétrico.

China e Índia impulsionam demanda por eletricidade

O avanço da eletrificação será particularmente intenso nas maiores economias emergentes. Na China, a demanda por eletricidade deve crescer cerca de 5,5% em 2026, acima dos 5,2% registrados em 2025.

Entre os fatores que sustentam o consumo chinês estão a produção industrial, a eletrificação crescente de diferentes atividades e o aumento da frota de veículos elétricos, que amplia a necessidade de infraestrutura de recarga.

Na Índia, a AIE prevê crescimento ainda mais expressivo, de aproximadamente 7% neste ano, após uma expansão de apenas 1,6% em 2025, quando fatores climáticos reduziram o consumo.

Estados Unidos e União Europeia também devem registrar aumento próximo de 2%. No caso norte-americano, os data centers aparecem entre os componentes que vêm exercendo pressão crescente sobre a rede elétrica, juntamente com a indústria e o maior uso de climatização.

O crescimento simultâneo da demanda em diferentes regiões reforça a dimensão do desafio. As fontes renováveis não precisam apenas substituir gradualmente parte da eletricidade produzida por combustíveis fósseis. Elas também precisam acompanhar um sistema global cujo tamanho continua aumentando.

Carvão ainda resiste diante do preço elevado do gás

Apesar do avanço estrutural das fontes de baixo carbono, o carvão continua desempenhando papel relevante na geração mundial e voltou a ganhar espaço em determinados mercados em 2026.

A elevação dos preços internacionais do gás natural, associada às perturbações no mercado de gás natural liquefeito, levou algumas economias da Ásia e da Europa a aumentar temporariamente a utilização de carvão para geração elétrica.

Segundo a AIE, os preços do gás em importantes mercados asiáticos e europeus chegaram aos níveis mais altos desde a crise energética de 2022 e 2023. O encarecimento tornou a substituição do gás pelo carvão economicamente mais atraente em determinados sistemas elétricos, ainda que isso represente aumento da intensidade de carbono.

A geração mundial a gás deve permanecer praticamente estável em 2026, enquanto o carvão pode apresentar crescimento em algumas regiões. Para 2027, a expectativa é de retomada da produção elétrica a partir do gás, embora tensões geopolíticas continuem representando uma fonte relevante de incerteza.

O comportamento mostra que a transição energética não ocorre de forma uniforme. Custos dos combustíveis, segurança energética, disponibilidade de infraestrutura e condições geopolíticas podem alterar rapidamente a composição da geração utilizada por cada país.

Emissões do setor elétrico ainda devem aumentar em 2026

Mesmo com a expansão recorde da energia solar e de outras renováveis, as emissões globais de dióxido de carbono provenientes da geração de eletricidade ainda não devem cair imediatamente.

A AIE estima uma alta de aproximadamente 1% nas emissões do setor elétrico em 2026, seguida de relativa estabilidade em 2027.

Parte desse crescimento está relacionada justamente à maior utilização de carvão diante do encarecimento do gás, além de fatores climáticos que elevaram o uso de usinas movidas a combustíveis fósseis em determinados mercados durante o primeiro semestre.

Para 2027, a expectativa é de que o aumento simultâneo da geração renovável, nuclear e a gás consiga atender ao crescimento da demanda e reduzir a necessidade de geração adicional a carvão, impedindo uma nova expansão relevante das emissões.

O quadro evidencia uma das principais dificuldades da descarbonização do sistema elétrico mundial: instalar capacidade renovável em velocidade suficiente não apenas para substituir ativos fósseis existentes, mas também para absorver a crescente necessidade de eletricidade.

Energia solar deve ganhar ainda mais peso até 2030

As projeções de médio prazo reforçam o papel estratégico da geração fotovoltaica. No relatório Electricity 2026, publicado anteriormente pela AIE, a agência estima que a geração renovável poderá aumentar em aproximadamente 1.050 TWh por ano até 2030.

Somente a energia solar deverá responder, em média, por mais de 600 TWh adicionais anualmente durante esse período.

Com isso, a participação da solar fotovoltaica na geração elétrica mundial pode praticamente dobrar, saindo de cerca de 8% em 2025 para aproximadamente 15% em 2030.

As fontes renováveis e a energia nuclear, consideradas conjuntamente, devem alcançar perto de metade da geração mundial até o final da década. Ao mesmo tempo, a participação do carvão tende a cair, embora o combustível permaneça importante em grandes mercados asiáticos e continue sendo uma fonte individual relevante da matriz global.

O avanço da solar também está relacionado à redução dos custos dos equipamentos, à expansão das cadeias industriais e à disseminação da tecnologia em mercados que anteriormente possuíam participação fotovoltaica relativamente pequena.

Redes elétricas passam a ser parte central da transição

Quanto maior a participação da energia solar e da geração eólica, maior também é a necessidade de investimentos em redes, armazenamento e mecanismos capazes de equilibrar oferta e demanda ao longo do dia.

Solar e eólica possuem produção variável, sujeita às condições meteorológicas. Em sistemas com grande capacidade instalada, pode haver períodos de oferta abundante e preços muito baixos, seguidos por momentos nos quais outras fontes ou sistemas de armazenamento precisam responder rapidamente à demanda.

A AIE alerta que episódios de preços negativos de eletricidade vêm se tornando mais frequentes em alguns mercados. O fenômeno pode indicar insuficiência de flexibilidade técnica, regulatória ou contratual para absorver grandes volumes de geração renovável em determinados horários.

Por isso, baterias, gestão da demanda, redes mais robustas, interligações regionais e sinais de preços mais eficientes passam a ocupar posição estratégica na expansão das fontes renováveis.

A próxima etapa da transição elétrica mundial, portanto, não dependerá exclusivamente da instalação de painéis solares e turbinas eólicas. A infraestrutura necessária para transportar, armazenar e administrar essa eletricidade será igualmente relevante.

El Niño adiciona incerteza ao cenário energético

As condições climáticas também representam um fator de risco para as projeções. A AIE considera que um episódio de El Niño mais intenso do que o esperado em 2026 poderia elevar ainda mais o consumo mundial de eletricidade devido ao aumento das necessidades de refrigeração.

Ao mesmo tempo, o fenômeno pode prejudicar a geração hidrelétrica e, em determinadas regiões, também afetar a produção eólica. América Latina e Sudeste Asiático aparecem entre as áreas potencialmente mais sensíveis a essas alterações.

Uma redução da oferta hidrelétrica, combinada ao aumento do consumo, poderia obrigar alguns sistemas a recorrer temporariamente a térmicas movidas a carvão ou gás natural para garantir o abastecimento.

Esse tipo de evento reforça a importância da diversificação da matriz e da capacidade de resposta dos sistemas elétricos, especialmente em países cuja geração depende fortemente de uma única fonte.

Energia solar consolida mudança estrutural da matriz mundial

O avanço previsto para 2026 representa mais do que um novo recorde de instalação de capacidade renovável. A possibilidade de as renováveis ultrapassarem o carvão na geração mundial mostra que a composição da oferta elétrica está entrando em uma nova etapa.

A energia solar ocupa posição central nesse processo. O acréscimo projetado de cerca de 600 TWh somente neste ano equivale a uma expansão suficientemente grande para modificar o equilíbrio entre as principais fontes do sistema elétrico internacional.

Ao mesmo tempo, o crescimento das emissões em 2026, o retorno temporário do carvão em alguns mercados e a pressão exercida pelo aumento da demanda deixam claro que a transformação ainda está longe de concluída.

A próxima confirmação relevante deverá vir dos dados consolidados de geração ao longo de 2026 e das revisões subsequentes da Agência Internacional de Energia. Esses números mostrarão se a expansão das renováveis foi suficiente para confirmar, na prática, a ultrapassagem do carvão projetada para este ano.


Fontes primárias

Agência Internacional de Energia (AIE) — Electricity Mid-Year Update 2026
Agência Internacional de Energia (AIE) — Global electricity demand growth set to accelerate as power systems adjust to recent shocks
Agência Internacional de Energia (AIE) — Electricity 2026

 

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