A defesa de Jair Bolsonaro informou ao Supremo Tribunal Federal que o ex-presidente não sabia que uma carta entregue ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) seria lida durante uma transmissão ao vivo e divulgada nas redes sociais. A manifestação foi apresentada nesta quarta-feira, 15 de julho de 2026, em resposta ao ministro Alexandre de Moraes, que cobrou explicações sobre uma possível utilização do filho para contornar as restrições impostas ao ex-chefe do Executivo.
Segundo os advogados, a decisão de tornar o documento público partiu exclusivamente de Flávio Bolsonaro e não foi precedida por orientação, combinação ou autorização de seu pai. A defesa sustenta que Bolsonaro entregou a carta durante uma visita regularmente autorizada, sem conhecer o destino que seria dado ao texto.
A explicação tenta afastar a suspeita de que o ex-presidente tenha usado um intermediário para divulgar uma manifestação política apesar de estar proibido de acessar redes sociais ou transmitir mensagens por meio de terceiros.
A versão apresentada ao STF, entretanto, passou a ser confrontada com as declarações do próprio Flávio Bolsonaro durante a transmissão. Ao iniciar a leitura do documento, o senador agradeceu ao pai por colocá-lo na condição de porta-voz e afirmou que a definição seria importante para evitar mensagens conflitantes dentro da pré-campanha presidencial.
O ponto central do caso não é a autoria da carta, reconhecida pela defesa, nem a indicação política de Flávio como interlocutor do ex-presidente. A controvérsia jurídica está em saber se Jair Bolsonaro tinha conhecimento de que o texto seria apresentado publicamente e utilizado em uma transmissão com conteúdo eleitoral.
Defesa atribui divulgação exclusivamente a Flávio
Na manifestação enviada ao Supremo, os advogados afirmaram que Bolsonaro “jamais soube” que a carta seria publicizada.
A defesa também negou que tenha existido qualquer acerto prévio sobre o uso das redes sociais para a leitura do documento. Segundo a petição, a divulgação ocorreu por uma decisão adotada por Flávio Bolsonaro sem ciência antecipada do ex-presidente.
Os representantes de Bolsonaro sustentaram que a fala do senador sobre ter sido escolhido como porta-voz representou uma interpretação ou manifestação pessoal de Flávio. Essa declaração, segundo os advogados, não comprovaria que o pai soubesse previamente da live.
A estratégia jurídica procura estabelecer uma separação entre dois acontecimentos: a redação e entrega da carta, de um lado, e sua divulgação pública, de outro.
Pela versão apresentada, Bolsonaro poderia ter indicado o filho como porta-voz político sem necessariamente autorizar a leitura do documento na internet. A validade dessa distinção será examinada por Moraes e pelos demais órgãos que eventualmente forem chamados a se manifestar.
Fala sobre porta-voz amplia tensão entre versões
Durante a transmissão, Flávio Bolsonaro apresentou a carta como uma mensagem política de seu pai e agradeceu por ter sido colocado na posição de porta-voz.
O senador afirmou que a definição ajudaria a evitar falas conflitantes ou direções divergentes entre aliados do ex-presidente. A declaração ocorreu em um contexto de organização da pré-campanha e de disputas internas no campo político ligado a Jair Bolsonaro.
A fala não prova isoladamente que o ex-presidente autorizou a divulgação do documento. Ela demonstra, contudo, que Flávio tratou a carta publicamente como uma comunicação política deliberada do pai.
Para Moraes, declarações anteriores do senador também indicariam que Jair Bolsonaro sabia que havia uma mensagem destinada ao público. O ministro destacou que Flávio havia anunciado que seu pai teria um recado importante para a população.
A defesa busca neutralizar essa interpretação ao afirmar que a expectativa criada pelo senador não correspondia a uma instrução recebida de Bolsonaro.
O Supremo terá de avaliar se a explicação é compatível com o conteúdo da carta, com a maneira como o documento foi entregue e com as declarações feitas antes e durante a live.
Moraes suspendeu visitas de Flávio por 90 dias
O episódio levou Alexandre de Moraes a suspender por 90 dias as visitas de Flávio Bolsonaro ao ex-presidente.
A medida foi adotada porque o ministro entendeu que o direito de visita poderia ter sido utilizado para obter uma mensagem e posteriormente difundi-la nas redes sociais, contrariando as restrições impostas a Bolsonaro.
Caso o prazo seja mantido integralmente, o senador ficará impedido de realizar novas visitas durante parte decisiva da campanha eleitoral.
Moraes também determinou que a defesa esclarecesse se Jair Bolsonaro sabia que a carta seria divulgada. A resposta apresentada nesta quarta-feira será analisada antes de uma nova decisão sobre o episódio.
O ministro advertiu que o uso de terceiros para contornar cautelares pode representar descumprimento das condições estabelecidas para a prisão domiciliar. Uma eventual conclusão nesse sentido poderia produzir consequências mais severas para o ex-presidente.
A defesa afirma que Bolsonaro tem cumprido as medidas impostas e nunca tentou utilizar familiares, aliados ou visitantes para manter presença indireta nas redes sociais.
Carta tinha conteúdo relacionado à pré-campanha
O documento lido por Flávio Bolsonaro continha mensagens sobre a articulação do grupo político liderado pelo ex-presidente.
Na carta, Bolsonaro pediu união entre aliados, redução de conflitos internos e apoio ao projeto eleitoral conduzido por seu filho. O texto também tratava Flávio como porta-voz e figura central na organização do campo político bolsonarista.
Esse conteúdo levou Moraes a encaminhar o material ao procurador-geral eleitoral para análise de possível propaganda antecipada.
A legislação permite que pré-candidatos apresentem ideias, participem de entrevistas e discutam projetos antes do início oficial da campanha. A Justiça Eleitoral, porém, pode considerar irregular uma manifestação que contenha pedido explícito de voto ou elementos equivalentes capazes de antecipar atos próprios da campanha.
A avaliação não depende apenas da existência das palavras “vote” ou “apoie”. O contexto, o alcance da publicação, a posição dos envolvidos e a finalidade da mensagem também podem ser considerados.
Até o momento, não há decisão definitiva de que a leitura da carta tenha configurado propaganda eleitoral antecipada.
Defesa diz que outras cartas já foram divulgadas
Os advogados argumentaram ainda que Bolsonaro havia redigido outras cartas durante períodos em que estava submetido a limitações semelhantes.
Segundo a manifestação, alguns desses documentos foram posteriormente divulgados sem que o Supremo considerasse a simples redação da correspondência uma violação das medidas cautelares.
A defesa sustenta que não existe incompatibilidade automática entre escrever uma carta e cumprir restrições relacionadas ao uso das redes sociais.
O argumento, entretanto, não resolve sozinho a questão examinada por Moraes. A discussão atual envolve a hipótese de que a carta tenha sido produzida ou entregue com conhecimento de que seria usada para uma manifestação política pública.
O precedente citado pelos advogados poderá ter peso caso as situações anteriores apresentem circunstâncias semelhantes. Se as outras cartas possuíam caráter privado ou foram divulgadas sem conhecimento de Bolsonaro, a comparação pode ser considerada limitada.
Restrição busca impedir comunicação indireta
As cautelares impostas ao ex-presidente não se limitam ao uso pessoal de celulares, computadores ou contas em plataformas digitais.
As decisões procuram impedir também que mensagens sejam transmitidas por intermédio de familiares, aliados, advogados ou outras pessoas autorizadas a manter contato com Bolsonaro.
A finalidade é evitar que uma proibição formal de acesso às redes seja esvaziada por comunicações indiretas.
Por essa razão, a ciência prévia sobre a live passou a ser decisiva. Caso Bolsonaro tenha entregue a carta sabendo que ela seria divulgada, o episódio poderá ser interpretado como tentativa de contornar a medida.
Se a divulgação tiver sido realmente uma iniciativa autônoma de Flávio, a defesa poderá sustentar que não houve conduta voluntária do ex-presidente destinada a desrespeitar as cautelares.
A apuração poderá considerar o teor da conversa mantida durante a visita, eventuais testemunhos, registros do encontro e comunicações realizadas antes da transmissão.
Manifestação será analisada por Moraes
Depois de receber a resposta, Moraes poderá considerar as explicações suficientes, solicitar novos esclarecimentos ou encaminhar o caso para manifestação da Procuradoria-Geral da República.
O ministro também poderá manter, rever ou ampliar as restrições impostas a Flávio Bolsonaro e ao ex-presidente.
A suspensão das visitas por 90 dias permanece válida enquanto não houver nova decisão.
Paralelamente, a Justiça Eleitoral poderá examinar se o conteúdo da carta e a forma de divulgação ultrapassaram os limites permitidos durante a pré-campanha.
As duas análises possuem objetos diferentes. No Supremo, a discussão envolve o cumprimento das restrições determinadas no processo criminal. Na esfera eleitoral, a questão é saber se houve campanha antecipada.
Uma conclusão favorável à defesa em uma dessas frentes não necessariamente encerrará a outra.
Caso expõe dificuldade da defesa em separar carta e live
A manifestação jurídica procura estabelecer que Bolsonaro escreveu uma mensagem política, entregou o documento ao filho e o designou como porta-voz, mas não sabia que a carta seria lida publicamente.
Essa reconstrução não é impossível, mas depende da aceitação de que Flávio tomou sozinho a decisão de transformar uma correspondência recebida durante visita em conteúdo de uma live política.
A fala do senador durante a transmissão adiciona complexidade ao argumento porque apresentou a escolha como uma decisão de Jair Bolsonaro e agradeceu publicamente pela função recebida.
Ainda assim, a declaração sobre ser porta-voz não esclarece de forma definitiva se existia autorização específica para divulgar a carta naquele momento e por aquele meio.
O caso continuará concentrado nessa diferença: Bolsonaro reconhece a mensagem política e a escolha do filho como interlocutor, mas nega ter aprovado antecipadamente a exposição do documento nas redes sociais.
A próxima decisão de Moraes deverá indicar se essa distinção será considerada suficiente para afastar a suspeita de descumprimento das cautelares.








